É, raramente, ter um mar de gente ao redor e mesmo assim não ter ninguém. É sentir tudo e não conseguir sentir nada. Talvez por receio. Talvez por, ultimamente, ter se tornado automático o hábito de demonstrar não sentir nada. O hábito de prender todos os sentimentos em algum lugar confuso e apenas viver. É fugir de você e do que você sente. Do que você é. Inventar uma verdade e vive-lá por ter se acomodado. Viver de um jeito estranho, onde você se culpa por sentir tão pouco. Onde você não consegue entender nada. Não sabe o que está fazendo nem consigo mesmo. Tudo parece automático a ponto de você se sentir sem vida alguma. Parece não ser você. Mas no fundo você sabe o quanto sente. Que sente muito… Por tudo. Talvez até por todos. Porém você não se permite realmente sentir tudo isso. Ah… Você parece ter desistido de sentir. “Porquê? Isso fazia você se sentir tão viva.” Parece ridículo. Se sentir viva parece uma forma de ilusão. O medo de cair em um enorme abismo ainda se faz presente, o mesmo em que você se encontrava a algum tempo atrás. Medo de não conseguir levantar novamente. Não que você ache que está completamente livre dele, longe disso, mas agora pelo menos consegue respirar. Na verdade, você nem sabe como está fazendo isso. Mas o prazo de validade já está se esgotando. E então sentimos que precisamos encarar tudo de frente, lidar com a queda e começar a planejar um jeito de levantar. Um jeito de tentar permanecer em um lugar confortável por mais tempo do que isso. Parar de desperdiçar o tempo, as coisas, os sentimentos, as emoções, as pessoas… Tudo. Pois o tempo escorre em tuas mãos numa velocidade impossível de calcular. Você se sente velha e sem tempo. Velha de um jeito chato, no qual você só reclama e sente preguiça de tudo. Onde você assassina todos os teus desejos e sonhos. “Eles parecem tão ridículos, porque perder tempo nisso?” Algo insiste em te fazer desistir e continuar estagnada no mesmo lugar. Você até acha que parou de pensar. Parece que tudo vem pronto e apenas o básico. Você desiste do que é difícil demais. Jogando uma vida fora. “Quem é esta?” Isto não é você. Eu lembro de você esbanjando vida por aí. E isso não faz muito tempo. Você não se acomodava. Lutava sozinha se fosse preciso. Mas nunca abandonava o barco sem antes chegar até o prêmio tão desejado.
É sentir saudades de tudo. Desejar a nostalgia todos os dias. Voltar aos dias em que você se sentia feliz e protegida. Mas eles parecem tão distantes. Como se, talvez, nunca tivessem existido.
É ter certeza de que todos desistiram de você. Alguns simplesmente foram embora. Outros cansaram. E outros até mesmo enjoaram. Sem falar dos que a vida arrancou de você. Você não tem mais nada. Não tem pra onde correr. Não tem mais nenhuma âncora a não ser você mesma.
É sentir que tudo o que você viveu foi uma farsa nada ensaiada. Mas que foi o suficiente pra você demorar uma eternidade até conseguir perceber. Que você deveria ter ouvido mais o que algumas pessoas gritaram nos teus ouvidos. É achar que você tinha tudo, mas na verdade você criou esse tudo. Isso nunca foi o tudo que você enxergava. Ou talvez você só conseguisse enxergar a parte bonita na maior parte do tempo. Devia ser proibido idealizar alguém tanto assim. Talvez até devesse ser crime achar que as supostas qualidades de uma pessoa possam anular os seus defeitos repulsivos. Mas todos nós temos uma parte podre. Uma parte que não cheira bem, esta que é responsável por afastar muitas pessoas. Nem todas vem pra ficar, isso é óbvio. Talvez agora você possa se sentir livre de algumas pesos, então não lamente muito. As partes boas sempre ficam dentro de nós… Algumas ruins também, mas isso é tão necessário quanto a existência do sol é necessária para que você saiba reconhecer a lua.
A verdade é o tudo que mais pode nos cansar. A ponto de você ter preguiça de tudo e de todos. Preguiça de começar algo em outro lugar ou com outro alguém. Preguiça por achar que vai ser tudo igual. Você cansa só de pensar em tentar. Não gostamos da mesmice e no momento parece que só nos oferecem isso. Então tudo suga as nossas energias. A vida parece tediosa. Você não sabe o que fazer e nem pra onde ir. Apenas fica sentada, quieta, esperando que alguém te note. Mas poucas pessoas fazem isso. Na maior parte do tempo, nenhuma. E as poucas nem sabem o que fazer ou como ajudar. Nem você sabe como explicar e tentar mudar.
Mudar é tudo que você não consegue ter. O tudo que te frustra. Que parece pisar em cima de você todos os dias, deixando claro que um dia será capaz de te enterrar. “Esquerda ou direita?” Você não sabe. Você se sente inconveniente em todos os lugar e em todas as conversas. As relações parecem vazias. Ninguém parece realmente querer te ouvir. Eles só precisam falar. Eles têm mais problemas do que você, eles precisam de mais ajuda do que você. Você nunca é o suficiente. Nunca é necessária. E você quer ser o tudo, mas eles te fazem ser o nada e ainda dizem que você é importante. Importante apenas quando corre atrás e se anula pra conseguir resolver as questões deles. Ninguém olha pra você de verdade, ninguém tenta entender. Mas eles querem que você tome decisões e faça o que eles precisam que você faça. Eles não percebem o forte que foi construído ao teu redor. Pra todos, as tuas reações, são apenas bobagens. Acham que você quer ganhar o prêmio de Miss Simpatia. Mas não, você só quer conseguir se entender. Parar, definitivamente, de sentir algumas coisas. Se sentir útil e importante. Estamos enjoados desse jeito cômico. Você quer um lugar. Este que seja seu e demais ninguém. Mas acima de tudo, que seja um lugar que você queira. E então você lembra que não consegue nem ao menos escolher.
É querer ter o mundo e ser o mundo. É sentir o mundo. Sentir todo mundo. Entender ambos. Mas não ser sentida e muito menos entendida. É parar de transbordar e quase secar. É só conseguir sentir medo. 7 dias por semana. 24 horas por dia.