1º ANIVERSÁRIO DO MEU DIAGNÓSTICO DE AUTISMO (Contando sobre todo o processo: antes, durante e depois do diagnóstico)
Há 1 ano e alguns meses, eu estava deitado na minha cama chorando muito por causa da minha inabilidade de comunicação e de interação social, pois até então não compreendia o motivo disso, e não saber socializar e fazer amigos me deixava angustiado. Pensava que isso era só por ter algo errado comigo, que eu só era esquisito mesmo, e me sentia horrível por ser assim, por não conseguir ter habilidades sociais básicas, que pra todos sempre pareceu tão fácil, só pra mim não era. Não conseguir ter conversas "normais", agir de forma "normal", me aproximar e fazer amizades de forma "normal", como todo mundo faz de forma tão natural.
Eu não sentia que era apenas tímido, sentia que era mais que isso, pois até as pessoas tímidas do meu convívio depois de certo tempo se abriam e suas habilidades sociais se mostravam dentro do normal, só levava um pouco mais de tempo pra isso ocorrer em relação às pessoas extrovertidas. Mas comigo... parecia que o tal tempo em que as minhas habilidades sociais se revelariam jamais chegava. Por muito tempo me senti assim, me senti errado, me senti um fracasso na socialização e na realização de algumas outras coisas consideradas básicas e naturais pra todo mundo. E foi então que aconteceu...
Há exatamente 1 ano atrás, eu recebi o meu diagnóstico. Foi uma surpresa, e ao mesmo tempo não foi. Eu sempre vivi com um misto de certeza e dúvida em relação à minha possível condição. Um lado de mim dizia "tem algo contigo, não é só timidez", mas o outro também dizia "não tem nada não, se tivesse seria muito evidente, é besteira tua". A palavrinha "autismo" já havia passado de relance pela minha cabeça nos momentos em que me sentia um fracasso por não saber socializar, mas nunca me moveu a realmente pesquisar e investigar, pois assim como uma boa parcela das pessoas, eu também pensava que autismo era só aquele clássico, de grau moderado a severo, então eu não sabia que autistas também podiam ser de grau leve, não sabia que existiam esses autistas que chegam a "parecer" neurotípicos, e por isso nem cogitava pesquisar e acreditar mesmo na possibilidade de que eu pudesse ser, mesmo que a ideia passasse pela minha cabeça de vez em quando. E com isso, eu também nunca cheguei a me autodiagnosticar, nunca fui pesquisar os traços do autismo, então não sabia que os meus traços e experiências se enquadravam perfeitamente na condição. Mas muitas vezes desejei esse diagnóstico, a verdade é que eu sonhava muito com ele, sonhava em haver uma explicação lógica, um motivo para eu ser do jeito que sou, mesmo não acreditando mesmo que fosse acontecer. Quando o sonho se tornou realidade, foi um momento muito estranho para mim, mas um estranho bom! Eu levei um tempinho para entender que era realidade, pois realmente fantasiei inúmeras vezes comigo sendo diagnosticado, e quando realmente ocorreu... foi um alívio muito grande, eu estava certo no fim das contas, ou pelo menos o meu lado que achava que tinha algo comigo e que fantasiava com o diagnóstico. Me senti muito feliz, mas também foi muita informação para minha cabeça processar, pois foi uma descoberta muito grande sobre mim mesmo, algo novo havia sido revelado, então passei o dia pensando naquilo, assim como todos os dias após esse. Não demorou muito para eu desenvolver hiperfoco no assunto, pesquisar intensamente e só me identificar cada vez mais, me entender cada vez mais, confirmar cada vez mais o diagnóstico, aprender cada vez mais sobre autismo. Meu diagnóstico foi um dos momentos mais libertadores da minha vida. Hoje, há exatamente 1 ano, quando eu tinha 18 anos, o meu processo de autodescoberta e autoentendimento teve início, e eu pude ter a explicação pra tudo que me afligia, que fazia eu me sentir errado e estranho, e que eu não entendia o motivo, e finalmente entender que na verdade não há nada errado comigo no fim das contas, apenas possuo um funcionamento diferente, e todos os dias continuo tendo cada vez mais explicações, e agora também tenho a possibilidade de receber ajustes para que a minha vida possa ser menos estressante, além de poder ter contato com outras pessoas autistas, conhecer outras pessoas que passaram e passam pelo mesmo que eu, compartilhar vivências e experiências, me sentir menos diferente e estranho, me aproximar e fazer amizade com essas pessoas, graças a internet, que possibilita o contato indireto com outras pessoas, sem contato visual, físico, e sem a necessidade de verbalização oral, e então possibilita que eu me comunique e interaja de forma mais eficaz. Hoje tenho muito orgulho de ser quem eu sou, e fico muito feliz de poder ajudar outras pessoas a se entenderem e conhecerem mais sobre autismo.
Falando mais detalhadamente sobre o meu processo de diagnóstico e aquisição do laudo médico:
Como falei lá no início, chegou um dia que eu estava no meu limite de frustração em relação à minha péssima habilidade de socialização, e com isso, decidi escrever tudo sobre mim que eu já não aguentava mais só ignorar, tudo que me incomodava, que era meio diferente, que fazia eu me sentir estranho e destoante dos outros. Passei aquela semana pensando, juntando e anotando todas as informações que consegui pensar e lembrar, e levei pra minha psicóloga na sessão seguinte. Eu nunca tinha falado com ela sobre essas coisas, sobre essa minha dificuldade, foi meio que tudo de uma vez só numa única sessão, e fez ela ficar bastante pensativa. Ela já sabia que eu era muito tímido, calado, introspectivo, mas no começo ela não achava algo anormal levando em conta o meu histórico familiar, então achava que essa introspecção era só por causa de traumas, e me tratava mais em busca de uma possível depressão. Mas com o passar do tempo, ela começou a ver que tinha algo meio estranho, que não parecia ser só isso. Já fazia 9 meses que ela estava me tratando, e ela não conseguia extrair muita coisa de mim em relação a traumas internalizados ou algo do tipo. Cheguei a fazer alguns testes com ela, mais por curiosidade mesmo (”Teste de Rorschach”, e o “Inventário Fatorial de Personalidade (IFP)”), e os resultados deles apontaram algumas coisas meio fora do comum (saindo um pouco do foco do assunto, uma das coisas que ambos os testes apontaram também foi a minha assexualidade, e eu coincidentemente recebi essa informação ao mesmo tempo que ia justamente falar pra ela sobre achar ser assexual), que fizeram ela achar mais ainda que tinha algo diferente comigo. Depois que fiz o meu desabafo sobre as coisas que escrevi, ela começou a entender melhor do que realmente se tratava. O mais engraçado é que, como eu disse antes, eu nunca tinha investigado e pesquisado sobre autismo, nunca tive o tal autodiagnóstico antes do diagnóstico, tudo que eu escrevi sobre mim não eram coisas que eu vi que eram traços de autismo e que me identifiquei com, foram características e experiências minhas que na época eu genuinamente não fazia a menor ideia de que eram traços autísticos, e ler essas coisas hoje, tendo o conhecimento de autismo que eu tenho agora é simplesmente incrível, pois absolutamente tudo que eu escrevi tinha a ver com autismo, tudo se encaixava. Então poucos meses depois de falar disso com a psicóloga, ela finalmente me contou, me diagnosticou, após 1 ano me tratando, e a partir desse dia tudo começou a ser melhor pra mim. A partir daí começamos um processo de entender mais sobre o assunto juntas, pois ela não é especialista, o que conhecia sobre autismo era mais voltado ao autismo clássico e em crianças, e fui a primeira pessoa adulta que ela diagnosticou com autismo. Ela queria confirmar mais o diagnóstico (embora ela já estivesse certa dele), queria que eu mesmo pesquisasse por conta própria sobre autismo, que eu mesmo me identificasse com a condição e contasse pra ela sobre os traços com os quais me identificava, então de certa forma eu tive o processo inverso: primeiro o diagnóstico, e depois o autodiagnóstico. E ela também passou a "me usar" pra entender e aprender mais sobre autismo, e faz isso até hoje. E então iniciamos a procura por profissional pra que eu conseguisse meu laudo, pois psicólogo infelizmente (e injustamente na minha opinião) não pode dar laudo médico, tem que ser neurologista ou psiquiatra. Aqui na minha cidade ela só encontrou uma pessoa que trata de autismo de grau leve, mas uma neuropediatra, ela só trata de pessoas de até 17 anos, e eu já tinha 19, então eu só consegui o laudo porque a médica abriu exceção (e claro, também só consegui porque tenho dinheiro, tenho condições de pagar), e abre algumas exceções de vez em quando, é muito gente boa, mas se ela não tivesse aberto essa exceção, eu teria que ter ido ser atendido por outro médico em outra cidade, por um preço mais alto, e eu nem sabia se ia ser só uma consulta ou mais de uma. E claro, com o encaminhamento da minha psicóloga, conseguir o laudo também se tornou um pouco mais fácil. Mas como falei, eu consegui meu laudo por sorte. Se não fosse por isso, talvez eu estivesse até agora sem laudo. Claro, eu tinha e tenho o diagnóstico, mas o laudo médico é meio que a parte mais importante, pois é a que importa pra sociedade, é a que garante meus direitos como pessoa autista perante a sociedade. Conseguir laudo médico é um privilégio, eu reconheço que sou privilegiado nessa questão. Eu sou muito feliz por ter tido condições de adquirir esse laudo, e espero poder ver muitas outras pessoas conseguindo também. E espero, principalmente, que o diagnóstico de autismo se torne algo mais acessível no futuro próximo.
A seguir, para os que tiverem curiosidade, prints das coisas que anotei e levei para a psicóloga:
A seguir, uma lista organizando os traços que podem ser observados nos prints (importante lembrar que pessoas autistas podem apresentar os traços abaixo ou não, e pessoas alísticas também):
Grande dificuldade de interação social e comunicação (dificuldade de entender as normas sociais, de entender o que os outros esperam de você, de adentrar nas conversas, de verbalizar, de expressar, de se fazer ser compreendido, de se aproximar e fazer amizade)
Dificuldade de lidar com mudanças
Quer fazer as coisas sozinho, à própria maneira. Se for feito de outro jeito, se estressa (as coisas precisam ser feitas sempre de um jeito específico/do mesmo jeito)
Individualismo, isolamento (centra-se muito em si mesmo, gosta de ficar no próprio “mundinho”, sente necessidade de fugir da realidade, de se isolar)
Falta de iniciativa/dificuldade de tomar iniciativas
Excesso de passividade (geralmente autistas costumam ser mais hiperativos e explosivos, mas também pode ocorrer justamente o oposto, como no meu caso, e a pessoa acabar sendo muito passiva, calma, contida, e tendo reações mais implosivas na maior parte do tempo)
Dificuldade de compreender ironia, subjetividade, de enxergar as entrelinhas, pois é muito literal (entende tudo ao pé da letra)
Reações, expressão de emoções, e compreensão das coisas diferente das que as pessoas neurotípicas costumam ter. (Reações e/ou emoções que não condizem com o esperado pelas outras pessoas, acha algo engraçado quando outros não acham, acha algo sem graça quando outros acham graça, não tem reações de grande felicidade a acontecimentos considerados maravilhosos, não tem reações de pavor a acontecimentos considerados terríveis. Não reage/expressa determinada emoção, mesmo que a esteja sentindo. Interpreta as coisas de forma diferente, inesperada, geralmente de forma muito literal. Possui uma noção diferente da noção das pessoas neurotípicas, muitas vezes não compreendendo o motivo de algo ser considerado inapropriado ou errado)
Apatia/expressão de apatia
Dificuldade de lidar com situações que são consideradas fáceis de lidar, ou que nem mesmo são consideradas um problema pras pessoas neurotípicas
Dificuldade de lidar com frustrações
Dificuldade de lidar com emoções (tanto as próprias quanto as dos outros)
Ocorrência dos eventos shutdown e meltdown
Masking (mascarar, esconder os traços, as atitudes que percebe que fogem do padrão da sociedade, com o objetivo de parecer mais “normal”)
Dificuldade de lidar com pressão
Processa as informações de forma mais lenta
Desconforto e dificuldade de fazer contato visual