O sol forte e o ar salgado eram as testemunhas do nosso amor sagrado, feito com carinho pelas mãos do criador. Queimadas pelo ar quente, consumidas pela paixão jovem, e nos dizíamos palavras tão profundas que não poderiam ser ditas por pessoas tão imaturas. Me aninhei em teu sotaque, suas palavras que soavam tão mais abertas que as minhas, refletindo o quanto tentei me proteger de sua aproximação vagarosa. Foi exatamente por essas aberturas que o ar de mistério me seduziu. Era dezembro quando tomei o primeiro gole desse amor inebriante, erroneamente convencida de que o vinho trazia a confusão e não suas palavras docemente escorrendo pelos cantos da boca. Continuei tomando lentamente da garrafa de nós sem ver terminar, que cada vez mais sorvia pequenas gotas de ti entre grandes intervalos de abstinência. Ansiei que teu coração palpitasse como o meu. Vendo suas costas embaixo do sol e desejando que pudesse escrever meu nome nelas. Aspirei que ao deslizar os dedos pelo seu corpo também o marcasse como meu, que todos pudessem ver por onde passei. Cancelei todos os planos e me coloquei a disposição da sua não pontualidade, sempre chegando em pressa, como se não houvesse hora marcada para nós em sua vida — e não havia. Gradualmente percebendo que a furtividade e a discrição não me eram dadas como estilo, mas como fato. O mesmo mistério que me seduziu agora me fazia questionar se havia algo aí que me queria, algo marcado com as pequenas fendas dos meus lábios a vista de todos. Nossa garrafa já estava vazia quando pedi por mais tempo de nós, quando supliquei por mais que uma despedida em lençóis já conhecidos. Seus olhos castanhos diziam apenas palavras que não quis ver, mesmo que suas mãos me fossem tão gentis e macias. Dezembro acabou como nosso vinho nas noites de sexta, quando consumíamos sem nos preocupar e então estava tudo acabado. Porém, nas nossas fugas sempre havia outra garrafa, diferente da nossa história. Perdi o direito de conjugar alguns verbos na terceira pessoa do plural quando se tratando de você junto comigo no lugar de sujeito, mas não posso dizer que perdi o que nunca tive. Por trás de cada lugar que já nos escondemos para que os toques não fossem vistos, lugares estes em que pensei ser amada enquanto nossas mãos se uniam e os olhos se encontravam. Manifesta em sua pele, da mandíbula marcada até a tatuagem abaixo do teu seio, está a evidência do nosso amor furtivo, cheio de medos e cenas solares. Você nunca foi minha para que eu pudesse perder.
refeita














