Uma vez me disseram que iriam até o inferno por alguém.
Por um grande amor.
Por um pai.
Por uma mãe.
Eu senti meus ombros pesarem.
Não pela coragem deles —
mas porque eu jamais iria tão fácil assim.
Talvez me chamem de egoísta.
Mas eu não abraço âncoras.
Passei a vida inteira aprendendo a não me afogar.
Aprendi cedo demais que quem se agarra ao peso errado
desce junto.
Eu iria ao inferno, sim —
mas não por devoção cega.
Não por laços de sangue.
Não por obrigação.
Eu iria por quem luta para respirar mesmo com água no peito.
Por quem sangra em silêncio, mas não empurra ninguém para o fogo.
Por quem carrega o próprio caos
sem transformá-lo na prisão dos outros.
São essas pessoas que me conquistam.
As que resistem.
As que crescem.
As que escolhem não ser peso.
Por elas eu me queimaria.
Por elas eu enfrentaria o abismo.
Porque sei que, se caíssemos,
cairíamos lutando —
não nos arrastando.
Ser família nunca foi argumento suficiente para mim.
Sangue não garante caráter.
Laços não obrigam sacrifício.
Eu morreria por um estranho
se visse nele coragem e responsabilidade.
Mas deixaria desfalecer quem ameaça minha sanidade
e chama isso de amor.
O mundo nunca foi gentil.
Eu também não pude ser criança para sempre.
Quem nasce do caos aprende cedo:
ou você cresce
ou vira ruína.
Me enoja quem transforma a própria dor em arma.
Quem faz da fraqueza um trono.
Quem exige resgate, mas se recusa a nadar.
Eu não fui salvo.
Eu sobrevivi.
E talvez por isso
eu não vá ao inferno para provar amor.
Eu já estive perto demais dele
tentando curar o que não era meu.
Hoje, se eu descer,
será por honra —
não por culpa.
E se eu amar de novo,
será alguém que caminhe ao meu lado,
não alguém que eu precise carregar nos ombros.
Porque eu lutei demais para aprender a respirar.
E não volto para o fundo
por ninguém que escolha ficar lá.












