Eu não consigo vibrar minhas cordas vocais e me encaixar nas tuas expectativas, só escuto o som abafado da tua voz e me transponho na tua conversa fiada ao invés de ouvi-la.
_Poesia Miúda
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@poesia-miuda
Eu não consigo vibrar minhas cordas vocais e me encaixar nas tuas expectativas, só escuto o som abafado da tua voz e me transponho na tua conversa fiada ao invés de ouvi-la.
_Poesia Miúda
Diálogo ao léu
Te nomeei
Não quererei esquecer de ti
Nem das memórias que te formam em mim
E apesar de esquecer
Sinto que devo lhe dizer que não foi porque eu quis
E que espero que antes que se esqueça de mim
Lembre-se disso.
_DiCastro
Eu devia ter vacilado mesmo
Devia ter observado
Eu devia ter esperado, não sentado
Ele sempre chega, não devia ter antecipado
Eu devia ter agido, não reclamado
Não devia ter fugido e sim encarado
Eu devia ser ousado
Lamentado menos
Devia ter escutado
Querer conhecê-los
Eu devia mesmo
Devia ter me importado
Oposto existem, não devia ter ignorado
Devia ter abraçado mesmo
E não me enforcado
Eu devia ter falhado um tanto
Pelo tanto que eu devia fazer
Devia me debruçar
Caçar
Por baixo dos sapatos, sim
Por ter pisado, diversas vezes, na minha "vontade de querer"
O que eu devia, era não dever tanto, para o tanto que eu poderia fazer
Mas eu só devia
Desnorteado
Não vejo estação onde dever.
_DiCastro
Criança vendada
Atrás de si, escondida
Acorrentada ao medo
Apreendida pelo desespero
Sentindo-se solitária
Adolescente triste e desencorajado
Inseguro e sufocado
Insatisfeito e irritado
Adulto
Atrás dos próprios receios
Negando qualquer anseio
Estagnado
Numa estação fria
Faz morada
Trancado num quarto vazio
Parado diante de um pensamento nada varonil
Velho
Não dá pra negar o desmazelo
Seria um caso perdido se fosse um caso isolado
Seria exagero dar amparo
Seria irrelevante se passasse de um caso inventado
Se não identificou o sarcasmo
Você entendeu errado
_DiCastro
Sou teu trevo de três folhas.
_DiCastro
Paz tem aquele que deita e dorme, seja ela fruto de uma hipocrisia ou de uma mente que já não deseja nada.
_DiCastro
Bobagem nada, essa história que ignorar o que sente faz com que você se sinta melhor, é recontada perdidas vezes. Que no equilíbrio da cabeça e do tal coração você será reconstituído, é a chave para deixar de sofrer, é o que dizem. Tem sentimentos que arrebatam.
Não é uma nuvem volátil, é palpável mesmo não se dispondo ao alcance tátil. Sente, por que eu sinto, arder por dentro, embaçar a vista, prender o peito, descarada, ironiza cada pretensão de obter o controle ou uma garantia. Por que não se esvais, não cedes? Por que incita, morna, sem iniciativa? Por um fim, por fim, não insista.
_Dicastro
Preciso me sentir
Solta no verso
Nua ao avesso
Se não eu me esqueço
Como é caber em mim
DiCastro
Eu me admiro que espelho mostre só o que eu quero ver.
_Scalene
"Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão; tranquilidade e inconstância; pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer... Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca."
_Clarice Lispector
Afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome...
_Caio Fernando Abreu
Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm
_Oswald de Andrade
Eu sinto que minhas palavras não tocam. Sinto que elas alçam vôo e perdem vida a cada vírgula do que seriam. Sinto pelos "as" meus ignorados. Sinto que minhas palavras flutuam na tua mente, que sequer se preocupa em se dispor a resgatá-las. Mesmo que fosse para vomitar desconsideração. Sinto elas alcançando o estado de ebulição.
Rodeando a sintonia
Impaciência, frustração
Sinto tanto querida
Por não ceder à compreensão
De que tudo que em ti via
Palavras minhas
Vivas, veias
Insistentemente ficarão
_DiCastro
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
_Clarice Lispector
Vamos, prorrogue
Ateia fogo nisso
Vamos, incite
Cata sem jeito, vamos
Se faça
De toda a faísca que vez ou outra arde em ti decepção
Por toda a faísca que vez ou outra não alcança o chão
Vamos, prorrogue.
DiCastro
Daquilo que chamam de intervalo
Do momento
Silêncio do mundo
Me atrevo uns segundos
A te admirar
Recuo no instante
Que percebo o absurdo
Daquele segundo que ia te entregar
Termina por mim
Pois sentido se arrasta
A noção que não se faça
Ao menos se repita
De um todo, mudo
De uns segundos tolos
Que ainda vejo graça
Dicastro
Eu poderia ter dito sim.
Não que a curiosidade quisesse saber o que se arrastaria depois disso, nem mesmo se lamenta. Apenas reconheço o que poderia ter feito.
Dicastro