Os Conflitos do Adolescer na Idade da Mídia.
Em maio de 2006 eu publiquei esse artigo na Revista ABC Educatio nas páginas 28 a 30. Como o tema ainda é bastante atual estou reproduzindo. É um pouco grande , mas creio que sua leitura será bastante interessante.
A mídia tem exercido um papel muito forte na vida dos adolescentes, justo em uma fase quando o conflito pela perda do corpo infantil os torna mais vulneráveis às influências externas.
A adolescência é a época das incertezas e de profundas transformações, tanto fisiológicas como psicológicas.
Televisão, revistas, internet, outdoors têm sido utilizados como fonte de informação e entretenimento, com excesso de estímulos relacionados ao sexo, à violência, ao consumo, ao padrão de beleza e ao individualismo.
Santos (2000) faz uma importante observação a esse tema:
Quando ligamos a televisão, e os nossos queridos estudantes também, assistimos a programas que disseminam uma juventude estereotipada por adolescentes bronzeados que malham em academias que mais parecem a ilha da fantasia (p.74).
Duas coisas contribuem muito para esse panorama. Uma, os comerciais que usam e abusam da sensualidade e da fantasia para vender quase tudo. A publicidade passa a mensagem de que sucesso, beleza, dinheiro e fama são sinônimos de felicidade, e que se pode adquiri-los através dos produtos e padrões ditados por ela. A outra é o abandono afetivo, emocional por que passam nossas crianças e adolescentes, vítimas da síndrome do ter, que transformou os pais em provedores distantes do universo de desenvolvimento de seus filhos.
É comum pais não saberem a série em que seus filhos se encontram. Também é comum filhos desconhecerem a história de vida dos pais, encontrando, assim, dificuldades de construírem a própria história. É cada vez mais raro almoço de domingo, famílias reunidas, espaço para se fazer ouvido. Por isso, nossos jovens estão recorrendo aos meios externos como fonte de informação, esclarecimento, escuta.
Há sites com informação de tudo. Há revistas que tiram qualquer dúvida, e o padrão imposto por elas é a construção do corpo perfeito, através de dietas, dicas e “conselhos,” fazendo com que os jovens recorreram precocemente a cirurgias plásticas como forma de minimizar o conflito interno. Seus espelhos também estão enfeitiçados pelo poder manipulador da mídia. Ao se olharem, só enxergam defeitos. Esses mecanismos frios estão sendo utilizados em lugar do diálogo parental, e isso tem gerado perdas importantes na construção dos sujeitos. Os jovens se tribalizam pela falta de escuta. O grupo acolhe-os, entende-os, fazendo-os tripulantes de um mesmo barco, um barco de iguais, de idênticos conflitos, idênticas necessidades, por isso a relação grupal é tão forte nessa idade. Nós, enquanto pais, permitimos que isso aconteça ao nos ausentarmos da tarefa de partilhar a vida de nossos filhos. A dedicação ao trabalho roubou-nos momentos que não voltam mais, porém o marketing consola com o slogan: eu sou um profissional de sucesso.
A mídia manipula desejos, sufoca sentimentos, deprime, entristece, desmotiva, contribuindo para uma percepção niilista de si mesmo e uma consequente falta de projeto de vida. É isso que está acontecendo com nossos jovens, cujo reflexo já chegou à sala de aula, exigindo do professor uma outra metodologia para obter a interação desse aluno.
O jovem de hoje é que o capitalismo sempre sonhou, ou seja, um sujeito de desejos fugazes. Isso não quer dizer que o capitalismo seja de todo ruim. Ruim é o que a mídia consumista e marqueteira faz sobre ele, manipulando desejos, muitos deles intransponíveis. A mídia armada com a propaganda e o marketing impõem diversos contravalores e fazem disso uma falsa oportunidade para o jovem ser feliz e este se deixar levar porque ainda possui um eu em construção. Sabe-se que toda comparação gera baixa autoestima e visão distorcida de si mesma.
Para o adolescente ser valorizado, tem que estar na moda, ter um corpo atlético e ser aceito em sua turma. Se ele não atende a esses ditames, é introvertido, desprovido de curvas definidas, simplesmente não ganha visibilidade. Parece que, para ser incluído, precisa ter certo poder aquisitivo para consumir, a fim de que percebam sua existência, como se isso fosse uma senha de reconhecimento.
Com o poder de influência que a mídia possui, ela impede que os jovens desenvolvam os valores que mantêm sua dignidade, porque se tomassem consciência do quanto são manipulados, o mercado não teria para quem vender seus produtos. O jovem é mais poroso, mais hedonista, mais presenteísta. Para ser um bom consumidor, precisa estar aberto às influências e ser imediatista. Por isso, é o alvo perfeito do consumismo. A mídia captura sua vontade para que ele consuma uma falsa identidade, operando no desejo e, sobretudo, no inconsciente.
É paradoxal vivermos uma fase da humanidade, quando se diz existir liberdade de escolha e, ao mesmo tempo, a mídia manipular a mente desses jovens, obrigando-os a um pertencimento, a um código de conduta e inclusão.
Penso que a solução não seria a implantação de dispositivos de controle da programação televisiva, dos impressos, da internet pelos pais. A volta da censura não desenvolveria autonomia moral e intelectual.
A sociedade de consumo impinge a todos um determinado modelo de vida, criando expectativas e gerando frustrações. Temos na TV, praticamente em toda sua programação, o veículo por excelência dessa sociedade. Através desse meio de comunicação, os cidadãos, absortos no seu afã diuturno de melhorar o poder aquisitivo, não se dão conta de que suas crianças, segmento mais vulnerável da sociedade, estão sendo socializadas progressivamente pelo mercado. É o peso da “Kindercultura” [1]. Infelizmente, nesse aspecto, instâncias básicas, como família e escola, já não exercem tanta influência na construção do novo indivíduo. Uma outra constatação é observar a geração dos dias de hoje transformar os shoppings centers em seu espaço de lazer, passeando por lojas, parados frente às máquinas de jogos ou consumindo um delicioso hambúrguer com fritas, refrigerante e muito catchup. Preocupados em ser diferentes na maneira de vestir, falar e se relacionar, ou na preferência alimentar nem se percebem ficando cada dia mais iguais. Podemos dizer que o padrão fast food introduziu um novo modelo não só na alimentação como em todas as relações sociais. Estabeleceu o imediatismo e o descartável como forma de agir sobre o mundo, provocando, em alguns grupos, modificações nas relações interpessoais como, por exemplo, o namoro de outrora para o “ficar” de hoje. Nessa dinâmica, percebe-se, conforme sintetiza Steinberg (1997), que “a infância e a adolescência, portanto, é uma criação da sociedade que está sujeita à mudança sempre que ocorrem importantes transformações sociais” (p.99).
Como foi visto, a infância e a adolescência têm mudado drasticamente em virtude da fragmentação da sociedade e da manipulação intencional de um capitalismo gerador de desejos. Isso parece provocar uma transformação nas crianças encurtando a fase dependente, previsível, despertando o inesperado, uma multiplicidade de jeitos de ser.
A criança, sabiamente, passa a desempenhar papéis, a agir frente ao pai, à mãe, ao professor, parente ou estranho, de acordo com seus desejos, moldados muitas vezes por atitudes passivas ou cordatas de quem deveria estar à frente na condução do seu processo educativo. É como se já na infância possuísse múltiplas identidades. Hall (2000) propõe a categoria analítica “descentração do sujeito pós-moderno”, ilustrando o caminho através do qual se estabelece uma crise de identidade do homem contemporâneo. Aponta algumas concepções de identidades que foram se conjecturando do iluminismo à atualidade, imersas na onda da revolução tecnológica. De uma identidade anteriormente unificada e estável pelas raízes do tradicionalismo, assiste-se a um deslocamento para outra descentrada, resultante de mudanças estruturais e institucionais. Assim, “dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas” (p.13)
Como educadora, acredito na importância da educação, na interferência positiva que pode fazer sobre a “pedagogia cultural” na construção desse novo indivíduo, partícipe dessa nova sociedade, produto da pós-modernidade que vivenciamos. Por isso alerto para a importância dos primeiros anos de vida como alicerces da construção e do desenvolvimento da personalidade da criança bem como para a interferência do processo de “Kinderculturação”[1] pelo qual a infância vem sendo bombardeada nos dias de hoje.
Defendo a ideia de que, através da educação, desenvolveremos um campo mais propício para que as forças externas, positivas, tais como as influências afetivas, socioculturais e ambientais possam atuar na formação de sua personalidade. Para isso, precisaremos contar com educadores capacitados por uma pedagogia crítica para distinguir o discurso ideológico camuflado nas diversas narrativas dos muitos textos culturais que circulam na sociedade. Desse modo, terão possibilidade de separar dessa Kindercultura toda a sua parte maléfica, que tanto conflito e sofrimento causam aos nossos adolescentes, e construir mecanismos de reflexão capazes de propiciar mudanças no modo de agir desses jovens.
Família e Escola, como instituições fundamentais na formação da personalidade sadia da criança e do adolescente, devem procurar estreitar seus vínculos e criar espaços de reflexão, para que o adolescente possa exercitar seu olhar crítico sobre a mídia. Caso contrário, nossos jovens podem acabar assimilando valores passados por ela de forma sutil e sedutora e sem se darem conta provocar um conflito entre o que se é e o que se deseja ser.
Esse descompasso tem alimentado os facebook e nossos jovens encontram nesse espaço midiático um locar para construir o “sujeito” idealizado e se assumirem em um falso self.
Por tudo isso, como educadora, defendo a ideia da inclusão de um currículo escolar de atividades direcionadas a educar os jovens telespectadores, consumidores, a desenvolverem um olhar crítico sobre o que veem, leem e podem comprar. Pois só desse modo terão condições de serem eles mesmos e protagonizarem seu projeto de vida. Assim, a sociedade de consumo pode continuar existindo já que, após serem trabalhados sob a ótica da pedagogia crítica, crianças e adolescentes, terão condições de saber se portar frente às perversidades impostas pela pós-modernidade, tornando-se sujeitos sociais, históricos, caracterizados por um agudo senso crítico.
* Mestre em Ciências Pedagógica, Psicopedagoga Clínica e Institucional de base Psicanalítica, Orientadora Educacional do Centro de Educação e Cultura- Barra
HALLL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 6ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
STEINBERG, Shirley. Kindercultura: A construção da infância pelas grandes corporações. In Silva, Luiz Heron, Azevedo, José & Santos, Edmilson (org) Identidade social e a construção do conhecimento. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Educação,1997, pp. 98-145.
SANTOS, Rafael dos. Mas que história é essa? In: Trindade, Azoilda Loretto e Rafael dos Santos(orgs) Multiculturalismo – mil e uma faces da Escola. Rio de Janeiro: DP&A 1999, pp. 63-89.
MCLAREN, Peter. A vida nas Escolas. Porto Alegre. São Paulo: Artes Médicas,1997.
[1] .Steinberg (1977, p. 99-100 ) utiliza o termo Kindercultura para explicar a infância a partir do consumismo. Esse conceito que se junta a outros conceitos emergentes da teoria social – conceitos que questionam os pressupostos biológicos da psicologia infantil clássica", anuncia uma nova ideia de infância a partir, basicamente, do consumismo. A autora acredita que a educação não está limitada somente à escola, portanto, bibliotecas, brinquedos, televisão, videogame, anúncios constituem-se também espaços pedagógicos. Isso significa que grandes corporações produzem o que a autora chama de currículo cultural para as crianças, o que estaria a serviço dos interesses comerciais que agem em favor da vantagem individual e não do bem social. Steinberg denuncia as consequências do currículo cultural, apontando para a revolução que esse tem causado às crianças e à própria concepção de infância, isso porque suas manifestações são muito sutis e apelativas. Grandes corporações criaram uma perspectiva cultural que se funde com ideologias empresariais e com valores do livre mercado, explorando a fantasia e o desejo das crianças.