O LimBo Dos Olhos De Bruna
MorganaDeAvalon Era audível o som dos galhos quebrando enquanto Bruna, com seus tênis desgastados e sujos pela terra barrosa, andava lentamente por aquele caminho da floresta que conhecia tão bem que seu olhar apenas se firmava para o chão, nunca para frente, buscava naquele chão um novo broto, quem sabe. A medida que o local escurecia pelas nuvens pesadas e negras, mais a face de Bruna ficava indecifrável, mais desânimo se notava nos seus passos, menos ouvia, mais lágrimas presas, com costume de sempre assim estar, dentro dela apareciam. Bruna precisava seguir em frente, pois já começara a gotejar em seus cabelos ruivos e em sua pele branca. Apressando os passos, Bruna chega finalmente ao que parece ser seu chalé, completamente isolado, sem quintal, rodeado de mato não roçado, com defeito estrutural estruturai, feito completamente de madeira antiga, que com certeza cairia numa tempestade mais forte e sombria ; mas Bruna não se atentava a estes fatos, já não eram relevantes, nada mais era relevante desde de quando o espaço aberto, de céu livre, tornou-se rotineiro ser cativeiro. Não, ela não estava cercada por guardas e cercas, ela apenas sabia que se saísse dali teria de dar satisfações à existência, e esta não era uma opção para Bruna, o anonimato era princípio primeiro, obrigatório, para cruzar o ser e não ser. Bruna nunca quis comer aquela carne que fora obrigada a capturar pela morte, mas mesmo assim sabia estar fraca demais para sua sorte e, esta era uma das muitas de suas questões de sobrevivência sem convivência . Enquanto preparava sua comida, ouvia o barulho das facas passando uma a outra, provocando um som brusco que lhe agradava a ponto de se questionar: Teria diferença caso fosse em meu pescoço a afiar? Havia uma linha tênue, quase invisível, entre sua completa anulação, necessidade de não existir, e a realidade... afinal o que era real? Agora isto lhe importaria? A quem importaria?Aos bichos selvagens da floresta? Às árvores as quais Bruna quebrava os galhos sem pressa? Estranhamente no casebre feito às pressas, Bruna fizera questão de colocar uma grande janela, de vidro reforçado e completamente transparente, também um banco extenso e confortável. A chuva, agora caindo de maneira contínua e em andamento quase hipnótico, fazia seu papel do dia, já que todo final de tarde a tinha como comprometida audiência. Todas as tardes, Bruna sentava em seu banco felpudo, com seu rosto encostado em sua mão, no batente da janela, chá de alecrim em mãos, pois sabia ela que este chá fazia bem ao coração, já dizia sua falecida avó, então por que não tentar diariamente se lembrar que ainda um coração batia, insistindo em sobreviver? Mesmo que esta não fosse sua vontade, esta verdade era certeira pela sua infinidade. Ali, aquela pele branca ia sumindo, a medida que tudo escurecia, enquanto o sol se punha. Era o show de Bruna, ver cair o que sempre teimava se levantar, como ela... talvez considerasse naquele momento o sol , seu amigo, se é que amizade significava algum tipo de identificação, ela se perguntava , embora a resposta não tanto lhe incomodava. Abria a carteira de cigarros feitos a mão, que aprendera há anos vendo seu avô fazer, sem ter necessidade de comprar industrializados, já que Bruna não podia aparecer nem se dar a este luxo, ia rapidamente ao fogão de lenha para acendê-lo e voltava ao seu conforto tão desconfortável, à sua aceitação tão inaceitável, à sua rendição. Enquanto a fumaça subia lentamente, Bruna fechava os olhos para ouvir o som da chuva, sua única música, e dali caíam uma ou duas gostas de chuva também em seus olhos amendoados. Ela respirava profunda e calmamente, desejando que aquela escuridão da noite, que agora se apossara de seu selvagem jardim, pudesse sugá-la, mas era sempre a mesma coisa: a lua atrapalhava... Bruna nunca quis que a lua estivesse ali, tomando lugar do que já estava morto, clamando sua pequenez, com claros e explícitos interesses de aparecer outra e mais uma vez. Os olhos iam se afastando de cada árvore, cada pedra, cada riacho, expurgando-a de seu conforto, de seu próprio corpo e, num olhar fixo ela voava, contudo ao chegar na estrada, parava, era o limite para estar livre de estar certa ou errada. Qual fora seu motivo para de ninguém, a si mesma chamar, nenhum saberia falar, ela menos , nada mudaria o que já fora conclamado e concretizado, nada mudaria o que a seguir viria , isso sequer existia, ilógico a qualquer sabedoria, eram os planos futuros de mais um nascer, de mais um amanhecer. O que Bruna realmente sabia, já virara ignorância diante de sua rotina, e ela jamais se incomodaria, dado que o inexistente não se frustra, não pensa, não compila. Passaram-se mais 12 horas e no reflexo das grossas gotas de chuva ,se certificaria se já conseguira fundir ao único prato genuíno da mesa: Toda aquela natureza. CONTO BASEADO EM FATOS REAIS Inspirado pela obra de arranjo a violão de autoria de B.T Com carinho, aos anônimos de espírito









