[Flashback] A song of ice and fire | Harrison Flint
O silêncio era ensurdecedor. Não pelas risadas e conversas escutadas há metros de distância, pelos outros alunos que sequer sabiam o que estava acontecendo ali, na árvore mais distante do castelo e mais próxima do lago negro. Não também pelo som da grama congelando, num tintilar que parecia não ter fim. Talvez porque ecoasse na mente de Harrison juntamente com todas as perguntas que faziam, daquele, o pior silêncio entre os dois em anos. Como ela havia feito aquilo? Entreabriu os lábios, a pergunta parecia pronta para ser verbalizada, mas era como se sua garganta também estivesse congelada e as palavras já não conseguissem mais se mover.
Entrelaçou as dedos ossudos uns nos outros e começou a mover as mãos nervosamente, enquanto esperava que o iceberg que o impedia de falar descongelasse, tal qual a grama faria conforme os dias passassem. A observou segurar uma pequena flor congelada. Parecia uma pequena escultura de gelo, não acreditaria se dissessem que aquela era uma flor de verdade. E que o tom amarelado que transluzia pela crosta de gelo não havia sido confeccionado com magia. Acreditaria muito menos se dissessem que sua única amiga tinha a capacidade de congelar o gramado sem o auxílio de uma varinha.
Engoliu a seco, enquanto desentrelaçava os dedos lentamente, esticando-os numa curiosidade medrosa até o gramado. Primeiro, tocou a grama esverdeada e viva, aquela que estava acostumada a ver durante quase todas as estações do ano. Em seguida, continuou a deslizar os dedos que, trêmulos, tocaram a parte congelada. Sua pele ardeu pelo contato com a superfície fria. – H… How? – Mantinha o olhar fixo no gramado branco, sem a capacidade de encarar Elsa naquele momento. Não por medo, mas por sentir-se patético ao perguntar. Ele deveria saber, não deveria?
ㅤㅤㅤㅤㅤEra tão atípico, esse silencio de Harrison, que Elsa se pegou desejando por barulhos. Geralmente, sua mente procurava pela quietude, reclamando mal humorada quando o amigo continuava a contar-lhe coisas que não detinham sua atenção. ㅤㅤㅤㅤㅤPorém, naquele momento, ela sentiu um impulso muito forte de sacudí-lo para saber que não havia quebrado. Como quando se dá um grande tapa em uma antiga vitrola que transmite apenas estática, esperando que ela, então, volte com a música. ㅤㅤㅤㅤㅤA flor de cristal por entre seus dedos permanecia intacta. Elsa tinha receio de respirar um pouco mais forte e estilhaçá-la em mil pedaços. ㅤㅤㅤㅤㅤNaquele momento, a flor se tornou a amizade deles. Ela a segurava com todo o cuidado do mundo e tinha consciência de sua fragilidade. Podia permanecer por entre seus longos e finos dedos como uma eterna escultura de cristal, ou também podia se desfazer sob o mais delicado dos toques. ㅤㅤㅤㅤㅤHow?, ele sussurrara em meio a um gaguejar. ㅤㅤㅤㅤㅤ(I have no idea. I was born this way.) ㅤㅤㅤㅤㅤEla se resignou aos soluços secos que sacudiam seu peito com violência e o silêncio retornou a pesar por sobre seus ombros. ㅤㅤㅤㅤㅤ“Say something... Please” sussurrou, ainda com os olhos nas nuances de vermelho que se estendiam por debaixo da fina camada de gelo a envolver a flor. “Run away if you feel like it, scream and tell everyone what a monster I am. But… Please, wallflower. Enough with this awful silence.”







