Mais uma vez, o ciclo recomeça. Fogos explodem no céu, sorrisos ensaiados preenchem as festas, abraços automáticos tentam ocupar o vazio que ninguém ousa admitir. Alguns erguem suas taças, fingindo celebração; outros se escondem, esmagados pelo peso de tudo que deveria ter sido e não foi. Todos, sem exceção, fingem. Fingem que foi um ano bom ou, ao menos, suportável. Fingem que o próximo será melhor. Mas a verdade, crua e imutável, está sempre lá, aguardando: nada muda. Nada nunca muda.
O calendário vira, e tudo permanece intacto. A fome continua sendo a sentença de milhões. Crianças morrem não por falta de comida, mas porque é mais lucrativo destruir o excesso do que dá-lo a quem precisa. Nos cantos escuros das grandes cidades, alguém dorme no chão, invisível. Essa miséria vai seguir ali, enquanto a sociedade repete palavras vazias sobre solidariedade e compaixão, mas pratica, dia após dia, a indiferença mais fria.
E que tal a guerra? Essa doença nunca tira férias. Sempre há uma nova justificativa, fabricada com precisão, para arrancar vidas e destruir sonhos. Milhões são convencidos a morrer por causas que não compreendem, enquanto aqueles que movimentam os fios – os donos do poder – brindam o lucro com taças de cristal. A cada bomba que explode, a cada corpo enterrado, os mercados se agitam, felizes.
Enquanto isso, o planeta grita por socorro, mas ninguém escuta. O ar sufoca, os oceanos agonizam em plástico, as florestas desaparecem. E o que fazemos? Campanhas virtuais, plantamos uma ou duas árvores e achamos que é o suficiente. No fundo, sabemos que não é. Optamos pela conveniência imediata, enquanto o futuro murcha diante de nossos olhos. A destruição continua, e continuamos fingindo que não é conosco.
E as pessoas? Ah, as pessoas seguem pequenas, egoístas, presas em seus pequenos mundos. A obsessão pela validação tomou conta. Publicamos fotos sorrindo, exibindo vidas editadas, moldadas para parecer perfeitas. Mas, na calada da noite, quando a solidão chega, o que sobra? Medo, vazio e uma angústia que não se pode curar com curtidas ou filtros. Tentamos nos convencer de que estamos vivendo, mas na verdade estamos apenas existindo, esperando que algo – ou alguém – preencha o vazio.
Saúde mental? Falam tanto sobre ela, mas o que mudou de verdade? Depressão virou estatística; ansiedade, mercadoria. "Fale sobre seus sentimentos", dizem, enquanto cobram caro por terapias e remédios. A dor foi privatizada. Quem tem dinheiro, compra alívio temporário. Quem não tem, se afoga sozinho. Às vezes, o silêncio vira a única saída. Um silêncio permanente que ninguém ousa discutir.
E o amor? Ele também não escapa. Foi transformado em produto, embalado e vendido como remédio universal. Mas é frágil, quebradiço. Relacionamentos nascem de expectativas irreais e morrem sob o peso delas. O amor virou posse, contrato, negociação. Quando a ilusão desmorona, buscamos outra pessoa para preencher o mesmo vazio que carregamos dentro de nós. Mas esse vazio não é culpa do outro. Ele é nosso. E sempre estará ali.
Tudo isso se repete porque estamos presos a ciclos de ilusão. A maior delas é acreditar que o próximo ano será diferente. Que mudaremos. Que, dessa vez, faremos as escolhas certas. Mas a verdade é que somos criaturas de hábito, e nossos hábitos são destrutivos. O próximo ano será apenas uma extensão do que já vivemos, com um novo número no calendário para nos enganar.
Corremos sem parar, perseguindo metas que não escolhemos, acumulando dívidas, tentando ser algo que nem sabemos definir. Sucesso é ter mais, fazer mais, ser mais. Mas ninguém nos contou o preço: a nossa humanidade. Somos peças descartáveis em uma máquina que nunca para. Quando quebramos, somos substituídos.
O mundo está exausto. Você sente, não sente? Não importa onde você olhe, o desespero está ali. Em cada manchete, em cada rosto cansado na multidão, em cada silêncio que grita. Todos nós estamos tentando sobreviver, mas sobreviver não é viver. É apenas adiar o fim. E o que fazemos enquanto esperamos? Fingimos. Construímos sonhos frágeis, alimentamos esperanças que sabemos que nunca se realizarão.
Quando o relógio marcar meia-noite, quando os gritos de "Feliz Ano Novo" ecoarem, o que estaremos comemorando, afinal? A sobrevivência? A repetição de mais um ciclo vazio? A verdade é que estamos sempre celebrando o mesmo: a ilusão de que algo mudou. Mas o próximo ano será tão miserável quanto o anterior.
As crianças continuarão morrendo de fome. As guerras continuarão a destruir vidas. O planeta continuará sufocando. As redes sociais continuarão promovendo ódio disfarçado de conexão. O capitalismo continuará esmagando os mais fracos para alimentar os mais ricos. Nada disso vai mudar.
E, quando tudo terminar, quando o último ser humano desaparecer, o universo permanecerá indiferente. Não haverá memória, monumento ou lágrima para marcar nossa existência. Seremos poeira. E, no fim, talvez seja melhor assim: o silêncio absoluto, o vazio completo.
Até lá, seguimos mentindo para nós mesmos. Fingindo que há um propósito, um sentido, um motivo para continuar. Mas a única verdade é esta: o tempo, as tradições, as esperanças – tudo é uma distração. Um teatro para mascarar o vazio absoluto que é a existência. E, no fundo, o nada é tudo o que temos.










