Rasgo
A caneta tem peso de faca assusta quando ela rasga atravessa o vazio da pauta e corta com sua cor navalha
Vejo da lâmina espelho refletido ser palavra na grade que havia preso a poesia me revela.
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@disverso
Rasgo
A caneta tem peso de faca assusta quando ela rasga atravessa o vazio da pauta e corta com sua cor navalha
Vejo da lâmina espelho refletido ser palavra na grade que havia preso a poesia me revela.
Decolaram
No teto não havia quarto a ordem foi pro espaço a cama espaçou as horas
o tempo
perdeu compasso
o desejo encontrou o agora sentido não aterrissado mesmo corpo, outro plano
sem planos
decolaram.
Henrique Sommer
Livro “Diverso em Verso”, 2021
Trovão
Sentir, é um discreto externo um escândalo interno é como um grito distante soa quebrado vacilante de longe e um trovão que soa de perto.
Henrique Sommer
Pele Sensível
Viver o ato de sobreviver aceitar-se ser
sozinho
Não fundir o eu contudo
A pele é sensível o mundo pontiagudo
Há de ser mais fluído menos firme que a cidade passageiro como a sombra da árvore
Ser som música instante na eternidade.
Henrique Sommer
Noite Escura
A noite escura engole a palavra impede de dizer o que sinto Um vazio tão infantil herdado antes da fala como essa noite na escuridão da água
Sou fadado ao indizível
Da expressão do grito a inexpressão do silêncio inexprimível
Do espectro, frequência audível aos formantes e vales sem sentido
A noite escura oprime os vivos
Então poderia morrer pra renascer tendo dito
Mas já nascer com palavra, impossível.
(Henrique Sommer)
O "s"
Perguntei a quem vive como transpor a barreira? Ela sorriu e me disse comece acendendo a fogueira queime todo o “s” da crise e só depois, escreva o poema.
Frio na barriga
O tempo para antes do passo neste mundo que o agora tocou a vida se parte em pedaços uma fatia que não se provou
Aqui, agora, na sua frente fora da mente fora do controle o que existe é presente o futuro, nem foi
E parte do que se esconde no fundo nunca perde o medo mas fica sempre dizendo: “ei, pra que contar o tempo?”
Não há “2x” ou “pular a abertura” quem sabe se há um “próximo capítulo”? Dar um passo ao desconhecido não é “um mistério a ser resolvido”
É aquela fatia a ser provada quando a coragem vencer o receio e vontade recuperar o anseio não importará a chegada
Mas digo não existe surpresa pra quem só assiste porque ela é exclusiva à vida e isso, só quem sabe é quem vive pois já sentiu um frio na barriga.
Pensamento
No plano dessa esfera planando sobre a Terra nos limites da atmosfera até onde o ar não pode tocar
Um pensamento sem fronteiras toca tudo o que nos cerca rompendo todas cercas do chão à poeira estelar
Mas se partisse da imensidão no espaço, pra qualquer direção o pensamento encontraria o frio o vazio, escuro e sem ar
Pois girando nesse corpo junto a terra, o céu e os corpos no limite que é imposto são as fronteiras que fazem chegar
Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar
O horizonte não se define não me aponta o céu e nem as águas O que vejo é uma tela em degradê do azul profundo ao azul bebê e no lugar onde haveria uma linha tudo anuviado em sfumato Mas definir pra quê? Horizonte me lembra chegada e quando vejo essa cena não quero chegar em nada quero mais é me perder navegar nas ondas do pincel mergulhar com corpo na água e deixar a mente rabiscar o céu Viajar em qualquer direção, sem direção pegar o quadro com as mãos e inverter, olhar de ponta cabeça avistar um destino, sem pressa Seguir nem tanto ao céu, nem tanto ao mar apenas ir.
Pulsar
Não basta ser o sopro sem ser o ar não basta ser a onda sem ser o mar
Distante da costa e de tudo há calma superfície profunda ser as águas
Não basta ser a curva sem ser a estrada não basta ser o X sem ser o mapa
Ter um mundo a frente pessoas, coisas e mais mais gente mas não viver “sem” e sim, “com” nada é diferente
É o tempo de regular a lente e encontrar o foco capturar a essência entender que tudo vibra numa certa frequência
E quando o pulsar ajusta se enxerga a beleza estava aí todo tempo não se via pois não basta ser a vida sem ser poesia.
Muro
Ir de cabeça se for preciso falhar miseravelmente desfigurar-me todo até não reconhecerem mais nem eu, nem tudo desfragmentado quebrar o muro.
Essência
Quando se perde se torna esquecível entre cortes mal feitos seja qual for o filme encontramos outro canal antes de encontrar o sentido perdidos em meio a cacofonia egoísta ou a covardia do não dito Roteiro fraco direção fraca atuações fracas mas a fotografia, incrível.
Encontro
Foi como uma semana na cama não podia ser diferente Ela cantando Rei Leão e mostrando um golpe de judô eu filosofando uma canção nas melodias do ventilador Éramos tantos, era só nós dois sem o filtro do mundo inteiro Éramos nós mesmos, do avesso Um encontro de dar espanto Como pode alguém rir tanto? Tinha medo da próxima piada “depois dessa crise, não sobra nada!” Ia do riso ao “você sabe onde isso dá” quando se deixa o toque levar e acontece quando cruza o olhar Do quarto gélido ao calor do inferno abre a janela pra não abafar Uma foto dela, uma foto nossa tinha muito mais coisa do que cabia na tela Quantos dias duram uma noite? E quantas duram a gente? parafraseando o poeta não dura, é durante.
Quanto mais o mundo assusta uso a poesia como fuga olho a pedra e não vejo pedra vejo a forma de uma tartaruga.
Túnel
Escuro tocando os trilhos visão ajusta o caminho
Escuta o que há partido ou se o trem está vindo
Chegada tão clara ofusca compreende os sentidos.
Branco. Masculino
Eu não temo nada dentro do jogo sem sentir o estorvo Saberia, se não fosse a minha pele alva o quanto pesa o soco? Não me fere, acaricia mas há mais do que me salva de Diniz à Ferrer pendurado na virilha o meu salvo conduto me conduz ao não temor a entrar no meio do jogo e ser sempre o jogador Pele branca, masculina em qualquer partida as bolas já estão perto do gol
Madeira
O verniz esconde
nós