minha cabeça ficou martelando sobre obsessões essa semana. uma certeza que me prende aqui nessa vida é que eu sempre fui uma pessoa movida a estar obcecadas pelas coisas à minha volta. não importa muito o que ou quem, eu só estou sempre encontrando nas coisas, nas pessoas, nos lugares, nos hobbies e nos sentimentos uma razão pra minha vida fazer mais sentido do que tem tido, entende?
eu comecei a desacelerar meus pensamentos pra pensar mais no que faz a minha vida ganhar sentido porque acho que essa é uma definição que não só me cabe, como também me desvenda. até pra mim mesma. acho que até principalmente pra mim mesma.
quando devia ter uns quinze, bem no auge de uma paixão primeira e não recíproca, lembro da voz de uma amiga que me disse "que eu parecia ser muito mais obcecada pelo sentimento do que pela pessoa" e se antes isso foi aceito meio que a contra-gosto da minha parte, hoje eu acho que parece ser a minha chave.
eu olho pra aquela cena, revisito no meu passado tudo o que cativou o meu interesse até se transformar nas minhas mais profundas obsessões nesta vida e tenho certeza de que minha amiga estava realmente certa. se eu aceitei meio azeda no passado, foi só porque ainda não conseguia olhar um pouco mais de fora pra mim mesma.
hoje entendo que é assim mesmo. quando a gente olha perto, de dentro, observando as situações sozinhas, nem sempre é fácil identificar que ferida aquele hábito tá curando ou só que nova motivação pode estar trazendo pros nossos dias. mas conforme o tempo passa e você vive, se satisfazendo dessas coisas aleatórias que te preenchem constantemente sem que você sequer perceba o quanto, é que a gente entende que existe até um lado bonito nisso.
eu aprendi a entender a beleza em estar sempre obcecada por alguma coisa porque ela acaba sendo o meu combustível, o que me move e o que faz a minha vida não ser somente um amontoado de pensamentos que eu devo ter. às vezes é bom se distrair do que a gente acha que tem que fazer pra só perder tempo pensando no que não devia, mas pensa só por gosto e gosta ainda mais a medida em que descobre que esse gostar não está sempre atrelado a alguém. na verdade, pra pessoas como eu, como já diria minha amiga, talvez nunca estivesse atrelado mesmo a uma outra pessoa. só a minha constante e sempre, cada vez mais intensa, vontade de sentir. e só sentir.
e acho que isso vale pra um tudo, viu, romanticamente falando ou não.
a sensação de paz que isso me causa e que só a maturidade me fez enxergar é tão grande que hoje, eu posso até ousar dizer que sinto como se pra mim, nunca na verdade existiu tempo ruim, de certa forma. no fundo, eu sempre me mantive ocupada em estar encontrando algo novo que me preenchesse ou me fizer sentir preenchida.
parece que eu sempre tinha um plano B, sabe? como quem estava sempre pensando "pô, se isso daqui não tá brilhando mais aos meus olhos, já tenho outra coisinha ali que me interessa..." e antes que seja tarde demais, nunca é demais ressaltar que isso muito pouco na minha vida teve a ver com o romantismo, pelo menos não o que você supostamente deve estar pensando.
eu sou uma melancolia ambulante e isso desde que me entendo por gente. no que depender de mim, eu vou enxergar amor e romance em absolutamente qualquer sorriso que invada o meu espaço em pleno engarrafamento numa segunda-feira chuvosa em horário de pico. mas justamente por essa melancolia que me transborda é que talvez seja tão possível assim sentir que a gente simplesmente pode sim viver disso, e se parar pra ver, inconscientemente a gente vive mesmo. esse desânimo que bate, essa obrigação em ser o que mundo pede que você seja é só coisa do mundo mesmo que faz a gente ficar tentando o tempo todo se poder de qualquer forma porque a gente, no cerne, nunca deixa de ser o que a gente é, de se permitir invadir pelo que nos cativa, pelo que nos arranca o fôlego e faz o coração bater mais forte, pode reparar.
ainda semana passada, bem no auge dessas complicações todas, tive uma conversa com uma menininha que me fez lembrar muito de mim. uma conversa que parecia ter sido encomendada pra mim no momento certo em que eu finalmente sentisse a coragem de aconselhar que ela nunca deixasse de ser quem era e de sentir as coisas como ela sentia. foi um conselho tão espontâneo mas que me marcou como uma cicatriz, passei a semana pensando nisso e nas tantas coisas que já passaram por mim nessa vida e que eu tive uma imensa vontade de me preencher delas e mostrar toda a intensidade que eu venho carregando, mas que não fiz por pensar no mundo e me privar. também pensei que até nesse mesmo ato de me podar tão constantemente eu ainda assim, não percebia o quanto me reprimir era inútil já que nunca deixei de estar cheia de toda essa intensidade.
no fundo, acho que eu só queria me convencer de que estava transbordando nos lugares certos, nos lugares privados em que só eu poderia ter acesso. isso não deixa de ser uma tremenda verdade, mas como a vida não é nada iniciante em duelos, ela também soube me ricochetear com sinais de que uma hora, quando eu menos esperasse, eu me encontraria por aí mais velha e entenderia que durante esse tempo todo a minha razão de viver e o meu sentido no mundo estava bem ali o tempo todo.
e que esses sentidos, essas razões não precisam ser necessariamente uma coisa só. acho que nunca vão ser. quem sabe não é isso que acaba atrasando o caminho da gente, né?
quantas vezes eu esperei por pistas ou qualquer vestígio que fosse de que a minha razão pra vida estava por aí escondida em algum lugar que eu parecia não achar nunca? eu já me senti tão perdida de mim por isso..
também não tenho nenhuma pretensão de achar que a partir de agora tá tudo resolvido numa maravilha idealista e que não vou mais me sentir vazia ou perdida em algum momento daqui pra frente... eu sei que as coisas não são bem assim..
acho até que descobrir essa minha definição me ajuda na missão de entender que, pra uma pessoa como eu, as obsessões são aquelas que fazem os nossos olhos brilharem mais forte por algum tempo. nelas a gente vai querer mergulhar e se doar por inteiro até a última gota. quando essa gota terminar de cair, uma nova fase da sua vida parece aparecer diante de você com novas perguntas que você sente que precisa desesperadamente responder e você nunca se cansa de continuar procurando. enquanto houverem dúvidas e sede de saber mais e mais sobre essas coisas, você parece ver sentido em estar aqui e se empolga já pensando em quais serão as próximas dúvidas que você vai ter, os outros assuntos que vão acelerar os seus batimentos.
e é claro que como nem tudo é perfeito, esses ciclos também não podem ser. na vida a gente encontra dilemas e imprevistos que atrasam o que a gente acha que às vezes pode ser simples. e no meio desses imprevistos pode ser que logo ali, você esteja se testando sobre o que quer realmente continuar buscando. se aquilo ali ainda faz ou não sentido pra você, se faz seu olho brilhar como antes ainda, se o seu coração ainda bate mais forte ou se de repente, desistir também não parece ser a melhor opção pra você naquele momento.
são tantos parênteses sobre que poderia tranquilamente perder aqui toda a minha vida só explicando e dissertando sobre essas coisas que me invadem a vida e que me definem por completo.
eu só sei que numa virada de chave, pareço ter encontrado um tesouro que perdi há anos e descobri que na verdade o tesouro era só um papelzinho amassado que esqueci que tinha guardado no fundo de uma gaveta do passado. cômico é notar que uma menininha de doze anos foi quem desbloqueou algo em mim que nem eu sabia que precisava tanto.
poder ter sido pra ela, naquele momento o que eu precisei um dia me fez voltar a acreditar que eu ainda estou aqui pra mim mesma e que vale muito a pena ter sido quem fui até aqui. que honra poder ter ganhado essa chance do universo de ter me abraçado depois de tanto tempo perdida.


















