A distância entre os corpos : o cinema de Catherine Breillat
Em época de distanciamento físico forçado, é propício começar a nos questionarmos sobre o que nos faz ser o que somos: o corpo.
É o corpo que nos mantém em movimento? É o corpo que nos permite ser o que somos? É o corpo que nos leva a um amplo conhecimento sobre nós mesmos? Então, afinal, o que é esse corpo? O que é isso que nós carregamos para lá e para cá e acreditamos ser o templo de nossa mente ou do espírito para alguns? O espaço pelo qual podemos sentir e experimentar o fato de estarmos vivos. O corpo é o local sagrado que nossa mente se desenvolve. Mas nossa mente não é também parte desse corpo que se coloca presente? Que se afirma enquanto corpo, enquanto espaço de diálogo?
Hoje, a questão do corpo se tornou algo complexo. Devemos evitar os abraços, devemos evitar o aperto de mão, devemos manter a distância ao chegar perto de alguém. Dois metros. O corpo é o lugar do imundo. Lavamos as mãos a todo instante, hesitamos em tocar nosso próprio rosto, que dirá o rosto de um outro desconhecido. O corpo também se tornou número. Diariamente somos atravessados por números de mortes que não conseguimos nem mesmo associar à uma quantidade real, atribuindo mais complexidade à questão.
Porém, vou falar do corpo de uma outra maneira, até mesmo de uma outra época, época na qual podíamos imaginar os encontros de corpos desconhecidos sem se preocupar com o que eles carregam invisíveis ao olhar.
É no cinema de Catherine Breillat, diretora francesa, que a questão do corpo aparece com bastante força. Assim como explicita no título Anatomia do Inferno (2004), em referência ao corpo feminino, esse, que antes mesmo de sermos assolados por um vírus, já era o lugar do imundo, explícita também em suas imagens.
Breillat nos recebe em todo filme com o corpo pronto para o debate. É ali que podemos enxergar, a partir de longos closes, o que é o corpo feminino de uma forma que é bastante rara ao cinema. Muitas vezes considerados pornográficos, os filmes de Breillat desenvolvem a questão do cru: o corpo sem roupa, o corpo como carne que sangra, o corpo como espaço de descobertas, mas também o corpo como espaço de trocas íntimas. Em tempos de confinamento e distanciamento físico, assistir a um filme de Breillat é uma subversão à normalidade que nos foi imposta.
Ali, mesmo que seja o corpo feminino a gênese do grotesco, hoje já não há mais corpo que não seja invisivelmente sujo. O questionamento de Breillat vai além. Em Para minha irmã (2001), a questão da virgindade feminina é oferecida ao público pelos diálogos e vivências de duas irmãs durante um período de férias com a família. Um belíssimo filme que fala sobre o tabu imposto por essa virgindade. Breillat acredita que o universo feminino foi dividido entre as mães e as putas. Uma é a divindade santificada pelo nome de Maria, a outra é considerada por muitos uma das profissões mais antigas do mundo (e isso nos é dito de maneira ilesa desde sempre, consagrando o fato sem questionamento).
E é isso que Breillat pretende quebrar em seus filmes, encontrar uma imagem que rompa esse binômio. É por meio das angústias das personagens, que estão em busca de um autoconhecimento, que entendemos o que é ser mulher. Ou melhor, o que é performar um corpo feminino. O que podem esses corpos expostos pelas lentes de Breillat? O que lhes confere autonomia perante o ato de desejar? Em Romance (1999), a personagem, negada sexualmente pelo marido, busca a libertação pessoal da imagem de santa que lhe foi imposta pelo matrimônio, enquanto o marido a rejeita ao longo de todo o filme.
Breillat não retira a alma de nenhum de seus personagens. Todos eles são dotados de sentimentos amorosos. Para ela, é nítido que o sexo não é pornográfico, mas essencial. Essencial não apenas como modalidade de prazer, mas como discussão. Breillat questiona o poder da carne quando se encontra face a um desejo que transpõe esse corpo para se juntar, mesmo que por uns alguns instantes, a um outro corpo.
São corpos amorosos, nome de um livro de entrevistas feito por ela[1]. E esses corpos amorosos não são pornográficos, são desejosos. Um desejo muito menos de gozar, mas de descobrir o que é possível fazer com eles. Em Anatomia do Inferno, a personagem feminina convida um homem, gay, (interpretado por Rocco Siffredi, conhecido por seu vasto trabalho no universo pornô) para que ele a observe quando ela não sabe que está sendo observada. Durante quatro noites o homem senta e a olha. É nessa abertura que nasce a intimidade dos dois, por meio da diferença entre seus sexos, mas sobretudo por meio da interação entre os corpos. O corpo feminino se abre ao masculino e vice-versa. O fato do homem ser gay denota, a princípio, não haver interesse sexual. Mas não é uma questão sexual que Breillat nos coloca, mas sim a questão do corpo amoroso, para além do corpo social. Para Breillat, o amor “consiste em transportar-se para fora de si”.
Em seu primeiro longa, Uma adolescente de verdade (1976), já fica claro quais são os pontos que Breillat nos faz questionar. Em algumas imagens: o corpo feminino nu estirado no solo de terra; braços e pernas amarrados por arames farpados enquanto um homem direciona uma minhoca viva para a vagina da personagem. O close da boca da personagem em ponto de excitação, o close da vagina tocada pelo homem e pela minhoca. A minhoca sendo esquartejada e distribuída no sexo preso da menina. A personagem que se masturba em um trilho de trem, como se o ato fosse um convite à morte, seguida diretamente ao momento em que vemos a decapitação de uma galinha. A partir do agenciamento das imagens, Breillat nos convida a refletir sobre o corpo feminino.
Nesse ponto é importante citar o livro Pornocracia (2001), que Breillat escreveu e é a base do roteiro de Anatomia do Inferno. O livro foi alvo de censura em Portugal, quando exposto em uma feira, devido a imagem da capa: o famoso quadro de Courbet, A origem do mundo (1866). Entendemos, então, que o corpo feminino ainda é uma propriedade do Estado e que pertence a ele decidir o que se pode mostrar de acordo com a necessidade e o consumo da sociedade. Porém, pouco se importa quando o consumo pornográfico é feito entre quatro paredes.
Apesar deste momento que vivemos, nos fazer questionar o espaço do corpo, o contato físico e como podemos nos conduzir, Breillat nos impõe os questionamentos diante do feminino. O que é ser mulher? Para mim, enquanto homem cis, a questão jamais poderá ser respondida, porém Breillat me ajuda a entender o que é possuir esse corpo que performa a feminilidade, com todas as mazelas que lhe foram incumbidas pelo tempo, pela cultura e pela sociedade patriarcal.
Além disso, nos faz ter saudades dos encontros de corpos de amorosos.
[1] Breillat, Catherine. Corps Amoureux. Entretiens avec Claire Vassé. 2006, Éditions Denoël, Paris.
Imagens: Anatomia do inferno (2004), Para minha irmã (2001), Anatomia do inferno (2004), Romance (1999)