Vermelhos como o Óleo Vermelho, Brancos como o Arroz
Como eu já comentei aqui com vocês, em 2017 tive o privilégio de viver no país da Guiné, que não é a Bissau, nem a Equatorial, e muito menos a Papua Nova Guiné. É a só Guiné mesmo. Qualquer dia posso comentar mais sobre a realidade desse país que me acolheu tão bem, mas não agora.
Porque hoje quero compartilhar com vocês uma história, e extrair dela algumas lições para nós. Lições que mostram a importância de contextualizar a mensagem uma vez que saímos em missão. Principalmente em contextos onde a cultura local é muito diferente da sua.
Lá, meu primeiro desafio foi o de aprender o idioma oficial do país, o francês. Antes de chegar lá, o pouco que eu sabia era que tinha que fazer biquinho, além de ter o conhecimento de poucas palavras: abajur, sutiã, croissant, etc. Como você pode ver, eu estava bem, só que não. Por isso, levei alguns meses até que conseguisse entender tudo o que diziam, e pudesse expressar meus pensamentos sem impedimento.
Quando isso começou a ocorrer, tive mais liberdade para falar em público e pregar na igreja de Fria (só no nome mesmo), cidade onde morava. Com isso vieram as lições.
Como um bom teologando, havia aprendido a arte da homilética, a focar muito no teórico, e que para transmitir a mensagem para as pessoas temos que dar um chá de Bíblia nelas. Talvez isso funcione em algum lugar, não sei. Lá na Guiné não funcionava.
Eu construía meus sermões com a primeira parte, a introdução, logo após vinha o desenvolvimento com suas gavetas, finalizava com a conclusão, e então fazia o apelo. Na minha cabeça estava tudo certo, até que percebi que os irmãos não se lembravam de nada do que eu havia pregado. Nenhum sinal de que a mensagem havia comunicado a eles. Eu pensava: “Esse povo não deve estar entendendo o que eu estou falando, acho que não conseguem compreender meu raciocínio ainda”, a primeira ideia que nos vem à mente é de que o problema está com eles, não conosco. Mas por misericórdia divina procurei ver se o problema não estava comigo.
Então, depois que eu comecei a aprender um pouco do francês, comecei a pregar sem tradutor, e ao invés de fazer um sermão mais formal, fazia ele de uma maneira mais descontraída, sem uma estrutura rígida, contava piadas, e percebia que a aceitação deles estava sendo maior. No sábado seguinte ao sermão, eles se lembravam do que eu havia falado. Era um milagre, eu estava conseguindo comunicar a mensagem!
Entendi que o problema estava comigo, não com eles, até mesmo porque eu não havia me adaptado a eles, sendo que era eu quem queria alcançá-los. Mas o problema veio quando fui pregar em um sábado sobre Isaías 1:18-19, “Ainda que seus pecados sejam vermelhos como a escarlate, eles se tornarão brancos como a neve”. Lindo né?!
O problema é que eles não entenderiam os exemplos do texto. “Como vou explicar o que é a escarlate? Como eles entenderão o que é a neve nesse lugar que faz 43° na sombra?”. Foram algumas das dúvidas que se passaram pela minha mente.
Nesse mesmo instante, Deus me deu um toque, mais ou menos assim, “Rodrigo, reinvente-se”.
Em todo o texto bíblico o que mais importa são os princípios por detrás do ensino, não o ipsis litteris daquilo que está escrito. Extrair o princípio dessa passagem e comunicá-la de uma maneira que lhes fosse compreensível era o desafio. Nesse momento me veio uma imagem, uma iluminação do céu, me veio uma comida.
Na Guiné, as pessoas tem um alimento base para todas as suas refeições, o arroz. E algo que eles gostam de agregar muito nas suas refeições é o l’huile rouge, óleo vermelho, similar ao azeite de dendê aqui no Brasil. “Tá aí! Esse é o segredo!”, pensei.
Então, sábado, no sermão, eu tomei a liberdade de me reinventar e disse aos irmãos que somente Deus tem o poder de perdoar os nossos pecados, ainda que eles sejam vermelhos como o óleo vermelho, eles se tornarão brancos como o arroz.
Essa é a verdade, uma verdade contextualizada, que é capaz de alcançar a pessoa onde quer que ela se encontre, no idioma dela, seja ele qual for. Uma verdade que é acessível e comunicativa ao seu coração, não um enigma que somente os eruditos entendem.
Com essa e tantas outras histórias eu aprendi que os princípios são mais importantes do que as formas. E que nós precisamos nos contextualizar e reinventar nossa pregação para alcançar as pessoas. Se elas não entendem ou nem mesmo tem saco para nos ouvir, na maioria das vezes, não é porque elas não se interessam mais nas coisas do alto, mas é porque talvez nós estejamos falhando em comunicar a verdade de uma maneira que seja perceptível ao coração delas.
No campo missionário, isso é extremamente necessário, por isso saiba que contextualizar e se reinventar é executar a missão.