A Ilha do Conhecimento
Capítulo conclusivo do livro "A Ilha do Conhecimento", do Marcelo Gleiser (pg. 325 - 332).
"A grandiosa narrativa da ciência deve ser celebrada como um dos grandes feitos do intelecto humano, um testemunho da nossa habilidade coletiva de criar conhecimento. A ciência responde à necessidade que temos de compreender quem somos, as nossas origens e o nosso destino, abordando questões tão antigas quanto a própria humanidade, questões que vêm inspirando o pensamento de artistas, filósofos, poetas e santos desde os primórdios da civilização. Precisamos saber quem somos; precisamos saber onde estamos e como chegamos aqui. A ciência ilumina nossa busca por sentido, expressando nossa humanidade mais profunda. Queremos luz, sempre mais luz.
Se a razão é a ferramenta que usamos na ciência, não é a sua motivação. Nosso objetivo não é apenas entender o mundo coletando dados, criando modelos. Nossa busca nos define: a paixão e o drama, os desafios, a sensação tão especial do momento da descoberta, o desespero do fracasso, a urgência que temos de prosseguir, a sensação sedutora de que sabemos tão pouco, que grandes revelações nos esperam, escondidas além da Ilha do Conhecimento, em meio ao misterioso Oceano do Desconhecido.
Procuramos compreender a Natureza da melhor forma possível, com nossos modelos e aproximações, nossas descrições, metáforas, imagens e analogias, munidos de nossas ferramentas e intuição. A ciência é uma busca sem fim, sem um objetivo final. Ao aprendermos mais sobre o mundo, confrontando teorias com dados, avançando e nos aprofundando, realizamos que nossas respostas são passos que podem ir tanto para a frente quanto para trás: a Ilha do Conhecimento ora cresce, ora diminui. Vemos sempre mais claramente, mas nunca claro o suficiente.
A esperança de que podemos atingir o conhecimento total é muito simplista. A ciência precisa falhar para avançar. Queremos certezas. Mas, para crescer, precisamos abraçar as incertezas. Estamos cercados por horizontes, pela incompletude. Vemos apenas sombras nas paredes de cavernas. Por outro lado, a existência de limites não deve ser vista como um obstáculo intransponível. Limites são oportunidades, alavancas que nos ensinam algo sobre o mundo e sobre nós mesmos, que nos incentivam a prosseguir na busca de respostas. Sem limites, não poderíamos saber quem somos, não poderíamos tentar ir além. Limites expandem as possibilidades de quem podemos ser. O mesmo processo de crescimento que vemos na ciência - para a frente, para trás, mas sempre avante - identificamos nas nossas buscas individuais. O dia em que nosso medo nos impedir de explorar o desconhecido será o dia em que pararemos de crescer.
A ciência é mais do que o conhecimento acumulado do mundo natural. É uma visão de mundo, um estilo de vida, uma aspiração coletiva de crescermos como espécie em um cosmos repleto de mistérios, de medos e encantos. A ciência é o cobertor com que cobrimos os pés à noite, a luz que ligamos no fim do corredor, o mentor paciente que nos lembra do que somos capazes quando trabalhamos juntos. Que a ciência é usada tanto para o bem quanto para o mal não reflete a ciência em si, mas a precariedade da natureza humana, a tendência que temos tanto para criar quanto para destruir.
Ao investigarmos a Natureza e seus fenômenos, é bom lembrar que quando a Ilha do Conhecimento cresce a sua circunferência também cresce, delimitando nossa ignorância, a fronteira entre o conhecido e o desconhecido - o Oceano do Desconhecido se alimenta dos nossos sucessos. Também é bom lembrar que a ciência cobre apenas parte da Ilha, que existem muitos modos de saber e que estes podem, e devem, complementar-se e inspirar-se mutuamente. Embora as ciências físicas e sociais sejam capazes de iluminar muitos aspectos do conhecimento, não têm como missão responder a todas as perguntas. Nada diminuiria mais o espírito humano do que restringir nossa criatividade a uma única esquina do conhecimento! Somos criaturas multidimensionais e buscamos respostas de muitas formas. Cada uma tem o seu propósito e precisamos de todas elas. Dividir uma taça de vinho com uma pessoa amada é mais do que simplesmente a química que descreve sua composição molecular ou a física de sua consistência líquida e da luz refletida pela sua superfície e pelo vidro, ou a biologia da fermentação, ou mesmo nossa resposta sensorial a todos esses estímulos. A isso tudo temos que adicionar a experiência da bela cor rubi, o prazer da companhia, o brilho nos olhos da pessoa do outro lado da mesa, a batida mais rápida do coração, a emoção de dividir um momento tão especial. Mesmo que todas essas reações tenham uma base cognitiva e neuronal, seria um erro reduzi-las a um conjunto de dados. A integração dos estímulos é essencial e seu efeito irredutível à soma das partes. Pois representa o que significa estarmos vivos, nossa busca de respostas, de companhia, de compreensão, de amor.
Nem todas as perguntas têm resposta. Imaginar que a ciência tenha todas as respostas é diminuir o espírito humano, amarrar suas asas, roubando-lhe de sua existência multifacetada. Dado o que aprendemos neste livro sobre os limites do conhecimento científico, sabemos que as respostas são menos importantes do que as perguntas. Uma coisa é buscar por respostas científicas sobre nossas origens, sobre o nosso destino, sobre o que significa ser humano neste Universo, neste planeta, nesta geração. Isso devemos sempre fazer. É o que tenho feito durante minha carreira como cientista. Outra coisa é acreditar que a busca tenha um fim, que o Oceano do Desconhecido seja limitado e que a ciência, sozinha, possa mapear os seus confins. Seria muita arrogância de nossa parte imaginar que podemos decifrar todos os mistérios do mundo natural, como se fossem bonecas russas, uma dentro da outra até chegarmos à última. Aceitar que o conhecimento é incompleto não é uma derrota do intelecto humano; não significa que estamos entregando o jogo, desistindo. Significa que estamos enquadrando a ciência como uma atividade humana, falível mesmo que poderosa, incompleta mesmo como melhor ferramenta para descrever o mundo. A ciência não reflete uma verdade divina, existente em um domínio platônico de perfeição e beleza. A ciência reflete a inquietude humana, nossa necessidade de ter algum controle sobre o tempo, sobre o misto de veneração e temor que sentimos quando confrontamos a imensidão do cosmos.
Não sabemos o que existe além do nosso horizonte; não sabemos como pensar sobre o estado inicial do Universo ou como obter uma descrição determinística do mundo quântico. Esses desconhecidos não são apenas um reflexo da nossa ignorância atual ou dos limites dos nossos instrumentos de exploração. Eles expressam a própria essência da Natureza, contida na velocidade da luz, na direção fixa do tempo, na aleatoriedade e na não localidade intrínsecas ao mundo do muito pequeno. Existe uma diferença essencial entre o "não saber" e "não poder saber". Mesmo se encontradas, explicações para esses desconhecidos teriam um alcance limitado. A menos que seja possível viajar mais rápido que a luz, não poderemos explorar o que existe além do horizonte. Qualquer resposta científica sobre o estado inicial do Universo depende necessariamente do arcabouço conceitual que define o funcionamento da física - campos, leis de conservação, incertezas, a natureza do espaço, do tempo e da gravidade. De forma mais geral, qualquer explicação científica é necessariamente limitada.
Entendo que para alguns seja difícil aceitar que essas limitações não roubam a beleza da ciência, enfraquecendo seu poder explanatório. Esse tipo de atitude, porém, baseia-se em uma visão antiquada, segundo a qual a ciência é o herói que conquistará todos os mistérios, uma visão inspirada em um objetivo falso, que nos permite compreender o mundo por completo, onde todas as perguntas têm respostas. Pelo contrário, ver a ciência como de fato é, não como algo idealizado, acaba por torná-la mais bela, mais real, alinhando-a ao resto dos frutos da criatividade humana - pluralista, surpreendente e imperfeita.
Mesmo à nossa volta, no nosso território imediato, vemos apenas uma fração do que existe. Estamos cercados de matéria escura, de energia escura; a matéria da qual somos compostos é apenas 5% da matéria total do Universo. Neste momento na história do pensamento, estamos mais uma vez cercados por materiais indefinidos e etéreos. Mesmo que nossos instrumentos continuem a evoluir (o que certamente ocorrerá), mesmo que finalmente sejamos capazes de desvendar o mistério da matéria escura e da energia escura (o que imagino que ocorrerá), ainda assim estaremos limitados pela informação que podemos detectar. O inesperado existe à nossa frente, invisível, com o potencial de transformar nossa visão de mundo.
O mapa que chamamos de realidade é um mosaico de ideias em constante transformação.
Mais uma vez, veja que minha posição está longe de ser derrotista. A lição aqui é que devemos sempre continuar a buscar. É a busca que nos dá sentido, saber que a cada nova descoberta encontramos novos mistérios. Conforme exploramos aqui, aceitar os limites do conhecimento não implica passividade intelectual; implica, sim, compreender como a atração humana pelo mistério alimenta nosso apetite pelo novo.
Como nossos ancestrais, devemos aceitar com humildade a grandiosidade da nossa missão. É nossa veneração pelo saber, nossa busca por sentido, que liga nosso passado ao nosso presente e que nos propele em direção ao futuro, seduzidos pela beleza oculta do desconhecido. Vamos abraçar nossa imperfeição, a incompletude do saber, celebrando nossa compulsão para ampliar a Ilha do Conhecimento, trazendo um pouco mais de luz para iluminar o caminho adiante. Lutar contra a morte da luz; continuar a brilhar, é isso o que importa. É para isso que estamos aqui."


















