Por que esse "diário" virtual existe
Vou contar como surgiu a ideia desse nome: Thauma Psique Social.
Incrivelmente, não foi uma escolha aleatória, nem um jogo de palavras bonitas (até porque eu quis colocar em um perfil profissional, mas todos me disseram que tinha alto risco de soar como "trauma" e isso não pegaria bem pra algo relacionado a saúde mental rs). Pois bem, cada termo carrega um pedaço do que este blog tenta ser.
Em grego antigo, thauma (θαῦμα) significa maravilha, espanto, admiração. Mas não uma admiração passiva — é aquela que nos faz parar, perguntar, investigar. Aristóteles dizia que a filosofia começa no thauma. É o instante em que o mundo deixa de ser óbvio e vemos uma fenda por onde a dúvida e o pensamento podem entrar.
Gosto de pensar que o thauma é a centelha: algo me acontece (um filme, uma música, uma conversa, uma vibe, uma chá) e em vez de engolir a resposta pronta, eu paro. Fico em suspensão. Pergunto: o que é isso que estou sentindo? De onde vem? O que mais poderia ser?
Esse blog é, acima de tudo, um exercício de cultivar o thauma. Sem vergonha de não saber. Com a curiosidade como método.
Psique é a mente, a consciência, o mundo interno — os afetos, as memórias, os sonhos, as angústias que não cabem em gráficos. É onde a experiência se inscreve no corpo e no pensamento.
Mas aqui, a psique nunca é vista como algo isolado, flutuando dentro de um crânio. Não acredito em uma interioridade pura, intocada pelo mundo. Porque a forma como pensamos, sentimos e desejamos é sempre atravessada por relações sociais, pela linguagem, pela história, pelo trabalho, pela opressão e pela resistência.
Por isso o terceiro nome.
Não é "psique social" no sentido de uma interação genérica. É psique social do ponto de vista do materialismo histórico-dialético.
A consciência não existe antes do mundo material; ela emerge das condições concretas de vida.
O sujeito é singular, mas jamais é um indivíduo abstrato: sua subjetividade é tecida por contradições de classe, raça, gênero, território, capacidade, desejo.
Analisar a psique social é perguntar: como as pessoas pensam e sentem em um dado modo de produção? Como a luta de classes, o colonialismo, o patriarcado e o capacitismo moldam o que chamamos de "sofrimento psíquico" ou "bem-estar"?
Este blog não tem pretensão de esgotar essas questões, ao contrário a ideia é "iniciá-las" por assim dizer. Aprendê‑las em ato: escrevendo sobre uma gama de assuntos de forma colaborativa, principalmente aqueles que vivem povoando os pensamentos e as conversas: sofrimento psíquico, gênero, sexualidade, psicodelia, fantasias, ficções – e tantas outras pontas soltas que encontro no caminho.
Thauma Psique Social é um local de treinamento, organização e exposição pública de ideias.
Não um palco para verdades acabadas.
Não uma trincheira de certezas.
É um diário de bordo de alguém que estuda, escreve, erra, revisa, se entusiasma, se contradiz e segue – porque escrever é também um modo de pensar melhor.
A pluralidade não é apenas tolerada aqui: ela é a categoria central. Fenômenos humanos não se reduzem a uma causa única. Vivências se cruzam, modos de existir se multiplicam. O que interessa é investigar, explorar, comparar, tensionar – e, sempre que possível, não fechar a pergunta antes da hora.
Este blog é uma ferramenta de aprimoramento pessoal e profissional: um laboratório de escrita, de articulação entre teoria e afeto, entre o coletivo e o intransferível.
🌱 Para quem está chegando
Se você leu até aqui, talvez sinta que este espaço pode ser seu também.
Não é um monólogo. É um convite para pensar junto, discordar com respeito, compartilhar referências e, principalmente, não ter medo do thauma.