De rutilantes vestes adornado
Himeneu rompe o ar, e à Trácia voa,
Lá donde o chama Orfeu, porém debalde.
O deus sim presidiu do vate às núpcias,
Mas não levara ali solenes vozes,
Nem presságio feliz, nem ledo rosto.
Sentiu-se apenas crepitar-lhe o facho,
E em vez de viva luz soltar um fumo
Lutuoso, e fatal: vamente o nume
Tentou co movimento erguer-lhe a chama.
O efeito foi pior que o mesto agouro.
Enquanto a linda noiva os prados gira,
Das náiades gentis acompanhada,
Áspide oculto fere o pé mimoso:
Morre a moça infeliz, e o triste amante
Depois de a lamentar aos Céus, e à terra,
Empreende comover do Inferno as sombras;
Afouto desce a vós, Tenárias portas.
Por entre baralhada, aérea turba
Cujos restos mortais sepulcro logram,
Aos negros paços vai do rei das trevas,
Vê do tirano eterno o trono horrendo.
Lá casa os sons da voz, e os sons da lira,
Às deidades cruéis lá diz: “Oh deuses,
Deuses do mundo sotoposto à Terra,
No qual se há-de sumir tudo o que existe!
Se acaso a bem levais que ingénuas vozes
O artifício removam, crede as minhas.
Não venho para ver o opaco Averno,
Nem para agrilhoar as três gargantas
Do monstro Meduseu, que erriçam cobras.
Atrai-me ao reino vosso a morta esposa,
A quem pisada víbora o veneno
Nas veias desparziu, a flor murchando
Dos anos festivais, inda crescentes.
Constância quis opor ao dano acerbo,
Tentei vencer meu mal, e Amor venceu-me.
Este deus é nos Céus bem conhecido,
Aqui não sei se o é, mas se não mente
No rapto que pregoa antiga fama,
Vós também pelo Amor ligados fostes.
Ah! por este lugar, que abrange o medo,
Por este ingente caos, silêncio vasto,
Que do profundo império o seio ocupam,
De Eurídice gentil à doce vida
O fio renovai, tão cedo roto.
Ela, todo o mortal vos é devido,
Vem tudo, agora, ou logo, à mesma estância.
Por aqui pende tudo, é este o nosso
Derradeiro, infalível domicílio;
Vós tendes, vós gozais, a vós compete
Da espécie humana o senhorio imenso;
A que exijo de vós há-de ser vossa
Por inviolável jus, por lei dos Fados,
Tocando o termo da vital carreira:
O uso do meu prazer em dom vos peço.
Se o Destino repugna ao bem, que imploro,
Se a esposa me retém, sair não quero
Deste horror: exultai coa morte de ambos.”
O triste, que assim une o verso à lira
Os exangues espíritos deploram:
À fugaz linfa Tântalo não corre:
A roda de Ixíon de assombro pára:
Os abutres cruéis não mordem Tício
As Bélides os crivos cair deixam,
Tu, Sísifo, te assentas sobre a pedra.
Das vencidas Euménides é fama
Que pela vez primeira os negros olhos
Algumas ténues lágrimas verteram.
Nem a esposa feroz, nem Dite enorme
Ousam negar piedade ao vate orante,
Chamam súbito Eurídice. Envolvida
Entre as recentes sombras ela estava:
Eis o mordido pé vem manso, e manso.
Recebe o trácio Orfeu coa bela esposa
Lei de que para trás não volte os olhos
Enquanto for trilhando o feio abismo,
Se nula não quiser a graça extrema,
Por duro, esconso, desigual caminho,
De escuras, vastas névoas carregado,
Um após outro os dois, vão em silêncio:
Já do tartáreo fim distavam pouco.
Temendo o amante aqui perder-se a amada,
Cobiçoso de a ver, lhe volve os olhos:
De repente lha roubam. Corre, estende
As mãos, quer abraçar, ser abraçado,
E o mísero somente o vento abraça.
Ela morre outra vez, mas não se queixa,
Não se queixa do esposo; e poderia
Senão de ser querida lamentar-se?
Diz-lhe o supremo adeus, já mal ouvido;
E recai a infeliz na sombra eterna.
Fica atónito Orfeu coa dupla morte
Da malfadada esposa, como aquele
Que num dos colos viu com rijos ferros
Preso, arrastado à luz o cão trifauce,
E que o mudo pavor despiu somente
Quando despiu a natureza humana,
Transformado em rochedo imoto, e frio;
Ou qual o que a si mesmo impôs um crime,
Óleno, que de réu quis ter o nome
Por te salvar, misérrima Leteia,
Orgulhosa de mais com teus encantos,
Tu, que foste co esposo outrora uma alma
Repartida em dois corpos, que hoje és pedra
Com ele, e juntos no Ida estais sustidos.
O estígio remador expulsa o vate
Que ora, que em vão tornar ao Orco intenta.
Sete dias jazeu na margem triste
Sem nutrimento algum: só a saudade
As lágrimas, a dor o alimentaram.
Depois de prantear vossa fereza,
Numes do Inferno, ao Ródope se acolhe,
E ao Hemo, de Aquilões sempre agitado.
Dera o giro anual três vezes Febo,
E sempre o terno Orfeu de amor fugia,
Ou porque o mal passado o refreava,
Ou porque eterna fé jurado houvesse
A miseranda esposa: repulsadas
Mil belas ninfas seus desdéns carpiram.