Acordei cedo hoje e continuei deitada por um bom tempo lembrando da gente. Seria impossível não lembrar.
Lembrei de quando a gente se conheceu.
Foi alguns dias depois do meu aniversário e ele me disse cheio de lábia: "Desculpa, o presente chegou atrasado!". Eu adorei, apesar de ter achado ousado. E sem nem fazer ideia de tudo que viria depois, entrei na brincadeira respondendo: "Tudo bem! rs Valeu a pena a espera!".
Hoje, o aniversário é dele e fiquei pensando o quanto tinha imaginado e planejado este dia diferente. Eu tinha anotado para confirmar a reserva que cheguei a fazer a dali duas semanas e a entrega que queria enviar para ele no meio da tarde.
Aniversários nunca devem passar em branco, eu penso assim. E como eu gostava de ver ele rindo! Fazendo piada, se entregando ao momento, sabe? Mas a decisão de fazer algo bem marcante mesmo, foi quando ouvi ele dizer uma vez:
"Eu sou triste, sou uma pessoa triste."
Aquilo fez meu corpo inteiro doer. Discordei. Tentei disfarçar. Deu uma sensação ruim de angústia. Impotência.
Só que no fundo eu sabia que era verdade. Dava para ver no olhar dele. E o que eu podia fazer era muito pouco perto do que ele precisava. Também não sabia se deveria.
Não falo de curá-lo. Só ele pode curar a si mesmo. Nunca tive essa pretensão. E nem tenho esse poder. Embora o usaria se tivesse.
Mas confesso que queria ser seu porto-seguro.
A pessoa que ele ligaria para falar da promoção no emprego, do carro novo ou só do quanto estava animado com o último filme que saiu. Aquela que ele procuraria para desabafar sobre o dia cansativo, o excesso de trabalho ou a perda de um ente querido.
Quem lhe ofereceria um abraço quando ele só quisesse ficar em silêncio. Quem ele pensaria ao acordar. Quem vibraria com as conquistas dele como se cada uma delas fosse parte da própria história. Quem lembraria a ele da importância de se cuidar e respeitar os próprios limites.
A companhia que ele ia esperar a semana inteira para fazer alguma coisa legal. Ou até encontraria em uma segunda-feira depois do vôlei. A que ele poderia contar para ajudar no almoço de família ou no bolo de aniversário de um amigo.
Quem lhe enviaria mensagem fofa de boa noite todos os dias. Quem ele pediria um conselho. De quem às vezes ele ficaria com raiva, mas não deixaria de amar. Quem faria carinho nele deitado no sofá, às 15h da tarde de um domingo. Quem ele lembraria nas horas boas, mas também nas difíceis.
Talvez tenha sido muita presunção minha pensar assim. Talvez eu tenha idealizado demais.
Mas sim, eu queria ser a pessoa de confiança dele.
Seus defeitos poderiam me tirar do sério, mas não diminuiriam meu amor. Inevitavelmente, discordaríamos, brigaríamos e magoaríamos um ao outro em algum momento. Talvez, por algo que eu falei ou alguma coisa que ele deixou de dizer. Mas a gente estaria ali, disposto a fazer o que tivesse que ser feito para não abalar o que sentíamos. Porque saberíamos que valeria a pena.
Às vezes, me pergunto:
Como seria nossa primeira viagem juntos? Tiraríamos mil fotos ou viveríamos o momento sem registrar nada? Ele deixaria a toalha molhada na cama do hotel? Perderia o café da manhã? Demoraríamos longos minutos no banho?
E a primeira grande briga? Quem tomaria a iniciativa da reconciliação? Teria um silêncio pesado de orgulho ou a saudade falaria mais alto antes do fim do dia? Como seria quando nossas opiniões não batessem? Conseguiríamos conversar mesmo quando um dos dois tivesse vontade de fugir?
Assistiríamos juntos aos jogos da Copa ano que vem? Ou às partidas das Olimpíadas em 2028? Ele me explicaria a história dos animes que mais gosta, ou veria tudo de novo comigo?
Será que ele teria paciência pra lidar com meus dias de mau humor? Com a minha TPM? Com as minhas cólicas? Qual mania minha mais o irritaria? Ele sempre esqueceria de me avisar as coisas? Lembraria de datas importantes?
Onde passaríamos o Réveillon? Juntaríamos nossas famílias ou ficaríamos com os amigos? Nos veríamos também no Natal? Na casa dele ou na minha? E o Carnaval? Ele ia preferir a folia ou um refúgio tranquilo?
Teríamos uma piada interna? O que mais o acalmaria, palavras ou abraços? Como meu contato estaria salvo no telefone dele depois que o "a gente" fosse realmente um "nós"?
...
Tem dias que a rotina não me deixa pensar nisso. Ou pelo menos, não em todas essas possibilidades. Mas também tem dias que o "E se?" martela incessantemente por aqui. Hoje foi um desses dias.
E se ele vivesse mais o presente e se preocupasse menos com o futuro? E se ele tivesse escutado a emoção e não a razão? E se ele se visse como eu o vejo?
E se eu tivesse falado: "Calma, você só tá com medo e eu também, mas é normal"? E se eu tivesse perguntado: "É isso que você realmente quer ou o que você se convenceu ser o 'certo'?"
E se eu tivesse dito tudo isso para ele?
...
Mesmo sabendo que a vida é incerta, acho que eu não acreditaria se alguém me dissesse há alguns meses que seríamos só isso agora: possibilidades.
Talvez porque não era isso que eu desejava para a gente.
O dia terminou e eu não consegui dar parabéns, mesmo tendo aberto incontáveis vezes o bloco de notas do celular. Não queria ser a chata do textão, quando ele já tinha escolhido no que acreditar. Também não queria me resumir a um "Parabéns, felicidades!". Era ridículo demais para o que eu queria de fato dizer. Preferi o silêncio.
Mas não tem como não me perguntar: como seria comemorar esse dia com ele?
Será que nos veríamos hoje nem que fosse por 10 minutos? Ou ele ficaria preso no trabalho? Que sabor ia ter nosso beijo especificamente esta noite?
Ia ser um momento mais romântico ou mais de risadas? O tesão ia ser maior ou ficaríamos só de chamego? Finalmente ele ia conseguir se abrir, falar a real? Tudo bem que eu já fazia uma ideia, mas ouvir dele...como seria?
Eu não sei. Agora só resta o gosto amargo do quase.
Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só. (...) Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.
Historiar era sua égide de ilusão
Um compromisso descompromissado
Que se tornou paixão
Propalando contos de desencanto
De mansinho sobreveio uma vocação
Considerada frívola, portanto
Irrompia nos dias de solidão
Para se queixar de medos e desejos
Guardados em outra dimensão
Sempre àbdita daquele ensejo
Almejava a sublimação
E em outra esfera mergulhada
Era assim que calada
Gritava em seu cercado de nãos
Quantas horas de seus dias dedicou a escrever
Sobre o desatino que estava a adentrar
Um confessionário se tornou aquele espaço
Para aquela agrura aliviar
Apenas rascunhos de discursos nunca ditos
Mas que àquele alguém passaram a chegar
Somente palavras, sem utilidades
Que hoje iriam desabrochar
O que você faz quando o medo já não parece mais tão assustador?
Todo novo ciclo exige coragem e tê-la ou resgatá-la não é tão simples quanto parece.
E por isso a gente a busca constantemente, colocando a culpa na ausência dela para a nossa falta de iniciativa de mudar o status quo.
Às vezes as pessoas tomam atitudes drásticas para nos ferir ou fazermos o que elas querem. Mal sabem elas que esse é o pontapé de coragem que precisávamos para nos valorizar e nos reconhecer.
A chuva cai lá fora e leva toda a culpa (desnecessária) carregada nos últimos anos. Alguns questionamentos não fazem mais sentido, mas outros novos dão lugar a esses antigos. Às vezes, a gente se prende a coisas que mais pertencem a outrem do que a nós mesmos, ao ponto de tornar essas coisas partes nossas, mas que não nos pertencem. Quando o grito de liberdade vem, o caos aos poucos se esvai e a esperança se restabelece.