ponto final
Acredito que você nunca irá olhar essas mensagens, mas, para caso aconteça, esse aqui é o meu adeus. Semana passada estava cogitando te contatar. Te enviei mensagem até no seu número de WhatsApp, que eu não tinha certeza se ainda era o seu. Apaguei a mensagem e fingi que foi engano. Você estava viajando para Disney com a sua mãe, soube pelo tiktok dela. É, me sinto culpado por isso. A saudade estava me fazendo tentar loucuras e flertei com ideia de te enviar um e-mail dizendo “preciso conversar com você. é importante, por favor.”. Olha como seria impactante.
Como você deve saber, não o fiz. Você não recebeu nenhum e-mail meu provavelmente. Tinha uma dúvida que ainda me afligia, de não ter certeza sobre o seu namoro. Vi uma foto no insta e uma legenda, lá quando bloqueei você em todas as redes, mas nada além disso. Não perguntei para ninguém. Acho que não queria saber. Então, fiquei com essa dúvida todos esses anos, mas me apegava ao sim para conseguir manter distância. Foi essa dúvida que fez com que a minha saudade ganhasse força com o tempo e também, ironicamente, foi a que me impediu de te enviar qualquer tipo mensagem (além das múltiplas tentativas de te seguir no instagram).
Antes de decidir se ia te enviar mensagem, precisava saber se você permanecia nesse relacionamento. Ainda não entendo esse ponto, já que eu só desejava esclarecer algumas coisas, mas, no fundo, era importante pra mim saber. Fiz o que não havia feito nesses anos: perguntei de você para uma amiga. Foi dolorido ler a resposta. A dúvida tinha chegado ao fim e me derrubou. A queda foi decisiva para como me sinto hoje e como planejo seguir com a minha vida, principalmente porque eu me permiti doer.
Então, passei o dia inteiro sentindo um aperto no peito, sentindo a despedida acontecer. Era um ponto final. Lendo as mensagens anteriores, você possivelmente percebeu tudo o que a sua falta me causava, o tanto que eu ainda pensava em você e estava piorando. No entanto, a semana após isso foi mais tranquila. Doía — e ainda dói —, mas consegui repreender a sua presença. Você não é mais a possibilidade de um amor incrível; você é o adeus, a partida, um fim prematuro. É um conforto conseguir pensar que estou seguindo em frente de verdade dessa vez.
Internamente eu sempre soube que eu poderia te dizer tchau quando te visse com o outro, provavelmente por isso que, quando pegava o ônibus que passava em frente à sua casa, ficava desejando te ver, e que você poderia estar com ele. Não sabia, mas isso provavelmente serviria como ponto final para mim também. Tudo bem que tenha acontecido assim. Para ser sincero, como muitos dos meus problemas que surgiram quando a gente namorava, eu evitei pensar na sua falta e no fato de ter te perdido (isso bem antes de pararmos de nos falar) para não doer, só que foi impossível evitar nos últimos anos.
Acabou que consegui me tornar o Jonathan que eu queria. Quer dizer, continuo no processo, mas me desenvolvi bastante e foi quando notei isso, que lembrei do que havia guardado. Estavam lá: as lembranças, os sentimentos. Tudo tão fresco e intocado. Então eu contei a nossa história para uma colega de trabalho e me senti em dois mil e dezoito. Como eu podia sentir tudo aquilo depois de tanto tempo? Porque eu nunca disse adeus, nunca senti que houve um fim. Você deve se lembrar de quando te disse que via a gente retornando em algum momento futuro. Não era uma fala boba, era uma esperança que acreditei com convicção e fé. Mas eu silenciei todo e qualquer pensamento sobre isso para seguir na minha busca por identidade. Acredito que foi quando comecei a te enviar mensagens por aqui. Pra ser sincero, foi perturbador ficar te vendo em todos os lugares, como uma fantasma; sonhando com você. Mas eu também pude olhar para o Jonathan daquele tempo e entender tudo o que eu sentia, e de como eu te deixei fora não somente da minha vida, mas de muitas verdades sobre o meu distanciamento, em relação ao nosso término.
É por isso que estou aqui. Queria que você soubesse das coisas que eu nunca disse e que na época eu nem entendia direito, mas que recentemente virou um dos fardos que precisei compreender. Vou contar aqui, desejando que o universo ou Deus faça você lê-las, se for para que você saiba. Esse é meu adeus e depois disso não terei mais nenhuma pendência contigo. Não terei mais motivos para te atormentar haha.
Você sabe que nunca foi falta de amor, não sabe? Aquela foi a minha pior fase de vida e você, infelizmente, estava lá. Você com certeza é o amor da minha vida e foi por isso que eu não conseguiria ficar, não conseguiria mentir. A minha questão sobre sexualidade sempre foi problemática, você bem sabe. Desde os oito anos. E por mais que eu fingia não ligar com as dúvidas dos outros sobre mim, todos os dias eu me odiava por não me entender. Queria entender o que eu era. Em um dia, acordava gostando de garotas e vida que se seguia. No outro, acordava me sentindo atraído por caras e era “então, eu sou gay mesmo. agora só preciso lidar com isso”, mas no outro dia já estava me interessando por garotas novamente. Isso me derrubava por anos, me consumia uma energia cansativa. A bissexualidade nunca foi uma opção para mim, por mais que eu a conhecesse e tivesse amigos bissexuais. Estava sempre ao que me atribuíam, ou isso ou aquilo. Então a gente começou a namorar de forma intensa, sem que pudéssemos planejar os próximos passos. Era um amor avassalador que tinha pressa e a gente se entregou. Quando as coisas foram se apaziguando, os meus tormentos superavam a voz do amor. Eles eram muito maiores, eles tinham anos de espera.
Foi quando a garota-do-ponto apareceu. Não entendia, mas vi nisso uma fuga. Do outro lado da história, voltei a acordar nessa dualidade de atração homem-mulher, a mulher sempre era você. A dúvida me castigava e eu sentia que tava mentindo, que estava escondendo algo de muita importância de você. Não conseguiria esconder isso por muito mais tempo porque você me desmascarava, me deixava vulnerável com facilidade. Eu era pureza com você. Evitando que me descobrisse, sem planejar, passei a ficar ausente, a responder menos, a falar menos. Então você foi na minha casa buscar o seu livro e eu evitei te olhar porque você saberia, você encontraria. E eu não estava nenhum pouco pronto para lidar com essa questão fora do meu interno, era uma dor que não me imaginava lidando.
Não te enviava mensagens, mas pensava em você a todo tempo. Essa dúvida da minha sexualidade começou a ser outras dúvidas. Sempre tive muito medo do mundo. O nosso amor me vez perceber que éramos grandiosos e que eu também podia ser quem eu queria sem temer. Ele me dava muita força, mas não o suficiente, não quando eu estava quebrando. Você queria me levar no casamento da sua família e tudo que eu tinha era medo deles, medo de como me observariam. “Ele é namorado dela? Ele é hétero mesmo?”. Eu não teria forças nem culhões para me deparar com esse olhar, com essa dúvida, quando eu mesmo a tinha. Sofria com a antecipação. Quem eu era? Um zé ninguém da favela. Um desempregado. Eles também olhariam isso. Haviam tantos motivos para eles me rejeitarem e eu estava pronto para isso? Não estava, não daria conta. Temia o mundo e as pessoas porque não fazia ideia de quem eu era, queria ser aceito por elas e não o contrário. Temia a mim e entendia que sentissem o mesmo. Eram todos pensamentos meus guiados pelos meus medos e pelas minhas dúvidas.
Eu me via como um zé ninguém, um pobre fudido que não entendia por que você me amava, por que você me fazia parecer alguém de extrema importância sob o seu olhar, sendo eu alguém que não tinha dinheiro nem mesmo para te levar ao cinema, para ir na sua casa. Alguém que precisou fazer o presente de dias dos namorados a mão com uma caixa de celular.
Você não se importaria se a sua família me rejeitasse, se as outras pessoas me olhassem feio. Não se importava com os meus presentes feitos a mão. E era por isso que tudo doía. Eu me via naquela pessoa que não podia ser amada e você me amava ainda assim… eu não merecia aquilo, não suportaria a grandeza do nosso amor porque eu era minúsculo.
Foram o medo, a culpa e as dúvidas que nos levou ao que ocorreu. Nunca duvidei do meu amor por você, mas, naquela época, não bastou. Precisava lidar com tudo aquilo. Não foi a garota-do-ponto, que me despertou interesse, nem a sua sugestão do nosso casamento ou a busca pela minha solterice. Eu queria viver com você para sempre, mas havia mais medo em mim do que vontade e aconteceu o que aconteceu.
Não lamento pelo que houve porque foi importante para que eu aprendesse a não temer a perda, a dor e hoje tenho mais vontade, não desejando viver de arrependimentos como a perca de um grande amor. No entanto, você fez muita falta e sinto, sim, ter que me despedir de você de uma vez por todas, alguém que sempre foi muito importante para mim e que nunca imaginei que isso aconteceria. Como eu disse, havia muito fé minha no nosso retorno, quando eu estivesse bem.
Eu estava errado. E me despeço. Sinto muito que tenha te feito mal e que não tenha sido claro sobre onde doía, e na verdade eu nem entendia naquela época. Desejo que você seja feliz, muito feliz, e que você sempre seja amada estratosfericamente, não conheço ninguém que mereça mais.
Como dizíamos: obrigado por ter sido você, por tudo e por sempre. Te amei.













