Ex-votos e Salas de Milagres (por Jéssica Freitas)
Os ex-votos são objetos que advêm de manifestação religiosa exercida a partir da graça alcançada. É também denominado milagre e promessa. Adotando essa linha de raciocínio, temos os ex-votos das mais diversas tipologias, presentes nas salas de milagres do Brasil e no mundo. Os objetos podem ser fotos, imagens pictóricas, mechas de cabelos, objetos pessoais, esculturas entre outros, que se transformam em ex-votos, tornando-se mídia reprodutora, testemunho de fé e devoção de milhares de fiéis, movidos pelo alcance de suas graças.
Desses objetos são retirados significados que variam desde contestações de doenças a problemas amorosos ou agrários de um determinado lugar. Os ex-votos permanecem nas salas de milagres por um breve período, devido à quantidade de objetos e liberdade de informação, sintetizando assim um grande processo de comunicação, que engloba novidades constantes.
As salas de milagres possuem um sistema espontâneo, onde a comunicação percorre um ambiente formado pelo próprio povo, marcada por interesses particulares. Os objetos-testemunhos independem de suporte informacional, pois o objeto em si já traz a informação, que dá espaço para subjetividade dos observadores. Sendo assim, a partir dos ex-votos, é possível enxergar um ambiente de Constante fenômeno de mutação, como por exemplo, na teoria “O que é virtual” do autor Pierre Lévy.
A potencialidade dos discursos: um ensaio sobre Museu Virtual
O que é museu virtual?
Normalmente, o termo “virtual” traz consigo a ideia de algo vinculado à eletrônica e à internet. Assim, somos levados a pensar que “os museus virtuais se apresentam, por exemplo, tanto como páginas eletrônicas de museus existentes em ‘meio físico’, quanto como museus criados exclusivamente na internet.”¹ (MAGALDI, 2010, p. 5)
Para entender o que é “museu virtual” vamos analisar cada um dos termos que compõem essa expressão. Primeiramente gostaríamos de introduzir o conceito de museu pelo ICOM (2001):
"Instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para educação e deleite da sociedade.
Além das instituições designadas como “Museus”, se considerarão incluídas nesta definição: [...]
> Qualquer outra instituição que reúna algumas ou todas as características do museu, ou que ofereça aos museus e aos profissionais de museus os meios para realizar pesquisas nos campos da Museologia, da Educação ou da Formação.” (fonte: IBRAM)
Até então, a concepção de museu virtual como apresentado anteriormente permanece possível, pois um museu na internet ainda possuiria as mesmas funções e obrigações que um museu físico teria. Dando prosseguimento a nossa análise, gostaríamos de apresentar algumas conceituações de virtual:
VIRTUAL adj. Potencial; possível; suscetível de se realizar. (BUENO, p. 801, 2007)
VIRTUAL adj. Que não existe no momento, mas pode vir a existir; potencial. (AULETE, Caldas. iDicionário Aulete. Versão eletrônica)
Após a leitura dessas definições, ficou claro para nós que a ideia normalmente aceita como museu virtual, na verdade, não abrange o significado do termo presente no dicionário. O que geralmente ocorre é uma confusão sobre o que é virtual. Acredita-se que ele esteja na instância da imaterialidade, porém virtual, embora muitas vezes não esteja presente, é diferente de imaterial.
Os museus caracterizados acima, que se apresentam em páginas eletrônicas podem ser definidos como museus digitais, se tivermos como digital aquilo:
DIGITAL adj. Que é processado na forma de dígitos (algarismos) por microcomputador (biblioteca digital); Inf. Que tem o intervalo entre dois valores dividido num número finito de divisões. [Cf. nesta acp.: analógico.] (AULETE, Caldas. iDicionário Aulete. Versão eletrônica)
Essa diferenciação entre virtual e digital pode ser percebida mais claramente dentro do texto de Pierre Levy “O que é virtual?” O autor conceitua o digital como sendo um sistema fechado, limitado e não complexo, o digital é para ele não problematizável, enquanto que o virtual “é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização” (LEVY, 2011, p. 5).
É possível a existência de um museu realmente virtual?
A partir dessa conceituação sobre virtualidade e de outras definições apresentadas por Levy durante seu texto, gostaríamos de repensar a ideia comum sobre museu virtual, apresentando um novo significado a essa expressão. Logo começamos a nos indagar: o que faz de uma instituição museal virtual?
O ICOM, órgão internacional mais importante para a área de museus destaca como função das instituições museais a aquisição, conservação, investigação e exposição dos testemunhos materiais do homem, é a partir dessas atribuições que os museus desenvolvem suas atividades e é por perceber a importância desses testemunhos materiais que gostaríamos de refletir sobre eles sob a ótica de Levy e da virtualidade.
Os objetos presentes nos museus, em sua maioria, não são confeccionados para serem utilizados dentro da instituição. Essas ferramentas foram surgindo a partir de uma função física ou mental do próprio ser humano, que foi “separada” da experiência interior e materializada sob outra forma, um novo objeto (LEVY, 2011, p. 47). O objeto técnico virtualiza a ação, num contraponto que Levy faz com Marshall McLuhan, ele não é uma extensão do corpo, mas um acesso real a um conjunto indefinido de usos possíveis (conceito de virtualidade) (LEVY, 2011, p. 49).
É essa virtualidade do objeto que faz com que ele seja interessante para o museu, mais além de sua função técnica, um objeto carrega também consigo a memória longa da humanidade. “As casas, os carros, as televisões e os computadores resumem linhas seculares de pesquisa, de invenções e de descobertas” (LEVY, 2011, p. 65).
Embora cada peça seja uma materialização da inteligência coletiva, cada indivíduo que entra em contato com ela lhe percebe de uma maneira particular. Levy defende que embora todos façamos parte desta mesma inteligência, cada indivíduo possui um cérebro particular que percebe o mundo de acordo com seus relacionamentos. Peguemos por exemplo o caso dos ex-votos, um professor de artes terá uma interpretação diferente desses objetos em relação a um padre. Para explicar esse fenômeno Levy faz uma comparação do que ele chama de “máquinas darwinianas” ao que estudamos de Niklas Luhmann, cada indivíduo seleciona as informações e acopla o que mais lhe interessa e que lhe é possível acoplar devido aos seus relacionamentos, encarnando de sua própria maneira essa “história coletiva”.
Considerações finais
Diante desses conceitos, para nós, é a potencialidade dos objetos que faz um museu virtual. “O objeto marca ou traça as relações mantidas pelos indivíduos uns frente aos outros”(LEVY, 2011, p. 90) e o museu deve ser capaz de atualizar essas relações. O próprio Levy concorda que:
“poder-se-ia contar a história da humanidade, a começar por seu nascimento, como uma sucessão de aparecimentos de objeto, cada um deles indissociável de uma forma particular de uma dinâmica social. Então se veria que todo novo tipo de objeto induz um novo tipo particular de inteligência coletiva e que toda mudança social consequentemente implica uma invenção de objeto. Na duração antropológica, os coletivos e seus objetos são criados pelo mesmo movimento” (LEVY, 2011, p. 91).
Quando em seu discurso, em seu processo comunicacional um museu trabalha variando a abordagem de seu acervo, quando constantemente questiona o potencial de seu objeto, ele se virtualiza. Para nós não é a categoria do museu que interessa, mas sua relação com a criatividade, com a mudança e com o movimento (MAGALDI, SCHEINER, 2010, p. 21).
Os museus são casas que guardam e apresentam sonhos, sentimentos, pensamentos e intuições que ganham corpo através de imagens, cores, sons e formas. Os museus são pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes. Os museus são conceitos e práticas em metamorfose.
A metamorfose, a saída de uma atualização (acontecimento aqui e agora) para um campo problemático de questionamentos e mudanças, faz de um museu uma instituição virtual.
A sala de milagres não é museu. Porém, os museus de ex-votos nascem a partir das salas de milagres. São elas quem conduzem o público ao museu de forma direta, onde, os ex-votos da sala se tornam uma prévia do acervo do museu e indiretamente, em que conduz o objeto ao acervo concebendo, assim, o estágio cientifico do processo ex-votivo.
Apesar do museu ser fomentado pela sala de milagres o processo entre esse dois é oposto, enquanto na sala os objetos possuem um curto “tempo de vida”, pois os objetos não recebem nenhum tipo de preservação ou conservação, no museu existe uma coordenação dos ex-votos, em que ocorrem sistematizações, planejamentos e documentações de cada objeto.
O museu tem como função a preservação do objeto diferentemente é a sala de milagres, esta apenas armazena (guarda), enquanto aquele possui subsistemas que são: documentação, comunicação museográfica, educação e conservação.
Por conseguinte, para o público, o museu é um espaço de observação ao passo que a sala de milagres e um espaço em que o devoto reza e deposita o seu ex-voto em retribuição a sua graça alcançada.
No museu é necessário além do estudo do objeto, a conversão do próprio objeto em mensagem. Tonando o ex-voto em um documento testemunho.
No Brasil
Existem várias salas de milagres espalhadas pelos Estados brasileiros. Entretanto, para os museus, há diferenciações tipológicas entre acervos, uma na tipologia museológica e a outra na relação com os santuários.
Alguns santuários possuem acervos diversificados, além dos ex-votos, existindo uma espécie de sistematização entre as salas de milagres, onde o devoto não pode depositar o seu ex-voto de forma espontânea.
Os Museus abrigam categorias como, arte cristã sacra, cultura popular em geral, dentre outros. Já nos Museus do Santuário de Aparecida e no Bomfim, como por exemplo, a categoria do acervo é restrita aos ex-votos, em que, o devoto coloca o seu ex-voto em um local sinalizado para triagem.
Acerca do que foi dito acima pode-se perceber a nítida diferença entre Museus de Ex-votos e Museu com Ex-votos.
Museu Digital e Ex-votos
Existem alguns projetos com Museus Digitais,em que, o acevo dos ex-votos através dessa “ferramenta” de comunicação que é a Internet age de maneira interativa, facilitando pesquisas, divulgações e até mesmo acessibilidade. Como é o caso dos santuários baianos: São Lázaro, Bom Jesus da Lapa e Nosso Senhor Bom Jesus do Bomfim.
O Núcleo de Pesquisa dos Ex-votos (NPE) advém do Projeto Ex-votos do Brasil, fomentado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com o objetivo de manter uma base de estudos dos temas que norteiam a folkcomunicação, a religiosidade popular, a documentação museológica nas salas de milagres e museus, a memória social, a teoria da comunicação e da informação e a cibercultura, com grupos diversos de pesquisa.