resenha #5ïž±o retrato de dorian gray
"Toda a arte Ă© completamente inĂștil."
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Oscar Wilde, um dos maiores nomes da literatura ocidental, tem em torno de trinta e nove escritos publicados. Entre estes, O Retrato de Dorian Gray Ă© seu Ășnico romance. Publicado em 1890 pela Lippincott's Monthly Magazine, Ă© mundialmente visto como o livro que trouxe consigo a inquietude das opiniĂ”es morais por meio de sua homossexualidade implĂcita e foi utilizado contra o prĂłprio autor anos mais tarde, levando-o a cumprir uma sentença de dois anos no cĂĄrcere de Reading Gaol, na Inglaterra.
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No livro, acompanhamos Basil Hallard, um pintor humilde com princĂpios fortes na vida. Este, apĂłs conhecer Dorian Gray, se encontra fascinado pela pureza e beleza no rosto do jovem, encontrando nele a nova modalidade de suas pinturas e forçando-se a pedir que deixe transformar suas feiçÔes em um retrato. Dorian, sem saber que aquele mesmo retrato o assombraria pelo resto da vida, aceita.
Mais tarde na histĂłria, Basil apresenta-o a Lord Henry Wotton, um aristocrata e hedonista que vĂȘ significado Ăștil apenas na juventude e na beleza, e em usufruir ao mĂĄximo delas. Este, entĂŁo, mostra a Dorian um novo mundo, onde prova que a pureza de uma pessoa pode ser facilmente corrompida.
 "A Ășnica justificação para uma coisa inĂștil Ă© que ela seja profundamente admirada."
Se meu Ășnico trabalho na vida fosse falar desse livro, trabalharia atĂ© sem remuneração. Gostaria de começar expressando os pontos da minha opiniĂŁo por meio de alguns fatos interessantes acerca das consequĂȘncias que esse livro gerou na vida e carreira do autor e o escĂąndalo que causou na Ă©poca de seu lançamento.
Conhecido por ter duas versĂ”es, censurada e nĂŁo censurada, O Retrato de Dorian Gray trouxe uma onda de opiniĂ”es quando alcançou os leitores e crĂticos. Como muitas obras do sĂ©culo, foi considerada imprĂłpria, imoral e atĂ© mesmo rotulada como venenosa.
Foi tanta desaprovação direcionada a obra e ao autor, que a revista responsåvel pelo livro na época deixou de distribuir exemplares, mesmo após seu editor retirar em torno de 500 (quinhentas) palavras do manuscrito original que, por sinal, foi feito sem o consentimento de Wilde. Foram longos vinte anos sem autorização para publicarem qualquer trabalho seu, dos quais dois ele passou na cadeia cumprindo uma sentença por meio de trabalhos forçados.
De maneira geral, o livro ia contra as normas padronizadas da Ă©poca, principalmente com suas mençÔes de cunho sexual e homossexualidade implĂcitos. Muitos acham que o livro possui essa homossexualidade de maneira explĂcita, mas pelo que senti lendo, pelo menos a versĂŁo editada pela Companhia Penguin, Ă© que se lido sem atenção, entĂŁo nĂŁo se pode perceber essa linha tĂȘnue entre a negação e o amor de Dorian por Basil e vice-versa. Eu a encontrei nas entrelinhas e nas poucas palavras que pairavam no ar.
Para uma noção maior do impacto que essa obra teve, quando li Maurice, romance clåssico de E.M Foster, conhecido principalmente por sua representatividade homossexual no século XX, fiquei tragicamente encantada com o nome de Wilde sendo utilizado para representar os sentimentos do personagem principal. Maurice, quando chega ao consultório do médico, buscando uma cura para o que até então era considerado uma doença e crime perante a lei, tem a seguinte conversa com o doutor:
"VocĂȘ estĂĄ bem", repetiu o mĂ©dico. "Pode casar-se amanhĂŁ, se desejar, e se quiser aceitar o conselho de um velho, Ă© o que deve fazer. Vista-se agora, hĂĄ uma corrente de ar. Como foi meter essa ideia na cabeça?"
"O senhor nunca adivinhou", ele disse, com um toque de desdém misturado ao terror. "Sou um dos imencionåveis, do tipo de Oscar Wilde."
Tudo que posso dizer Ă© que qualquer mero indĂcio de Wilde em diferentes obras melhora elas em milhĂ”es de vezes, e desta vez provou o quanto O Retrato de Dorian Gray alcançou as pessoas, tanto duma maneira desprezĂvel quanto representativamente.
Os personagens, principalmente Lord Henry â ou Harry â foram tĂŁo bem desenvolvidos dentro deste cenĂĄrio assombroso em que, gradualmente, vemos todos (talvez com exceção de Basil) se tornarem seres abominĂĄveis. A repugnĂąncia que toma conta da personalidade de Dorian, a vulnerabilidade de Basil que com o tempo vai cedendo e Harry, que continua a acreditar no hedonismo, que a juventude deve ser eterna e o prazer Ă© a maior forma de felicidade, levando Dorian a crer nas mesmas. O Crescimento de Gray ao lado do retrato que seu amor nunca acatado trouxe a vida, pendurado na parede de sua casa Ă© o suficiente para levĂĄ-lo a loucura quando jĂĄ nĂŁo mais reconhece o menino de tinta que o observa tĂŁo intensamente.
Adoro a formatação do enredo, como acompanhamos esse crescimento de Dorian até uma idade superior, podendo desenvolver seus pensamentos, opiniÔes e sentimentos ao decorrer de uma vida praticando todo o tipo e coisa que Basil definitivamente não aprovaria, mas que Lord Henry havia o desensinado a viver sem.
"Os livros que o mundo chama de imorais, sĂŁo os livros que mostram ao mundo sua prĂłpria vergonha."
Foi um livro excepcional. Além de ser um clåssico ótimo para iniciantes, é daqueles que viverå na sua cabeça para sempre. A escrita predominante por seus poucos diålogos e påginas cobertas por parågrafos filosóficos nunca me foi tão atraente quanto nesse livro. O prefåcio é simplesmente absurdo. Mensalmente me encontro relendo ele e memorizando techos. A partir da primeira linha, onde Wilde diz que o artista é o criador de coisas belas, jå sabia que não seria mais a mesma ao fim da leitura.
Ainda pretendo ler a versĂŁo sem censuras, publicada pela editora Dark Side e trazer pra cĂĄ uma resenha comparando ambas, mas por enquanto tudo que posso fazer Ă© recomendar essa maravilha e esperar que minhas palavras sejam o suficiente.
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Editora:Â Companhia Penguin.
GĂȘnero literĂĄrio:Â literatura gĂłtica, literatura decadente, romance filosĂłfico.
Tradução: Paulo Schiller.
Classificação indicativa: +14
Data de publicação dessa edição: 12 de abril de 2012
Data de publicação original: julho de 1890
Gatilhos: morte animal (caça), racismo, sexismo, suicĂdio, assassinato, misoginia, gordofobia, antissemitismo, morte, sangue, drogas, discriminação contra deficientes fĂsicos.
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