Eu já quis ser de tudo um pouco nessa vida, sabe? A gente cresce ouvindo que pode ser o que quiser, basta se empenhar... Mas a verdade é que não funciona bem assim. Ninguém consegue ser escritor, cantor, dançarino, ator, pintor e designer de games ao mesmo tempo, não de verdade, não sendo bom em tudo simultaneamente.
Já tive tantos sonhos que se frustraram e a cada dia, parece que mais deles se frustram. É duro levar a vida assim, ninguém te prepara pra realidade da vida adulta enquanto você cresce. Te enchem de esperanças, expectativas, inflam seu ego e alimentam sua imaginação fértil sem te falar o outro lado da história. Ninguém diz o quanto é difícil sobreviver, muito menos o quão difícil é viver de verdade com todos os desafios do dia a dia.
Enquanto eu crescia, ninguém me atentou que eu me faria um favor imenso se investisse mais em mim. Me fizeram acreditar que só estudar era minha obrigação e nem me falaram que seria bom se eu estudasse algo além do que me ensinavam na escola. Ninguém me lembrou que entrar em uma boa universidade seria muito mais complicado e penoso se eu não me dedicasse um pouco mais.
Por muito tempo, ninguém nem se quer me sugeriu pensar que só fazer as disciplinas da universidade não me tornaria atraente para o mercado de trabalho. E quando alguém finalmente me atentou para isso, fiquei cercada tanto de pessoas que - como eu - não conseguiam encontrar oportunidades de aprender coisas novas em estágios e de outras pessoas que só as conseguiam por ter contatos (outra coisa que nunca me disseram ser importante, contatos).
Cada dia da minha vida jovem-adulta/adulta tem sido uma verdadeira luta. E isso porque eu faço parte de uma porcentagem pequena da população que teve o privilégio de estudar apenas em escolas particulares toda a vida. Aprendi a andar de transporte público apenas aos 16 depois de bater muito o pé e querer ser (um pouco) mais independente. Nunca fui de família classe alta, mas tive sim muitos privilégios. Privilégios esses que tanto me ajudaram, quanto me prejudicaram.
Não critico a criação dos meus pais. Sei que eles sempre buscaram me oferecer o melhor e que o objetivo deles sempre foi que eu não precisasse passar as mesmas dificuldades que eles passaram. Em matéria de ser pais, tendo sido filha única por praticamente 10 anos, eles foram maravilhosos, mas me superprotegeram e o que eu não sabia na época, hoje eu enxergo com clareza: se eu tivesse sido um pouco mais cobrada, se tivessem me aberto os olhos mais cedo, se tivesse um pouco menos de "proteção" da realidade que me aguardava nos anos seguintes, hoje talvez eu tivesse a chance de viver com um pouco menos de dificuldade.
Digo a chance porque a responsabilidade em fazer ou não fazer foi, é e sempre será minha. Ninguém pode decidir por mim e talvez seja por isso que eu viva hoje a realidade que vivo, lutando, buscando uma vida melhor, uma oportunidade melhor de trabalho, de salário, de qualidade de vida equilibrada com carga horária e saúde mental.
Já quis ser de tudo um pouco nessa vida. Muitos dos meus sonhos eu mesma engavetei por olhar pra mim com os mesmos olhos que o mundo olhava: incapaz de realizá-los. E todas essas frustrações acabaram em causando medos, traumas.
Eu já tive medo de avançar. Medo de desapegar. Medo da instabilidade. Mas tudo isso só me levou a uma vida onde eu continuo cercada de pessoas, mas agora pessoas que são bem-sucedidas, que batalharam muito e realizaram seus sonhos, que estão desfrutando do resultado dos seus esforços e agora vivem sua melhor fase.
Hoje, eu continuo lutando contra mim, contra meu conformismo e contra minha mente preguiçosa. Porque se antes meus medos eram de não conseguir um bom emprego, não conquistar minha independência financeira, não ser capaz de me manter em um emprego por mais de um ano, hoje meu maior medo é de ser engolida pelos medos e preocupações da vida adulta e me tornar incapaz de sonhar e ser feliz.
verso & vício; nunca imaginou que a vida seria tão difícil.