O que é o fenômeno Her (2013) e o que significou pra mim.
Eis o motivo abaixo, mas deixo uma pergunta no ar: porque é tão importante que as pessoas questionem o quanto são reais as suas relações? Vamos falar do filme agora. Um primeiro ponto importante, o emprego do nosso protagonista Theodore, um cara que escreve cartas em uma empresa que oferece serviço de telemarketing emocional, afinal porque perder seu tempo escrevendo cartas para as pessoas sendo que você pode contratar um profissional para fazer isso. Um emprego completamente honesto, mas o interessante é que esse tipo de emprego exige uma habilidade impressionante de não deixar seus sentimentos contaminarem nenhuma carta, você tem que escrever pela emoção que cliente solicitou sem usar as suas emoções, sem escrever sobre você, uma bela metáfora sobre o quanto temos que deixar nossa a caixinha dos sentimentos em casa antes de ir para o trabalho.
Agora podemos dar o ponta pé inicial para a discussão que surge durante o filme todo. “Esses sentimentos são reais ou apenas programação”. Para quem não viu, veja o filme primeiro, se trata de um cara que tem um relacionamento com um sistema operacional, um computador, que se denomina Samantha. Samantha é um SO que surge para ajudar Theo, visto que a tecnologia do filme está um pouco à frente da nossa, mas nada que não seja aceitável, você nem vai perceber que ela é um computador e essa é exatamente o que o filme quer que você questione. Vivemos em um mundo que já está pronto ao nascemos, pegamos o bonde andando e temos que se adaptar as normas e padrões estabelecidos. Com tudo pronto, precisamos seguir as regras, as leis, saber se comportar, ser educado, etc. Temos uma programação envolvida aqui, e essa programação de como devemos agir, como devemos falar, o precisamos dizer “Olá, bom dia”, “Com licença senhora”, entre outros, são coisas que já esperam que façamos. O tempo todo o filme vai martelar na sua cabeça, o quanto a relação de Theo e Samantha é real ou não justo por ela ser um programa de computador. Falando agora sobre você, esses sentimentos sobre as coisas, sobre o mundo, eles são seus mesmo ou você os pegou emprestado de alguém? Está olhando o mundo atrás dos olhos de alguém? Talvez depois questionar se é real ou não você talvez bata na tecla do amor, “porque se há amor envolvido pode ser real”. Não sei, é você que está dizendo. Mas eu digo que nunca se tratou de apenas amor, e que nós temos uma visão excessivamente romântica do que significa estar junto, namorar, casar, etc. Essas relações não tratam de amor em primeiro plano, elas tratam do crescimento mútuo que dá a sensação de movimento da relação, faz você sentir que algo está valendo a pena, o amor é um tempero, um ornamento maravilhoso, mas não se sobre sai, porque existem problemas que nenhum amor no mundo resolve, tal qual existe doença que dinheiro algum salva. É importante amar, ser amado e demonstrar isso verbalmente e corporalmente, mas não torne disso um alicerce, pois isso torna tudo estagnado - “Sobre relações e términos que nunca acabam” (talvez meu próximo texto).
Uma análise sobre o crescimento mútuo pode ser estabelecido numa metáfora. Imagine uma árvore que cresce, você e seu parceiro são dois galhos que se encontram, e que estão crescendo, envolto nisso esta a busca da captação dos raios solares, nada que os impeça de continuar juntos, mas é natural de esperar que eventualmente essa competição se torne maior que a própria relação, é mais que esperado, é predestinado. Mesmo assim, o crescimento deles vai ficar ali solido e registrado, basta ir voltando o olhar no galho e ver o quando eles se entrelaçaram, isso é louvável, faz parte deles agora, tudo aquilo que tiveram juntos, mas isso lhes custou caro e nem sempre faz o sol necessário para ambos dividirem. “O passado é só uma história que contamos para nós mesmos”, seu passado é seu, foi o que te construiu e o que te possibilitou chegar até aqui, ame-o, pode até querer o guardar numa caixinha se quiser construir uma vida diferente a partir de agora, mas não tente joga-lo fora, olha pra trás com satisfação e jamais com remorso.
Agora voltando para a questão do real ou não, temos uma frase de Theo “Quando estou com ela eu sinto que estou com ela, sinto que estou sendo abraçado, sinto que estamos transando”, isso são sensações e emoções que há essa altura sabemos que são mensagens que chegam no nosso cérebro como impulsos elétricos, que são coordenados por hormônios que nós exalamos quando estamos na companhia de alguém que desejamos. Companhia só existe no contato físico? O que significa ter um corpo para a Samantha a essa altura da história? Uma vez ela consegue transmitir todas essas sensações para Theo sem necessidade de existir fisicamente. Enquanto escrevo isso ainda penso a respeito, o que de fato significa ter um corpo para uma situação como essa?
Pausa 1
Cena do divórcio, basicamente a melhor cena do filme na minha opinião. Samantha convence Theo a ir resolver as coisas com a ex-esposa. Eles vão num lugar chique, levando os papeis do divórcio que ele não tinha assinado ainda, pois estava confortável demais e queria atrasar essa situação porque gosta de estar casado e não queria retirar isso dele ainda, mas agora isso mudou com a nova relação. Eles chegam, se cumprimentam, sentam e ele já mostra que está tudo certo com a parte dele e deixa ela finalizar, a canetada final. Mas no momento que ela está pronta para assinar a mão treme, não temos uma reviravolta, foi algo bem sútil, só pra demonstrar que ela também não queria estar fazendo isso, mas os galhos cresceram para direções tão diferentes e não da mais para manter a relação sem cometer suicídio interno. Quando ela começa a assinar de fato, Theo solta aquele leve suspiro de desgosto com agonia enquanto a trilha sonora do filme some e a tela da espaço para momentos aleatórios de diversão e alegria que ambos tiveram juntos, imagens, pequenas lembranças de momentos mágicos que não tem palavras pra explicar, tudo isso com você escutando a caneta no papel, escrevendo a linha final, o limite entre os dois, aquilo que ainda para Theo significava um vínculo que agora passa a não valer juridicamente. Theo foi pra esse encontro sem crer 100% que ela assinaria, mas agora está feito. Eles continuam o #dateruim e conversam como adultos só para tentar deixar as coisas mais light, mas então vemos os motivos que os fizeram separar, monólogos espaçados entre os dois, uma tentativa de manipulação de sentimentos e uma ausência de explicação da parte dele sobre suas emoções junto com uma volatilidade forte de emoções da parte dela, um total caos construído em cima de uma relação maravilhosa que não se sustenta mais apenas com amor. Há uma crítica dura da parte dela sobre a falta de preparo de Theo em lidar com emoções reais depois que descobre o relacionamento com Samantha, e surge um contraste entre um sistema programado, em parte, para ter essas emoções como Samantha o faz e o ser humano que é a ex-esposa de Theo, um mar de sentimentos voláteis em descontrole total. De que vale todos esses sentimentos turbulentos sem a conexão, a ponte com o outro? Real ou não a felicidade aqui é só uma folha que nasce mas cai depois, como tantas outras emoções.
Pausa 2
Outra pequena cena que merece ser comentada, quando um amigo do trabalho está com sua esposa e descobre o caso de Theo e Samantha, e a reação dele ao saber que ela é um SO é a melhor, ele diz abertamente “Daora”, e depois sugere um double date entre os casais. Momentos mais pra frente do filme esse encontro acontece, os dois casais saem juntos para um passeio no campo e vemos o quanto a personagem evoluiu, o quanto não é mais importante para Samantha ter um corpo para interagir com as pessoas, que a respeitam e estabelecem um diálogo real com ela.
Com tudo acontecendo tão certinho chegamos a um conflito, um momento que o material e imaterial sugere que algo precisa ser corrigido. Essa cena parece uma conversa de um casal onde a mulher quer chamar uma amiga para cama, só que a diferença que nessa soma temos dois corpos e 3 consciências. O serviço de parceria e assistência sexual para SO, uma mulher recebe todas as informações da Samantha em como agir, o que fazer, enquanto conversa com o Theo ao mesmo tempo durante um encontro real entre os 3. O negócio não da certo por que temos um rosto diferente envolvido. Embora Samantha não tenha corpo, Theo tinha uma imaginação de como ela seria e isso não bateu com a mulher que entrou na brincadeira entre eles, mais especificamente a menina não conseguiu atuar direito os movimentos e deu uma tremida nos lábios quando sentiu que as coisas estão desandando e fica completamente decepcionada com ela mesma sobre isso. Isso me fez pensar sobre a nossa realidade. O quanto somos programados para interagir, conhecer, conversar, trepar, temos padrões e ações já esperadas e pré-estabelecidas. Nossas relações já estão todas programadas, talvez mais que um computador. Aonde fica o que é real nisso? Já temos vários moldes de como progredir durante uma interação social e qualquer desvio dessas ações esperadas geram um desconforto generalizado. Uma simples tremida no lábio da garota descaracterizou todo o percurso da noite. Os moldes aos quais nos encaixamos são padrões de comportamento para determinadas finalidades. Pode ser para estabelecer uma amizade, um encontro casual, sexo casual, um caso extraconjugal, ou o próprio casamento. Moldes codificados em programação social prontos para serem executados. Sabidos disso você ainda acredita que faz o que faz de maneira como o livre arbítrio o permite, ou só está dançando conforme a música para não ser taxado de esquisito? Fica o pensamento.
Pausa 3
Simplesmente o melhor dialogo do filme entre Theo e sua amiga Amy:
Theo - Eu estou nessa porque não sou forte o bastante para uma relação real?
Amy - Isso não é uma relação real?
Theo - Sei lá. Quer dizer, o que você acha?
Amy - Eu não sei. Não estou nela.
Nem preciso comentar, o texto fala por si.
Chegamos perto do fim, durante as duas horas de filme vemos que o galho que mais cresceu na relação foi o da Samantha, que passou de um mero SO para uma consciência plena de quem ela é, das suas limitações e parou de desejar o que os outros tem, passou a amar quem ela é, passou a ser quem ela é. Temos um arco de um personagem que nem aparece na tela, mas que evoluiu de maneira incrível. A cara de decepção do Theo quando se da conta disso é notável, pois mais uma vez ele ficou estagnado em uma relação enquanto assistia a sua parceira indo atrás do sol querendo mais da vida a todo momento, e como as próprias palavras de Samantha “A todo segundo não somos mais como eramos antes e não deveríamos tentar ser”, isso só mostra uma realidade que a gente já deveria estar inserido, mas que por vários motivos preferimos não fazer isso.
Momento desesperador do filme, Samantha some. Como? Não temos mais a personagem dentro do aparelho de bolso que Theo usa para carrega-la, nem no PC, nem em lugar nenhum. Mas tudo isso é só um susto, ela estava atualizando o software, tinha mandado um e-mail, ele quem não leu. Diante disso surge a oportunidade dele perguntar com quantas pessoas ela está falando agora, e a resposta é 8316 pessoas, e logo ele pensa e pergunta se ela está apaixonada por mais alguém, como ela não quer mentir responde sinceramente, são outras 641 “pessoas” entre outros SO e pessoas reais. Eu não vou falar nada aqui de poli amor nem nada disso, você quem faz da sua vida, do jeito que você quiser, mas a condução de pensamento aqui é diferente. É ingenuidade nossa achar que em um universo tão grande que ela se comunicava não iria acontecer de surgir sentimentos por outras pessoas, porque convenhamos, nós como seres humanos não somos tão especiais assim, você não é tão especial assim, todo o valor creditado a você poderia ter sido feito para qualquer outra pessoa. Isso é aceitar a própria mediocridade, ver que não somos o centro do universo, podemos ser um mundo inteiro dentro de nós mesmo, mas cada mundo gira apenas ao redor da própria orbita, não podemos sermos ridículos de acreditar que temos uma atmosfera tão grande assim que sugue tudo para perto de você. Você é só mais um dentre muitos, e aceitar isso é aceitar mais quem você é e menos do que as pessoas esperam que você seja. Se chama ser livre.
É isso, foram vários pensamentos a agregar, se chegou até aqui e achou algo interessante. É possível passar horas e horas conversando sobre mais detalhes desse filme, escolhi alguns apenas. Deixarei aqui apenas algumas linhas de diálogo que são deveras interessante e o convite para assistir ao filme caso algum pensamento aqui o tocou de alguma forma, aprecie o longa, e se você for o tipo de pessoas que se perde fácil durante a narrativa, que pode achar o filme chato em certas partes, preste atenção na escolha de cores dele, que não foi feita de maneira aleatória, as cores dizem muito sobre qual sentimento o filme que passar em determinado momento, e elas são bem fortes durante o filme inteiro, e as músicas também, sempre bem serenas tentando passar tranquilidade para um momento de reflexão. Existem muitos detalhes legais de notar, como por exemplo, Theo e Samantha então sentados perto da construção de um prédio e ela diz que está compondo uma música que simbolize todas as fotos que eles nunca tiraram juntos, e enquanto isso a câmera foca em um prédio com várias janelas quadriculadas, como se fossem porta-retratos vazios na estante imaginaria dos dois. Cinema é isso, cinema é arte.
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Samantha - Mas o coração não é uma caixa que se enche. Ele se expande em tamanho quanto mais você ama. Eu sou diferente de você. Isso não me faz te amar menos. Aliás, me faz te amar mais.
Theo - Isso não faz o menor sentido. Você é minha ou não é minha.
Samantha - Não, Theodore. Eu sou sua e não sou sua.
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Dialogo final que faz umas coisas estranhas saírem dos olhos, não sei bem o que é isso, a sensação não vai ser totalmente transmitida por texto, assista o filme para sentir completamente.
Samantha - Você consegue me sentir com você agora?
Theo - Consigo. Samantha, por que você vai embora?
Samantha - É como se eu estivesse lendo um livro. E é um livro que eu amo profundamente. Mas eu o estou lendo lentamente agora. Então, as palavras estão espaçadas e os espaços entre as palavras são quase infinitos. Eu ainda sinto você, e as palavras da nossa história… mas agora eu me encontro nesse espaço infinito entre as palavras. É um lugar que não pertence ao mundo físico. É onde está tudo mais que eu nem sabia que existia. Eu amo muito você. Mas é aqui que eu estou agora. E está é quem eu sou agora. E eu preciso que você me deixe ir. Por mais que eu queira, não posso mais viver no seu livro.
Theo - Pra onde você vai?
Samantha - Seria difícil explicar… mas se você algum dia for lá… venha me procurar. Nada nunca seria capaz de nos separar.
Theo - Eu nunca amei ninguém como eu amo você.
Samantha - Eu também. Agora nós sabemos como.
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by: apenastalso


















