Foi um pequeno festival onde tocaram as bandas que eram modinha naquela época, coisa que hoje em dia causa nostalgia e muitos comentários como “aquele tempo que tinha música boa de verdade...”.
Sim, hoje vamos voltar algumas décadas no tempo.
Era a primeira vez que Marcela e Fernando saíam juntos como namorados. O relacionamento - em sua fase mais “séria”, pelo menos - tinha começado há pouco mais de duas semanas e, por ter visto naquele dia de festival artistas dos quais ambos gostavam, decidiram que iriam.
- Meu Deus, eu não acredito que estou aquiiiiiiiiiiii! - Marcela comemorou assim que passou da catraca e girou com os braços abertos, respirando o ar que ela estava considerando fresco e fazendo a saia do seu vestido verde claro florido girar - Nando, olha que maravilhoso!
- Bem, maravilhoso… - Fernando tinha suas dúvidas, pois o espaço não estava tão bonito como anunciado em alguns veículos de comunicação. O gramado parecia seco, alguns buracos tinham sido feitos para que tendas, que já tinham sido removidas àquela altura, fossem montadas e o que salvava o visual era a mistura das cores das roupas das pessoas, o maior palco que ele já tinha visto na vida e a localização, pois a parte de trás do palco tinha vista para o mar, por mais que a praia em si ficasse a mais ou menos vinte minutos de caminhada.
Outra coisa que compensava qualquer expectativa frustrada sobre aquele lugar era ver Marcela tão feliz. Ainda não estava acostumado com a miríade de sensações que tinha só de olhar pra ela, mas gostava do frio na barriga, do coração acelerado e do sorriso que surgia sem que ele percebesse e de todas as outras coisas que ele não conseguiria descrever.
- Vamos procurar um lugar pra ficar! - Marcela voltou e o puxou pela mão.
Os dois correram pelo gramado ressecado, passaram pelas barracas e tendas, viram onde ficavam barraquinhas de comida, apesar de existirem vendedores de praticamente tudo transitando entre as pessoas anunciando seus produtos e os valores.
- Fernandinho? - uma vendedora de bijuterias artesanais parou à frente do casal, com um sorriso bastante animado.
- Oi, Leo! - Fernando sorriu, apesar da surpresa, e a cumprimentou com um abraço - Leo, essa é a Marcela, minha namorada, Marcela, essa é a Leo, namorada do Paolo.
- Tudo bem? - Leo abraçou Marcela com certo cuidado para que seu mostruário não batesse nela.
- Tudo ótimo! - Marcela já tinha ouvido falar de Leonora. Stella, mãe do seu namorado, tinha comentado algumas vezes sobre ela e recomendado que as duas se conhecesse, pois achava que poderia nascer uma amizade legal entre elas - Que bom finalmente te conhecer!
- Isso é sinal de que tem gente falando de mim, hein?! - Leo olhou para Fernando e riu quando ele deu de ombros - Se for propaganda, já sei que é coisa da dona Stella…
- Quem mais poderia ser? - Fernando riu. Sua mãe era uma das pessoas mais positivas que ele conhecia e Leo correspondia a essa energia, o que a fez ganhar muita simpatia por parte da família - Mas e aí, vai ficar para os shows?
- Pode ter certeza disso! - Leo acenou tão vigorosamente com a cabeça que as miçangas e pequenas conchas presas em seus longos cabelos castanhos produziram um leve tilintar - Só vou terminar de vender minhas bijus e volto para aproveitar.
- São lindas, por sinal… - Marcela comentou. Tinha se encantado com um par de brincos feitos com miçangas amarelas, laranjas e vermelhas - Quanto custam esses?
- Pode ficar com eles… - Leo se apressou em tirá-los do mostruário improvisado, que consistia em uma tela de pintura de mais ou menos 50x60cm., tingida em alguns tons de azul, verde claro e magenta - É o meu presente de boas-vindas à família.
- Verdade? - Marcela pegou os brincos com cuidado e olhou comovida para Leo, que assentiu animada - Nossa, obrigada! Eu amei mesmo…
- Imagina! - Leo sorriu, voltando a pendurar a alça do seu mostruário no ombro e pegando o tubo de papelão onde ela expunha pulseiras coloridas também feitas à mão de dentro de uma grande bolsa roxa de crochê - Preciso ir. Vejo vocês mais tarde!
- Foi um prazer conhecer você, Leo! - Marcela acenou animada enquanto Leo se afastava. Logo em seguida, tirou as argolas douradas que estava usando e colocou seus brincos novos - Ficou bonito?
- Qualquer coisa em você fica linda… - Fernando sorriu enquanto Marcela procurava um espelhinho em sua bolsa.
O primeiro show começou exatamente às seis da tarde. Como era verão, o dia ainda estava claro e alguns raios alaranjados de sol confundiam a visão, mas não desanimavam o vocalista da banda de rock, que, apesar do ritmo animado da música, cantava desilusões amorosas e suas insatisfações, fazendo todos dançarem como bem entendiam, sem se importarem com comentários ou olhares de desaprovação, apenas focados em se divertirem.
- Espero que essa tenha ficado boa, estou tremendo demais! - Marcela ria enquanto guardava sua máquina fotográfica na bolsa e abraçando o namorado quando o cantor anunciou uma música nova, para todos os corações apaixonados.
- Você tem certeza de que essa vai ser uma música lenta? - Fernando perguntou sem muita certeza, com um sorriso de canto de boca, mas abraçou Marcela pela cintura - Vai que começa um rock pauleira e a gente aqui abraçados no meio da confusão?
- Você é ótimo… - Marcela riu, apoiando a testa no ombro do Fernando e logo se ouviu a melodia tranquila de um violão, para completo alívio do rapaz.
- Pronto, agora faz sentido… - ele disse, percebendo que os dois se balançavam no ritmo da música.
Apesar do casal fazer o tipo do que conversava até quando falta assunto, aquele foi um momento em que os dois se entenderam no silêncio. Marcela estava confusa com seus sentimentos, nunca tinha conhecido alguém como Fernando e gostava de como ele parecia entendê-la, de como os dois tinham interesses parecidos, apesar de serem de áreas muito diferentes, de como ele se deu bem com seus pais e irmão mais novo, mas tinha muito medo de se decepcionar, de não gostar do que pode encontrar quando terminasse a fase da paixão e, principalmente, medo de criar expectativas.
- Nando? - ela chamou, olhando para o seu rosto e percebendo que ele estava com os olhos fechados.
- Oi… - ele respondeu e seus olhares se encontraram.
- Nada não… - ela sorriu, se sentindo tranquila com a expressão daquele olhar…
Ela só não sabia porque aquilo aconteceu.
O dia de festival terminou por volta das duas da manhã. Marcela e Fernando decidiram ir à praia, acompanhando um grande grupo que incluía a Leo e Paolo, que não tinha ido para o festival, mas tinha ido encontrar a namorada e alguns amigos.
- Depois de um luau estranho desses, é melhor todo mundo dormir mesmo… - Paolo comentou, arrancando risos de todos, por mais que ele falasse sério. Não estava suportando instrumentos e vozes tão desafinadas.
- Hora de armar a barraca, galera! - uma das pessoas que estavam no grupo levantou os braços, aumentando as risadas e causando alguns olhares cheios de significados entre os casais e alguns “não casais”.
- Imagino que vocês não trouxeram nada, então, fiquem com isso aqui pra se proteger da areia… - Leo entregou uma canga a Fernando e Marcela, que já se levantavam para decidir como iriam pra casa.
- Obrigada, Leo… - Marcela acomodou a canga em seus braços e olhou para Fernando, vendo se existia a possibilidade dos dois realmente passarem a noite ali.
- Procuramos outro lugar, então? - Fernando sugeriu e Marcela concordou, indo com ele para mais longe do grupo.
No fim, a caminhada foi um pouco mais longa do que eles tinham planejado e os dois estenderam a canga que Leo tinha emprestado a eles em um ponto próximo a uma pedra.
- Andamos até demais… - Fernando comentou, firmando a ponta da canga com seus tênis e se sentando ao lado de Marcela, que prendeu os cabelos com um elástico vermelho.
- Cansei… - Marcela suspirou, se apoiando no ombro do Fernando - Só não sei se vou conseguir dormir nessa areia.
- A gente não precisa dormir… - Fernando disse, seu olhar distraído com o mar e sua voz soando bastante sugestiva.
- Fernando Guimarães… - Marcela riu só de imaginar o que seu namorado quis dizer - A última coisa que eu queria que acontecesse hoje era ser presa por atentado ao pudor.
- Até parece que a polícia apareceria aqui só pra ver se tem alguém transando… - Fernando riu, dobrando uma das pernas - Aliás, segundo um cara lá do trabalho, isso acontece.
- Credo! - Marcela fingiu um temor no corpo, aumentando os risos do Fernando, mas pensou no que tinha ouvido - Deve ser uma coisa muito constrangedora…
- Bem, o cara não se importou… - Fernando suspirou, apoiando uma das mãos na canga, buscando ficar mais confortável.
O dia começava a clarear e a conversa tinha diminuído. Fernando observava Marcela distraída com um fio que tinha se soltado da barra do seu vestido e concluiu que tinha se tornado um “Guimarães médio”, nomenclatura que ele mesmo tinha inventado e que tinha lutado muito para não usá-la ao se referir a si mesmo, pois estava empenhado em não entrar naquele padrão.
Um “Guimarães médio” geralmente era um homem que aparentasse uma certa seriedade, geralmente por ser introvertido (o que ele não era), com tendência a se apaixonar por mulheres extrovertidas. Tinha acontecido com seu avô, com um tio-avô, seu pai, a maioria dos seus tios e seu irmão mais velho. Por incrível que pareça, ele não teve a reação que imaginava que teria ao perceber aquilo, gostava de estar com Marcela e, apesar do namoro ter começado há pouco tempo, ele conseguia vê-los juntos por anos e anos.
Só não sabia se ela sentia o mesmo.
- Marce? - ele chamou suavemente, segurando sua mão.
- Oi. - Marcela se virou sorrindo. Gostava do apelido e de como ele soava na voz do Fernando.
- Nada não… - ele sorriu, desistindo de perguntar qualquer coisa. Ficou satisfeito com a sinceridade daquele sorriso.
Não era a melhor sensação do mundo?