Poderia ser mais uma sexta-feira de um ano qualquer na minhavida. Poderia ser mais um daqueles feriadões que eu fico em casa vendo um filme e esperando comer algo diferente, ou ir à casa de algum parente. Poderia, mas não é, pois é a minha penúltima sexta no Brasil antes de eu me jogar na jornada de ir para o Canadá, sem saber se eu volto daqui a quatro meses ou daqui a nove.
Na verdade é como se eu estivesse começando um livro e quem fosse escrever a história fosse eu. É tão estranha essa sensação, como se eu pudesse ser quem eu quiser, afinal: eu estou indo para um país onde eu conheço ninguém. Quem vai dizer que meu nome, ao invés de ser Y, na verdade é X?
E sabe o peso de todos os conflitos familiares? É como se eu pudesse me livrar de todos eles. Sim, para quem nasceu fardado a ter muitos dilemas familiares, fazer uma mudança como essa - de ir para outro país - é como nascer de novo. Nunca me senti tão livre em toda a minha vida.
Em contrapartida, eu mudei. Eu pensei e repensei sobre todos os meus problemas familiares. Dessa maneira, esse sentimento de “recomeçar” também mudou. Verdade seja dita: eu nunca me senti tão eu, com todos os defeitos, qualidades e história de vida. Assim, eu criei vínculos na busca para encher ainda mais minha história, mas dessa vez de forma positiva. Eu fiz amigos, eu explorei lugares na cidade em que nasci, eu aceitei mais quem eu sou e, em grande parte, isso tem a ver com o fato de que eu entrei na faculdade e me tornei maior de idade.
Entrar na faculdade me deu a sensação de terminar um ciclo e começar outro que é muito mais concreto. Isso também se deu ao fato de eu ter entrado em uma universidade pública, porque eu sei que nada me tira de lá. Então eu, pela primeira vez, me vi em uma situação confortável, sem ter que sempre pensar em algo e correr atrás. Isso deu margem para que eu me abrisse mais. Comecei a desabrochar.
Aceitar mais quem eu sou me deu confiança. Falar sobre a minha história pode doer às vezes, porém não faz mais eu me senti envergonhada. Eu assumi quem eu era e isso se refletiu tanto na minha sexualidade como no modo como eu me relaciono com as pessoas, porque não tinham mais aquelas mágoas guardadas (ok, confesso que não estou 100% “curada”).
E então todos esses ganchos acima resultaram em eu me apaixonando. Não, mais que isso: eu amando. Não que eu nunca tivesse sentido isso antes, é só que agora isso era mais concreto e não tinha mais medo. Fluiu como uma pluma, apesar dos apesares – ainda estamos aprendendo, amadurecendo e crescendo, dia após dia... fora que amar não é fácil.
Não, amar não é tão fácil quanto parece. Amar requer muitas coisas: desde lidar com o diferente (cada um tem o seu jeito), até aprender a lidar com reflexos de uma família conturbada, pois na minha mente era como se eu pensasse que tudo aquilo pudesse acontecer comigo, como uma maldição mesmo. Assim eu me fechava para um relacionamento com outra pessoa.
Não sei se ficou claro o que tanto me entristece no momento. Se não ficou claro, aqui vai o spoiller: eu finalmente amei e me entreguei para sentir isso e agora eu estou indo embora. O sonho de garota foi realizado e em um momento bem inoportuno. Dessa maneira, a cada 15 minutos que eu passo me sentindo bem porque vou realizar um sonho, tem 20 minutos para me fazer ter vontade de desistir de ir. A vontade de ficar nunca foi tão grande.
Somado ao amor ainda tem o sentimento de companheirismo, de amizade, de união, de família e de todos os sentimentos bons que você, caro leitor, conseguir imaginar. Eu nunca fui tão feliz e nunca me senti tão completa. Fora isso vem o sentimento de se sentir mais adulto, mais sobre o controle da própria vida e cada vez mais ser você mesmo. Abrir mão de tudo isso, que no fundo nós sempre desejamos, não é fácil.
Então aqui estou eu, escrevendo na sexta-feira santa depois de ter uma discussão estúpida (e ridiculamente engraçada) com a pessoa que faz, pela primeira vez, eu querer ficar, plantar raízes aqui onde estou e construir a minha história – que eu espero que também tenha a outra pessoa como participante direto nela. Dizer “até logo” nunca foi tão difícil.
Alguns podem dizer: “Esse sentimento passa, assim como a saudade”; “depois você acostuma”; “você não sabe o que pode acontecer... tudo pode mudar entre vocês”; “é melhor terminar, porque vocês não vão aguentar”. Se existe uma coisa que eu tenho certeza nesse momento da minha vida é: eu quero voltar. Eu quero poder construir toda a minha história sem tirar nada, com raízes aqui onde estou ou não, pois eu consegui aprender uma coisa crucial na vida: o lugar em que você estiver vai estar vazio e sem sentido se você não estiver ao lado da pessoa que faz o seu mundo desvirar.
Eu achei a pessoa que faz com que eu desvire meu mundo. “Ah, mas você é muito nova para dizer isso” – e eu já não tive que aprender muita coisa ainda nova? E eu sobrevivi. Na verdade eu nunca me senti com a idade que eu realmente tinha. Como eu vou estar quando eu voltar, eu não sei. Entretanto sobre algo eu sou convicta: eu posso estar com o cabelo grande ou curto, louro ou moreno; eu posso estar com uns pesos a mais ou a menos, mas meus sentimentos não vão ter mudado.
Sentimentos não mudam tão facilmente como nossas características físicas, por exemplo. Quantas pessoas não continuam gostando de outras apesar de todo o tempo separadas? Eu não subestimo a minha capacidade de amar, de sentir. Se eu não desisti do sonho de ir para o Canadá, mesmo depois de 4-5 anos de espera, é óbvio que eu não vou desistir de algo que eu sinto, que me faz muito bem, e que vale mais que qualquer outra coisa que podemos adquirir neste mundo.
Pois sentir algo tão forte por alguém não acontece a cada esquina e muito menos todo momento. Esse tipo de sentimento vem sorrateiro, quando ninguém está olhando e esperando, na espreita do momento certo. E qual é o momento certo ninguém sabe. Então eu não sou idiota de deixar tudo o que eu sinto se perder em outros sentimentos como o medo – medo de se machucar, de se decepcionar e de tantas outras coisas. Eu já vivi por muito tempo com medo. Agora eu quero amar... você.
Então, toda vez que bater uma insegurança, um medo e várias vozes parecerem falar na sua mente, lembre-se de todo esse extenso texto. Lembre-se de todos os momentos bons que tivemos, lembre-se de cada palavra que eu já te disse; lembre-se de como aprendemos e crescemos juntas (olha quão longe chegamos!); lembre-se de cada manhã que acordamos juntas, agarradinhas; lembre-se de cada particularidade que possuímos e que são moldadas para nos encaixarmos cada dia mais. E não esquece.
Eu faço questão de usar tudo o que a tecnologia disponibilizar para ficar perto e ao mesmo tempo longe de você, infelizmente. Mas é por tempo limitado essa distância e logo eu estarei de volta. E, apesar de toda a mudança que vai ter ocorrido - e tudo o que vai ter acontecido enquanto estivemos distantes uma da outra -, vai parecer que morávamos na mesma cidade e nos falávamos todo dia, porém não podíamos nos ver (como se fossemos amigas virtuais). E quem, dessa geração, nunca teve uma experiência de relacionamento como essa, seja de amizade ou de algo a mais? É a tecnologia marcando presença até na nossa forma de se relacionar. Entretanto, quem vai dizer que não é uma forma válida de sentir algo por alguém?
Dessa forma, querida, não se esqueça de todas essas palavras. Pode ter certeza que eu não me esquecerei – e você sabe que quando eu me agarro a algo, eu me agarro mesmo (oi, sou taurina!). E não se esqueça: cante alto o bastante que eu vou cantar de volta para você; nós não estamos acostumadas a essas distâncias, que são tão longes que não dão para se medir em voz alta, mas ninguém é tão sortudo quanto nós e não, nós não estamos no fim. Nós não estamos acostumadas, porém vamos aprender, pois isso não é nada e eu nunca fui tão feliz.