Genêro: romance, angst, romance com angst, universo paralelo, Minho pai de família e Seungmin sendo o melhor amigo que alguém poderia ter.
Sinopse: A vida de Haru virou uma rotina, sempre os mesmos passos, sempre em silêncio.
Um silêncio que ela não escolheu, e nem Minho, aconteceu.
A saudade e o luto andam juntos, sobre aquilo que aconteceu, e aquilo que poderia acontecer.
Palavras: 3.698
Rating: +18 talvez pelo tema mais pesado (?)
Avisos: infelizmente o angst ta pesado, aborda o aborto, luto, depressão, mas também a esperança de dias melhores.
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Não sei que horas são quando abro os olhos, mas a luz suave que entra pela janela e ilumina o quarto mostra que, mais uma vez, a manhã chegou rápido demais. Ainda deitada na cama, puxo a minha coberta para perto do meu rosto e giro meu corpo em direção a janela para, propositalmente, ficar de costas para Minho. Conto que pisco os olhos três vezes para ajustá-los à claridade, e foco no som de sua respiração por uns cinco segundos confirmando que ele ainda dorme tranquilamente. Depois disso tento não contar mais nada, nem quanto tempo demora para ele acordar, muito menos quanto tempo eu levo, mas quando levanto meu braço direito já está dormente pelo tempo que fiquei deitada em cima dele.
Sigo a rotina da manhã antes de ir para a sala de estar do nosso apartamento. Novo apartamento. O sofá embaixo da janela, a luminária ao seu lado e a mesa de centro são os únicos itens que temos dispostos no espaço, nenhuma foto, nenhuma flor, nada que faça parecer a casa de alguém, de uma família. O cheiro das torradas com manteiga envolvem o ambiente, e a sombra de Minho é a única coisa que enxergo ao olhar em direção a cozinha. Me sento no sofá como todos os dias, o livro na mesa de centro está na mesma página 71 a mais de um mês, me esperando. Voltando a contar, esse é o tempo desde que aconteceu o aborto, e o mesmo tempo que eu sigo em um silêncio não proposital.
O local do sofá, que às vezes penso ser proposital, fica de frente para o espaço entre a sala e a mesa de jantar onde tudo aconteceu, onde o sangue começou a escorrer pelas minhas pernas depois de uma dor muito intensa, enquanto eu carregava mais uma caixa da mudança entre a porta do apartamento e a bancada da cozinha. Não me lembro mais do som que fiz, do som da caixa caindo, nem de Minho correndo em minha direção ou se ele chamou meu nome, tudo que me lembro é do vermelho escarlate misturado ao vermelho escuro de algo que se perdeu a muito tempo. O gosto do bolo de laranja do lanche da tarde ainda estava na minha boca, e o cheiro de café ainda era evidente no ar.
Desviando o olhar para o relógio na parede vejo que ele marca o mesmo o horário de todos os dias, 8h30, o horário que o objeto resolveu parar um dia e ninguém tentou trocar a pilha. Mas é exatamente nesse horário que Minho sai para trabalhar no restaurante onde nos conhecemos, o restaurante de seu pai. Antes de ir ele sempre deixa o prato com torradas e um copo de suco na mesa de centro à minha frente, beija a minha testa e fecha a porta do apartamento suavemente. Porém, não é muito tempo depois que a porta se abre novamente e Seungmin, meu melhor amigo dos tempos da faculdade, entra por ela calmamente.
Os tempos de faculdade não foram a muito tempo, e também não duraram muito, aconteceu até exatos dois dias depois da perda do bebê, quando Seungmin recolheu todos os meus documentos e dados necessários e foi até a secretaria do curso tranca-lo para mim. Não tinha mais sentido eu comparecer às aulas, e depois descobri que eu também não teria forças para tal ato. O peso apenas do meu corpo, apesar de estar abaixo do recomendado, já é peso demais para eu carregar todos os dias.
— Haru? — Seungmin, parado na minha frente, chama meu nome me trazendo para o presente e fazendo com que eu o olhe. — Você quer tentar comer as torradas e tomar o suco? — Balanço a cabeça afirmativamente, fazendo com que ele se sente ao meu lado, buscando o prato e o copo em cima da mesa de centro e direcionando para mim.
Quando seguro o prato Seungmin se levanta e caminha até a cozinha, buscando guardanapo e uma geléia de morango caso eu queira algo doce naquele dia.
Ele desistiu de perguntar como estou depois de perceber que todas as minhas respostas eram tão vazias quanto o meu olhar que, de vez em quando, escuto alguém comentar sobre. “Ela está com um olhar tão distante e vazio.”, disse a senhora da farmácia outro dia na porta do apartamento quando Minho a atendeu.
Entre nossas manhãs silenciosas, quando Seungmin resolve conversar geralmente é sobre alguma coisa que aconteceu na faculdade com pessoas que mal cheguei a conhecer, sobre o jogo de baseball que ele assistiu no dia anterior, ou não assistiu porque acabou dormindo no sofá.
Desde o acontecido, Seungmin mudou suas aulas para a turma da noite, para que as manhãs, quando Minho não pode ficar comigo, ele possa vir me ajudar com a rotina. E Minho, que poderia ter escolhido trabalhar no turno da noite que é o que mais precisa de sua presença, escolheu o do dia, já que foi exatamente antes do seu turno noturno começar que tudo aconteceu. E apenas por naquele dia ele estar atrasado que sua ajuda foi possível de imediato.
As noites para nós dois agora são silenciosas, carregadas de sentimentos nunca ditos e medos escancarados.
— Para o almoço você quer escolher? — As mãos de Seungmin surgem à minha frente, tirando o prato, agora vazio, das minhas. — Também posso cozinhar alguma coisa, ou caso te agrade, abriu um restaurante novo no fim da rua. Me disseram que eles fazem um kimchi fried rice delicioso! Posso andar até lá e pegar um pouco para nós dois.
Sua voz, sempre calma, revela um pouco de animação ao falar sobre o kimchi fried rice, o que faz com que eu o observe melhor. O semblante de Seungmin é o mais neutro possível, e é sempre engraçado ver como ele mantém o rosto inexpressivo, mesmo em momentos como esse em que ele fala de algo que gosta, mas quer passar imparcialidade.
Ele já falou sobre kimchi fried rice antes, sei o que ele gosta. A lembrança do começo da faculdade, quando nos conhecemos em um grupo de trabalho, é clara na minha mente. A visita a um restaurante próximo ao campus onde tinha kimchi fried rice e budae jjigae no mesmo dia ofendeu gerações da família de Seungmin por fazer com que ele tivesse que lidar com tal escolha, afinal ele poderia comer apenas um. Acredito que ali que nossa amizade se fortaleceu, pois eu peguei o budae jjigae, e permitindo que ele pegasse um pouco do meu prato, ele comeu as duas coisas. Naquele momento eu ri, mas agora já não tenho mais forças para fazer.
— Podemos comer o kimchi fried rice. — Resolvo, dessa vez, responder.
Meu tom de voz não é alto, sai mais fraco que o esperado pelo desuso, mas por escuta-la de maneira repentina depois de tanto silêncio o corpo de Seungmin reage como se fosse o maior susto de sua vida. Vejo o suco do copo em sua mão subir para próximo da borda e voltar. Seus olhos se arregalam rapidamente, mas na mesma velocidade voltam ao normal.
— Oi, Haru! — Ele sorri, aquele sorriso que dispõe todos os seus dentes, e me cumprimenta como se fosse a primeira vez que nos encontramos hoje. — Desculpa o susto, não estava esperando que você respondesse. — Seu sorriso se torna gentil para mim enquanto ele solta o ar levemente pelo nariz, como um suspiro aliviado. Como se um certo peso tivesse o deixado. — Acha que um frango frito também cairia bem? Ou um kimbap? — Seungmin se levanta do sofá e caminha novamente em direção a cozinha, dessa vez para deixar toda a louça por lá.
— Você prefere o frango. — Vejo que seus olhos brilham com um pouco mais de felicidade cada vez que o respondo, o que faz com que suas ações sejam realizadas com um pouco mais de energia.
— Não precisamos comer as coisas só porque eu gosto! — Seu tom de voz é mais animado. O tilintar da louça se tornando mais baixo. — Eu posso comer outras coisas e…
— Eu quero o frango. — Não soa brusco o suficiente, ou enfático, como se fosse uma discussão de pura implicância entre nós, mas é o suficiente para cortar sua fala e ele apenas sorrir novamente, assentindo com a cabeça que havia entendido.
O restante da manhã até o almoço muda levemente a cada resposta que me esforço em dar. Nem sempre a voz sai completamente, mas todas as vezes que sai é como se o time que Seungmin torce, Lotte Giants, tivesse ganho o jogo. É o pouco que posso fazer por ele depois de tanto, e sinto que meu corpo teve a necessidade de ser agora.
Durante o almoço ele me conta coisas animado, sobre seus novos amigos, sobre seu possível estágio, sobre suas novas aulas de violão. Ele sabe que amanhã pode ser que eu não esteja assim, pode ser que eu não responda e não coma, então ele aproveita cada segundo da minha energia repentina.
Mas se engana quem pensa que minhas respostas são o suficiente para atrapalhar a diligência com que Seungmin realiza todas as tarefas que ele mesmo se designa todos os dias. Passar pano no chão, dobrar as roupas que Minho lavou se for o dia, organizar um pouco mais da nossa mudança. Ele sempre me pergunta tudo para ter certeza que está fazendo certo, mas a verdade é que nem eu sei o que é o certo, não é como se eu conhecesse todas as preferências de Minho, ou o que ele odeia. Talvez eu conheça melhor o próprio Seungmin do que aquele com quem me casei. Afinal, conhecer Minho simplesmente aconteceu.
Frequentar os jantares com a minha família no restaurante perto da nossa casa nos apresentou um ao outro, já que sempre o mesmo garçom nos atendia com seu sorriso educado, cabelo loiro bem penteado, e a camisa mais bem vestida que eu já vi em um homem. Não sei ao certo em que momento as coisas começaram a mudar, mas comentários sobre os pratos que eu escolhia surgiram, sobre o que ele enxergava as vezes no meu celular e sobre as roupas que eu usava. Até o dia que acabamos nos encontrando no horário antes dele entrar para o seu turno no trabalho e eu estar voltando para casa. Ali, números de telefone foram trocados, e combinamos de nos ver.
Infelizmente as situações seguintes aconteceram como uma fileira de dominós caindo. A descoberta da gravidez foi em um sábado à tarde, apenas depois de três encontros, a conversa na saída dos fundos do restaurante no domingo e, junto a isso, a descoberta de que Minho não era um simples garçom, ele é o filho do dono do restaurante onde trabalha com a intenção de conhecer todos os cargos do estabelecimento que um dia será seu.
Na terça, nossas famílias decidiram que o melhor era nos casarmos.
No mês seguinte foi o casamento.
Duas semanas depois, a compra do apartamento.
Dois dias depois, a mudança.
Em um momento as coisas pareciam estar desacelerando aos poucos. Eu estava conseguindo manter a faculdade normalmente, Minho dobrando turno para sustentar o casamento, o apartamento aos poucos sendo mobiliado, mas a gravidez antes de completar seu primeiro trimestre foi interrompida e frear para diminuir a velocidade da vida não foi possível, então tudo girou.
As coisas desaceleraram realmente apenas depois disso. A ida até o hospital, a limpeza, a volta para o apartamento. Em nenhum momento eu estava sozinha, mas era sempre a sensação que eu tinha. Não era uma gravidez planejada, mas já tinha seu peso e importância nas nossas vidas o suficiente para a perda ser sentida. E por mais que Minho nunca tenha abertamente chorado na minha frente, sei que ele também havia se acostumado com a ideia do futuro a três. E o futuro a dois que nos restou eu tentei mudar mais de uma vez.
Desejei terminar o casamento, desejei terminar, mas Minho nunca aceitou. Sempre mantendo a palavra de que era de agora e para sempre, que a única coisa que nos separaria seria a nossa própria morte, e que elas não aconteceriam tão cedo porque ele não iria deixar. O óbvio, é que nossas famílias também não iriam aceitar o divórcio, então sei que, em parte, ele também faz isso por eles.
— Haru, preciso ir. Tenho que terminar um trabalho antes da faculdade. Volto amanhã, está bem? — Balanço a cabeça positivamente e estico meus braços, aceitando o abraço, e o beijo no topo da minha cabeça, de Seungmin. Assim que o clique da porta anuncia a sua saída o espaço vazio em diversos sentidos me envolve novamente, fazendo com que eu volte para o sofá e espere a volta de Minho.
Às vezes meu dia parece isso, uma eterna espera, mas estranhamente, ao prestar atenção nos meus dedos, hoje eles estão batendo contra a almofada em um ritmo acelerado, como se meu corpo não pudesse esperar, não hoje. Conseguir manter uma conversa com Seungmin faz a vontade de mudar ainda correr silenciosamente pelo meu corpo, entretanto pode ser o início de um ataque de ansiedade. Preciso fazer alguma coisa.
Me levanto, e olho em volta. No canto da cozinha, escondido entre uma parede e a geladeira, a caixa que derrubei naquele dia. Meus olhos fixam nela por uns segundos, e meu corpo, como por vontade própria, começa a caminhar até ali, onde o passado que tento esconder ficou. Ao agachar ao lado do objeto vejo que em um dos cantos o sangue manchou o papelão, enquanto o outro está bem amassado, mostrando onde o impacto foi registrado primeiro. Ao abri-la vejo que dentro estão todos os potes e temperos de Minho, e paro para pensar que desde aquele dia ele nunca mais cozinhou de verdade no apartamento. O jantar é sempre algo que ele já traz do restaurante, mas não foi ele que fez, o café da manhã são sempre torradas que consigo digerir mais facilmente, o suco ele compra pronto. Respiro fundo e sinto meus pulmões e algo a mais dentro de mim pesarem.
Eu sinto a falta da sua comida, eu sinto a falta dele.
Pego a caixa, me levanto, e a apoio em cima do balcão da cozinha. Ainda guardados não estão os temperos básicos como açúcar e sal, são os temperos que dão vida à comida de Minho, o que desperta a sua curiosidade na culinária, o que o incentiva a continuar uma receita nova. São temperos de outros países, são pimentas com níveis de ardência diferentes, são aromas que juntos criam lembranças.
O balcão da cozinha no momento só tem o que se precisa no dia a dia, para o mínimo. Rotina.
Decido continuar o que foi interrompido. Talvez seja esse o passo de coragem que preciso para tudo mudar, para tudo parar de girar e eu poder sair dizendo que está tudo bem.
Respiro fundo, conto até dez.
Abro a porta do armário superior ao lado da coifa da cozinha e vejo que ali estão apenas os potes organizadores, etiquetados com os nomes de cada tipo de tempero, mas vazios.
Talvez nem Minho tenha tido a coragem de continuar de onde paramos aquele dia.
O armário é um pouco alto para mim se a intenção é preenchê-lo até o fundo, e pensando bem, é um pouco alto para Minho também. Então, com um pouco de esforço, me sento no balcão da cozinha, as pernas balançando, e puxo a caixa para o mais perto que consigo para iniciar o trabalho. Não tenho nenhum pensamento na cabeça, não tenho horário, mas tenho tempo.
E acabo não o vendo passar, não escuto a porta abrir e Minho, sempre silencioso, também não chama o meu nome quando não me vê no sofá. Só percebo que ele voltou quando, ao virar para pegar mais um pote, o encontro me olhando. Seus olhos estão bem abertos, arregalados como um susto, sua boca aberta apenas o suficiente para que eu consiga ver os seus dentes da frente, como se a gravidade estivesse puxando seu lábio para baixo e ele não tivesse como segurar. A mão que segura a sacola de papel com a comida está a apertando com toda a força, mas a outra tem seus dedos tremelicando contra a coxa demonstrando dúvida. São sentimentos demais em um único segundo, em um único Minho.
— Está tudo bem? — Sou eu que pergunto, fazendo com que a boca de Minho comece a abrir e fechar como um peixe tentando respirar fora da água. Ele também começa a piscar de forma rápida, perdido, seus olhos entre mim e a caixa em cima do balcão. — Depois que Seungmin foi embora eu senti a necessidade de fazer alguma coisa, parecia que eu ia sufocar se eu não fizesse. — Desvio o olhar para as minhas mãos, e com a ponta da unha do meu indicador, abro e fecho a tampa do pote de orégano, tentando esconder o nervosismo repentino.
— Então está tudo bem? — É o que ele consegue me responder, perguntar, com a voz baixa, levemente trêmula.
— Está tudo bem. — Respondo com um pouco mais de certeza, entendendo o que ele quer dizer. O assunto que ele quer chegar.
Não sei ao certo quanto tempo ficamos em silêncio, mas logo suas mãos envolvem as minhas, e em seguida, seu dedo indicador encosta em meu queixo, pedindo gentilmente para que eu o olhe.
— Você quer ajuda? — Seu sorriso gentil é o que eu vejo, sua cabeça levemente inclinada para o lado. Com ele perto assim consigo sentir seu cheiro, uma mistura de defumado com curry. Sua camisa está levemente amarrotada, seu cabelo loiro junta em pontos de suor na sua franja.
Como eu apenas balanço a cabeça afirmamente, sem coragem e confiança em como a minha voz vai sair, ele aperta levemente minhas mãos, confirmando que entendeu. Entramos em um ritmo lento e organizado, onde ele me passa os temperos e eu vou os colocando dentro do armário. O ar que momentaneamente pareceu pesado em meus pulmões se torna mais leve, e o silêncio pela primeira vez em muito tempo parece confortável.
Mais uma vez não conto o tempo, não ligo para ele, e Minho também parece não ligar. O que anuncia que estamos a tempo demais na mesma tarefa é o protesto do meu estômago, alto demais, que arranca uma risada sincera de Minho, como se alguém tivesse acabado de contar a maior piada que ele escutou até hoje. No mesmo instante ele para de me passar os temperos, e espera que eu acomode o último que está em minhas mãos dentro do armário.
No segundo que fecho a porta, seus braços contornam minha cintura, me envolvendo em um abraço que me levanta do balcão e me coloca de volta ao chão.
Nessa posição ao invés de eu estar levemente acima da altura dele, é ele que está me olhando de cima para baixo. Seus olhos refletem, depois de muito tempo, um afeto que meu silêncio me fez esquecer, e talvez o tenha feito esquecer, que existe ali.
— Eu trouxe karê para nós dois hoje. Você quer comer? — Seu tom de voz é gentil, suas mãos ainda estão em minha cintura, seus olhos dançam entre os meus como se algo ali explicasse muita coisa.
— Podemos comer no sofá? — O sorriso gentil volta para seu rosto e ele balança a cabeça afirmamente, distanciando seu corpo do meu apenas o suficiente para segurar a minha mão e guiar o caminho.
Ao me deixar sentada no sofá da sala com as incertezas que o espaço carrega, ele volta para a cozinha para buscar a comida esquecida e todos os itens que vamos precisar. Seus passos como sempre são silenciosos, mas dessa vez não é tentando não incomodar uma dor ensurdecedora, é abraçando o silêncio de algo bom que está voltando a aparecer.
Voltando a sala ele apoia os copos com água e a comida na mesa de centro, me entrega a minha colher e se senta do meu lado esquerdo, seu corpo bloqueando a luz da luminária.
— Fui eu que fiz a comida hoje. O movimento estava mais fraco agora no meio da tarde e eu decidi que deveria tentar. — As palavras de Minho parecem ser levemente calculadas, como se uma vírgula errada pudesse desmoronar tudo. Porém suas ações são automáticas e precisas, dobrando corretamente o guardanapo com prática, empilhando as tampas das embalagens no canto da mesa, ajustando os copos para longe das bordas da superfície.
— Parece que hoje nós dois decidimos sair um pouco da rotina, não é? — Digo sem olhar em seus olhos, observando apenas as mãos de Minho apoiando a tigela sobre a almofada em meu colo. Meus olhos focados à espera de uma fumaça inexistente subir.
— E eu estou orgulhoso de nós dois por isso. — Ele segura minha mão esquerda, seus dedos se entrelaçam aos meus e mais uma vez um leve aperto indica que está tudo bem. — Você gosta de karê?
— Sim. Me lembra de casa.
— E isso é bom? — Ergo meus olhos e encontro Minho já procurando os meus, o corpo levemente inclinado para frente já que o meu também está. A luz atrás de seu corpo o ilumina de uma forma como se ele fosse um anjo, e talvez ele seja. Para mim ele é.
— É a melhor coisa que poderia me acontecer. — O sorriso que entrego não é o mais energético, é pequeno, mas verdadeiro, e o suficiente para Minho sorrir largamente de volta.
Não trocamos mais nenhuma palavra durante o jantar, apenas comemos o karê que foi feito por Minho com todo o cuidado e carinho. E o nosso silêncio dessa vez é preenchido por afeto, calma e suspiros apreciando uma comida que o sabor preenche mais do que nossos estômagos. Nossos dedos ainda entrelaçados entre nós dois seguram mais que apenas a mão um do outro, seguram a esperança de que dias melhores ainda podem existir.
Genêro: fluffy, universo paralelo, romance, Park Jongseong sendo lindo, arte!au, pintura!au, é isso.
Sinopse: Confiante em como fazer seu último trabalho de artes do semestre, Sohye gasta todo o seu tempo em outras coisas, priorizando outros trabalhos e até uma viagem para Busan com seu roomate, Jake. Porém, acasos levam ela a ter como sua única opção pintar o menino que a deixa mais confusa com toda sua existência, Park Jongseong.
Seria ele colorido por seu sorriso e seu coração enorme, ou preto e branco, por toda sua seriedade e comprometimento? Seriam traços fortes e marcantes como os desenhos em carvão ou suave e sem limitações como uma pintura toda em aquarela?
Palavras: 8.518
Avisos: repetidamente o sorriso gentil do Jay, o Jake sendo o melhor roomate do universo, o Sunghoon sendo o maior inimigo (de brincadeira) da principal e a principal sendo a pessoa mais ansiosa do mundo só do Jay respirar do lado dela (eu
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O final do semestre vem acertando qualquer um como um caminhão desgovernado. Já são as últimas semanas de aula da faculdade, todos os professores estão empenhados a passar trabalhos absurdos, e a única coisa que me anima é a viagem que farei no fim da semana que vem. Será uma viagem rápida até Busan com o Jake, meu roomate.
— Atenção! Eu vou falar apenas uma vez as instruções para o último trabalho do semestre. Eu sei que isso aqui soa como uma aula de artes qualquer para vocês, e que vocês levam na brincadeira, mas eu estou disposto a zerar trabalhos! — O professor Han diz de maneira séria e enfática, enquanto nos olha por cima da armação prateada de seu óculos. — O último trabalho eu gostei de nomear como: Todos Os Seus Tons.
— Olha, dessa vez ele estava inspirado, pensou até no nome! — Digo baixo apenas para Hyeri escutar.
— É o final do semestre, é o fechamento, é o fim de um ato! — Ela diz as palavras de forma dramática, com a mão direita sobre o peito e o olhar fixo no topo da minha cabeça.
— Você é ridícula! — Lhe dou uma cotovelada de leve e rio. Quando volto meu olhar para frente, o professor Han está nos olhando de canto de olho enquanto continua a explicar, eu e minha amiga apenas caímos em silêncio.
O trabalho foi explicado com todo o drama e “frufrus” que o nosso professor poderia incluir. Mas de forma simplificada o trabalho final é: desenhar uma pessoa que você conhece representando o sentimento que ela lhe transmite. Poderíamos escolher qualquer material para esse desenho final. Aquarela, carvão, nanquim, giz de cera, combinações e opções que deveriam terminar em um único desenho! E claro, com todos os sentimentos e emoções ali representados.
— Sohye, já sabe quem você vai desenhar? — Hyeri me pergunta assim que saímos da sala em direção aos nossos armários.
— Minha querida, é óbvio que meu muso será nada mais, nada menos, que o Jake, né?!
— Nossa... Mas você não vai arriscar nem um pouco? Vocês moram juntos e olham para a cara um do outro todos os dias! — Ela diz desgostosa, enquanto paramos em frente aos nossos armários, como se esperasse algo surpreendente de mim.
— E é exatamente por isso que eu vou desenhar ele! A personalidade do Jake já está simplesmente carimbada e fixada em minha mente. Eu poderia desenhá-lo de olhos fechados! — Troco meus livros e tranco meu armário. — Não tem como errar!
— Cuidado com toda essa confiança, hein?! Esse trabalho é para daqui duas semanas e semana que vem vocês vão viajar, você não vai esquecer, tá ouvindo? — Hyeri fecha seu armário e me olha seriamente, apenas sorrio.
— Eu não vou perder o prazo!
Apesar de eu gostar muito da aula do professor Han, e sempre que posso, de incrementar meus trabalhos, não seria no último do semestre que eu arriscaria alguma coisa. No momento que tudo começou a ser explicado em detalhes, minha mente já desenhava a entrega perfeita de um desenho em aquarela do meu roomate a três anos. Os traços mais marcados, sem um começo ou fim, as cores aquareladas se misturando de forma sutil, um degradê colorido, leve, alegre e tranquilo.
Quando chego em casa depois da aula o barulho na sala é alto, o grito do Jake me assusta, e risadas explodem em seguida. Deixo meus sapatos na porta, jogo minha mochila em minha cama assim que passo pelo meu quarto, e ao chegar na sala vejo o real motivo da bagunça toda. Jake está jogado no sofá, como se tivesse acabado de perder mais uma das discussões inúteis que ele sempre tem com Sunghoon, que se encontra em pé, apontando o dedo na direção do meu roomate enquanto ri junto com o Jay, que está sentado na ponta do sofá.
— SOHYE! — Jake grita meu nome e se arruma no sofá. — Fala pra eles! Ontem eu não consegui fazer a minha série toda de exercícios e mais a do Sunghoon? — Seu cabelo escuro está todo desgrenhado, e ele me olha como um filhotinho perdido, pedindo pelo amor de Deus, uma ajuda! Óbvio que era mais uma discussão sem sentido.
— Claro que fez! Ontem à tarde eu tive que pedir mais de cinco vezes para você parar com a corda e o arremesso dos pesos no chão, a vizinha do andar de baixo já estava pronta para vir surtar na nossa porta.
— EU FALEI! — Jake grita novamente, mas dessa vez apontando o dedo na direção de Sunghoon.
— YAH! Você só está confirmando porque é a aposta dele contra mim! — Sunghoon me olha indignado, apontando seu dedo agora em minha direção, como se eu o tivesse traído.
— Me poupe Park Sunghoon, eu lhe garanto que eu não perco o meu tempo com você dessa maneira! — Ele me mostra a língua antes que eu me vire de costas e saia da sala. Jake está novamente aos berros, pulando, como se tivesse ganho um bilhão de dólares na loteria. — Vou fazer a janta! — Aviso.
— Pode deixar que eu te ajudo! — Jay se levanta rapidamente do sofá e me segue até a cozinha, enquanto os outros dois travam uma guerra de almofadas aos berros e risadas.
Ando até a geladeira e começo a procurar o que fazer. Eu poderia gastar bons minutos, ou até horas, olhando apenas os cinco potes e as três garrafas que ocupam o eletrodoméstico todo, se possível eu me fechava dentro dele, apenas para não ter que conversar cara a cara com o Jay. Não que eu não goste do Park Jongseong, é que talvez eu goste até demais dele.
Os três garotos são amigos desde o começo da faculdade do Jake, que foi também quando ele se mudou para morar comigo, depois que a minha ex-roomate precisou se mudar de volta para a cidade natal. Foi como se eu tivesse aceito mais três pessoas no apartamento ao invés de uma, pois eles sempre estão reunidos, seja para trabalho, após um jogo, ou uma tarde vendo séries.
Erro meu ter notado Jay nos jogos da faculdade antes que ele viesse visitar o Jake pela primeira vez e eu recebesse a informação de que eles são amigos. Maldita hora que Hyeri me convenceu de ir assistir o time de tiro ao alvo na competição interclasse, e eu acabei gostando mais do menino do time de arco e flecha.
— Sohye, já tem alguma ideia do que podemos fazer? — Jay pergunta, enquanto puxa uma cadeira para se sentar.
— Não mesmo, Jay-ssi. Vai todo mundo acabar comendo lámen de novo… — Meus olhos ainda estão focados no que há dentro da geladeira, e não parece que ela tenha algo que me ajude.
— Nós podemos pedir alguma coisa!
— Por Deus, Jake já pediu comida a semana inteira, pelo menos hoje a gente precisa fazer o jantar!
— Deixa eu dar uma olhada também então, vai que tenho alguma ideia?! — O escuto se levantando e minha respiração para. Começo a escanear tudo em minha frente com a maior velocidade que consigo, e assim avisto um pote de curry que só Deus sabe se eu fiz isso na semana passada ou no começo do mês.
— Achei um pote de curry! — Minha voz sai mais alta do que preciso. Me levanto rapidamente, e fecho a porta da geladeira usando mais força do que deveria, e Jay, que já está atrás de mim, se assusta, mas apenas passo por ele em direção a pia. — Deixa eu abrir isso para ver o quão comestível está. — Começo a puxar a tampa do pote, mas a mesma parece estar grudada.
— Quer ajuda? — Jay, que agora está do meu lado esquerdo, apoia seu cotovelo na pia enquanto assiste a luta que travo contra a tampa do pote.
— Não precisa… Acho que guardei o pote quando ainda estava muito quente, parece que fez pressão. Não sei. — Continuo puxando a tampa de todas as maneiras que posso, pelos cantos, pressionando o meio...
— Sohye-ssi, cuidado para não explo… — Jay começa a falar, mas não precisa terminar a frase antes que o desastre aconteça.
A tampa finalmente se solta do pote, mas é claro que não da maneira delicada que deveria ser. Da maneira mais brusca, a tampa que se soltou em minha mão em um solavanco faz com que o pote bata contra a pia e minha mão suba muito rapidamente em direção ao meu cabelo, resultado? Molho curry para todos os lados. Meu cabelo, meu rosto, e provavelmente minhas roupas e a cozinha estão sujas, mas isso ainda não consegui verificar, pois meus olhos estão fechados e eu estou parada, desejando que o tempo tenha congelado.
— Sohye… — É a única palavra que o Jay pronuncia, como um sopro, provavelmente desacreditado no que acabou de ver. Respiro fundo e abaixo a minha mão com a tampa até a pia. — Espera! — Jay diz rapidamente, em um tom de preocupação, antes que eu faça qualquer outro movimento. O escuto mexendo em algo atrás de mim, e assim que sinto o lenço umedecido contra a minha pele, entendo. — Tem curry perto dos seus olhos! — A mão dele é leve enquanto limpa de maneira delicada as manchas de molho do meu rosto. Meus olhos que já estavam fechados faço questão de agora estarem praticamente grudados, minha respiração começa a acelerar um pouco, enquanto a minha mente se encontra em estado de calamidade máxima! Internamente estou aos berros.
Porém, sou obrigada a abrir os meus olhos assim que ele sussurra um “pronto”, e seu rosto, que está mais perto do que eu estava esperando, está bem na minha frente com um sorriso gentil e carinhoso que deixa seus olhos pequenos. A proximidade faz com que eu leve um pequeno susto que o faz rir. Ele estica seu braço, joga o lenço sujo no lixo e se vira para pegar mais alguns limpos, noto que na manga de sua blusa verde musgo também há respingos de curry. Pisco algumas vezes para me botar novamente na realidade, e assim que consigo, me viro para sair de perto dele.
— Acho que vou ter que tomar um banho… Tem curry no meu cabelo! — Declaro chateada enquanto passo a mão nos fios próximos a minha testa e escaneio minha roupa também suja, definitivamente vai direto para a máquina de lavar.
— Pode ir! Eu me viro aqui. — Jay diz enquanto o escuto usando a pia.
— Eu vou chamar o Jake! — Me viro em sua direção. — Você não precisa, e nem deve, fazer tudo sozinho. — Minha fala é interrompida pelo ato seguinte do Jay, que ainda com seu sorriso gentil, caminha em minha direção com mais um lenço umedecido e começa a tirar o excesso do molho do meu cabelo.
— Não precisa, mesmo! Provavelmente vamos pedir alguma coisa. — Olho para cima, para os fios de seu cabelo preto perfeitamente alinhados com um pouco de gel, propositalmente, para não precisar de novo ter que olhar em seus olhos.
— Tá certo. — Não sei, e não consigo, responder além disso.
Assim que ele termina de limpar o que pode, agradeço, e saio o mais rápido que consigo da cozinha. Sinto meu coração batendo rápido, minhas bochechas começarem a esquentar, assim como as pontas das minhas orelhas. As costas do Jay, enquanto ele limpa a minha bagunça, é a última coisa que vejo antes de fechar a porta do banheiro às pressas.
Demoro no banho mais do que eu esperava, o cheiro do curry parecia estar impregnado no meu cabelo, ou no meu nariz, se isso é possível, quando abro a porta do banheiro os meninos já estão sentados na mesa jantando. Passo por eles até a lavanderia, onde deixo minha roupa separada para lavar depois, penduro minha toalha, e volto para o ambiente anterior, seguindo o cheiro da comida.
— A senhora fez uma bagunça, hein?! — Jake me olha franzindo o cenho, com as mãos na cintura, assim que volto para a cozinha.
— Estava achando que só você pode fazer isso por aqui? — Respondo, colocando as minhas mãos na cintura também.
— Exclusividade minha! — Ele inclina a cabeça para o lado e arqueia as sobrancelhas, mas neste momento nós dois já estamos sorrindo.
— Você pode lavar a louça depois se quiser! — Dou tapinhas em seu ombro enquanto passo por ele em direção a cadeira vazia ao seu lado.
— Não vai secar o cabelo? — Ele pergunta enquanto me sento.
— Faço isso depois do bibimbap! — Jogo meu cabelo em sua direção para espirrar um pouco de água. Jake apenas fecha os olhos e respira fundo.
— Eu fiz o pedido certo? É esse que você gosta? — Jay, que está sentado em minha frente, pergunta minimamente apreensivo.
— Está sim, obrigada! Veio certinho. — Sorrio o agradecendo e ele também sorri.
— Você nunca muda o que come? — Sunghoon pergunta enquanto coloca mais um pedaço de carne na boca.
— Jura? Logo você? — O olho com indiferença. Jay apenas ri.
Todas as vezes que os meninos jantam aqui é a mesma coisa, eu e o Sunghoon — precisamos — arrumar um jeito de um implicar com o outro. Seja pela comida, por sujeira, louça, ou simplesmente um papel fora do lugar, Jake e Jay até já se sentam antes para que não haja a mínima possibilidade de nos sentarmos de frente um pro outro ou lado a lado. O bom disso é que toda a situação faz com que eu me distraia, e eu não me sinta tão nervosa, por exemplo, quando o Jay senta do meu lado. Outra vantagem que tenho quando os meninos vêm é que eu sou a única mulher, e o Sunghoon o mais novo, então sempre somos mandados embora da cozinha para a sala, como se nossos pais estivessem se livrando de nós por uns minutos, e assim não preciso nem lavar e muito menos secar a louça.
Fico conversando com Sunghoon o tempo que Jake e Jay estão na cozinha terminando de arrumar tudo. Apesar de eu ter começado a faculdade antes deles temos todos a mesma idade, e eu acabo sendo “mais velha” apenas por fazer aniversário antes. Quando os outros dois se juntam a nós conversamos por mais um bom tempo. Não sei que horas eles vão embora, mas já é tarde demais para continuarmos acordados tendo aula novamente no dia seguinte.
O final daquela semana e a semana seguinte passam rápido, voando para ser exata, pelo número de trabalhos e entregas que vão se alternando conforme os dias passam. Durante todo o tempo Hyeri me lembra do trabalho da aula de artes, contando quantos dias eu estou perdendo, mas em minha defesa Jake também não tem me ajudado nessa tarefa! Não que ele tenha alguma obrigação nisso, mas ele não tem ficado muito tempo em casa por causa dos trabalhos da faculdade e dos treinos de futebol. Nesse vai e vem, quando percebo, eu e Jake já estamos na quinta feira a noite, saindo correndo da última apresentação de patinação do Sunghoon direto para a estação de Seul, para pegar o trem para Busan.
— Graças a Deus deu tempo! — Tiro minha mochila das costas e me jogo na poltrona da janela, respirando fundo para recuperar o ar perdido na pequena corrida indesejada.
— Ah, mas fala a verdade, foi legal ver a apresentação do Sunghoon! — Jake estica a mão em minha direção e eu entrego minha mochila.
— Sim, com certeza! Foi muito bonita! — Meu roomate também coloca sua mochila no bagageiro acima das nossas cabeças e se senta ao meu lado.
— Ok senhorita. Próxima parada, Busan! — Ele apoia seu cotovelo no braço da poltrona e segura minha mão.
— Ainda bem que a gente vai de trem, e não de avião. — Respiro fundo enquanto olho pela janela, Jake ri.
— E você jurando que queria ir até a Austrália nas próximas férias.
— Nós vamos para a Austrália nas próximas férias! — Digo de maneira séria. Quando olho para Jake ele está sorrindo. — Eu tenho tempo suficiente para me preparar.
— Vai dar tudo certo! — Ele balança nossas mãos antes de soltar a minha e pegar o celular no bolso de sua jaqueta. — Oh! Mensagem do Jay. Ele nos desejou boa viagem! E o Sunghoon também.
— Agradeça ele por mim! O Jay, no caso. — Fecho meus olhos e apoio minha cabeça no ombro de Jake, o sentindo tremer um pouco por ele estar rindo. — Me acorde apenas se oferecerem comida, acontecer algum desastre ou zumbis invadirem o trem!
— Mas eu não tenho nem um taco de beisebol para te defender se eles invadirem! — Ele diz, indignado.
— Tudo bem, a gente dá sorte! Zumbi nenhum vai querer atacar o meu cérebro ou o seu. — Escuto Jake digitando mais algumas mensagens e guardando o celular no bolso novamente antes de eu dormir.
Não sei exatamente em que momento do caminho estamos quando acordo, mas sinto o peso da cabeça do Jake apoiada sobre a minha, então insisto em voltar a dormir. Mas meu novo ciclo de sono não dura muito até que uma moça venha nos acordar e dizer que estamos quase chegando na estação de Busan. Chegando no hotel nós simplesmente aceitamos o fato de que estamos cansados demais para qualquer coisa, então soltamos nossas mochilas no chão e cada um se joga de um lado da cama de casal no centro do quarto, e assim dormimos até o amanhecer.
O outro dia começa cedo, a cortina mal fechada permite que a luz do Sol entre e nos acorde. Abro meus olhos e encaro o teto por alguns segundos, tentando entender onde estamos, como estamos, e porque estamos, mas quando olho para o lado Jake já está sentado, mostrando que eu não tenho muito tempo para ficar enrolando na cama antes que ele comece a me apressar para irmos a praia. No fim, aqueles segundos que tive pela manhã foram os únicos de tranquilidade pelo resto dos dias em Busan.
Toda a nossa viagem passa rápido demais. Fomos a praia, bares, confeitarias e pontos turísticos. Andamos, dançamos, e demos risada. O problema no final disso tudo foi eu ter me esquecido de passar protetor solar na maioria das vezes, fazendo com que o fim de semana prolongado me presenteasse com uma queimadura de Sol em minhas costas. Tentando ajudar, Jake passou em mim todos os pós-sol possíveis que achamos, mas nenhum parecia ter um resultado bom o suficiente que me fizesse parar de choramingar. A volta para Seul foi atordoante. A maior parte da viagem passei deitada no colo do Jake para não encostar as costas no banco do trem.
Só consigo ter paz, descanso e sossego quando chegamos finalmente no nosso apartamento, na madrugada de domingo. Acendo a luz do meu quarto, me jogo de bruços na cama, e arremesso minha mochila para longe. Minhas costas está ardendo, e o apartamento ainda está levemente cheirando ao bife queimado de quinta feira. Enquanto aproveito finalmente poder esticar minhas costas e minhas pernas, escuto Jake calmamente andando de um lado para o outro no apartamento enquanto verifica se tudo está em seu devido lugar. Após toda a inspeção ele finalmente liga o ar condicionado e vem até meu quarto, onde gentilmente me ajuda a passar o remédio para queimaduras de Sol que eu já tinha. Ele ri quando vê a pomada, pois aquilo denuncia que eu nunca fui capaz de passar protetor solar da maneira correta.
O horário que eu durmo não sei exatamente, mas quando acordo já são 13h, o meu quarto está mais frio do que deveria, o que significa que provavelmente o Jake ou ainda não acordou, ou esqueceu de desligar o ar condicionado. Logo que me sento na cama e pego o celular para verificar novamente o horário, percebo que há uma mensagem de Hyeri me lembrando pela última vez do trabalho de artes. Tudo bem, ainda tenho a tarde de hoje, e ela é o suficiente para eu desenhar.
Me levanto, troco de roupa, e ao abrir a porta do quarto já posso escutar alguém mexendo nas coisas da cozinha, Jake provavelmente já está fazendo o almoço. Passo na sala, desligo o ar condicionado, e vou em direção ao banheiro. Estou esfregando os meus olhos quando chego na porta e resolvo olhar na direção da cozinha para ver o que está acontecendo, e a situação que encontro faz com que eu os esfregue ainda com mais força, já que, para minha surpresa, quem está de costas fazendo o almoço não é o meu roomate, e sim, Park Jongseong.
Escaneio rapidamente minha roupa, nenhum furo ou manchas, então passo a mão em meus cabelos tentando arrumar o máximo que consigo, e rezo para que a minha cara não esteja muito inchada. Quando meu mini ataque passa, e eu olho para o Jay de novo, percebo que ele está tão descabelado quanto eu quando acordei, o que me faz pensar que ele também estava dormindo até um tempo atrás, e em seguida, inconscientemente, acabo analisando as suas roupas. Sua camiseta branca está presa de maneira desajeitada por dentro de sua calça preta estilo alfaiataria, um cinto fino preto marca a sua cintura e seu relógio, que foi presente do seu pai, está como sempre em seu pulso esquerdo. Pleno domingo, hora do almoço, por qual motivo ele está tão arrumado? Será que ele é modelo nas horas vagas?!
Voltando para a realidade resolvo fingir naturalidade, já que ele ainda não havia notado minha presença, e entro no banheiro como se nada estivesse acontecendo. Depois de gastar alguns longos minutos ali, antes de abrir a porta para sair, respiro fundo e treino no espelho a melhor cara de espanto que posso fazer, afinal, achei que era o Jake na cozinha, essa é a premissa da situação. Porém, quando abro a porta, Jay ainda está de costas para mim, fazendo com que a minha expressão de surpresa comece a se transformar em desespero, pois toda a cena que eu havia montado em minha mente não está acontecendo, mas então respiro fundo e me acalmo, antes de chamar o nome do amigo do meu roomate:
— Jay?! — Minha voz sai não intencionalmente alta, fazendo com que ele se vire para mim.
— Sohye! — Ele sorri. — Bom dia!... Boa tarde. — Ele desliga o fogão e se apoia no balcão da cozinha. — O almoço está praticamente pronto, eu não sei se você vai querer, é lámen.
— Ah… Agora não, obrigada. — Agarro a bainha da minha camiseta e sorrio. — Acabei de acordar, e acho que não vai me fazer bem. E o Jake? Cadê? — Tombo levemente meu corpo para a direita, e poio meu ombro na batente da porta, ainda tentando fingir naturalidade.
— Ele foi para a casa do Sunghoon! Foram resolver algumas coisas do trabalho que não estávamos conseguindo resolver por aqui.
— Ah… — Coço minha cabeça, tentando dar seguimento na conversa. — E bom, não querendo soar grossa, mas sei vou soar, o que você está fazendo aqui? — Jay sorri gentilmente, o mesmo sorriso de sempre.
— Eu fiquei porque conforme eles iam pedindo eu ia enviando os arquivos e vendo se estava dando certo. Mas em algum momento eles demoraram demais para responder e eu acabei dormindo no sofá.
— No sofá?! Você podia ter ido para o quarto do Jake! Ele com certeza não iria se importar. — Digo indignada, o que o faz rir.
— Tudo bem, o sofá de vocês é grande. — Ele ainda sorri. — Enfim, vou almoçar agora, qualquer coisa me avise que eu faço algo para você depois! — Jay se vira novamente em direção ao fogão e começa a colocar em uma tigela o quanto quer de lámen.
— Imagina, é a minha casa, eu que deveria estar fazendo as coisas! — Desencosto da batente e começo a andar de volta para o meu quarto. — E que horas o Jake volta? — Falo mais alto para que ele possa me ouvir.
— Agora são quase 13:20… Pela última atualização deles sobre o trabalho, não volta antes do fim do dia! — Ele responde no mesmo tom
As palavras do Jay me causam pânico. Entro correndo em meu quarto e fecho a porta às pressas, droga, como assim não antes do fim do dia?! Ele precisa voltar! Pego meu celular em cima da cama e começo a digitar uma mensagem para o Jake.
[13:21] Sohye: JAKE! Onde você está???? Que horas você volta???
[13:21] Sohye: Pelo amor de Deus eu tenho um trabalho de artes, você lembra? Você disse que iria me ajudar!!!
[13:21] Sohye: É para amanhã!!!!!
[13:22] Sohye: SIM JAEYUN!!!! T___________T
[13:23] Jaeyun: Sohye, acordou agora? Já almoçou?
[13:23] Jaeyun: Eu estou na casa do Sunghoon, viemos resolver umas coisas do trabalho. Nossa entrega também é amanhã! E o Jay? Ele está acordado?
[13:23] Sohye: Acordei faz um tempo, e ainda não almocei.
[13:23] Sohye: Nem sei se vou almoçar, estou nervosa demais agora!!!! Por favor, volta logo!!!!!!! T______T
[13:23] Sohye: Jay está almoçando.
[13:26] Jaeyun: Almoce com o Jay, por favor. Não fique sem comer!
[13:26] Jaeyun: Eu não sei que horas vou conseguir voltar, ainda não resolvemos as coisas que estão dando errado no arquivo, e nós não almoçamos ainda também!
[13:26] Sohye: Jakeeee, por favor T___T como eu vou resolver?!
[13:30] Sohye: Jake?????
[13:35] Sohye: Jakeeeeyyyyyy
Estou ferrada, arruinada, destruída! O que eu faço agora?
Busco rapidamente o número de Hyeri na agenda e ligo para ela, o celular toca algumas vezes até ela atender.
— HYERI! — Grito o nome da minha amiga, o desespero tomando todo o espaço que existe no meu quarto.
— Sohye! Você enlouqueceu de vez?! — Sua voz denuncia a irritação com o meu berro.
— Talvez eu esteja louca, me desculpa, mas é que eu estou desesperada! O Jake parou de me responder e eu não sei o que fazer!
— O que houve? Aconteceu alguma coisa com ele? — Preocupo Hyeri da maneira errada, tudo errado.
— Não! Não é isso. Que saco, eu nem estou conseguindo explicar… — Respiro fundo. — Lembra do trabalho de artes…
— Eu te avisei. — Sua voz de preocupação some no mesmo instante, e agora ela usa o seu tom de voz mais baixo, mostrando claramente que não será nada compreensiva.
— Hyeriiiiii… — Digo de forma manhosa.
— Não tem nada de "Hyeriiii" eu te avisei e ponto!
— Mas QUANDO que eu ia achar que, bem no dia, o Jake teria problemas com o trabalho dele e estaria na casa do Sunghoon? — Tento fazer minha voz triste, mas sei que nada irá dobrar minha amiga.
— Em QUALQUER situação possível você deveria ter achado! — Ela responde irritada. — Agora como você vai resolver isso? — Ela solta o ar, cansada, desistindo de brigar.
— Então, não teria como você vi…
— Não!
— Hyeriiiiii!! — Uso minha voz manhosa novamente, suplicando a ajuda da carrasca do outro lado do telefone.
— Não adianta fazer vozinha de triste, nhe nhe nhe, nem nada, não vou!
— O que eu faço então? Vou até a casa do Sunghoon? — Fico irritada. Como que ela consegue me ver nessa situação, no último trabalho do semestre, e não me ajudar?!
— Se for preciso… — Ela diz, indiferente.
— Garota! Pelo amor de Deus! Não vai te custar nada, você só tem que… — Duas batidas na porta interrompem meu discurso. — Só um momento, Hyeri. Oi?
— Sohye, quer que eu guarde o lámen ou posso jogar fora? — Jay pergunta do outro lado da porta, sem abri-la.
— Pode jogar, Jay, obrigada! Peço algo depois para comer. — Escuto um "ok" e os passos dele indo embora. — Pronto Hyeri, voltando.
— Então o Jay está aí? — Sua voz soa menos brava.
— Sim! Ele veio com o Sunghoon de manhã e daí o Jake precisou ir para a casa do Sunghoon e o Jay ficou aqui.
— Desenha ele. — Hyeri responde rapidamente.
— O que?
— Desenha ele, desenha o Jay! — Ela responde como se fosse óbvio, mas é ÓBVIO que NÃO É ÓBVIO!!!
— Você está louca! É claro que não! — Minha mão está sobre meu peito, meu corpo inclinado para frente, minha indignação está no pico. — Você sabe muito bem que eu não teria condições disso.
— Só que essa é a sua única opção agora! Eu tenho certeza que se você pedir a ele a resposta será sim. O Jay é uma ótima pessoa, e se você desenhá-lo eu tenho certeza que ficará certinho o que o professor Han pediu no trabalho. Algo cheio de sentimentos. — Eu posso visualizar o sorriso que se forma nos lábios de Hyeri a cada palavra que ela diz.
— Não. Não. Não. — Nego, e negarei, quantas vezes for preciso. Ela sabe perfeitamente que é mais fácil eu colapsar do que pedir esse favor.
— Bom, essa é a minha ajuda a você, Sohye, espero que você possa aproveitá-la! Nos vemos amanhã. Até mais!
— Hyeri! — Quando chamo seu nome, ela já desligou.
Jogo meu celular em meu travesseiro e também me jogo na cama. Sim, o Jay seria a solução mais fácil para eu resolver esse meu problema, mas ele também seria a iniciativa mais difícil da minha vida! O que eu vou falar pra ele? “Olá, posso te desenhar?” O quão vergonhosa seria essa situação? Olho novamente o relógio do celular, quase duas horas da tarde. Eu preciso começar a me resolver agora, antes que o errado dê mais errado e nada seja entregue amanhã.
Estou quase jogando o celular em outro canto da minha cama quando, antes de bloquear a tela, vejo a foto do Jake no kakao talk junto as minhas mensagens não lidas, e é assim que decido: vou desenhar o meu roomate olhando uma foto dele! Não é a mesma coisa que desenhá-lo ao vivo, não trará os mesmos sentimentos, nem a mesma criatividade e naturalidade, mas é a — única — saída, e talvez, se eu pensar na nossa última viagem à Busan, eu consiga relembrar meus sentimentos e assim transmiti-los na pintura agora.
Determinada, puxo a cadeira da minha escrivaninha, apoio meu celular com a foto do meu roomate em um canto da mesa, pego todos os materiais possíveis e me sento. A folha em branco nunca foi tão desafiadora como agora, mas eu vou conseguir, eu tenho que conseguir.
Os primeiros rabiscos são um grande desastre. A silhueta do Jake parece torta demais, grande demais, e outrora redonda demais. Os traços saem com mais força que eu desejo, e assim, depois de algumas tentativas, a borracha não parece mais realizar o seu serviço de maneira exemplar. Minhas mãos suam, não consigo controlar minha perna esquerda que neste ponto já está tremelicando por vontade própria, e minha mente está totalmente fora de foco. Os minutos da hora chamam a minha atenção, o som do Jay lavando a louça chama a minha atenção, a minha respiração tira a minha atenção.
Meu desfoque e devaneio é tão grande que, quando Jay bate duas vezes novamente na minha porta, e eu finalmente me dou conta de onde estou, já são 15:30, e a silhueta do Jake ao mesmo tempo que já foi desenhada de todas as maneiras no papel, ainda não está desenhada. Resolvo então contar até cinco e respirar fundo, antes de me levantar e abrir a porta.
— Sohye, desculpa te incomodar. É que, como provavelmente os meninos não vão mais precisar da minha presença aqui, eu estou indo embora! — Sua voz é calma, e meu estado deprimente faz parecer que ela está distante.
— O que?
— Estou indo embora. Vou para casa! — Pisco algumas vezes, tentando processar a informação que estou recebendo. Escaneio Jay de cima a baixo e noto que seu cabelo já está arrumado, suas roupas já estão alinhadas, e a alça de sua mochila está apoiada em seu ombro direito.
— Você está indo embora? — Repito a informação que já me foi repetida.
— Sim, por isso vim te avisar. Até outro dia! — Ele sorri, segura a alça de sua mochila, e começa a se virar em direção a porta de entrada.
— Não pode! — Digo sem pensar, ao mesmo tempo que, por impulso, agarro seu pulso. Jay olha para meu rosto, para minha mão, e então para o meu rosto de novo.
— Está tudo bem? — Sua feição agora é de preocupação. Seus olhos estão sérios, seu cenho franzido, e seu tom de voz é mais baixo e cauteloso.
— Nem um pouco. — Solto seu pulso e suspiro. — Mas não é nada grave. É que eu estou com problemas no meu trabalho de artes. — Eu não acredito que vou fazer isso, mas eu preciso fazer. Não é?! — Será que você pode me ajudar?
— Me desculpa, mas como eu posso ajudar? — Ele arruma a alça da mochila em seu ombro e me olha, curioso.
— Eu tinha combinado com o Jake, mas ele ainda não chegou e o trabalho é para amanhã. É um trabalho de desenho. Então, assim, eu posso te desenhar? — Meu coração está na minha boca, eu tenho certeza disso, não é possível que ele esteja batendo no lugar que deveria. O tempo entre as piscadas do Jay parecem aumentar, ou o tempo dentro da minha cabeça que desacelera. Eu estou morrendo?
— Oi? — Ele pisca mais algumas vezes. — Acho… Que eu não consigo ajudar com isso. — Ele solta uma risada anasalada, sem graça.
— Por favor! É o último trabalho do semestre, e eu lhe juro que é tranquilo. Você não precisa fazer nada, só ficar sentado e parado no cantinho do sofá! — Junto minhas mãos na frente do meu corpo e fecho os olhos, pedindo da forma mais expressiva possível a ajuda dele.
Não escuto sua voz pelos segundos seguintes. Não sei se porque as batidas do meu coração estão me deixando surda ou se é porque ele realmente não emitiu um único som. Quando abro os olhos Jay ainda está na minha frente, parado, na mesma posição segurando a alça de sua mochila. Seus olhos estão fixos em um ponto imaginário na parede branca, e seus lábios formam um beicinho, uma mania dele quando está pensativo.
— Ok. Posso ajudar. — Ele responde, de repente, de maneira robótica, ainda com o olhar fixo no ponto inexistente.
— Muito obrigada! — Sem dar brecha para qualquer outra resposta eu o abraço impulsivamente, e ele, pelo susto, me abraça de maneira desajeitada. — Você pode se sentar no sofá, na ponta perto da janela, enquanto eu pego as minhas coisas. Fica a vontade, mesmo, quanto mais relaxado melhor! — Jay apenas assente com a cabeça e começa a caminhar em direção a sala.
Volto para o meu quarto e começo a pegar as coisas. A cada viagem que faço segurando tralhas do meu quarto para a sala vejo Jay em uma fase diferente. Primeiro ele deixa a mochila no canto onde estava anteriormente, depois ele se senta de forma desconfortável no sofá como se aquele ambiente fosse totalmente desconhecido, e então sinto seu olhar em mim enquanto vou e volto.
— Você pode se mexer! — Digo sem olhar em sua direção enquanto ajeito tudo pelo chão. — Não precisa ficar todo o tempo parado, sei que é difícil. Só não ficar constantemente trocando de posição.
— Eu posso ouvir música? — Seu tom de voz ainda é baixo, mas agora como se ele não estivesse seguro de uma única palavra que saía de sua boca.
— Claro! — Olho para ele dessa vez e sorrio, tentando mostrar que eu estou calma, apesar de eu não estar, e tentar acalmá-lo também.
Assim que termino de ajeitar as coisas, me sento no chão no canto oposto da sala, coloco o cavalete pequeno de pé na minha frente e prendo a folha. Jay agora está sentado mais confortavelmente, com os fones em seus ouvidos, enquanto mexe no celular. Entretanto, essa é a minha vez de ficar completamente desconfortável e perdida. Como vou fazer isso? Como vou definir meus sentimentos pelo Jay tão facilmente assim? Esse é, com certeza, o único ponto em que meu desenho será fiel: será tão complicado quanto meus sentimentos e entendimentos sobre Park Jongseong.
Logo que começo decido que o melhor será desenhar apenas o busto do Jay, como os antigos bustos gregos, e não seu corpo todo, mas o processo se torna exatamente a mesma tragédia que estava acontecendo anteriormente. Silhueta redonda demais, inclinada demais ou fina demais. Mandíbula quadrada demais, suave demais ou reta demais. Mas, talvez porque agora seja minha última chance, e o tempo esteja contra mim, após mais algumas tentativas o desenho começa a criar forma, e o rascunho da silhueta angular e marcante de Jay começa a aparecer da maneira correta. Meu modelo agora parece bem mais calmo, seu olhar ainda está fixo na tela do celular, mas seu corpo agora está acomodado no sofá, com suas pernas cruzadas, e o pé balançando no ritmo da música que ele está ouvindo. Sua expressão menos tensa me relaxa também.
Porém, todo esse início caótico que parecia ser o maior dos meus obstáculos era só o primeiro chefão do jogo. Como eu vou continuar? Seria Jay um desenho colorido, em tons pastéis, como o seu sorriso gentil e seus atos carinhosos? Ou um desenho preto e branco, em carvão ou nanquim, para mostrar sua personalidade forte e olhar intimidador? Respiro fundo e começo a pensar, e, enquanto batuco a ponta do lápis no canto do cavalete, me lembro que na verdade essa parte não é sobre ele, e sim sobre mim.
Pensar em todos os meus sentimentos pelo Jay em primeiro momento me causa nervosismo, assim como todas as vezes que nos deixam sozinhos em alguma situação, então resolvo pintar isso usando cores fortes, com a tinta aquarela pouco diluída, em pinceladas rápidas que rodeiam a silhueta desenhada. Em seguida, penso o que exatamente me faz ter esse sentimento todas as vezes, e entendo ser sua intensa presença que se faz através de seus traços bem marcantes, por isso, com um nanquim de ponta mais grossa, defino bem todos os traços do meu desenho. Ainda assim, tenho plena certeza de que não sou preenchida apenas por sentimentos desnorteados. Todas as vezes que ele sorri, todas as vezes que ele acerta algo preferido meu, meu sentimentos são os mais calmos e cheios de amor possíveis. Em cores, isso seria a mais diluída aquarela, em tons serenos e relaxantes, ao mesmo tempo que presentes e inesquecíveis.
Todo o desenho e pintura vai sendo criado em camadas, fases, assim como a minha relação com Jongseong em todos esses anos. Nunca foi algo corrido ou forçado, sempre aconteceu com calma e cuidado. Seus traços foram sendo marcados em mim pouco a pouco, diferente da sua presença que pareceu preencher todo o ambiente desde a primeira vez que eu o vi.
As horas passam, e todo o meu foco fica no meu trabalho final. Me mantenho tão focada pelo resto do dia que não percebo o pôr do Sol através da cortina e muito menos a presença do meu roomate atrás de mim. Só descubro que o Jake está ali quando, de repente, ele apoia sua mão exatamente em cima do meu ombro queimado pelo Sol.
— AI! — Grito pela dor, e, por reflexo, ao mesmo tempo que o Jake tira sua mão do meu ombro, eu mexo meu braço para tirar a queimadura de perto dele. No entanto, o movimento repentino faz com que eu dê uma pincelada de tinta vermelha em meu trabalho, na parte da bochecha do Jay. — JAKE!!! — Grito novamente, frustrada.
— Sohye, me desculpe! Por favor! — Desesperado, ele assopra e abana com as duas mãos o local onde ele tocou. — Eu estava agachado atrás de você, te vendo pintar, e eu acabei perdendo o equilíbrio! Me desculpa. — Jake termina a frase com um beicinho, e só de olhar para ele é clara sua preocupação, seus olhos tão grandes e redondos quanto os de um golden chateado.
— Tudo bem, Jakey, está desculpado! — Rodo meu ombro na tentativa de minimizar um pouquinho o ardor ao mesmo tempo que seguro a mão de Jake para consolá-lo. Jay, que tomou um susto com meu grito e também não havia notado seu amigo, se levanta do sofá e vem em nossa direção.
— Está tudo bem? Já terminou? — Jay guarda seu celular no bolso e tira os fones do ouvido. Ele fica do lado do Jake e se inclina para frente, para tentar ver melhor o meu trabalho. — Nossa! Ficou ótimo! — Ele diz, surpreso. Suas sobrancelhas arqueadas, e a cabeça levemente inclinada como um gato curioso, demonstram como ele não estava esperando por aquilo.
— Não ficou ótimo?! — Meu roomate diz mais animado. — Eu achei que até o manchado por causa do susto ficou bom!
— Sim! Olhando agora até parece que foi intencional. — Examino com mais cuidado. — O professor Han com certeza vai achar que é um toque artístico!
— Eu achei que ficou muito bom mesmo. Com certeza ele não vai ter o que reclamar! — Jay concorda com nós dois. — Mas o que é exatamente esse trabalho? — Ele se ajeita e coloca as mãos no bolso. Sinto que levemente arregalo meus olhos, não esperando que ele fosse fazer essa pergunta.
— Pois é, acho que nunca tinha te visto usando tantas coisas em uma mesma pintura. — Jake me olha curioso. Como eu queria que ele entendesse que nesse momento ele deveria estar me ajudando, não atrapalhando.
— Ah… Mas é isso! Eu tinha que usar várias coisas na mesma pintura! — Uso o que meu roomate diz como resposta. — Era o objetivo do trabalho, explorar! Então usei vários materiais, vários estilos e enfim. Que bom que gostaram! — Sorrio de maneira forçada e me volto ao trabalho, nervosa. — Mas é isso gente, terminei! Obrigada Jay, pela ajuda, não posso dizer o mesmo sobre outra pessoa…
— Mas a gente também tinha trabalhooo… — Jake diz, manhoso, enquanto segura meus braços e me chacoalha de leve. Jay apenas ri.
— Você prometeuuu! — Fecho meus olhos e só sinto meu corpo se movendo de um lado para o outro.
— Bom, já que Sohye já terminou o trabalho e o Jake já chegou, vou embora! — Jay conclui, e quando abro meus olhos ele está sorrindo, gentil.
— Claro! Deixa eu te levar até a porta. — Me apoio no Jake para me levantar, ajeito a minha roupa e seguro as mãos do meu roomate para que ele levante também. Porém, quando dou um passo para trás desviando do corpo do Jay, acabo chutando o pote com água que eu estava usando para limpar os pincéis, e bom, sujeira.
— SOHYE! — Jake grita.
— PELO AMOR DE DEUS, UM PANO! — Grito de volta.
— CALMA, VOU PEGAR PAPEL! — Jay também grita.
Uma leve correria se inicia. Eu levanto o copo e tento conter a água, Jay anda rápido até a cozinha para pegar papel e o Jake recolhe meu trabalho para não correr o risco de algo dar errado. O problema é resolvido rapidamente, mas é claro que eu + Jay teria que acabar com uma bagunça minha. Não muito depois que arrumamos toda a bagunça meu modelo finalmente pôde ir embora e eu relaxo. Me sento no sofá por alguns segundos que parecem uma eternidade, tentando processar todas as coisas que aconteceram só no período de algumas horas do dia, hoje foi literalmente a prova de como eu funciono incrivelmente bem quando pressionada, pois nunca teria a coragem de pedir para o Jongseong ser o meu modelo! Entretanto, já que tive essa coragem agora, não terei mais uma vez.
No dia seguinte quando chego na faculdade a primeira pessoa que vejo é a Hyeri. O sorriso em seu rosto é nitidamente um “eu sabia” e a expressão em meu rosto com certeza comunicava um “eu vou te matar”, mas o importante é que a combinação dos dois significa que tudo deu certo. O problema é que, num futuro extremamente próximo, o obstáculo final, o chefão master do jogo, vai acontecer: ter que explicar para a classe e para o professor o que significa cada mínimo detalhe do meu trabalho final.
Ao ver as outras pessoas explicando primeiro vou respirando fundo e mentalizando que está tudo bem, que eu não preciso ser totalmente verdadeira na explicação como eu fui na minha pintura. Eu posso sim dizer que as cores quentes representam o fim da tarde e que os tons pastéis representavam a calma existente no ambiente no momento, mas com certeza não havia problema nenhum em dizer que os traços bem marcados eram simplesmente os traços do Jay, pois isso todo mundo que conhece ele sabe exatamente que é isso.
Quando chega a minha vez de apresentar, minhas desculpas e mentiras se enrolam na ponta da minha língua Vejo alguns colegas cochichando coisas para seus amigos quando eles veem o meu desenho, e aquilo me deixa nervosa, porque com certeza ou era a situação de eu — não ter — desenhado o Jake ou a de eu — ter — desenhado Park Jongseong, o atleta revelação do time de arco e flecha. Ao final da apresentação a única pessoa que não parece convencida com nada do que foi dito é Hyeri. Seus braços estão cruzados na altura de seu estômago, seus olhos semicerrados e um meio sorriso que grita “eu sei que você está mentindo!”. Mas o importante é que, quando volto para o meu lugar ao lado dela, a sensação é de alívio e missão cumprida, e a etapa final é simples, deixar o desenho em cima da mesa do professor Han e ir embora.
O problema é que, no dia seguinte, quando chego novamente na faculdade, percebo que não foi simples assim, pois é óbvio que o semestre não poderia terminar em paz e calmaria, é óbvio que tudo tinha que dar errado no final.
Todos Os Seus Tons.
É isso.
É isso que está escrito em uma enorme faixa em letras garrafais.
E é isso, óbvio, que esta enorme faixa está de canto a canto do corredor anunciando a belíssima exposição do professor Han com os nossos trabalhos finais.
Ando calmamente entre os desenhos pendurados em pequenas molduras de metal que sustentam as folhas esticadas e também o fio de nylon que segue até o teto. A cada passo que dou uma gota de suor frio escorre pela minha testa, minha respiração fica toda bagunçada e é verídico que meu coração volta a bater na minha boca. Olho cada desenho com cuidado, tentando identificar o meu, e em um pequeno momento de alívio acabo percebendo que pelo menos os desenhos não estão com os nossos nomes.
Entre um desenho e outro vejo amigos animados e orgulhosos, mostrando seus trabalhos para aqueles que foram seus modelos, assim como para outras pessoas, explicando cada detalhe e sentimentos colocado ali. Estou quase terminando de andar pelo corredor de folhas canson quando finalmente vejo o meu desenho. Solto o ar que eu não havia percebido que estava prendendo, aliviada em ver que ele está bem em um cantinho, quase escondido atrás de uma fileira de armários, e que ninguém parecia notar ele quando passava. Paro em frente a ele e me certifico de que é realmente meu.
— Eu não sabia que os trabalhos iam ser expostos. — A voz do Jay de repente soa em meus ouvidos, me assustando, e quando me viro para trás, o próprio está bem ali. — Me desculpa, não queria te assustar! — Ele sorri gentilmente.
— Não. Imagina. Eu só estava distraída! — Sorrio também e me viro para o meu desenho novamente. — Eu também não sabia, acredite, estou tão surpresa quanto você. Tenha certeza que, se eu soubesse, eu tinha te falado!
— Eu sei que sim. Mas não tem problema, eu realmente gostei muito do seu trabalho! — Olho para Jay e o olhar dele está focado no papel em nossa frente. Seu olhar escaneia cada canto, cada detalhe, como se ele estivesse o vendo pela primeira vez.
— Fico realmente feliz que você gostou! — Respondo, olho para frente novamente, e respiro fundo.
— Mas eu tenho uma dúvida. — Ele novamente me pega de surpresa com uma pergunta inesperada. — O nome do trabalho é “todos os seus tons”, certo? — Apenas faço "sim" com a cabeça. — O que esse nome tem de relacionado com o uso de várias técnicas?
— Bom… É… Não foi a gente que escolheu, foi o professor. — Estou com zero coragem de olhar em sua direção, sinto que a qualquer momento irei sucumbir. Esse bendito nome tinha mesmo que estar exposto junto?!
— Entendi. — É sua única palavra por alguns segundos, longos e silenciosos segundos, até ele dizer o meu nome. — Sohye.
— Sim?! — Minha voz sai intencionalmente mais baixa que qualquer outro som no corredor.
— Eu na verdade sei o que significa o nome do trabalho e o objetivo dele. — Seu tom de voz é calmo, e baixo, tão baixo quanto o meu foi. E meu corpo parece parar de funcionar. Eu congelo, mas minhas pernas estão tremendo. Será que eu ainda respiro?
— Ah… — É o único som que consigo emitir. Minhas ideias estão tão misturadas que a única coisa que tenho em minha mente é um grande branco.
— Antes de encontrar o seu trabalho eu estava vendo outros, e acabei escutando uma outra aluna explicando o trabalho dela para o amigo que ela desenhou e mais algumas outras pessoas. Entrei no meio e fui identificando cada traço do que ela estava dizendo. — A cada palavra dita por Jay vou ficando mais surda com meus batimentos acelerados e minha respiração descompassada. — Então eu pensei “nossa, por qual motivo será que a Sohye não me disse tudo isso? Será que ela falou para o Jake?”. E cheguei a conclusão de que não, provavelmente você não contou para ele também. — Minha vontade é de arrancar o desenho dali e correr, mas correr tanto que ninguém nunca mais vai me achar. — E então eu fiquei realmente curioso e vim atrás do seu trabalho, para rever cada detalhe, e tentar entender, afinal, qual o verdadeiro significado do seu desenho. — Será que ainda da tempo de fugir?
— Jay, eu… — As palavras saem da minha boca de maneira automática, como se meu cérebro estivesse gritando para eu me explicar.
— Não tem problema! — Suas palavras são sinceras, e minimamente me acalmam um pouco. — Eu não estou bravo nem nada, apenas confuso. — Abaixo minha cabeça, fecho meus olhos, e respiro fundo, tentando me acalmar mais. E isso faz com que fiquemos em silêncio por mais alguns segundos até ele dizer meu nome novamente, mas dessa vez com muito cuidado, como se o meu nome fosse quebrar em seus lábios. — Sohye…
— Hm?! — Levanto a cabeça e olho para o meu desenho.
— A pessoa que encontrei no caminho, enquanto eu estava vendo os outros trabalhos, foi sua amiga, Hyeri. — Arregalo meus olhos e viro bruscamente minha cabeça na sua direção. Como assim, dentre todas as pessoas, ele foi encontrar logo A Hyeri?! — Ela me agradeceu por eu ter te ajudado e me explicou sobre o trabalho e toda a questão dos sentimentos que envolvem cada traço. — É isso, eu vou morrer. Mas antes, eu mato a Hyeri! — Enquanto ela foi falando fui ficando mais confuso, porque eu realmente não sabia o que você estava sentindo ao me desenhar. O máximo que eu poderia deduzir antes é que os traços bem marcados foram de propósito! — Ele solta uma risada anasalada. — Então eu quero dizer que você pode demorar o tempo quiser para me explicar isso com as suas palavras, do seu jeito. Só que talvez você nunca precise explicar, se o que eu vou dizer agora for certo, porque eu posso não saber o que é cada coisa particularmente, mas eu sei o que o seu trabalho diz como um todo. — Meu olhar de desespero agora com certeza também é curioso. Jay, então, finalmente me olha, e com um sorriso gentil completa seu pensamento. — Ele diz, eu te amo.
Genêro: fluffy, universo paralelo (mais ou menos), romance, Park Sunghoon patinador e idol, patinador!au, hockey!au, porém nenhum dos dois exatamente...
Sinopse: Após um cochilo de 15 minutos que se transforma em 6 horas, Yubin se vê trancada no ginásio da escola na véspera de Ano Novo. Determinada a sair dali, ela testa todas as portas possíveis, disposta a encontrar uma saída seja ela qual fosse, para se livrar desse problema. O que ela não esperava era encontrar atrás de uma delas mais um para resolver.
Palavras: 7456
Avisos: muita covinha do Sunghoon, gelo, neve, ataques repentinos de estresse, e Park Jongseong!!!!
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A neve já está forte lá fora. Montinhos brancos que refletem a luz do Sol de forma intensa já se encontram por todos os lados, só não estão mais intensos que o meu sono, pois já fazem dois dias que eu não durmo da maneira que eu gostaria por estar treinando até mais tarde. O gelo pelo qual eu patino parece liso até demais, meus pés em alguns momentos parecem flutuar, mas eu tenho quase certeza de que é a minha mente que vai para longe por causa do sono. Gritando meu nome Yeri passa o disco para mim sem muita vontade, inferno, o que eu vou fazer agora?
— ACORDA YUBIN! — Heejin grita em meu ouvido assim que joga seu corpo de encontro ao meu, sem me dar muito tempo de decisão. A força do impacto é forte demais para o meu corpo mole de sono, e faz com que eu seja arremessada de encontro ao acrílico de proteção. — Você é patética. — São suas palavras finais, somadas ao seu olhar de desprezo, antes dela virar as costas e patinar para longe.
Maldita a hora que a minha mãe me deu a ideia de entrar para o time de hockey feminino da cidade — “você sempre patinou no lago congelado que tem aqui perto de casa, você vai se dar bem!” — disse ela. Claro, a Heejin, e todo o restante do time, acha a mesma coisa pelo visto! Todos os dias de treino são iguais, gritos na minha cara expondo o quão ruim eu sou comparada ao restante do time, é até irônico dizer que o que me mantém aqui é o treinador, que sempre me ouve, me apoia, e me mantém porque acredita que eu vou melhorar e alcançar as outras meninas. E é por isso que nesses últimos dias tenho treinado ainda mais.
Duas horas de treino “oficial” e depois vou até o ginásio da escola, onde tem um rinque de patinação, para eu continuar treinando. Porém, hoje não estou conseguindo ver um palmo à minha frente de maneira estável. O gelo parece estar derretendo junto a luz do Sol, o caminho até o ginásio da escola que era uma calçada retilínea agora parece um zigue e zague em constante movimento. Olho o relógio do celular antes de colocá-lo na mochila — 15:00. Ao entrar no ginásio o silêncio comparado ao treino de hockey é ensurdecedor, a única coisa que escuto é o gelo sendo riscado pela lâmina dos patins, e não qualquer um, os patins de Park Sunghoon.
Os fios escuros de seu cabelo flutuam com o vento conforme ele ganha velocidade para fazer mais um giro simples, seu olhar é intenso, completamente diferente da graça e leveza que seus movimentos demonstram. Sua postura perfeita faz com que eu ajeite minhas costas, como se naquele momento, se eu não ficasse também na postura correta, tudo daria errado no movimento seguinte. Atravesso a lateral do rinque até a parte debaixo da arquibancada, onde deixo minha mochila, meus equipamentos, e vou em busca de um colchonete para eu me deitar um pouquinho.
— Yubinnie! — Jay chama meu nome, se colocando ao meu lado. — Como vai? — Ele levanta sua mão para um hi five que eu devolvo sem muita vontade.
— Morrendo de sono, parece que o chão vai ruir a qualquer momento e eu vou cair em um buraco. E se eu cair, não vou ter forças para voltar.
— Você ainda não dormiu completamente, não é? — Ele pergunta, preocupado, mas eu apenas dou de ombros.
— Vamos ter o feriado, o recesso, vai dar tempo para descansar depois! — Paro em frente a pilha de colchonetes de alongamento, e me estico para pegar dois. Escuto a risada baixa de Jay atrás de mim, que prontamente me ajuda a pegar mais facilmente o que seria a minha cama nas próximas horas.
— Quer que eu busque alguma coisa para você comer? O Sunghoon vai demorar mais uns 15 minutos. — Ele coloca um dos colchões embaixo do braço e me estica o outro.
— Não precisa. Vou dormir com toda a certeza pelos próximos 15 minutos. Vocês têm treino hoje? — Digo em meio a um bocejo, o fazendo bocejar junto.
— Não! Heeseung hyung vem daqui a pouco também, vamos apenas sair juntos depois. Quer ir junto? — Jogo o colchonete no chão, próximo as minhas coisas, e pego o que estava com o Jay e coloco por cima.
— Nah. Vocês podem se divertir juntos! Não é como se vocês fossem me querer lá, nem também que eu me encaixaria lá. Seja onde esse “lá” for. — Procuro em minha mochila meu cachecol e a blusa extra que eu trouxe para caso o frio aumentasse ainda mais. Dobro ambos formando um montinho fofinho, meu travesseiro.
— Yubin, já disse para você parar de dizer coisas assim. Isso é autodepreciativo! — Me sento no colchonete e vejo que Jay me olha de maneira séria. — Se eu estou te convidando é porque eu sei que você iria se divertir. O hyung e o Sunghoon com certeza gostariam de ser seus amigos também. Eu já falei de você pra eles, eles falaram que querem te conhecer um dia e eu sei que foi sincero! — Ele sorri gentilmente, tentando me passar um pouco de conforto.
— Jay-ssi, você sabe. Se aquele dia que você chegou com o Sunghoon-ssi mais tarde e eu quase te acertei com o disco, você, ao invés de conversar comigo tivesse brigado, nós não estaríamos aqui. Se você não tivesse puxado papo todas as outras bilhões de vezes que nos encontramos, nós dois não estaríamos conversando agora. Eu provavelmente já teria até mudado meu horário de treino só pra não ter que olhar mais na cara de vocês dois! Não consigo assim fazer amizade tão fácil. — Suas mãos estão em seus bolsos. Seu olhar é de cansaço, provavelmente por todas as vezes eu não aceitar o convite e ainda dizer coisas negativas que ele odeia.
— Nem o Sunghoon. Mas nem por isso ele deixou de fazer as coisas ou sair! E essa mania de me chamar de "Jay-ssi" só pra não me chamar de "oppa"... Bom, não vamos discutir sobre isso agora, você visivelmente quer dormir, então vou te deixar dormir. Só por favor, me avise quando chegar em casa mais tarde, e vamos qualquer dia desses sair para tomar um café, ok? — Ele estica a mão em minha direção, e eu a seguro, ele então balança nossas mãos de um lado pro outro e sorri.
— Ta ok. — Solto sua mão e me deito. — Agora some por favor, você tem um amigo para ir encher o saco! — Fecho meus olhos e viro de lado. A risada anasalada de Jay é a última coisa que eu escuto.
Não sei que horas são quando eu acordo, mas percebo que o local está escuro demais. Me deito de costas e me espreguiço. Que horas são? Quando me sento, busco meu celular no bolso da mochila — 21:00. Meu Deus, os 15 minutos de sono viraram 6 horas! Coço meus olhos e logo vem um bocejo, quando abro meus olhos novamente o espaço ainda parece escuro demais, mas por qual motivo? A essa hora o ginásio ainda teria que estar aberto.
Me levanto, pego as minhas coisas e vou em direção a porta. As únicas luzes acesas são as de apoio do corredor ao lado do rinque, quase nada. Forço a porta pra fora e pra dentro, nada. Tento ver se há alguma maçaneta ou coisa do tipo, nada, a única que tem é a barra de segurança contra incêndio, que teria funcionado se a porta não estivesse trancada. Caramba, me trancaram aqui, mas ainda não sei porque, não são nem 22:00! Sinto o celular, agora no bolso da minha calça, vibrar. Quando o pego na mão, o tal do mundo ruindo sob meus pés finalmente acontece.
“Yubin-ah, que horas você chega? Você vai ver a virada do ano com a gente perto do Rio Han, né? Por favor, vamos sim, é véspera de ano novo, último dia do ano, vamos sair!!!!”
A mensagem de Minji me deixa ansiosa, nervosa, devastada. Eu não acredito que esqueci que hoje é véspera de ano novo, e eu estou presa! Quando eles vão reabrir de novo? Não pode ser só na segunda que vem… Hoje é TERÇA!!! Acendo a lanterna do celular e procuro pelos papéis nas paredes perto da porta se existe alguma coisa com essa informação, e não demora muito para que eu encontre, já que o mesmo está escrito em letras maiúsculas e vermelhas:
NESTA VÉSPERA DE ANO NOVO FECHAREMOS ÀS 18H. REABRIREMOS APENAS NO DIA 3, SEXTA FEIRA, A PARTIR DAS 13H. BOAS FESTAS.
Será que dá para viver com a comida e as bebidas das máquinas automáticas até sexta? Por qual motivo eu não li esse papel antes, meu Deus?
Praticamente jogo tudo no chão, todas as minhas coisas de repente pareceram estar pesadas demais, e me sento de frente para a porta, pensando como eu poderia sair dali. Se eu ligar para alguém com certeza a polícia será chamada, e eu não quero isso, não preciso virar notícia quando as aulas voltarem nas próximas semanas. Não tenho também um único amigo que poderia vir aqui me buscar, arrombar essa porta ou algo nesse sentido. Nem um contato com alguém da escola ou que conheça alguém com contato com alguém da escola.
Olho o relógio novamente — 21:30. Faz meia hora que eu estou sentada aqui sem ter uma única reação. Minji já enviou mais duas mensagens, que eu ainda estou fazendo questão de ignorar por não saber o que responder. Me levanto e tento novamente abrir a porta, vai que em um momento de loucura eu não consegui abri-la, não é? Não é. A porta nem se mexe novamente. Acendo novamente a lanterna do celular para conseguir olhar melhor a minha volta, há várias portas fechadas pelo corredor, e em uma delas leio a placa localizada acima, “administração”. Caminho até a porta e para a minha surpresa ela está aberta, o interruptor ao lado da batente pelo lado de dentro da sala funciona, e a luz se acende. Vejo pilhas de papéis, quadros com diplomas nas paredes e todo o restante da mobília, aquilo parece mais com um arquivo gigante que administração, pois não há uma mesa, cadeira ou computador, e não chego nem perto de encontrar aquele tradicional quadro com chaves de todas as portas penduradas à mostra para que eu tentasse achar alguma que me ajudasse.
Desligo a luz, fecho a porta e resolvo então que vou abrir todas as portas que existem no corredor. Almoxarifado, escritório, armário de vassouras, sala de equipamentos, sala de reuniões. Abro a porta seguinte sabendo bem que é o vestiário feminino, e que não tem ali nenhuma porta secreta ou janela que dê para sair, porém, já ouvi várias vezes que os meninos fugiam dos treinos e ninguém nunca descobriu por onde, será que era pelo vestiário masculino então?!
Assim que abro a porta do vestiário masculino vejo que a luz dali está ligada, devem ter esquecido. Verifico as paredes que separam o banheiro do jardim externo, tateando para ver se não tem nenhum tijolinho solto, mas nenhuma passagem secreta se abre como nos filmes. Empurro as janelas basculantes para ver se alguma abre mais do que deveria, mas são exatamente iguais as janelas do vestiário feminino. Nada nos chuveiros, nem nos vasos sanitários. Talvez atrás de um armário? Tento puxar alguns que estão mais perto das janelas, mas nenhum se mexe.
— QUE INFERNO! — Grito e chuto a porta de um dos armários. Pego o celular e olho o horário de novo — 21:45. — Que droga, eu nunca vou sair daqui até sexta feira…
— Você pode então me tirar daqui? — Uma voz masculina me assusta, ela vem de um dos armários que ficam na parede no fundo do vestiário. Caminho em direção a esse armário com cuidado para que meus passos não façam barulho. Percebo então que, apesar de a porta ser igual a todas as outras, aquela era de uma sala. “Depósito” diz a placa. — Olá? Por favor, me tira daqui! Olá… — Observo a porta de onde vem a voz, o cadeado está fechado. A voz não me é estranha, nada está fazendo sentido. — Aish… O Jay me paga… — Ele disse Jay? Mas quem vai conhecer o Jay se não o…
— Park Sunghoon? — Digo surpresa e minha voz sai mais aguda do que eu esperava.
— Oh… Sim, eu! Quem é? — O escuto se mexer dentro do armário.
— Yubin… Shim Yubin. — Estou neste momento a dois passos da porta do armário. Minha postura nunca esteve tão perfeita, estou petrificada, minhas expressões faciais de confusão e desespero são as únicas coisas que demonstram que eu não virei uma perfeita estátua.
— Ah… Er… Yubin-ssi, tem como você me tirar daqui? — Ele soa tão confuso quanto eu.
— Eu… Não tenho a chave. Você sabe onde está a chave?
— Talvez dentro da minha bolsa? — Sua voz também sai algumas notas acima. — Ela deve ser a única no vestiário inteiro. — Olho em volta e vejo que há de fato uma bolsa sobre o banco atrás de mim.
— Algum bolso em específico? — Me mexo pela primeira vez, me sentando no banco para poder procurar melhor a tal chave.
— Nos menores, nos da frente, não deve estar em um lugar muito complicado.
— Ok, deve ser essa… — Pego a chave que estava na rede lateral da mochila, sozinha. Me levanto, coloco a chave no cadeado e a giro. É a chave certa. Assim que tiro o cadeado a porta a minha frente se abre. Dou passos apressados para trás, assustada, e sinto minha batata da perna bater contra o banco. Sunghoon despenca para fora do armário, ele devia estar encostado na porta, e cai em meus pés, deitado de costas no chão. Os fios de seu cabelo estão em maioria grudados em sua testa devido ao suor, suas bochechas estão levemente rosadas e sua respiração pesada.
— Obrigado! Ali dentro estava ficando muito quente já. — Ele coloca uma mão sobre seu próprio peito, como se estivesse verificando que seu coração verdadeiramente batia. Eu espero que sim, pois o meu já mandou abraços. Estou mais ofegante do que ele.
— Ah… Sim… Imagina. Quer ajuda? — Estico minha mão de forma abrupta em sua direção, o assustando um pouco. Mas ele logo a segura e eu o puxo para cima.
— Obrigado, de novo. É… Se não for incomodo, que horas são? A bateria do meu celular acabou faz algumas horas. — Busco o meu celular no meu bolso, passando levemente minha mão suada contra minha calça.
— São 21:55 da noite. — A expressão de Sunghoon em primeiro momento é de assustado, mas logo em seguida ele senta no banco e apoia seus cotovelos em seus joelhos e seu rosto em suas mãos, derrotado pela notícia. — Desculpa a pergunta, mas o que você estava fazendo ali dentro?
— Ah, a perfeita ideia de Park Jongseong…— Sunghoon joga seu corpo para trás e apoia suas mãos no banco, não perdendo a oportunidade de passá-las por seu cabelo, enquanto estica suas pernas. — Ele apostou comigo que eu não conseguiria dar 20 voltas no rinque antes de 1 minuto. Eu obviamente também duvidei que conseguiria, mas fui tentar, e não consegui. Ele e o Heeseung hyung ficaram então rindo e falando que eu teria que pagar um café para cada. Dai o Jay veio ao vestiário, e eu resolvi pegar a oportunidade de assustá-lo e ter uma pequena vingança, mas ele me descobriu antes de eu perceber e me trancou no armário. Não era um grande problema, já que eles só iriam ao café a apenas três quadras daqui e depois voltariam, só que eles não voltaram.
— E por qual motivo não voltaram? — Me sento ao seu lado, o mais distante possível.
— Eu não sei exatamente. Eu sei que depois de quase meia hora mandei uma mensagem para o Jay. — Ele coloca a mão do bolso e pega o celular, mas assim que aperta o botão lembra que ele está sem bateria. — Ah, é verdade, acabou a bateria… Mas enfim, ele me respondeu que já estavam para voltar, a fila estava muito grande quando eles chegaram e ao invés de tentar outro lugar resolveram esperar. Ele ia te comprar um café também, avisou que você estava dormindo embaixo da arquibancada e qualquer coisa era pra te pedir para esperar.
— Entendi. — Disse na intenção de terminar a conversa, já que não sabia o que responder. Mas o silêncio não durou muito, de repente Sunghoon virou rapidamente sua cabeça em minha direção e disse assustado:
— Esse é o vestiário masculino! O que você está fazendo aqui dentro? — Me levanto em um pulo, também lembrando dessa informação. Mas, espera.
— Porque eu achei que não teria mais ninguém aqui! E eu estava procurando um lugar para sair do ginásio. — Nos olhamos confusos.
— A porta da frente?! — Ele diz debochado, pois a resposta óbvia. — Aliás, vamos que logo vão fechar isso aqui! — Ele realmente nem faz ideia. Sunghoon se levanta, arruma as pernas de suas calças, pega a sua mochila e começa a andar em direção a porta do vestiário.
— Sunghoon-ssi… — Ele para antes de abrir a porta e olha para mim. — O ginásio fechou às 18:00. Feliz véspera de Ano Novo. — Seus olhos ficam arregalados por alguns segundos, antes de seu semblante mudar para total confusão.
Sunghoon é rápido. Ele abre a porta do vestiário e sai correndo em direção a porta do ginásio, enquanto corre olha a sua volta, e percebe que tudo está escuro. Pacientemente acompanho todas as suas fases pelas quais eu já passei: empurra a porta, puxa a porta, empurra, puxa, empurra puxa. Visivelmente nervoso ele passa a mão pelos cabelos, e por impulso tenta ligar o celular, mas percebendo novamente que ele está sem bateria, guarda com raiva o aparelho na mochila.
Me sento perto das minhas coisas, e no momento me sinto despreocupada, ou conformada, com a situação em que nos encontramos. Não vi mais nenhuma saída em toda e qualquer porta que abri, acabei encontrando aliás mais um trouxa que ficou preso no ginásio na véspera de ano novo. Não quero chamar a polícia. Não quero virar notícia. Vou fazer o que?
— O que você está fazendo sentada? Temos que sair daqui! — Ele diz irritado, apenas dou de ombros.
— Obrigada por me notificar de algo que já sei a pelo menos uma hora, talvez? Não tenho certeza. Eu estava exatamente tentando achar uma saída quando entrei no vestiário masculino, todas as outras portas só tem as janelas abertas, e eu pelo menos não passo por nenhuma. — Pego meu celular e olho o horário. — Agora são 22:00, perfeito, estamos presos oficialmente em qualquer época do ano. E eu estou só com 5% de bateria...
— Espera, você tem bateria. Liga pro Jay! — Sunghoon anda rapidamente em minha direção, e tenta pegar meu celular, mas sento em cima do mesmo antes que ele consiga.
— Ei, pera ai. E ele vai fazer o que? Além de ficar preocupado.
— Vai logo, antes que acabe a bateria! — Ele da pulinhos no lugar, nervoso.
— Ta… Ok. — Pego o celular e procuro o número de Jay. Não eram os meus planos chamar a polícia, mas muito menos ter mais alguém aqui comigo. — Jay-ssi? É a Yubin… Tá tudo bem comigo…
— Coloca no viva voz! — Sunghoon praticamente ordena. Coloco no viva voz e viro a tela do celular para ele.
— Yubin? Você está com o Sunghoon? — Jay pergunta confuso, parece estar em um local com mais pessoas, vozes com conversas incompreensíveis balbuciam ao fundo.
— Yah, Jay-ya, me escuta! Eu e a Yubin-ssi estamos presos no ginásio da escola, você precisa tirar a gente daqui! — Sunghoon se inclina em direção ao telefone, como se aquilo fosse preciso para Jay escutá-lo melhor.
— O QUE? — Ele de repente grita, mas alguém fala algo bravo com ele, e ele logo se desculpa e volta a falar em um tom normal, mas nervoso. — Como vocês ficaram trancados aí? Você não respondeu nem mais uma mensagem que eu te mandei, alias.
— Acabou minha bateria! Mas não importa isso no momento, o que importa é que você tem que tirar a gente daqui, tipo, o mais rápido possível!
— Aish…. Eu não sei como vou fazer isso… Tem várias pessoas aqui em casa, meus pais não vão me deixar sair agora. Eu vou tentar falar com o Heeseung hyung! Ta ok?
— Sim! E… E avisa a minha mãe, não sei exatamente o que, fala que eu estou com você talvez, e-eu não sei. — Sunghoon falava e andava de um lado pro outro, vez ou outra passava a mão pelo cabelo, lambia os lábios, e quando posicionava suas mãos ao lado das pernas batucava a ponta dos dedos contra as coxas.
— Okay, eu vou falar com a sua mãe também, só que Sunghoon, e-... — As palavras de Jay de repente são cortadas. Viro rapidamente a tela do celular em minha direção, assustada com o corte repentino.
— Acabou a bateria. — Acabo falando mais baixo, com medo da reação de Sunghoon.
— AH NÃO! — Ele visivelmente mais nervoso passa as duas mãos nos cabelos e grita. — AAAAH QUE DROGA! — Seu grito ecoa por todo o ginásio, e isso me assusta um pouco. O grito parece drenar toda a sua força, pois ele encosta suas costas na proteção do rinque e escorrega até o chão, coloca sua cabeça entre os joelhos e assim fica por alguns segundos, em silêncio.
— Desculpa. — São suas primeiras palavras. — Mas, eu realmente não quero ficar preso aqui. Não queria ser agressivo também, só que… Enfim, desculpa. — Ele finalmente ergue a cabeça, e seu semblante já não lembra nada o Sunghoon nervoso de alguns segundos atrás, ele agora está chateado, com o lugar, com a atitude.
— Não precisa se desculpar. Eu também estava estressada quando te encontrei no vestiário. Eu chutei o armário aquela hora, por isso fez todo aquele barulho! Já passei por todas essas fases e agora estamos na mesma. — Ele sorri levemente, estica suas pernas e apoia suas mãos no chão.
— Espero que o Jay consiga fazer alguma coisa…
— Eu acredito que ele consegue sim.
— E o que nós fazemos até lá?
Paro para pensar na pergunta de Sunghoon, e a única coisa que me vem à cabeça é fazer aquilo que ainda não cumpri, meu treino. Me levanto, vou até minha mochila e ali pego os meus patins. Enquanto os calço, o patinador sentado à minha frente me encara confuso.
— Vai patinar? Mal tem luz aqui.
— Deve ter algum interruptor ou algo do tipo na sala de serviço. — Amarro o cadarço do pé esquerdo. — Vou ligar a luz e treinar! — Amarro o cadarço do lado direito. — Eu sei que parece loucura, mas é a única coisa em que pensei e foi o que eu vim fazer aqui mais cedo. E teria feito… Se eu não tivesse dormido. — Me levanto e caminho até a sala de serviço, onde realmente há a caixa de disjuntores. Testo um por um, até encontrar todos os que acendem as luzes que ficam acima do rinque.
— O que vai treinar? — Sunghoon pergunta, enquanto se levanta e me olha tirar as proteções das lâminas dos patins e entrar no rinque.
— A maior crítica das minhas amáveis colegas de time é a minha falta de habilidade com o disco, basicamente o básico para se jogar hockey. E você já presenciou o quão ruim eu sou aqui! — Patino em sua frente e ele sorri, balançando a cabeça concordando, lembrando do dia que eu quase acertei ele e Jay com o disco. — Então é isso que eu treino sempre, depois que você acaba o seu treino e deixa o rinque livre, domínio sobre o disco.
— Isso com certeza vai soar rude, mas se você não sabe o básico para se jogar hockey, por qual motivo você está no time? — Sunghoon se apoia na parte da proteção que não tem o acrílico.
— Não tem problema, não é o primeiro a perguntar. — Me estico para pegar meu taco e disco. — É que eu sou rápida o suficiente. Na verdade, eu sou a mais rápida do time, no teste que rolou uma vez eu ganhei de todas, então o treinador resolveu me manter no time. Ele é muito querido comigo. — Jogo o disco no chão e começo a bater levemente nele de um lado para o outro, para que ele não deslize para muito longe. — O problema é que nessa parte eu sou horrível, e correr junto com o disco eu fico pior ainda!
— E o que te motivou a entrar num time de um esporte que você não sabe jogar?
— Minha mãe! Ela teve essa brilhante ideia para eu me familiarizar com as pessoas, e socializar mais. Só que é meio ao contrário, ali ninguém gosta muito de mim.
— Comecei a patinar porque minha mãe queria a mesma coisa, que eu socializasse mais. Só que não deu muito certo. A maioria eram meninas, e eu quase não conversava com ninguém, acabei conversando mais com a minha irmã mais nova do que com todos os outros! — Olho para Sunghoon e o vejo sorrir, como se ele estivesse lembrando de algo bom.
Não conto o exato tempo que fico treinando, mas ficamos conversando durante ele todo. Sunghoon começou a treinar por causa da mãe, e começou com o hockey e outros esportes de patinação, mas depois preferiu a patinação artística no gelo, tem uma irmã mais nova, e aparentemente está na tv desde criança. Agora, mesmo com uma belíssima carreira formada, ele pensa parar tudo e tentar virar um idol de kpop. Falei que era loucura, é óbvio que não fui a única, ele disse, mas é algo que ele realmente quer. Saio do rinque para ver que horas são, mas assim que pego meu celular lembro de que acabou a bateria. Vou até o relógio do corredor então — 23:00.
— Já faz uma hora e nada. — diz Sunghoon. Me viro na direção que ele está sentado, e percebo que ele está colocando os patins.
— E dai vai treinar também? — Caminho até ele, e me sento ao seu lado, para tirar os meus patins.
— Não treinar. Mas vou patinar um pouco, distrair. — Ele olha para mim e sorri. Enquanto ele caminha até o rinque e começa a patinar, vou até minha mochila, procurar alguns trocados para finalmente usar as máquinas automáticas.
Um pacote de haribo e uma água sem gás é o que me sustenta enquanto assisto Sunghoon patinar. Não sei o que está na cabeça dele no momento, mas algumas vezes que ele passa pela minha frente parece estar murmurando alguma música, talvez a última que ele fez a apresentação na competição. Não sei também se ele repara que ainda não parei de observa-lo, é simplesmente indescritível a paz que se cria em mim o assistir patinar, ele é como a neve, leve, intenso, é lindo. Dizem que a beleza é subjetiva, mas eu acredito que ela se define em Park Sunghoon.
Assim que acabo meu pacote de ursinhos de gelatina resolvo me sentar perto do pilar, e assim, me deitando no chão, coloco minhas pernas para cima, apoiadas na estrutura. Elas estão latejando um pouco, talvez por todo o esforço de mais de uma hora entre treino e admirar meu, talvez agora, amigo patinador. Deitada ali consigo ver novamente que horas são — 23:20. Será que vai ser assim? Ficaremos presos, patinando e nos alimentando de doces e bebidas das máquinas automáticas até sexta? Será que o Jay vai chegar e nos tirar daqui? Ou o Heeseung-ssi? Será que chamaram a polícia?
— Yubin-ssi? — Sunghoon chama meu nome, quebrando minha linha de pensamento. Me sento e viro em sua direção, ele ainda está no rinque. — É… Nada. — Ele se vira e volta a patinar para longe.
— Yah, não se chama uma pessoa, diz que não é nada, e patina para longe! — Levanto e bato a minha mão pela calça, tentando tirar toda e qualquer sujeira que estiver em mim. — Pode falar agora!
— Não é nada demais.
— Park Sunghoon! Me diga o que é! — Ando até a proteção e fico apoiada ali, o encarando. Ele então vem patinando e para em minha frente, não havia reparado de longe que ele estava tão ofegante.
— Eu só… Eu só ia perguntar se… Você não quer patinar comigo?!
Eu tenho certeza que após sua pergunta eu até pisco mais devagar, não acreditando no que meus olhos e ouvidos acabaram de me proporcionar. Tenho certeza também que minha boca está um pouco aberta, pela minha incredulidade com a pergunta, pois sinto os cantos da minha boca ficarem levemente secos. Mas antes que eu pudesse ter qualquer outra reação mais racional, Sunghoon já começa a falar novamente.
— Não é nada demais, é só que você estava ali, deitada, parecia sozinha e chateada com a situação, mas enquanto eu te vi patinar, que dizer, você estava patinando na minha frente né, você estava mais relaxada apesar de concentrada, e também…
— Podemos patinar sim! — Corto suas palavras que estão sendo lançadas para fora como um bando de cabritos desgovernados, suas bochechas estão enrubescidas e eu tenho certeza que não é pela patinação e nem pelo frio. — Só vou colocar os patins de novo, ok? — Sorrio e me viro, indo em direção aos meus patins largados próximos ao banco.
Assim que entro no rinque é como se fosse a primeira vez, minhas pernas estão bambas e o frio parece ser muito maior ao que eu estou acostumada, a diferença é que dessa vez eu sei que o que fazer para não cair. Sunghoon parece tenso demais, parece que ele mesmo pode escorregar e cair a qualquer momento.
— E o que podemos fazer? Só patinar e conversar? — Estamos parados no meio do rinque. Sunghoon está agora com as mãos no bolso, e apenas levanta os ombros num sinal de “não sei”. — Quer apostar uma corrida?
— Corrida? — Ele me olha e ri. — Por que isso agora?
— Ué, você falou que fez aquele esporte de corrida, de patinação, não sei. Vamos testar quem é mais rápido! — Começo a patinar para mais longe.
— Yah, mas eu fiz a muitos anos atrás, e eram aulas!
— Mas agora você sabe patinar bem, então acelera! — Grito e começo a patinar mais rapido.
Acho que as regras nem existem, mas fica claro que é para dar a volta completa no rinque. Começo a patinar mais rápido e Sunghoon não demora para perceber que estou falando sério, então começa a patinar também. Ele me alcança logo e começamos a patinar um ao lado do outro, sinceramente, as pernas dele por serem mais compridas não lhe garantem alguma vantagem?
— Sunghoon-ssi, você está roubando! — Reclamo quando tenho que freiar um pouco pois ele corta a minha frente.
— Isso não é roubar, é estratégia! — Sua voz é pura alegria, e ele sorri a todo momento.
— Ah claro, estratégia! — Acelero novamente, conseguindo agarrar sua blusa. — Vale se eu der uma puxadinha em você?
— Nem pense nisso, nós dois vamos cair! — Ele então diminui a velocidade. Aproveito e passo por ele, rindo.
Na brincadeira ele tenta segurar meu braço, mas eu não estava esperando. Acabo sem querer virando demais meu pé esquerdo e acertando meu pé direito, e isso faz com que eu perca o equilíbrio e caia. A pancada não é a mais forte que já levei, mas está longe de ser o tombo mais simples, meu cotovelo esquerdo arde, e a parte de trás da minha cabeça parece latejar. Acho que estou tonta.
— Yubin-ssi! — Escuto Sunghoon falar mais alto, assustado, e não demora para seu rosto aparecer na minha frente, ou sobre mim nesse caso. — Desculpa, não era pra isso acontecer, machucou alguma coisa? Você está bem? — Seu semblante é completamente diferente de alguns segundos atrás, ele agora está sério, e preocupado com a minha situação.
— Me dá uma ajudinha! — Peço, erguendo a minha mão direita. Ele se levanta e me ajuda a sentar. Estralo meu pescoço e apoio minhas mãos no gelo, estou menos tonta.— Estou bem! Só um pouco tonta, mas não foi tão feio assim. Acho que só… — Olho meu cotovelo esquerdo, erguendo a manga da camiseta, ralado, mas nada demais. — Tudo em ordem!
— Você ralou! Quer fazer um curativo? Devem ter alguma coisa, com certeza! — Ele pergunta enquanto me ajuda a ficar de pé.
— Ta tranquilo, mesmo! — Apoio minhas mãos em minhas costas e inclino para trás, para dar uma alongada. Nesse momento que olho para cima, vejo que há janelas acima da arquibancada, que não parecem tão distantes para alcançar, e muito menos são pequenas. — Sunghoon! Olha, por aquelas com certeza a gente passa! — Digo em euforia, dando batidinhas em seu ombro e apontando para as janelas, para que ele olhasse logo.
— Eeei, mas como vamos alcançar aquilo? Não tem como!
— Dá sim! Vamos, deve ter alguma escada, ou a gente empilha alguma coisa, pelo menos você alcança aquilo! — Patino até a porta do rinque e saio, e enquanto eu tiro os patins Sunghoon vem vindo também, mas com bem menos esperança e vontade.
Assim que acabo de tirar os patins, me levanto e começo a guardar todas as minhas coisas, se tudo der certo a gente sai daqui com tudo. Meu parceiro de confinamento não parece tão animado, Sunghoon vai fazendo as mesmas coisas que eu de uma maneira desacelerada, ele parece pensativo, não disse mais uma palavra depois da descoberta da janela. Levo minhas coisas até o último andar da arquibancada e tento ver o quão alta é a janela, não vamos precisar de muito, principalmente para o Sunghoon, que qualquer coisa ele sai e pede para me buscarem depois.
Desço a arquibancada e vou até o corredor em busca de alguma escada ou algo que pode ser empilhado, e no passo desacelerado, o patinador ainda está subindo a arquibancada para deixar suas coisas. Abro novamente porta por porta no corredor, e revisto principalmente as salas que parecem ter materiais de limpeza e coisas de manutenção, mas nenhuma parece querer me dar uma escada e facilitar essa fuga.
— Sunghoon-ssi, tinha alguma escada no armário que você estava? — Grito para meu desanimado colega sentado na arquibancada do outro lado do rinque, enquanto fecho a porta do vestiário feminino.
— Não me lembro. — Responde sem muito pensar.
Abro a porta do vestiário masculino levemente irritada pelo Sunghoon não estar me ajudando em nada, que inferno, ele que estava aos berros no telefone pedindo pelo amor de Deus pro Jay nos tirar daqui! A porta do armário havia ficado aberta, então assim que entro no vestiário percebo que ali dentro tem uma escada. Carrego o nosso objeto salvador até a arquibancada, e com um leve esforço subo os degraus.
— Você poderia me ajudar… — Digo sugestivamente,mas de forma direta à Sunghoon, que se levanta e realmente me ajuda. Ele abre a escada embaixo de uma das janelas, e eu subo, percebendo que com um pouco de esforço eu consigo também alcança-la. — Ok, você vai primeiro, acho que consegue com mais facilidade.
— Ok.
— Qual o problema? — Desço os degraus e ele olha para mim. — Até a algumas horas atrás você estava tão chateado quanto eu de estar preso aqui, o que mudou?
— Nada. Isso só vai dar errado. — Ele diz sem olhar na minha direção.
— Isso não vai dar errado! Mente pro Jay depois, mas não pra mim agora. — Digo séria. Toda essa mudança repentina de humor dele começa a me irritar.
— É que… Aaah...— Ele suspira, soltando todo o ar de seus pulmões, e apoia a testa no último degrau da escada. — É só que você estava sempre evitando de sair com a gente, digo, eu, o Jay e o Heeseung hyung, todas as vezes você negava, e aqui eu finalmente consegui conversar com você! — Agora ele me olha nos olhos, de maneira séria, e ao mesmo tempo preocupado. — Eu não sei exatamente o porquê de você sempre negar, mas é que… Você ainda vai conversar comigo depois daqui? — Sua pergunta é sincera. Engulo seco, confusa com toda a situação e sem saber o que responder.
— Sunghoon-ssi eu… Eu não sabia que te chateava eu não sair com vocês. Eu sei que é algo que incomoda o Jay, mas não sabia que chegava em você.
— Muitas vezes fui eu que falei pro Jay te convidar! O passeio no aquário, o em Hongdae, a ida ao Lotte World… Foram ideias minhas, que eu achei que você ia se animar, mas você recusou todas também. Então eu fiquei pensando, você falou comigo aqui porque era a única opção, mas e depois? — Cada resposta me deixa mais desnorteada, não sabia que alguns convites partiam do Sunghoon.
— Eu… Desculpa. Eu realmente não queria te chatear, ou o Jay, e talvez o Heeseung, nunca nem cheguei a conversar com ele, só não me sentia segura, nunca me sinto. O que mais escuto todo dia é coisa ruim sobre mim e por isso mesmo eu vivo com um discurso depreciativo, como diz o Jay, então acho que acabei trazendo isso pro meu dia a dia.
— Eu sei, o Jay sempre reclama disso, de verdade. — Ele sorri um pouco, provavelmente lembrando das reações do amigo quanto a mim. — Mas então promete, que saindo daqui você ainda vai conversar comigo, e vai sair com a gente? Ou… comigo? — Ele volta a ficar mais sério, mas eu sorrio dessa vez.
— Prometo. Eu prometo! — Sunghoon sorri novamente, um sorriso largo, que faz sua covinha da bochecha direita aparecer. — Agora vai, sobe logo e sai daqui!
— Não, você tem que ir primeiro, eu seguro a escada!
— Mas é mais fácil pra você! E tem que ver se tem alguma coisa para nós cairmos em cima, ou botar o pé pelo lado de fora, pois direto pro chão é muita altura.
— Ah ok, mas você vai primeiro! — Ele diz enquanto sobe a escada. Ao chegar no último degrau, e observar lá fora, sua constatação é de que há pilhas de neve embaixo das janelas, pois logo ao lado passa a rua de entrada para o estacionamento da escola. Se há neve do outro lado da rua, há desse lado também, ele diz com confiança.
Enquanto subo os degraus, Sunghoon se posiciona na parte de trás da escada e a segura para mim. Assim que chego no último degrau vejo que se eu for tentar passar com todas as coisas não vai dar certo, então, pela janela do lado, começo a jogá-las o mais perto da parede possível, para que eu não atinja nenhuma delas quando cair. O som do impacto lá fora não é muito alto, pode ser que tenha neve mesmo. Dou alguns pulinhos antes de conseguir me apoiar na parte debaixo da janela, e consigo apoiar meus cotovelos, mas me falta força para jogar minhas pernas.
Meu agora colega de fuga apoia então suas mãos abaixo dos meus pés e os impulsiona para cima, me possibilitando então jogar um dos joelhos e o apoiar, a esquadria da janela é desconfortável sob meu peito, mas nada que uma pomada contra pancadas não ajude depois. Assim que consigo jogar a primeira perna para fora da janela, sinto meu corpo todo escorregar junto, pela espessura da parede não ser das maiores, e não tenho muito tempo de reagir, só consigo me empurrar para um pouco mais longe da janela, com o cotovelo, e torcer para que a pilha de neve realmente esteja lá embaixo.
— Yubin-ssi, tá tudo bem? Shim Yubin! — Sunghoon grita de dentro do ginásio. A neve fofa e gelada sob meu corpo parece me anestesiar, o ar frio me congela. Não acredito que estou do lado de fora, finalmente. Estou deitada paralelamente a parede, mas o mundo a minha volta de repente parece imensurável.
— Eu to bem! — Finalmente grito de volta. — Tem neve, pode vir! Mas vem por outra janela, se não acho que você cai em cima de mim.
A mochila de Sunghoon é então arremessada junto as minhas coisas pela janela que está para o lado dos meus pés, e não demora muito para eu ver a sua perna passar pela janela acima de mim, depois o braço, e de repente um corpo inteiro cair. Rolo o mais rápido que posso para o lado, o suficiente para desviar do corpo do patinador desastrado.
— Seu trouxa, eu não falei para usar outra janela! — Dou um tapa em seu braço e deito novamente de costas na neve.
— Desculpa, acho que não ouvi essa parte! — Ele está ofegante, mas sorrindo. — Que horas são será? — Ele olha para mim, então olho para o céu.
— Não tenho ideia… Meia noite? — Mal podemos ver as estrelas, se elas estão pelo céu esta noite, as luzes de Seoul não as permitem brilhar.
— Será? — Nossa pergunta é respondida com fogos estourando no céu. Não há gritos, nem risadas, apenas o barulho dos fogos. — Uaaaa, é realmente meia noite!
Olho então novamente para Sunghoon, que agora encara os fogos que explodem acima de nossas cabeças. A covinha de sua bochecha direita está aparente com o sorriso largo que se sustenta em seu rosto, provavelmente uma mistura de alívio por estar finalmente do lado de fora com a euforia que os fogos causam. Estou perdida demais em seu rosto para perceber o movimento de quando ele volta a me olhar. Ele arregala seus olhos por alguns segundos assim como eu, pois nenhum dos dois esperava por aqui.
— Ah… Feliz Ano Novo, Yubin! — Ele sorri.
— Yubin? Só Yubin? — Me sento rapidamente, fingindo surpresa, quando na verdade eu queria estar dando risada.
— Não, desculpa, Yubin-ssi… — Sunghoon se senta, balançando as mãos como se tivesse dando tchau para alguém, nervoso. Eu não aguento e começo a rir.
— Calma, não tem problema! — Ele respira aliviado e sorri de novo. — Mas você é mais velho que eu, então se for assim… Feliz Ano Novo… Oppa! — Faço questão de falar com ênfase a última palavra, que faz suas bochechas corarem.
— Argh, não, não, vamos continuar como antes Yunbin-ssi! — Ele diz rindo.
— Ok, a gente precisa ter mais intimidade pra isso. — Nossa conversa é interrompida então por um carro que, pelas luzes, é possível ver que é a polícia. — Ah, droga, eu sabia que a saída dele seria chamar a polícia.
— Do Heeseung hyung? — Sunghoon pergunta, se levantando e batendo em seu corpo para tirar a neve acumulada.
— Não. — Me levanto também. — Park Jongseong. — Dizemos juntos.
Assim que o carro estaciona, dois policiais, Jay, Heeseung, e uma mulher, descem do carro e começam a andar em direção a porta de entrada do ginásio. Com um tapa na testa Sunghoon resmunga pela sua mãe estar ali, e assim descubro quem é a mulher. Para descer a pilha de neve, sem pensar muito, Sunghoon segura minha mão, e de mãos dadas andamos até o carro da polícia, Jay já está aos berros na porta de entrada, nos chamando.
— Ah… — Sunghoon suspira e ri ao ver a cena que o amigo está fazendo. — Feliz Ano Novo, de novo, Shim Yubin. — Ele olha para mim, sorrindo, e segura mais forte minha mão.
Só perdoo porque sei bem pelo que está passando porque estou vivendo exatamente isso por agora, portanto, tem a minha empatia total. Afinal, eu mesma estava até agora a pouco finalizando uma das atividades que preciso entregar kskskksks Brincadeiras a parte, tá tudo tranquilo, não se preocupa não. E pra provar que está tudo bem venho de icon do taetae dar o ar da graça, deixando de ser anônimo. Ah, eu odeio profundamente o ead, só pra constar. +
+ Me pergunto o que eu estava fazendo de tão bom que não conheci o bts antes, queria muito ter acompanhado as eras anteriores pra me sentir ainda mais parte desse crescimento. Mas eu me interessei pelo grupo só em meados de março de 2018, e acho bem recente kskksks Ai, esse é o meu receio de começar uma long. + A única que postei foi em outra categoria e eu só fiz isso quando tinha alguns bons capítulos prontos, porém, acabei terminando ela antes do previsto porque estava sentindo que não ia conseguir colocar tudo do jeito que eu queria. Sonho em ser a autora que atualiza toda semana ou todos os dias, mas não sou kskskksks Acho que eu seria muito o Yoongi perto do Hoseok skskks + Basta pegar confiança e pronto, sou assim também, ainda mais quando noto que a pessoa está colaborando nos papos aleatórios ksksks As interativas do spirit me cansam, não consegui acompanhar uma sequer até agora, além de que a maioria não sai das fichas. Gosto das interativas de verdade com caixinhas pra colocar nome e tals skskskks
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Yaaaay fui perdoada e ainda veio com o icon do Tae, só vitórias!!! iaudhiauhdasd que bom que apesar de tudo ta tudo tranquilo. EAD ta um trequinho complicado né? Caramba, só sufoco! Rapaz, mas já são 2 anos, já vivenciando essa loucura a bastante tempo!!! É, já fiz essa de terminar correndo, tipo me auto sabotar auisdhaisdhi e também estou longe de ser a que atualiza todo dia, já fui num passado distante, mas nem valia a pena assim, eu era meio doida.... e então somos duas pessoas que vão conversar direto, ta uma dando trela pra outra aqui continuar aisdhiausdh aliás, se quiser, pode mandar mensagem pelo chat, que acho que dai não tem que ficar mandando tudo separado, ou se quiser, no twitter eu até respondo mais rápido apesar de não estar usando sempre lá agora. E nossas, essas interativas que fica nosso nome e tudo mais são TUDO, eu me sentia 100% participante da coisa, incrível!!
E eu concordo. Não vou superar as pedradas de D-2 tão cedo, juro, muito menos a cena dos Jinkook se batendo. Superei nem MOT7 ainda, poxa. Kskssks Exatamente, eu acho o spirit muito bom pra postar, mas são tantas fics criadas ou atualizadas por segundo (na categoria do bts, especificamente falando) que até desanima um pouco. +++
+++ Eu vivo com medo do bloqueio criativo, parece que a qualquer momento ele vai voltar a me atormentar, o que me deixa bem hesitante pra começar a postar uma long, por exemplo. Odeio ser insegura, mas ultimamente eu ando aceitando mais o que e como eu escrevo, é uma vitória de qualquer modo skskks +++ Eu só insisto porque sinto a necessidade de colocar todas essas ideias pra fora de alguma forma. O Hoseok me deixa soft, não sei por que, mas pensar nele me lembra dos moments dele sendo ele mesmo e eu fico rindo igual tonta. Esse distanciamento social tá me fazendo perder um pouco da vergonha +++ e tentar ser mais sociável virtualmente, porque pessoalmente é uma lástima ksksk Eu queria muito que a ideia de fazer interativas aqui no tumblr desse certo, agora só preciso deixar as onshot de lado um pouquinho e me dedicar a algo mais longo. A conta eu já tenho, mas ainda não uso, tenho a pessoal que ando usando só pra salvar uns icons, na próxima mensagem eu me revelo kssksksk
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Caramba, uma semana pra responder, será que serei perdoada? Essa semana foi o caos de trabalhos, final de semestre sempre assim, e por EAD a coisa parece ainda mais caótica sabe? É estranho... Mas enfim, eu nunca superei nem Wings que foi quando eu entrei pro fandom, imagina coisa recente!!! E sim, entendo perfeitamente essa relação com o spirit, tanto que demorei pra postar lá e quando postei foi uma one shot, a >One Shot<, porque fiquei com medo de parar de atualizar e quando aconteceu com Hinagiku eu quase entrei em parafuso, porque meu Deus, como assim a long vai ficar largada lá?? Mas eu aceitei os fatos sabe, era a minha situação, e essa sou eu, não adianta a gente se medir pelos outros e coisas assim, então sim é uma vitória sua estar aceitando seu jeito, comemore isso sempre!! E ai, o Hobi..... Eu amo esse homem, ele realmente me alegra só de olhar, ele é tudoooo, único homem possível!!! E que bom que esse distanciamento ta te fazendo melhorar um pouco o social virtual suadhaishd não que seja uma obrigação, mas é bom sempre ter alguém pra conversar, mesmo que sejam poucas palavras! Pessoalmente eu também não sou das melhores, mas sempre que começam a conversar comigo dai eu me sinto na liberdade de tagarelar o que eu quiser!!! Eu sou péssima em fazer interativas, eu me embolo toda... Então eu realmente espero que você consiga!!! Estou mandando todas as energias positivas!!! E vai de one shot ou long, o que você se sentir melhor. Pra finalizar, será que depois dessa uma semana ainda sou digna de saber quem é você, querido(a) anônimo(a)? ausidhiaudsh eu espero que sim!
HELLO! Honestamente, hoje em especial, estou meio agitada por conta do novo trabalho do Agust D, e permaneço tentando não surtar pela quarentena kskssk Eu fiquei feliz por ter encontrado estórias bem escritas, essa é a grande verdade. Acho que nunca de fato usei o tumblr, eu sempre acabo abandonando meus perfis porque minha intenção é postar aqui também, mas nunca consegui. +++
+++ E, de autora para autora, eu sei bem o que é passar por bloqueios. O meu mais recente durou mais de um ano e eu só voltei a escrever no mês passado, mas eu continuo colocando defeito no que faço. Ah, eu amei a oneshot do Hobi. Ficou tão gracinha *-* Perdão pela mensagem gigantesca kskskksks
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Te dizer, Agust D-2 talvez seja a salvação da quarentena, eu pelo menos me senti assim!!!!! Obrigada mesmo por gostar do que escrevo, acho que uma dica pra não largar aqui é postar sem se preocupar?? Não sei, mas funciona pra mim, tipo, não me preocupo quantas pessoas vou atingir, se a ordem das postagens vai ser muito confusa e coisas assim, acho que essa preocupação existe quando posto no spirit, por exemplo, porque tem tanta gente lá que às vezes até me sinto acoada hasudah estranho né? Fico feliz mesmo que teu bloqueio tenha terminado! É muito boa a sensação de poder dar vida as tuas ideias de novo, e bom, a gente sempre tem essa mania de achar que tudo ta ruim né? Espero que você supere isso logo também, a maioria das vezes a fonte é realmente as vozes dentro das nossas cabeças. Caramba, a one shot do Hoseok!!! Que bom que gostou aiudha de verdade, lembro bem de todo o processo que foi escreve-la, então fico realmente feliz em saber que ela agrada alguém. E imagina, amo mensagens, curtas ou longas, pode manda-las!!! Ah, e se resolver criar uma conta aqui no tumblr para tentar de novo, me avisa, hein?!
Olá, tudo bem? Espero que sim. Há alguns dias voltei a procurar por blogs ativos por aqui e hoje acabei me deparando com o seu, e, apesar de fazer alguns meses desde a última postagem, decidi enviar uma mensagem elogiando a sua escrita. Ainda não li todas as fanfics, mas pretendo. Fiquei me questionando se você recebe comentários sobre suas estórias, porque pelo pouco que vi notei que você merece saber que são boas. Não sei quando e se lerá isso, mas se o fizer, espero que continue.
Oii, tudo bem sim, e depois de ler essa mensagem, as coisas estão melhores ainda, e com você? Espero que esteja bem, com saúde e se sentindo feliz! Eu fico meio sem palavras quando recebo coisas assim, e já respondendo, não recebo muitos comentários, então nunca espero haha’ mas eu juro que me sinto muito feliz e grata quando recebo, e melhora 100% meu dia, então muito obrigada! Obrigada por achar o meu tumblr, por escolher ler minhas fanfics, e por, principalmente, ter decidido me enviar essa mensagem. Eu não pretendo e nem quero parar de escrever, mas acontece que minhas crises de não conseguir escrever, e não me sentir bem para elas, duram muito tempo, mas sempre que consigo volto com uma atualizaçãozinha, e espero que você possa esperar pela próxima 💜 obrigada, novamente, pela mensagem.
Genêro: fluffy, universo paralelo, romance, Kim Namjon e tentativa de poesia.
Sinopse: Mesmo não conseguindo passar da página dois de qualquer livro, Somin aceita a sugestão de Jungkook para terminar seu último trabalho do semestre: ir até a livraria Namu. Porém, apesar de estar longe de ser amante de livros de qualquer temática, ela se vê presa em um romance poético que vai além do fictício.
Palavras: 4413
Avisos: não sei escrever poesia, mas tentei, e é só isso. Amem Kim Namjoon
“Feita totalmente de estrutura metálica, a Torre Eiffel possui como principal material de formação o metal, tendo suas partes metálicas soldadas ou parafusadas, por parafusos metálicos com bitola...”
— Você está a três horas, sentada aqui no café, para escrever isso? — Jungkook lê as três linhas desastrosas do meu trabalho, aberto em meu notebook, por cima do meu ombro. — Sinceramente, eu que não faço arquitetura escreveria algo melhor! — Ele diz incrédulo, enquanto retira minha xicara de café vazia de cima da mesa e a leva até o balcão.
— Não é tão fácil quanto parece, okay? Esse professor de estruturas é exigente, ele não quer que eu apenas escreva as coisas obvias, ele quer que eu as explique para tornar tudo ainda mais obvio! — Ergo as minhas mãos e me espreguiço de uma forma estranha, escuto minha coluna estralar.
— E qual o problema disso? Não deveria ser mais fácil por ser tão obvio? – Ele pergunta, se sentando do lado oposto da mesa, enquanto desamarra seu avental manchado pelo café que derrubou mais cedo.
— Na verdade, isso torna tudo mais difícil, exatamente por ser tão obvio!
— Não estou conseguindo visualizar onde vamos chegar com essa conversa...
— Não tenho muitas perspectivas também. — Coloco meus cotovelos na mesa e apoio minha cabeça em minhas mãos, meu Deus, que cansaço.
— Já tentou procurar em outros lugares sem ser na internet? Tipo, livros?
— Jungkook, você jura? — Reviro meus olhos. — Você sabe muito bem que eu não consigo ler duas páginas de qualquer livro que eu durmo!
— Eu sei, Somin. Só que, qual outra saída você tem? Na internet você não vai achar mais nada! Ah, e você ainda pode ajudar o meu amigo com a nova livraria, e biblioteca, dele. Pode levar a sua folha com as bibliografias indicadas que vai dar boa!
— Espera, você está usando meu problema para ajudar seu amigo?
— Talvez? Não vejo problema nisso, eu estou ajudando ambos ao mesmo tempo! — Ele diz enquanto vasculha seu bolso da calça. — Aqui, esse é o cartão, com o endereço e o nome do lugar! Você vai gostar de lá, é bem bonito e iluminado, apesar da madeira ser mais escura porque é uma casa antiga.
— “Namu?” — Pergunto depois de ler o cartãozinho em minhas mãos. O fundo azul escuro contrasta com as letras mais claras, deixando o cartão elegante.
— Exatamente! É no seu caminho de casa. E falando nisso, eu acho que você deveria ir logo porque parece que vai chover. — Jungkook se levanta, enquanto observa o lado de fora pela janela. Quando me viro para tentar entender como o tempo havia mudado tão rápido, percebo que, na verdade, não está tão ruim assim.
— Jungkook, não vai chover agora!
— Eu li que vai chover logo, então eu acho que você deveria ir! — Ele recolhe alguns papeis amassados da minha mesa e os joga no lixo.
— Jungkook, eu estou na mesa daquela escritora, né? — Cruzo meus braços com ar de vitoriosa, enquanto o vejo tropeçar em seu próprio pé.
— Oi? — Ele levanta o rosto em minha direção e ajeita o cabelo. — Não sei do que se trata.
— Okay, eu estou saindo! Te vejo amanhã na faculdade, e se acontecer alguma novidade hoje você me conta. Não vai derrubar o café dela igual você fez com o de alguém mais cedo, hein?! — Fecho meu notebook, recolho meus papeis, e jogo tudo dentro da bolsa, enquanto sou praticamente expulsa do café em que meu amigo trabalha. Assim que a porta de vidro se fecha atrás de mim, cortando o cheiro de café, me concentro no cartão novamente. Realmente, o endereço escrito é no caminho de casa, na verdade, três quadras para baixo de onde eu moro. Talvez o destino não esteja me dando escolhas, vou mesmo ter que pegar alguns livros para ler e completar esse último trabalho do semestre.
Conforme vou chegando mais perto da livraria o vento parece estar ganhando força. Seguro minha bolsa mais perto do meu corpo, como um reflexo para tentar me defender. O cheiro da chuva já é evidente, e talvez seja o karma agindo contra mim por eu ter pego no pé do Jungkook. Sinto algumas gotas de água começarem a cair e estou a quatro quadras da livraria ainda. Droga. Começo a correr o mais rápido que consigo, mas é claro que a ideia de que eu seria mais rápida que a chuva é errônea. Quando abro a porta da livraria, e entro sem nem pensar, tenho a certeza de que me pareço com o cachorro da vizinha que fugiu para a rua durante a chuva no verão passado. Tento limpar meu rosto, e a única coisa que consigo enxergar é a mancha preta de rímel que sai na minha mão. Enquanto busco algo na bolsa que esteja seco e possa me ajudar, alguém para na minha frente, fazendo com que eu levante a cabeça para ver quem é.
— Desculpe, já vou sair da porta! — Pego um elástico para prender meu cabelo em um rabo de cavalo, mas quando tento juntar os fios acabo jogando ainda mais água no tapete de entrada.
— Na verdade, eu preferiria que você ficasse ai até eu conseguir arranjar um pano ou uma toalha pra você, tudo bem? — O moço bem mais alto que eu sorri gentilmente, fazendo com que suas covinhas apareçam.
— Claro! Não vou sair daqui. — Minha voz sai bem mais fraca que o esperado. Ele se vira, indo em direção aos fundos da loja, e não demora muito a reaparecer com uma toalha branca e alguns panos de chão.
— Aqui, uma toalha para você se secar, que eu juro, está limpa! Você pode ir ao banheiro, se quiser, fica na primeira porta a direita no corredor. — Ele estende a toalha em minha direção, seu sorriso gentil ainda estampado no rosto.
— Obrigada! — Agradeço e abaixo a cabeça, por algum motivo ele me deixa intimidada. Conforme vou andando ele vem atrás de mim, secando o molhado caminho que deixo com as minhas roupas pingando.
O espaço é realmente bem iluminado, e o contraste com a madeira escura deixa o ambiente com um ar confortável. Uma música clássica, que eu ainda não havia percebido, toca ao fundo. A escada de madeira, levemente em caracol, é enfeitada por bonsais, e no andar de cima vejo um outro menino andando pra lá e pra cá. Quando entro no banheiro, o moço que ainda não perguntei o nome, ascende a luz e fecha a porta, deixando aquele espaço só para mim. Me olho no espelho e percebo que meu rímel está realmente todo escorrido, tornando ainda mais evidente as minhas olheiras por quase não dormir. Limpo o máximo que consigo com o papel higiênico, mas a situação ainda não é das melhores, só o que me resta é aceitar. Me seco o máximo possível com a toalha, torço minhas roupas e meu cabelo, e verifico se as coisas dentro da minha bolsa estão todas secas. Graças a Deus estão.
Volto para a área da livraria, e percebo que a chuva já está bem mais fraca do lado de fora. O garoto das covinhas está entretido com alguns papeis espalhados pelo balcão redondo que fica no meio do espaço, a música clássica agora é outra, e a pessoa do andar de cima agora está sentada em uma poltrona cinza.
— Oi! A sua tolha, onde eu posso pendurar? Aliás, obrigada por me emprestar! — Ele olha para mim, assustado por um instante, mas sorri em seguida, estendendo a mão e segurando a toalha.
— Não foi nada! Espero que não pegue um resfriado. Posso ajudar com mais alguma coisa? — Ele joga a toalha sobre os ombros e recolhe os papeis do balcão.
— Sim! Eu estou precisando de alguns livros, e meu amigo me indicou aqui, disse que você poderia ter. — Pego a lista de livros dentro da minha bolsa e a coloco em cima do balcão. Ele analisa os nomes, faz umas pesquisas no computador, e enquanto isso, finalmente percebo a tag de nome pendurada no bolso de sua jaqueta jeans escura. Kim Namjoon.
— Temos três livros na biblioteca, o andar de cima. E alguns temos em opção para compra. Os livros podem ser emprestados por até 10 dias! Qual você prefere?
— Acho que vou pegar na biblioteca... Posso subir?
— Não precisa, me fala quais precisa que eu levo! — O menino do andar de cima, agora debruçado sobre o guarda – corpo, sorri, e nos olha interessado. — Quem te indicou aqui? Foi o Jimin?
— Não conheço o Jimin. Porém quem me indicou foi meu amigo, Jungkook! — Vejo seus olhos ficarem maiores, espantado com a minha resposta.
— Eu não sei se fico mais assustado com o fato do Jungkook ter amigos além de nós, ou ele indicar uma livraria para alguém. — Seu rosto se torna confuso por um momento, mas logo ele está sorrindo de novo. — Quais os livros que precisa? — Escuto uma risada baixa vindo de Namjoon, que logo começa a ler os nomes dos livros em voz alta.
Enquanto o menino do andar de cima, que descubro se chamar Taehyung, pega os livros para mim, passo meus dados para o Namjoon, agora já devidamente apresentado, fazer meu cadastro. Não demora muito e Taehyung desce as escadas com os livros que preciso em seus braços. Ele, gentilmente, coloca os livros em uma sacola de algodão e me entrega, junto com diversas perguntas de como conheci o Jungkook, e como eu havia chego ali.
Não demora muito para a chuva passar, possibilitando minha ida. Chegando no dormitório, deixo a bolsa de livros sob a cama e corro para tomar um banho e trocar as roupas. Depois de secar meu cabelo, coloco um moletom quentinho e me sinto pronta para tentar ler — pelo menos — 10 páginas de cada livro, porém a situação de eu estar na cama, com as pernas embaixo das cobertas, já indica qual será o futuro do meu objetivo. Assim que tiro os livros de dentro da bolsa, e dou uma folheada rápida, percebo que um dos nomes não me é estranho, e quando pego meu notebook, e abro para ver o que já coloquei no trabalho, entendo tudo. Um dos livros emprestado eu já havia usado, pois achei em PDF na internet. Penso em devolver este e pegar um outro, será que dá? Olho no relógio e já são 16:45, tenho 15 minutos antes que os meninos fechem a livraria.
Corro novamente até lá e, por sorte, a placa na porta ainda indica aberto. O ambiente está bem mais silencioso agora, sem a música clássica de fundo ou a chuva. Vejo Taehyung vasculhando alguns livros nas prateleiras do térreo e bato no sino em cima do balcão para chamar sua atenção. O mesmo se vira rapidamente, com um olhar sério, mas assim que me vê, ele sorri.
— Yah, já de volta? Estava quase fechando a loja, Namjoon hyung já foi embora. — Ele põe o livro de volta na prateleira e caminha em minha direção.
— Pois é. Mas então, um dos livros que eu peguei já usei no meu trabalho. Então queria saber se posso trocar por outro!? — Coloco o livro sobre o balcão, onde Taehyung se posiciona.
— Claro que pode! Lá em cima, na última estante do corredor com a janela, você vai encontrar mais livros parecidos com esse. Fique à vontade! Enquanto você vasculha lá em cima, vou tirar esse livro do seu cadastro, e depois adicionamos o escolhido. — Ele levanta a mão para um high five e eu não o deixo esperando.
Subo a escada e olhar toda a livraria de cima é ainda mais fascinante. Caminho até a prateleira indicada e me perco ali um pouco, tanto livros, capas completamente diferentes, me trazem até que um certo conforto, fazendo com que eu me sente no chão para visualizar tudo melhor. Não demoro muito para escolher um novo, mas quando vou me levantar do chão, um livro na prateleira oposta me chama a atenção. Ele é o livro do canto, na última prateleira, menor que os outros. Sua capa é um roxo mais escuro, levemente aveludada. Quando eu o pego na mão ele é bem mais leve do que parece ser, sua capa, apesar de ainda ser chamativa, está com amassados, pequenos rasgos, e manchas causadas pelo tempo e uso. Lettres à la Lune. Romance, casal apaixonado, fim trágico — um clichê — porém que me convence o suficiente para que eu o leve. Não devemos julgar os livros pelas capas, mas essa com certeza parece valer a pena.
Desço as escadas e encontro um Taehyung entediado, debruçado sobre o balcão. Ele troca o registro dos livros para mim, adiciona a minha mais nova escolha, e me conta que aquele é um dos livros preferidos do Namjoon, mesmo sendo um “clichezão”. A história é cheia de poemas e diferentes sentimentos, que torna tudo muito interessante de ler. Também não esquece de adicionar a informação de que seu amigo, e chefe, passa horas com o livro em mãos, e muitas vezes, escondido no quartinho dos fundos, onde é mais silencioso. Agradeço Taehyung pela ajuda, e informações adicionais, e volto para o dormitório.
Quando chego, me ajeito toda novamente, me sento na cama, puxo a coberta e me preparo para ler pelo menos 10 páginas dos livros para o trabalho. Porém, como esperado, não passo da segunda. Meus olhos pesam já nas primeiras palavras, mas luto contra eu mesma para me manter acordada. O calor do cobertor que envolve meu corpo, o cheiro da chuva que ainda paira no ar, e o silencio que parece ser absoluto no dormitório, não me ajudam. Tudo torna o ambiente perfeito para que eu durma até o dia de amanhã sem nem me preocupar!
Coloco o último livro sobre o trabalho em cima da mesa. Derrotada, somando tudo não passei de 6 páginas. Coço meus olhos, tentando espantar o sono, e quando os abro novamente me deparo com o pequeno livro de capa roxa, talvez seja esse que eu deva ler agora?! Pego o livro na mão e o examino momentaneamente. Quando abro na primeira página é ainda mais evidente as ações do tempo, a letra levemente apagada, e a página com algumas pontas mais amareladas. Surpreendendo a mim mesma, assim que começo a ler não paro mais. Folheio e folheio, e quando percebo já estou na tão sonhada décima pagina. A história é realmente bem clichê, mas é gostoso o jeito que os poemas que os apaixonados, Donghyun e Yuna, escrevem um para o outro te acolhe e te faz querer mais e mais. Não percebo a hora passar, mas quando resolvo parar de ler, e deixar as últimas páginas para o dia seguinte, sei que já é tarde o suficiente para me deixar meio zonza de sono quando eu acordar.
— Jungkook! – Grito o nome do meu amigo assim que o vejo na manhã seguinte.
— Somin-ah! E ai, foi ontem na livraria? – Ele me dá uma abraço rápido e pega os livros que carrego nas mãos.
— Fui sim. Aliás Taehyung ficou bem impressionado com você tendo amiga E indicando uma livraria a alguém! – Dou risada da revirada de olho que Jungkook da, enquanto começa a se afastar.
— Eu converso com ele depois. Ele não te encheu de perguntas, encheu? – Apenas balanço a cabeça positivamente, enquanto Jungkook nega a situação. – Não acredito que vou mesmo ter que conversar com ele depois.
— Será que ele achou que eu era a escritora do café? – O olho, intrigada, e ele arregala seus olhos por um estante.
— Não sei do que você está falando, e com certeza, sei menos ainda do hyung! Agora, voltando ao assunto você, conseguiu encontrar o que precisava? Completou o trabalho?
— Sim e não. Eu obviamente não consegui passar da segunda página em nenhum dos livros, eu quase cai no sono umas dez vezes, sem nem brincar. – Escuto uma risada vindo do meu amigo, mas prefiro ignorar. – Porém, encontrei um romance por lá, e Taehyung disse que é um dos preferidos do Namjoon, e tenho que concordar, a história é ótima!
— Você está, por algum acaso, falando de um livro pequeno de capa roxa? – Jungkook para de andar ao mencionar as características do livro que emprestei, e eu apenas balanço minha cabeça positivamente, de novo. – O Tae hyung é realmente um trouxa... Somin, tenho que ir agora. Hoje minha aula é no laboratório de artes. Falo com você depois, okay? – Ele beija minha testa, um gesto totalmente fora do comum que me pega de surpresa, devolve os livros para mim e some no corredor cheio de pessoas. O que será que Taehyung fez de errado?
Chegando no dormitório no fim da tarde termino de ler o livro de uma vez e me sinto realizada de diversas formas. Por ter gostado da história, por ter terminado de lê-la e por não ter dormido em nenhuma pagina. Como se fosse um bônus no livro, colado na contra-capa, há um envelope também envelhecido pelo tempo, com seu selo em cera vermelha rompido. Abro o envelope e retiro os papeis de dentro. Folhas pequenas, de diversas gramaturas e estilos estão preenchidas por escritas rápidas em tinta preta, que olhando mais detalhadamente percebo serem poemas. Seriam os poemas de Donghyun para a sua amada Yuna? Não consigo ler os poemas, sinto como se eu estivesse invadindo o momento de alguém. Mas passo os olhos rapidamente pelo escrito e identifico palavras como amor, saudade, distância.
Abro mais alguns dos bilhetes, leio mais algumas palavras, e quando me deparo com as folhas espalhadas sobre minha cama, percebo que algumas são atuais demais. Folha de caderno espiral, uma com um quadriculado colorido e outra com um pequeno desenho do Homem de Ferro. Isso não pode ser de época e muito menos do livro, não é? Escolho o papel com o super herói e resolvo ler.
“Dentre as mais diversas formas de te amar, a única opção que me restou foi te observar.
Colhendo flores pela manhã, ou caminhando a luz do luar, foi você,
Minha doce Yuna,
Por quem resolvi me apaixonar.
Não faz pouco tempo que deixei Seoul, muito menos tempo que gravei nossas iniciais na árvore em frente à sua casa.
Mas as palavras acabaram,
O sentimento foi aceito,
E a saudade contemplada.
De você me resta apenas as cartas,
Que em um envelope foram guardadas.”
Namu
Espera. Namu? Estes poemas são do Namjoon!? Me lembro do Taehyung falando sobre ele ficar trancado no quartinho sozinho, sobre amar demais o livro, e passar muito tempo com ele em mãos, comparo a letra do poema com a escrita no meu cartão de devolução e elas são quase idênticas. Não teria como ser de outra pessoa. Recolho tudo o mais rápido que posso e coloco de volta no envelope, determinada em devolver agora mesmo o livro pego. Mas já passa das 18h. Sinto como se eu tivesse invadido o espaço desse alguém, cujo esconde de todos, por algum motivo, seus sentimentos, e por conta disso mal consigo dormir durante a noite.
Quando chego na livraria na manhã seguinte, desejando que tudo esteja o mais normal possível, pela porta de vidro já posso ver Taehyung sentado em uma cadeira, de braços cruzados e olhar chateado, de pé está Namjoon e Jungkook. Que droga Jungkook. O primeiro está inquieto, andando de um lado para o outro, com as mãos no bolso, enquanto o segundo está apoiado no balcão com uma expressão cansada. Eu estar observando tudo daqui de fora é um tanto quanto estranho, mas toda aquela vergonha que tenho de apenas olhar para o Namjoon está agora triplicada. Meus pés estão colados no chão, meus joelhos estão duros, e eu abraço o livro com tanta força que ninguém iria conseguir tirar de mim tão fácil. Mas claro que ficar parada aqui não vai me ajudar em nada. Jungkook se vira para pegar o celular no balcão e percebe minha presença. Ele sorri de um jeito calmo, e caminha até a porta para abri-la, estende sua mão em minha direção como um convite para que eu entre, e seu leve puxar faz com que eu comece a me mover. Os outros dois meninos me olham apreensivos assim que Jungkook fecha a porta atrás de mim, eles alternam o olhar entre meu rosto e o livro em meus braços, cheios de perguntas, mas ninguém com intenção de falar primeiro.
— O que te traz aqui, Somin? — Jungkook pergunta, apoiando seu braço sobre meus ombros.
— O livro, eu vim devolver. Eu acabei de ler. — Engulo a seco, enquanto lentamente os olhos de Namjoon se tornam ainda maiores, e Taehyung parece derreter na cadeira, escorregando seu corpo até o chão.
— Você leu... tudo? — Namjoon me pergunta, e eu apenas balanço a cabeça afirmando. Ele parece respirar fundo, antes de continuar. — Então, por favor, você pode me acompanhar? — Ele aponta para o andar de cima, e eu, de novo, apenas balanço a cabeça de maneira afirmativa.
Subimos as escadas, e paramos em frente a prateleira de livros, onde peguei o que está ainda em meus braços. Namjoon estica a mão em minha direção e eu entrego o livro que ele coloca novamente na prateleira de onde, aparentemente, nunca deveria ter saído. O garoto das covinhas encara o livro por alguns instantes, pensativo, e a situação se torna cada vez mais desconfortável, mas quando penso em simplesmente me virar e ir embora, ele finalmente diz:
— Você leu todos os papeis? — Ele ainda não olha nos meus olhos.
— Apenas o que tem o Homem de Ferro... — Ele ri da característica lembrada.
— Peguei de um dos cadernos do Jungkook uma vez. Me veio a vontade de escrever naquele momento, e bom, esse era meu único recurso. E o que achou? — Seus olhos agora estão fixos nos meus.
— Eu... Achei lindo, apesar de ser tão rápido. Senti sua saudade sem nem ao menos conhece-la.
— Fico feliz em saber que pude transmitir tanto sentimento em tão poucas palavras. — Ele sorri, colocando suas covinhas para brilharem no sol.
— Me desculpe por ter pego, não sabia que teria isso, e acredito que Taehyung também não.
— Só Jungkook sabia, por eu ter feito o poema em uma das folhas do caderno dele! Não tem que pedir desculpas. A culpa é minha por ter escolhido um livro para guardar essas coisas, e ainda deixa-lo aqui, para qualquer um pegar.
— Mas eu entendo, eu acho. Parece que seus sentimentos se encaixam com os de Donghyun...
— Porque eles se encaixam, Somin. De diversas formas, em alguns níveis diferentes. O poema que você leu...
— Não precisa dizer! – Digo rapidamente, num tom mais alto que o esperando, não querendo me sentir ainda mais intrometida na vida de Namjoon.
— Eu quero te contar! O poema é sobre uma situação que passei há alguns anos com uma ex namorada, quando eu ainda morava em Seoul. Já foi para lá? – Apenas balanço minha cabeça de forma negativa. – Deveria ir, é lindo. Enfim. Basicamente, quando me mudei para Busan ela teve que se mudar para o exterior, já que ganhou uma bolsa de estudos em uma universidade. Terminamos o namoro e aconteceu que nunca mais nos falamos. Até tentamos por um tempo, mas foi muito pouco tempo.
— Entendi... Eu sinto muito por toda a situação que você teve que passar. Bom, vou voltar pra casa, okay? Eu ainda não li os outros livros, que na verdade são os que eu realmente tenho que ler... — Coço meu pescoço, nervosa.
— Somin? – Namjoon diz meu nome de uma maneira ainda mais profunda, e como já estou parada sinto meus pés criarem raízes, me fixando ainda mais no lugar. — Você... Não leu então o papel sulfite que tem um relatório na parte de trás? — Balanço minha cabeça de forma negativa. Namjoon se agacha e pega o livro novamente, vasculhando os papeis no envelope, e me estendendo o que ele comentou sobre. — Leia, por favor!
“E foi ao som de música clássica que tudo aconteceu.
Tons de cinza, raios e a ventania formaram sua entrada,
E como uma balada,
Sua presença lentamente preencheu o espaço,
Você no seu desajeitado compasso,
Estremeceu.
Diferente do momento seus olhos emitiam luz.
Assim como o Sol suas bochechas esboçaram cores quentes,
Sua voz me lembrou os dias de antigamente, e tudo pareceu mudar.
Minha doce Yuna, eu espero veemente, o dia que você irá voltar.”
Namu
— Eu... Namjoon... É sobre mim? – Logo que solto as palavras, a pergunta parece ser óbvia demais. Sinto meu rosto todo esquentando, até as pontas das orelhas, e quero simplesmente sumir.
— Sim. E é por conta deste papel que todos estávamos apreensivos lá embaixo, menos o Taehyung, ele estava tendo uma crise existencial por estar descobrindo tudo agora. – Ele coloca as mãos no bolso e seus pés agora estão inquietos, ao contrário de mim, nunca me senti tão imóvel.
— Não sei como responder, não sei como reagir!
— Na verdade, não quero que você reaja a isso agora, porque também não sei como eu vou reagir. Então, será que podemos simplesmente ir até o balcão lá embaixo? Vou registrar que você devolveu o livro e te dar o recibo. – Apenas faço que sim com a cabeça, para um Namjoon que já me deu as costas e está descendo as escadas.
Quando chegamos no térreo Jungkook e Taehyung já não estão mais ali. Não os escutei sair pela porta da frente, pode ser que estejam nos fundos, apenas esperando que eu vá embora. A música clássica está tocando de fundo. Não conseguimos trocar mais nenhuma palavra, ambos visivelmente nervosos, sem saber lidar com toda a situação. Namjoon parece ter esgotado o pouco de coragem que adquiriu a alguns minutos atrás, e agora digita no computador de maneira confusa, apagando e escrevendo várias vezes, até que um papel é impresso pela máquina. Ele escreve alguma coisa com uma caneta, de maneira rápida, e me entrega o papel em seguida. Me despeço e com passos rápidos saio da livraria, e quando escuto o sino da porta, me viro e vejo que Namjoon a abriu de novo. Ele acena para mim.
Assim que chego no dormitório, me jogo na cama procurando um pouco de ar. Caramba, a tempos não me sentia tão nervosa. O que acabou de acontecer? Me sento novamente e tiro o papel amarelo do bolso, a prova concreta de tudo foi realmente real, e não apenas um sonho engatilhado pelo livro. Observando o papel em minhas mãos percebo que Namjoon não escreveu apenas uma rubrica no recibo, é uma frase, simples e direta, que tira todo o ar dos meus pulmões novamente, e me faz sorrir.
“ Somin, até que você aceite. Quer ir a Seoul comigo?”
Sinopse: Em uma realidade que quase todas as pessoas têm uma alma gêmea, o que é pior: não ter uma ou de repente não ter mais a sua? Aos 15 anos, Harumi descobre quanto tempo falta para conhecer sua alma gêmea, o problema é que ela não contava que ele acabasse antes do esperado.
Palavras: 2490
Avisos: menção de bebida alcoólica e amigas bêbadas e desafinadas num karaokê!
A noite parece mais fria de repente, mas minhas mãos tremem por puro nervosismo. Os olhos de Mitsuko estão focados em mim, e seu cenho franzido faz com que a situação se torne ainda mais séria.
— Mitsuko, eu espero que você entenda. Eu não fiz isso de proposito e nem porque eu queria esconder de você. Mas eu estava me sentindo insegura de te contar até agora, porque seus sinais foram tão mais claros e precisos que os meus, que... Não sei, talvez não exista uma explicação plausível. Eu só quero que você me desculpe!
— Te desculpar de que? Que sinais? – Seu olhar agora é de preocupação. Encaro meu café mais uma vez, enquanto solto tudo aquilo que venho escondendo da minha melhor amiga.
— Eu... Recebi o sinal, eu sei quanto tempo falta para eu encontrar a minha alma gêmea! – O mundo a nossa volta desacelera. Os olhos de Mitsuko se arregalam e um sorriso começa a se formar em seu rosto. Sério que ela não ficou brava?
— Harumi, isso é incrível! – Ela diz empolgada. Dando pulinhos de alegria, esquecendo que carrega o copo de café em sua mão. – Mas, por qual motivo eu devo te desculpar?
— Eu sei a resposta desde o dia do meu aniversário de 15 anos! – Tiro o colar de dentro da minha blusa, o elevando até os olhos de Mitsuko, que agora está parada novamente, sem reação. – Esse colar é da minha família, passado de geração em geração. As flores que você vê mudam de pessoa pra pessoa, e a minha flor é a margarida, mas isso não é o ponto. A questão é, são elas que mostram quanto tempo falta para o encontro com a nossa alma gêmea. O básico que você precisa entender é que as flores inteiras significam anos.... – Engulo a seco, percebendo que minha amiga começa a conta-las imediatamente.
— Mas... E as flores fechadas? E as pétalas?
— Com o passar do tempo, as flores vão mudando suas fases. Por isso que, cada vez que você olha, elas estão diferentes! Eu menti sobre troca-las. Eu menti sobre não ter recebido sinal nenhum. Me desculpe. – Olho em seus olhos novamente, e não encontro mais a felicidade de antes ali.
— Harumi, apenas me diga, quanto tempo? – Aquela pra quem venho mentindo todo esse tempo me encara apreensiva. Seu olhar firme indica que ela está determinada a arrancar essa informação de mim. A qualquer custo.
— Na madrugada do meu aniversário quinze flores inteiras apareceram para mim, Mitsuko. Quinze flores inteiras são 15 anos.
O estralar da máquina de café me tira do transe, o cheiro da bebida quente me trouxe lembranças daquele momento perdido a anos atrás, precisamente, 13 anos. Dou um gole em meu cappuccino e o sinto percorrer até meu estômago, me aquecendo por inteira. Coloco a minha mão vazia em um dos bolsos do jaleco, sentindo meu celular, e saio da cafeteria em direção ao elevador que me leva até o décimo quinto andar, onde fica a minha sala e a sala de descanso.
— Feliz aniversário, Dra. Hinagiku! – Um jovem enfermeiro que passa por mim me parabeniza, e eu apenas o agradeço com um aceno.
Continuo meu caminho até o fim do corredor praticamente vazio, sendo o único som existente alguns burburinhos de médicos do lado oposto que sigo. Assim que abro a porta da sala de descanso a diferença de luminosidade me atinge, um tom alaranjado central é o único existente, e a fonte são dezenas de velas em cima do bolo de chocolate, enfeitado com creme e morangos.
“Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida...”
Balões de gás preenchem o teto, um varal com o escrito “feliz aniversário” cruza a sala, e todos os meus amigos que estão de plantão hoje batem palmas, alegres e sorridentes. Porém, uma pessoa não comum naquele espaço me faz sorrir mais ainda.
— Mitsuko! – Chamo seu nome ao mesmo tempo que ela já caminha em minha direção, de braços abertos e um largo sorriso no rosto.
— Harumi! Minha amiga, feliz aniversário! – Ela me espreme em um abraço caloroso, tentando suprir a saudade que sentimos uma da outra.
— Eu não acredito que você veio! Como está a vida em Osaka? E o Kyoichi? E o café? – Solto todas as perguntas de uma vez, fazendo minha amiga rir.
— Calma, vamos ter muito tempo para conversar. Agora, por favor, assopre as velas!
Gosto do empenho das pessoas em comprar a quantidade de velas equivalente a quantos anos a pessoa está fazendo. Conto vinte e oito velas espalhadas pelo bolo, com cores e tamanhos diferentes. O trabalho para fazer com que todas apaguem é um pouco complicado, mas leva o tempo necessário para que o meu pedido seja feito repetidas vezes, talvez assim, aumentando sua força para que ele seja realizado. Depois de toda a agitação, recolhemos o lixo e arrumamos a nossa pequena bagunça.
É inverno, e a primeira neve ainda não caiu, mas o terraço do vigésimo andar é um local ótimo para colocar o papo em dia, e é para lá que levo Mitsuko. O ar gelado atinge meu rosto assim que abro a porta, e penso por alguns segundos se minha ideia foi boa mesmo, porém o som de surpresa com a vista da cidade de Tóquio que Mitsuko solta faz com que eu tenha certeza que sim.
— A vista é simplesmente incrível! – Ela se senta em um dos bancos que tem sobre o longo deck de madeira.
— Eu concordo. Sempre que posso venho aqui pensar um pouco e apreciar a vista.
— Muitas horas de trabalho?
— Ser cardiologista não é algo exatamente fácil, e trabalhar com medicina intensiva na UTI eu te garanto, menos ainda. Mas eu de verdade gosto do que faço, e estou feliz mesmo que cansada.
— E eu fico feliz por você estar feliz! – Ela sorri docemente enquanto me sento em sua frente. Coloco minhas mãos em meus bolsos para amenizar o ar gelado que as atinge.
— Osaka... Como vai a vida lá?
— Vai bem! E o café também, já que você perguntou mais cedo. Os dias temáticos, além de momentos como as cerejeiras ou o ano novo, nos rendem um bom dinheiro. E você nem tem ideia, mas esse negócio de tocar kpop também atrai uma clientela interessante! – Suas descrições saem com empolgação, me fazendo rir e lembrar de como sinto a falta dela. – Eu te juro! Elas alugam o café em um dia “x” do mês, decoram com fotos dos grupos, ou do ídolo em especifico, todo o espaço, fazem copos personalizados e tudo. É bem interessante, mas desgastante. Não tenho mais idade pra isso.
— Mentira! Eu tenho certeza que você se diverte, interage com todos os adolescentes e ainda tem um cantor ou grupo preferido! – Cruzo os braços e ela faz o mesmo, e caímos na risada.
— Okay! Talvez eu tenha, e daí? Você não pode ter algo contra o Jeongin! – Minha risada sai ainda mais alta vendo que a minha amiga com certeza dedica um certo tempo a esse garoto especifico que provavelmente tem metade da nossa idade.
— Tudo bem, eu não tenho ideia de quem seja esse menino, mas eu juro que você pode me contar tudo sobre ele no nosso jantar de amanhã à noite!
— Ingênua, achando que eu já não iria falar sobre ele de qualquer maneira! – Ela diz debochada e se levanta, começando a andar em direção a porta e eu a sigo.
— Kyoichi deveria saber disso.... – Ainda estou rindo de toda situação.
— Ele sabe, e me entende! – Ela lança uma piscadela para o meu lado e ri em seguida. – Nos encontramos que horas amanhã?
— Pode ser às 22h? Prometo não me atrasar muito. – Abro a porta e a seguro até minha amiga passar, a fechando em seguida, cortando a corrente de ar frio que toma o corredor.
— Gosto da sua sinceridade sobre se atrasar. Mas eu aceito! – Ela estica a mão em minha direção e aperta a minha com pulso firme. – Vou indo agora. Vou para a casa dos meus pais, matar um pouco a saudade, e a de você eu continuo amanhã! – Mitsuko toma a iniciativa de me abraçar, e eu a abraço de volta.
— Sim, por favor! Mande lembranças aos seus pais, diga a eles que sinto saudade.
— Atoa, meu doce. Você poderia ter aceitado todos os convites para as tardes de chá! – Minha amiga solta um beijo no ar e me dá as costas, caminhando em direção aos elevadores, enquanto tomo o caminho contrário.
A luz vermelha do semáforo pisca um pouco antes de eu atravessar a rua, me fazendo parar. Os carros sem pudor algum começam a passar de forma rápida pela minha frente, enquanto centenas de pessoas se reúnem atrás de mim, esperando a mesma coisa que eu. Olho meu relógio apreensiva, são 22h30, meia hora atrasada, incrível.
Atravesso a rua assim que o sinal abre, com passos apressados que me guiam até o restaurante que já conheço bem. Sou recepcionada pelo mesmo mocinho de sempre que nunca me preocupei em perguntar o nome, mas que sempre me trata muito bem, e o mesmo avisa que minha amiga me espera na mesa 15. Dando passos largos chego na mesa respirando pesado, forçando o ar a entrar nos meus pulmões de maneira mais rápida, mesmo sendo impossível.
— Eu peço mil perdões, Mitsuko! – Me curvo em sua frente, e minha amiga da tapinhas de “tudo bem” em minha cabeça.
— Você avisou que talvez se atrasaria muito, e de verdade eu contava que você demoraria mais!
— Vim o mais rápido que eu pude, larguei o plantão no fim da tarde, mas aparentemente não foi o suficiente para que eu chegasse aqui a tempo. Já pediu alguma coisa?
— Nada! Estava te esperando. Quer dividir um prato? E um pouco de sake?
— Eu aceito dividir a comida, já o sake, eu dispenso.
— Achei que você ia dizer que não iria dividir sake nenhum. Que sem graça você! – Ela apoia seu celular na mesa e alcança o cardápio que está entre nós.
Alguns goles de sake, uma hora de caminhada no parque e meia hora de karaokê. Esta está sendo a minha noite com Mitsuko resumida em poucas palavras. Conversamos sobre a vida, cantamos nossas musicas adolescentes, enquanto minha amiga choraminga sobre as magoas dela ser muito mais velha que alguns artistas de kpop que ela gosta. Como ela já vai embora amanhã, ou mais especificamente daqui cinco horas porque já são três da manhã, estamos tentando aproveitar ao máximo, pois sabemos que nosso próximo encontro não acontecerá tão rápido.
— 'Cause every time we touch, I get this feeling and every time we kiss I swear I could fly ... – a música ecoa pela sala junto com o inglês quebrado da minha amiga. As coisas que a gente faz pela amizade.
— Ok, chega de musica dançante, eletrônica, não sei. Eu escolho dessa vez!
— Ah não! – Mitsuko protesta, batendo seu pé no chão. – Eu não gosto das músicas que você escolhe!
— E quem disse que eu gosto de todas que você escolhe? – Aperto freneticamente o botão do controle em busca de algo que eu goste.
— Mas as minhas são bem melhores! Você vai querer cantar o que? Green Day? The Killers? Nickelback?
— Não me ofende!
— Mas eu estou cansada das suas musicas de rock, pop ou depressivas, não sei, tanto faz! Eu quero alegria, minha querida, eu quero animação, isso é festa! Não é porque você ainda está sozinha nesse mundo que você tem que estar triste, se anima, amiga! Se sinta leve, se permita... – O tom de sua voz só aumenta, e seu tom agudo toma todo e qualquer espaço.
Mando pela quinquagésima vez Mitsuko parar de gritar no microfone nossas conversas, enquanto me sento no canto do enorme banco vermelho, na pequena sala que alugamos para o karaokê. O mundo parece girar a minha volta por alguns instantes, as luzes coloridas da sala somem da minha visão e tudo fica meio escuro, e a única coisa que me faz sentido naquele momento é que o cheiro da bebida barata que está aberta em cima da mesa ser tão forte que me dá náuseas.
— Harumi, está tudo bem? – Minha amiga aparenta estar sóbria de repente, ela se agacha perto dos meus joelhos, apoiando sua mão gelada contra minha pele.
— Eu não sei, me sinto zonza... Acho que devo voltar para casa, já é tarde, você também tem que descansar para não perder o trem.
— Vamos voltar então, eu pago a conta! Me espera lá fora? Toma um ar, relaxa. – Ela se levanta, acaricia minhas costas por alguns estantes e sai.
Me levanto e caminho até o lado de fora do estabelecimento. O gélido ar do inverno atinge meu rosto, fazendo com que eu me sinta mais leve por um instante. Não demora muito para Mitsuko sair, ela segura minha mão e caminhamos juntas até a estação de metrô. Alguns pontos depois é a estação da minha amiga, nos despedimos desajeitadas dentro do vagão quase parando, tentando equilibrar nossos corpos e evitar a inércia. Quando desço na estação perto de casa, caminho com cuidado pois o mundo ainda parece se mexer a minha volta, como se eu estivesse em alto mar.
Abro a porta do apartamento, bato ela assim que eu passo, e jogo as chaves em outra direção, enquanto tiro meus sapatos e caminho até minha cama desarrumada. Não penso em trocar de roupa, escovar os dentes ou qualquer outra coisa, meu corpo parece pesado, minha cabeça a ponto de explodir, quero apenas descansar.
Não sei que horas cheguei em casa, mas quando olho no relógio depois de acordar de um pesadelo, são 5:30 da manhã. Meu peito sobe e desce, buscando o ar que me falta. Passo a mão por meu rosto, sentindo que elas estão geladas, e minha testa está coberta de suor. Estou tremendo. Acendo a luz do abajur e vou em busca de um copo de água, o liquido parece queimar minha garganta seca, e apenas algum tempo depois consigo me acalmar um pouco. Meu Deus, o que está acontecendo?
Caminho até minha cama, e me cubro o máximo possível, será que foi a bebida de cor estranha ou a caminhada no frio? Será que é um resfriado? Fecho meus olhos tentando capturar o sono perdido, mas a escuridão me incomoda. Quando me deito com a barriga para cima, sinto o relicário mais gelado do que nunca contra a minha pele, provavelmente devido ao frio. O seguro em minha mão por alguns instantes para ver se consigo aquece-lo, mas quando o solto algo nele está diferente, o reflexo da luz nele parece diferente, e isso me incomoda. Ascendo a luz do teto, para ver melhor o que me incomoda tanto naquela olhada rápida que dei no relicário. Solto todo o ar que consegui puxar mais cedo, assustada, o mundo agora parece parar a minha volta, o tic tac do relógio não me incomoda mais.
Não há mais pétalas, botões ou flores inteiras. O relicário está vazio.
Sinopse: Em uma realidade que quase todas as pessoas têm uma alma gêmea, o que é pior: não ter uma ou de repente não ter mais a sua? Aos 15 anos, Harumi descobre quanto tempo falta para conhecer sua alma gêmea, o problema é que ela não contava que ele acabasse antes do esperado.
Palavras: 1357
Avisos:
O semestre está finalmente acabando, e com isso começa as duas semanas de férias antes de voltarmos para um novo ano letivo. Apesar de ser apenas duas semanas, é o meu momento favorito, as cerejeiras florescem e o mundo fica verdadeiramente cor de rosa.
As minhas margaridas foram finalmente plantadas pela tia Miyuki. Ela as plantou depois que contei aos meus pais, e minha irmã, no ano novo, qual é a minha flor e quanto tempo apareceu no relicário. Minha mãe quase engasgou com o ‘mochi’ e eu juro que eu vi a minha irmã babar um pouco do ‘ozoni’, quando mencionei sobre os quinze anos. Meu pai foi o único que não reagiu com grandeza, apenas disse que tudo tem seu tempo, e que ele pretende estar ao meu lado daqui quinze anos quando eu conhecer minha alma gêmea. Reação esperada.
Hoje vim à escola para buscar alguns resultados que faltavam, e Mitsuko veio comigo. Ela me questiona todos os dias se eu já recebi o tal sinal da minha alma gêmea, e todos os dias eu invento uma nova mentira que complementa as anteriores. Já falei sobre não estar sonhando, sobre não contar quantos passos eu dei no dia, sobre não sentir nada ou sobre nunca ter tentado encontrar a resposta. A verdade é que eu conto todas as coisas. Desde o tempo que eu demoro para me arrumar de manhã até quantas letras eu escrevo durante a minha lição de casa no fim do dia. Mas nunca os números se repetem, e quando eles terminam em quinze, eu finjo ter contado a mais. E sobre sentir, eu realmente nunca senti nada, e espero que a pessoa segurando o outro lado desse fio também não. Ela não merece passar por toda a minha angustia de agora.
— Quer ir comigo até Meguro? Podemos ir de metrô juntas! – Mitsuko fala animada, vendo finalmente a oportunidade de fazer com que eu ande de metrô com ela em uma direção diferente da minha casa.
— Claro! As cerejeiras já estão florindo, não é?
— Sim! E eu conheço um café, ao lado do rio, onde podemos ver as árvores ao mesmo tempo que nos protegemos do frio!
— Nem está mais tão frio assim, Mitsuko.
— Nunca acho demais nos proteger do frio... – Mitsuko dá de ombros, me fazendo rir.
Ao fazer a curva no corredor, trombo em alguém bem mais alto que eu, fazendo com que eu perca o equilíbrio e caia no chão. Me seguro para não esfregar o local onde bati meu traseiro minúsculo, para não aumentar a vergonha que eu já estou passando. Quando olho para cima, para reconhecer em quem trombei, não fico surpresa em ver Jun, Kentaro e Yumi. Estudo com os três desde que me mudei para essa escola, o mesmo tempo que conheço Mitsuko. Eles já estudavam por aqui e já eram um grupinho, talvez criado especialmente para fazer com que eu vivenciasse a pior recepção da minha vida.
— Florzinha! – O apelido, nem um pouco carinhoso, sai da boca de Yumi. – Eu já te avisei, você deve usar óculos!
— Não é exatamente um problema de visão, e sabemos disso, não é Yumi? – Fico em pé, refletindo por um instante o porquê de eu ser mais alta que ela, mas não ter um pingo de coragem para rebater suas ofensas. Talvez seja o fato do Jun ser mais alto que eu?
— Ah, eu tenho minhas dúvidas... – Ela sorri para mim, mas algo chama mais sua atenção. – Ora, o que é isso? Você ganhou um presente e não me avisou? – Ela segura meu relicário com seus dedos, sem nenhum cuidado. Provavelmente ele saiu de dentro da minha blusa quando cai, sem eu perceber.
— Sim, foi de aniversário, é de família! – O seguro também, tentando fazer com que ela solte, mas ela ainda o observa, parecendo estar querendo guardar os mínimos detalhes do objeto.
— Que pena que sua família tenha que gastar isso com você. – Yumi finalmente solta o relicário, pegando seu celular para digitar alguma coisa.
Antes que ela tenha mais alguma reação, a senhorita Nakamoto cruza o corredor, nos cumprimentando, dando a oportunidade para que eu e Mitsuko criemos uma desculpa em precisarmos conversar com ela. Nós realmente conseguimos criar um assunto com a nossa professora de matemática, sobre como nossas notas melhoraram esse semestre, e mais um monte de baboseiras, e depois, seguimos nosso caminho até a estação de metrô. Havíamos perdido o trem que pretendíamos pegar, então nos sentamos para esperar o próximo.
— Harumi, acho que Yumi deixou o dedão dela estampado em seu relicário! – Mitsuko estica a mão e o segura cuidadosamente, aproximando-o de seu rosto para limpá-lo. – Ué, ele não tinha mais flores? Por que tem algumas pétalas soltas agora?
— Ah... Bem... São flores de verdade Mitsuko! Elas morrem e secam, então eu troco. E não é sempre que eu consigo o mesmo tanto de flores, né? E pétalas caem, é normal! – Meu tom de voz sai de maneira estridente, praticamente denunciando a minha mais nova mentira.
— Eu não sabia que era você que trocava! Bem que achei estranho. Uma vez vi o relicário e jurei que tinha um botão fechado de margarida. – Ela sorri, soltando o objeto em discussão, e dando atenção ao trem que para em nossa frente. Aproveito o momento para guarda-lo novamente dentro da minha blusa. – É o nosso, vamos? – Não é como se eu me sentisse a vontade mentindo, principalmente a Mitsuko, mas também não é fácil eu falar disso.
Descendo na estação Naka – Meguro, o número de pessoas já se torna algo assustador, saindo da estação então, tudo piora. A movimentação no bairro é muito alta nessa época do ano, por conta das centenas de cerejeiras que ficam nas margens do rio. Turistas se misturam entre os japoneses, câmeras são vistas por todos os lados, e é difícil arranjar um espacinho para se sentar embaixo das árvores.
O café que Mitsuko me leva está completamente decorado para o festival dos ‘Sakuras’. Luzes pisca-pisca estão penduradas por todo o estabelecimento, misturadas nas plantas, envolvendo o corrimão e o guarda-corpo do andar de cima. O menu também tem suas variações especiais para essa época do ano, mas eu escolho o tradicional cappuccino, quentinho e saboroso, com um toque de canela. Sentindo o cheiro doce da bebida, com um leve amargor ao fundo, encaro as pessoas andando do lado de fora, se espremendo entre outras, sorridentes, felizes, e desejo estar assim também.
Ao pôr do Sol, minha amiga propõe uma caminhada o mais próxima das cerejeiras que conseguirmos, para esperar o anoitecer e ver todas as luzes que se encontram nas árvores se ascenderem, e não demora muito tempo para essa mágica acontecer. Entre tons mais rosados e outros mais alaranjados, as árvores se iluminam e a conversa ao nosso redor aumenta. Tiramos fotos, gravamos vídeos, e todos pretendem aproveitar cada segundo, porque logo as flores irão cair, preenchendo as ruas e calçadas como um delicado tapete.
— Harumi, olha! – Mitsuko aponta para o meu café. – Uma pétala de flor de cerejeira caiu no seu copo! – Algumas pessoas que estão ao nosso redor batem palmas, e uma desconhecida solta um tímido “parabéns”.
— Isso é sorte, não é? – Encaro a pequena pétala cor de rosa boiando no liquido levemente escuro que preenche meu copo, e reflete, de maneira discreta, as luzes que estão acesas nas árvores.
— Sim, isso significa muita sorte! Uaaa, queria que acontecesse comigo também! – Minha amiga abre a tampa de seu café, e troca de lugar comigo, para andar mais próxima as cerejeiras, me fazendo rir.
Gosto de como, em um único dia, Mitsuko me tirou dos meus momentos de tristeza repentinos com apenas algumas palavras, e sendo ela mesma. Isso faz com que eu me sinta um pouco pior sobre não contar a verdade, para que ela entenda que eu não tenho tanta sorte assim. E que, na verdade, eu desejo muito que essa pétala no meu copo significasse um novo começo.
— Mitsuko? – Chamo seu nome em um tom baixo, tirando meu olhar da pétala que ainda boia em meu cappuccino, e erguendo até os olhos que me encaram em dúvida. – Eu preciso te contar uma coisa.
Sinopse: Em uma realidade que quase todas as pessoas têm uma alma gêmea, o que é pior: não ter uma ou de repente não ter mais a sua? Aos 15 anos, Harumi descobre quanto tempo falta para conhecer sua alma gêmea, o problema é que ela não contava que ele acabasse antes do esperado.
Palavras: 1280
Avisos:
— Hinagiku Harumi?
A professora me chama, me trazendo de volta de qualquer que seja a viagem que eu estava tendo. Pisco algumas vezes para voltar ao presente e, quando a professora repete meu nome, eu apenas ergo a mão.
Hinagiku. Além de ser meu sobrenome, em japonês significa margarida. A cultura oriental tem vários simbolismos, as flores não ficam de fora, sendo atribuído às margaridas o significado mais contraditório a minha situação atual: fé.
Sinceramente, como mantenho a fé depois da notícia maravilhosa que o relicário me trouxe na noite passada? Depois de esperar todos esses anos para descobrir quanto tempo falta para o tão fatídico dia, descubro que vou ter que viver mais quinze anos para encontrá-lo! Ninguém racional suficiente sustenta essa fé, principalmente uma adolescente em crise! Revendo os casos da família, ninguém demorou tanto tempo. Para a minha irmã foram dias praticamente, minha mãe foram meses assim como a minha avó. Será que não era melhor ter acontecido o que aconteceu com minha tia Miyuki?
Para piorar tudo — só porque a situação já não está ruim o suficiente — todos sabem que hoje é meu aniversário, sabem que eu fiz 15 anos; e que, nesse momento, talvez eu já saiba por algum modo quanto tempo falta para eu encontrar o amor da minha vida. E sim, eu sei; e vou ter que sempre carregar comigo a resposta, fria igual a parte metálica do relicário que se encontra encostada na minha pele, na altura do meu coração.
Todo o período de aula foi uma tortura, e eu estou dando graças a Deus por já ser hora de ir. A manhã inteira recebi “feliz aniversário” e “parabéns” seguidos de olhares que continham a pergunta “quanto tempo falta?”, mas ninguém teve coragem de perguntar de verdade... Até agora.
— Harumi! — Escuto a voz de Mitsuko me chamando, junto de seus passos pesados no chão de madeira. Ela com certeza não vai hesitar em perguntar. — Harumi, por favor!
Mitsuko é minha amiga desde os 6 anos, nos conhecemos em um dos dias que minha mãe não foi pontual em me buscar. Nunca fomos da mesma sala, apesar da mesma idade, mas conversamos sempre. O tempo para que ela encontre sua alma gêmea já foi revelado. Ela sonhou com o número, não lembro perfeitamente como agora, mas tinha a ver com ser em outono, com pássaros voando e o sol sumindo no céu ao fim do dia.
— Eu tenho que ir, Mitsuko, desculpa! — Continuo andando em direção a porta da frente.
— Você ainda não me disse nada sobre quanto tempo falta!!! — Seus braços surgem na minha frente e, de repente, todo o espaço é tomado pelo seu corpo, junto com sua respiração pesada por ter corrido até mim. — Eu te contei, agora é sua vez de me contar, não é?
— Sim, claro! Mas eu realmente não tenho o que contar ainda e é isso que está me deixando nervosa, desculpa. — Minto tão rápido que me assusto.
— Mesmo? Nem em sonho? — Balanço a cabeça negativamente, enquanto abro a porta para sair. — Ainda tem o dia inteiro e mais um pouco! Nem todos recebem a notícia nas primeiras vinte e quatro horas.
— É verdade, obrigada por me lembrar.
Curvo-me para agradecê-la, mas, no momento que faço, o relicário escorrega para fora da blusa, revelando, então, a sua amarga existência.
— O que é isto? — Mitsuko analisa o relicário e sorri. — É um belo relicário com margaridas dentro! É de família?
— Presente da minha avó, ganhei de aniversário! — Guardo-o, sentindo novamente ele contra meu peito.
Não demora muito para que minha mãe chegue e eu vá embora. Porém, durante o tempo que fiquei a esperando, Mitsuko despejou todas as suas ideias e opiniões sobre como eu poderia já estar recebendo sinais de quanto tempo falta para eu encontrar a minha alma gêmea. Ela ficou me perguntando se eu havia sonhado com algo, se tinha algum número que eu estava vendo desde manhã e também umas perguntas estranhas como: quantos pães você comeu hoje? Em quantos pares de meia você mexeu antes de colocar uma? Você tomou banho? E se sim, quanto tempo levou?
Ah, também tem pessoas que dizem sentir sua alma gêmea, como se seus sentimentos fossem divididos, o que um sente é transmitido para o outro. Sentimentos físicos e mentais. O que gerou mais algumas perguntas da minha amiga incansável e que diz sentir as vezes sua alma gêmea.
No fim, eu não havia comido pão aquela manhã, coloquei a primeira meia que toquei e meu banho demorou apenas cinco minutos. Sendo assim, nenhum número conclusivo para satisfazer a vontade de Mitsuko. Ah, aparentemente também nenhuma sensação estranha além da minha revolta e tristeza.
Depois do passeio com os cachorros durante a tarde, resolvi me sentar em frente à televisão e me encontro aqui até agora. Mudando de canal sem parar, nada parece me satisfazer. Volta e meia minha avó se encosta no batente da porta e fica me olhando, tentando descobrir o que se passa na minha cabeça. Ainda não contei para ninguém quanto tempo falta e eles parecem respeitar isso. Mas não demora muito para vovó reaparecer, dessa vez com uma xícara de chá e um pratinho com anpan, senbei e dorayaki.
— Você parece preocupada e confusa com alguma coisa, tem a ver com o relicário? — Assinto ainda sem dizer uma palavra, mas aceitando o prato com comida e o chá verde. — Não foi o tempo que você esperou? Não apareceu algo? Ou você não gostou da flor?
— Eu amei a flor, vó! Minha flor é a margarida e eu não podia estar mais feliz com isso! — Seu sorriso é sincero ao saber que a minha flor é o sobrenome da família. — O problema é que apareceu o tempo, mas não foi um tempo qualquer, foram 15 flores inteiras, vó! — Minha voz soa mais triste do que eu esperava.
— Querida... — Ela me abraça e ri docemente. — Isso não deveria ser um problema para você! É normal, para alguns demoram mais do que para outros, e não é porque na nossa família os tempos foram mais rápido que, o seu sendo mais longo, é errado ou motivo para ficar triste! — Minha vó encerra o abraço e eu me ajeito no sofá, observando a fumaça que sai da xícara de chá quente.
— De verdade, eu entendo, mas esperar ter a idade pra saber e descobrir que eu vou ter que esperar todo esse tempo de novo para encontrá-lo não é reconfortante. Na verdade, parece que tudo está errado.
— Eu te juro que tudo está certo! — Ela sorri para mim e se levanta do sofá, esticando suas mãos enrugadas pelo tempo, porém sempre macias, em minha direção. — Venha, vamos fazer o jantar e nos distrair. Eu te dou certeza de que esse problema é passageiro, que logo você se acostuma com a ideia e aceita tudo que o destino te preparou!
Picar as cebolas, refogar as vagens e assar o peixe. Essas horas com a minha avó na cozinha realmente me ajudaram por um momento, uma pena que depois da louça lavada tudo voltou ao normal. Sentada em frente à minha escrivaninha percebo que minha cabeça não está nem um pouco focada nas lições de casa, mas sim no pequeno objeto que está ao lados das folhas espalhadas, o relicário. As flores ali dentro parecem dançar levemente no espaço vazio, uma dança delicada no ambiente em que o tempo irá correr ao contrário. De flores inteiras elas se fecharão e se tornarão botões, que aos poucos se tornarão pétalas, até sumir completamente. Queria eu poder estar dançando calmamente como as flores, mas eu estou tão agoniada e triste que não parece ser algo possível para mim.
Sinopse: Em uma realidade que quase todas as pessoas têm uma alma gêmea, o que é pior: não ter uma ou de repente não ter mais a sua? Aos 15 anos, Harumi descobre quanto tempo falta para conhecer sua alma gêmea, o problema é que ela não contava que ele acabasse antes do esperado.
Palavras: 945
Avisos: nenhum
Chuva. Ela cai de forma pesada do lado de fora da janela. Alguns anos atrás ela me incomodava, hoje em dia ela apenas me relaxa. O relógio marca 23h58min, dois minutos para o meu aniversário de 15 anos e também para o momento mais importante de toda a minha adolescência: saber quanto tempo falta para eu encontrar a minha alma gêmea.
Para alguns, saber finalmente quanto tempo falta é um alívio, para outros um martírio. Mas para mim é uma preocupação. Eu não gosto de coisas muito marcadas e, por conta disso e por talvez ler romances demais, eu quero que meu encontro com a minha alma gêmea seja espontâneo, sem data ou local marcado. Talvez algo muito lindo ou um pouco triste para dar aquela emoção na história. Mas ultimamente tento pensar nisso como algo positivo, que eu vou conseguir me preparar e talvez me arrumar melhor ao invés de sair usando a primeira roupa que encontro na minha pilha de peças usadas.
Meu alarme começa a tocar indicando meia noite. Feliz aniversário para mim! Batidas na porta fazem com que eu me levante para abri-la, revelando uma avó muito feliz com um pequeno bolo em uma mão e uma pequena caixinha de presente na outra.
— Feliz aniversário, meu anjo! – Minha avó me abraça um pouco desajeitada tentando não derrubar tudo.
— Obrigada vó! Pode entrar. – Pego o bolo da sua mão e abro mais a porta.
Vejo-a passar por mim, em direção a minha cama, desviando da mochila escolar jogada próxima a escrivaninha. Meu quarto, apesar de ser mobiliado apenas com aquilo que cabe, é bem espaçoso comparado a outros quartos aqui na cidade de Tóquio. E, apesar dele estar arrumado, a almofada jogada no chão próxima a janela, iluminada pela luz amarela da luminária, faz com que tudo pareça bagunçado demais por um instante. Mas o relâmpago que cai em seguida ilumina o quarto, mostrando então a real situação de organização daqui. Além de me lembrar que a chuva ainda cai, agora acompanhada de ventania.
— Venha, quero te dar um presente! — Ela se senta na cama e dá leves batidinhas no espaço ao seu lado para que eu me sente ali. — Mas primeiro assopre a vela e faça um pedido.
Fecho os olhos e tento imaginar o melhor pedido possível. Será que faço um pedido relacionado a minha alma gêmea? Ou talvez eu devesse escolher pedir minha tão sonhada faculdade fora do país? Assopro a vela e a fumaça do pavio apagado atinge minhas narinas.
— Pedido feito! O que a senhora tem para me dizer? – Coloco o bolo sobre a escrivaninha sem me preocupar se o creme vai sujar algum papel.
— Bom, você sabe... Toda aquela história de hoje você descobrir quanto tempo falta para conhecer a sua alma gêmea e que alguns nunca descobrem porque simplesmente não é pra ser, não é? — Apenas balanço minha cabeça concordando. — Acontece que na nossa família nós temos uma ajudinha para saber quando vamos encontrar nossa alma gêmea. — Ela estende a mão com a caixinha de presente em minha direção — Aqui dentro tem um relicário que é da nossa família há anos, estava com a sua irmã antes de hoje, aliás. Ele vai te mostrar a sua flor que mais tarde vai completar nosso jardim, como também quanto tempo vai levar para você encontrar a sua alma gêmea!
— E se ele não mostrar nada? E se ele continuar vazio? Ou se eu não tiver uma flor? — Pego a caixinha e a aperto entre as minhas mãos, nervosa e com medo do que possa acontecer, mas antes que eu pense em mais algum “e se...”, a risada macia e baixa da minha vó atinge meus ouvidos.
— Querida, todas nós temos uma flor, está no nosso nome! Porém, quanto ao tempo ou quanto a não mostrar nada, isso acontece. Na nossa família já aconteceu com a minha irmã e isso não deve ser um medo. Às vezes estarmos sozinhos é melhor do que arranjarmos alguém que nos mude! Ah, antes que eu me esqueça, pétalas são dias, botões sãos meses e flores inteiras são anos! Boa sorte, minha querida.
Estas são as últimas palavras da minha avó antes dela deixar o quarto. Penso na irmã dela. Rever a vida da tia avó Miyuki é realmente algo que me deixa mais reconfortada caso eu não tenha uma alma gêmea. Ela viajou o mundo, conquistou cada pequena coisa que queria e hoje mora tranquila ao norte da cidade de Quioto na sua casa dos sonhos com seus animais que tanto ama. Além de ser a principal cuidadora do nosso jardim.
Abro a caixinha vermelha de veludo, revelando um relicário dourado com seu centro vazio apenas fechado pelos vidrinhos. Respiro fundo e aquela história de “toda a minha vida passou naquela hora” acontece, mas foi meu futuro incerto, com todas as possibilidades que eu já havia imaginado e com todos os meus medos. E talvez tudo isso tenha sido o motivo para meu relicário começar a ter seu centro turvo quando o peguei na mão.
Seu centro começa a ser preenchido por algo que parece uma névoa, que vai ficando cada vez mais branca nos segundos que passam. E, de repente, algo amarelo também se mistura naquela densa bagunça. Mais alguns segundos depois, a primeira coisa concreta aparece: uma margarida, uma flor inteira. Solto o ar que eu estava segurando e nem percebi, me sentindo aliviada ao vê-la. A flor que dá significado ao nosso sobrenome. Só que essa primeira não é a única, ela vem seguido por outra e mais outra e outra...
Três... Sete... Dez... Quinze.
São quinze margaridas no total. Quinze flores inteiras, abertas e exuberantes.
Genêro: comédia, um leve fluffy, e universo paralelo. Ah, furry.
Sinopse: Desde que me mudei para este apartamento venho recebendo diversas encomendas que não são para mim, graças a Jeon Jungkook, meu vizinho do andar de cima.
Palavras: 2642
Avisos: insinuação de sexo, linguagem imprópria. Eu chamaria de +16, mas vai que sei lá né, se quiser pode classificar +18...
Faz 3 anos desde quando precisei me mudar por conta do trabalho, o outro apartamento em que eu morava era muito distante e a rotina estava se tornando cansativa. Então, quando surgiu a oportunidade, eu não pensei duas vezes e logo aceitei. A oportunidade surgiu graças a Jimin, meu amigo e colega de trabalho, com seus cabelos alaranjados e um sorriso encantador. Ele também estava precisando se mudar, mas por conta de seus vizinhos insuportáveis, então decidimos morar juntos em um local melhor, onde dividiríamos o aluguel e tudo ficaria mais leve.
Quando nos mudamos para o pequeno prédio de três andares, com janelas de esquadrias pretas que se destacam das paredes e portas brancas, e possui acesso externo por escadas, os dois apartamentos superiores já estavam ocupados. O mais alto é do proprietário do imóvel, um senhor com primeira impressão repulsiva, mas que depois se tornou um ótimo guia da região. Já o do meio, pertence a Kim Taehyung.
Kim Taehyung é modelo, tem 1.78m de altura, cabelos vermelhos, olhar curioso e ao mesmo tempo intimidador. Ele e Jimin possuem a mesma idade, o que possibilitou que logo ambos se tornassem amigos, não demorando muito para que eu também o conhecesse e me aproximasse. Porém, não muito tempo depois de nossa mudança, Taehyung convidou um amigo para dividir as despesas com ele. E é aí, que entra o excelentíssimo senhor Jeon Jungkook.
Jeon Jungkook, cabelos castanhos, mais novo que eu, estudante de design, aparentemente conheceu Taehyung em uma festa qualquer. Todos os meus problemas com os entregadores começaram por conta dele. Desde que ele se mudou, por algum motivo que não descobri ainda, ele vem enviando todas as compras que faz na internet para cá, desde um descascador de banana automático a um chifre de unicórnio para gatos, fazendo com que eu fosse julgada por cada entregador que bate em minha porta. E, apesar das diversas reações que recebo como piadinhas sem graça e perguntas tipo “para o que serve isso que a senhora comprou?”, eu nunca havia visto uma reação como a do entregador de hoje.
Ao abrir a porta, e sentir o vento frio que o clima carrega esses dias, encaro o carteiro e percebo que seu rosto está tão vermelho quanto a etiqueta colada na encomenda da vez, uma caixa pequena de papelão surrado, envolvida por muita fita adesiva. Seu pé bate insistentemente contra a calçada molhada pela chuva que caiu mais cedo, de uma maneira que demonstra seu desejo para que tudo aquilo acabe logo. Seus olhos não se encontram com os meus nem quando ele me entrega a prancheta para a assinatura e muito menos quando ele a retira rapidamente das minhas mãos.
— Quem era? – Jimin me pergunta enquanto se encosta no batente da porta da cozinha, que fica no lado oposto da nossa pequena sala de jantar/estar, segurando uma maçã recém mordida.
— O carteiro, como sempre. Mas dessa vez ele pareceu com vergonha, não fez brincadeiras ou me olhou nos olhos... – Fecho a porta com o meu pé e observo a caixa. – Love Maze? – Ao ler em voz alta o nome do remetente na grande etiqueta vermelha escuto Jimin engasgando com a maçã, e quando o olho, ele segura seu próprio pescoço, lutando por um pouco de ar.
— Não abre, por favor! - Ele diz entre um barulho de engasgo e uma tosse falha, se aproximando de mim. – Sério!
— Por que? Eu sempre abro as encomendas dele, qual o problema dessa vez? – Pego o estilete que guardo no gaveteiro ao lado da porta, cortando as diversas camadas de fita adesiva.
— É sério, por favor... – Seu rosto não mais vermelho pela falta de ar agora apresenta uma expressão desesperada. – Eu te suplico, não olha! – Ele passa a mão pelo cabelo de maneira agitada, parecendo possível arrancar fio por fio ali mesmo.
— Jimin, isso parece só uma pelúcia! – Retiro o objeto da caixa e o balanço no ar. – Parece um rabo de raposa, aliás. Será que é para o gato de novo? Ou é algo tipo a caneta canivete com luz laser?
— Soyeon... – Jimin solta meu nome no ar em um tom baixo, limpando a garganta em seguida. – Love Maze é um sex shop que fica em uma esquina perdida de Hondae.
— Um s-sex shop??? – Pergunto confusa e encaro novamente o objeto em minhas mãos.
— Sim... E, bem... Isso na sua mão não é uma pelúcia. É um dildo. – A última palavra se torna quase imperceptível por conta dos incontáveis xingamentos que preenchem meu cérebro.
— QUE INFERNO!!!
Abro a porta, que acabei de fechar, e subo correndo a escada, parando em frente a ex porta branca dos meus vizinhos do andar de cima, agora preenchida por rabiscos, tinta spray e frases sem sentido como “graphic design is my passion”. Praticamente soco a porta enquanto grito o nome do meu vizinho sem vergonha, soltando todo o ar que existe em meus pulmões. Não demora muito para aquele cujo nome estou gritando apareça.
— Soyeon-ssi! Qual o motivo do escândalo? – Ele pergunta tão relaxado quanto suas calças de moletom cinza e a camiseta branca mais larga que sua silhueta.
— O motivo é você, Jeon Jungkook, e essa maldita encomenda! Você passou dos limites! – Empurro a caixa contra seu peito, e se fosse possível, eu o faria comer essa porcaria.
— Ei, calma! - Ele reage pela primeira vez a minha raiva, assustado. – Qual o problema afinal? – O vejo arregalar os olhos assim que abre a caixa, e eles viajam entre meu rosto enraivecido e o objeto de maneira rápida.
— Esse é o problema! – Digo estressada, enquanto arranco os fios desfiados do meu casaco felpudo roxo.
— Noona... Eu nunca pensei que você fosse... furry! – Sinto minhas unhas afundando contra a palma da minha mão por conta da força com que meus punhos estão cerrados.
— Eu não sou nada disso! Argh, que ódio! Isso é teu!
— Isso não é meu, noona! Mas, por um acaso, isso é um convite seu para alguma coisa? – Vejo o canto da boca dele se erguer, formando um sorriso, enquanto levanta uma sobrancelha.
— CALA A BOCA! – Soco seu braço, o fazendo pular no lugar. – SE EU FOR CONVIDAR ALGUÉM PARA ALGUMA COISA HOJE SERÃO SEUS FAMILIARES PARA O SEU FUNERAL!
Distribuo socos, tapas, e o que consigo, contra a muralha que é Jeon Jungkook. Tentando desviar da minha raiva, ele dá passos para trás, entrando na sala bagunçada por fios de vídeo game e pacotes de docinhos abertos, enquanto grita por socorro, até Taehyung aparecer. O mais velho tenta segurar meus braços por alguns segundos, mas desiste, me abraçando pela cintura e me tirando do chão.
— Yah, Soyeon, o que está acontecendo? – Taehyung divide seu olhar entre eu e Jungkook, que está esfregando seu braço onde acertei o primeiro soco.
— Esse... Esse... NOJENTO! Eu estou cansada dele mandando encomendas para a minha casa, achando que estou sempre a sua disposição. As coisas mais estranhas e inúteis chegam por lá, como aquela colher com ventilador, e eu, que não compro nada dessas coisas, tenho que passar a vergonha e o questionamento sempre! E dessa vez ele foi longe demais! – Balanço minhas pernas no ar até Taehyung me colocar no chão novamente. Inferno!
— Eu já falei pra ela, hyung, isso não é meu! – Jungkook abre a caixa e a vira, na direção de Taehyung, que começa a ficar tão vermelho quanto os fios de seus cabelos, pelo conteúdo ali exposto.
— Ah... Soyeon-ah... – Ele engole seco, abrindo e fechando a boca algumas vezes, sem saber como continuar. – Isso, na verdade, é meu.
— PUTA MERDA! – Solto um tapa contra o peito de Taehyung, acertando perfeitamente o rosto de Van Gogh ali estampado.
— Me desculpa! O Jungkook já tinha esse endereço salvo no notebook. Eu não reparei!
— Eu não quero saber, não quero ouvir a voz de vocês, ou olhar a cara de vocês, nos próximos dois anos! Tanto pela vergonha de vocês, quanto pela minha.
Arranco a caixa das mãos de Jungkook e jogo na direção do Taehyung, acertando seu ombro. Volto até a porta e a fecho com força, assim que passo por ela, antes que qualquer um dos dois diga mais alguma coisa. Desço a escada e fecho a minha porta com tanta força quanto utilizei na do meu vizinho, e quando olho para dentro do meu apartamento, bem mais arrumado do que o de cima, onde até um vaso com flores se encontra ao centro da mesa de jantar, encontro Jimin, receoso, me olhando da porta de seu quarto.
— Eu escutei os seus berros, e os dos meninos, está tudo bem? – Ele coça a nuca nervoso, sabendo o quão inútil é a pergunta.
— Eu estou cansada! Eu odeio os meus vizinhos, eu odeio Jeon Jungkook!
Dou passos largos para chegar mais rápido ao meu quarto, passando antes pelo Jimin, e assim que entro, fecho a porta atrás de mim e giro a chave. Olho meu quarto pequeno, onde cabe apenas a escrivaninha, a cama ao seu lado, e um enorme guarda roupa que cobre a parede oposta. Me jogo na cama e abraço meu travesseiro, olhando para a escrivaninha e a quase inexistente luz do Sol que entra pela janela e a atinge, tentando baixar todo o meu estresse momentâneo. A vergonha de olhar para um carteiro ou qualquer entregador a partir de hoje é enorme, definindo Jimin, oficialmente e permanentemente, como aquele que atende a porta nessa casa, para qualquer que seja a ocasião.
Apesar do escândalo que rolou no apartamento do andar de cima no dia anterior, não demora para que outra encomenda chegue por aqui. Abro a porta do meu quarto e percebo que Jimin está sentado no nosso velho sofá de couro marrom vendo tv. Desvio da mesa de jantar e paro atrás dele, cutucando seu ombro e o mandando abrir a porta. Ele ri da minha situação, se levanta e vai atendê-la, enquanto eu sento no sofá e tento me enfiar entre as almofadas, querendo sumir. Depois que ele fecha a porta, olho com curiosidade que tamanho teria a caixa da vez, mas para a minha surpresa se trata apenas de um buquê repleto de orquídeas brancas que se encontra nos braços do meu amigo. Vejo um sorriso aparecer no rosto do Jimin, enquanto ele lê o bilhete que se encontrava entre as flores e assim que ele termina, solta uma risada no final.
— Soyeon-ah, são para você! Eu acho que você deve aceitar! – Ele pisca para mim, finalmente me entregando o buquê. Procuro o bilhete entre as flores e o pego entre meus dedos, um pedaço de post-it amarelo, mal colado, com toda a mensagem amassada no pequeno espaço do papel.
"Noona. Estou escrevendo esse bilhete como o começo do pedido de desculpas que eu, e o hyung, estamos te devendo. Eu sinto muito por todos esses anos estar enviando minhas compras para a sua casa, mas acredite, eu tenho vergonha de atender a porta, ou me comunicar no geral. É sempre o hyung que atende a porta por aqui, ontem foi uma exceção por você estar chamando (gritando) o meu nome, especificamente. Bom, a intenção maior é te convidar para um jantar, hoje, no nosso apartamento, eu que vou cozinhar, prometendo colocar todo meu amor como um dos ingredientes. Te espero as 20h. Com carinho beijos Jungkookie."
Jungkookie?! Esse menino só existe para me atrapalhar! E como assim ele cozinha?!
Coloco o buquê sobre a mesa de centro e ando até meu quarto com o bilhete ainda na mão. O relógio em cima da escrivaninha mostra que são 17:30, tempo suficiente para eu me arrumar e comparecer neste jantar de desculpas. Colo o bilhete do Jungkook junto dos meus outros lembretes de tarefas e compromissos, e volto à sala para pegar meu buquê e colocá-lo em um vaso com água.
Mal passou das 20h e eu já estava na porta da casa dos meus vizinhos. O pequeno escrito "TaeKook" em caneta permanente acima da maçaneta, indicava o nome daqueles que me receberiam.
— Noona! – Jungkook abre a porta e se curva, me cumprimentando. Ele vestia dessa vez uma calça jeans azul, rasgada na altura dos joelhos, uma camiseta preta de gola alta e uma camisa xadrez em tons de marrom por cima. – Pode entrar! Estou terminando o jantar, logo será servido. – Ele estica o braço em direção a mesa de jantar, indicando que eu me dirija até ela.
— Desde quando você cozinha? - Questionando a dúvida que me atormenta depois que li o bilhete. A sala agora não está mais com as dezenas de fios de vídeo game espalhados e nem um pacote de doce jogado. E até as almofadas estão perfeitamente alinhadas no sofá.
— Desde antes de me mudar para cá! Eu não tinha dinheiro suficiente para ficar pedindo comida e pagar o aluguel ao mesmo tempo, até o hyung me chamar para morar com ele. Aprendi a me virar com o que eu conseguia comprar nas lojas de conveniência, como a da rua de cima! – Ele explica, enquanto joga algo verde, bem picadinho, dentro da panela que está no fogo.
— Entendi. E por sinal, está cheirando ótima a sua comida de hoje!
— Obrigado! Logo vai estar pronto, espera só mais um pouco. O hyung deve chegar a qualquer momento também! – Ele sorri para mim e depois deposita toda a atenção na panela em sua frente.
Não demora muito para Taehyung chegar com um bolo de morango com creme em suas mãos, essa seria nossa sobremesa. O jantar foi tranquilo, um bibimbap com kimchi, mostrando que Jungkook realmente sabe cozinhar. A maior parte do tempo foi ocupado por palavras de desculpa. Eles se desculparam por todo o ocorrido, disseram que entendiam eu estar brava, e que eles usam meu endereço a anos sem eu nunca ter reclamado. As bochechas de Taehyung ficaram tão vermelhas quanto seu cabelo, de novo, quando ele me pediu desculpa novamente pela entrega de ontem. Ele realmente tentou explicar o porquê de ter pedido aquilo, mas eu evitei futuros constrangimentos e disse que estava tudo bem. Também houve desculpas da minha parte. Pedi desculpas pelo meu excesso de raiva repentina, pela gritaria, socos e tapas, tentando explicar que fiquei com tanta vergonha na hora que acabei ficando brava demais com toda a situação e descontei neles.
Conversa vai, conversa vem, quando termino de comer a minha fatia do bolo, olho no relógio e já passou das 23h.
— Eu preciso ir, desculpa. Fico feliz que tudo tenha se resolvido, mesmo! – Me levanto, e empurro a cadeira de volta para debaixo da mesa.
— Também ficamos, noona, nós sentimos muito mesmo. – Jungkook também se levanta, indicando que é ele quem vai me acompanhar até a porta.
— Eu não tenho mais nada a dizer, Soyeon, eu prometo que vou verificar o endereço nas próximas vezes! E me desculpe, de novo.
— Juro que está tudo bem, Tae, e sei que vai cumprir tudo o que prometeu! – O abraço e então ando em direção a porta, onde Jungkook está, já segurando a mesma aberta.
— Noona... – Jungkook me chama em um tom baixo, segurando meu pulso assim que passo pela porta, fazendo com que eu o olhe. – Eu juro, vou começar a mandar todas as minhas compras para o meu endereço, não vai chegar mais nada na sua casa. Mas como eu já havia comprado algumas coisas antes de tudo isso acontecer... – Ele solta meu pulso para coçar a nuca, nervoso, me fazendo rir.
— Está tudo bem, Jungkook, eu recebo mais algumas encomendas sem problemas! – Sorrio para ele e me viro para descer a escada, apertando minha jaqueta contra meu corpo por conta do vento frio.
— E, noona, sobre o dildo... – Coloco minhas mãos geladas em meu rosto, esperando que aquilo me faça esquecer a imagem do objeto que meu cérebro insistiu em guardar, porém, as palavras seguintes fazem com que eu deseje esquecer tudo. – Você não quer testar ele comigo qualquer dia desses?
Ah não, eu não acredito que era uma partida de Overwatch e não eles realmente matando gente na vida real!!!!! Eu que vou te matar!!!! E no fim das contas não sei se fiquei mais nervosa com o fato deles estarem jogando um jogo e não em uma missão policial pra invadir um morro na vida real, ou com o Jungkook resmungando manhoso no final. Inferno de menino fofo, vocês se merecem!!!!! :/ PS: é a Florence hehe.
FIGHT ME!!!
Migaaa, não creio que te deixei tão confusa a ponto de: eles na verdade estavam jogando Fortnite!!!! IUHSDAUISDHAUH desculpa pela confusão, pela ilusão... queria dizer que a Agness deu total apoio a esse momento. Muito obrigada por vir comentar, apesar da ameaça de morte... 💜
Genêro: ação, comédia, e um leve romance/fluffy no fim
Sinopse: Você está com o inimigo na mira, é só atirar, mas tem um problema, Jeon Jungkook está no meio do caminho.
Palavras: 800
Avisos: menciono armas, tiros e um Jungkook irritado.
Três tiros, cinco machadadas e um pontapé foi necessário para colocar a parede do galpão abaixo, não havia ninguém dentro, mas havia suprimentos e coisas que me ajudariam mais para frente. Não sei a quanto tempo estamos nisso, mas estou com sede e uma péssima dor na bexiga por estar segurando o xixi, um momento inapropriado para isso. Abro uma caixa no segundo andar e encontro munições, enquanto estou recarregando escuto passos no andar de baixo e a voz de Jungkook soa no eu ouvido:
- Consegui matar mais um! Como anda por ai?
- Espera.
- Tem alguém ai? Por favor, toma cuidado! – ele soou realmente preocupado.
- Ta na mira! - disse antes de atirar, atingindo o homem que caiu derrubando tudo o que carregava.
- Beleza, faltam três apenas, a gente consegue!
- O área está diminuindo, estamos cada vez com menos espaço, vou subir o morro central e tentar atacar de lá, você tem uma sniper?
- Tenho, mas não sei se consigo encontrar com você, posso deixar em algum lugar e correr o risco...
- Deixa na área 9, perto da árvore, é perto de onde vai fechar o caminho logo e de onde você está, eu chego ai rápido! - conforme fui falando, chequei meu entorno, e com o caminho livre comecei a correr na direção de onde Jungkook estava.
Durante o caminho fui recolhendo o que conseguia, não sei mais quanto tempo ficaríamos nisso. Em algum momento, uma mulher pulou de trás de uma casa, me assustei, mas reagi mais rápido que ela, conseguindo matar mais um, faltava dois agora, e nós ainda éramos cinco. Quando consegui pegar a sniper o sinal de dois dos nossos aliados caiu, ficando três contra dois. Jungkook, que não estava mais perto dali, estava ficando nervoso, mas eu não podia me perder também.
- Eu to chegando na base do morro, você está onde? - perguntei conferindo se ele era um dos sobreviventes.
- No lado oposto do seu. Eu não sei o que pode ter acontecido para acabarmos perdendo três pessoas seguidas...
- Provavelmente eles têm alguma armadilha ou uma sniper tendo o mesmo esquema que nós.
- Droga, então provavelmente já estão na parte de cima do morro, toma cuidado!
Foram as últimas palavras de Jungkook enquanto tudo estava calmo. A tensão e o silêncio duraram apenas um minuto antes da tempestade começar, seguido por correria e muita gritaria. Jungkook gritava tudo que estava fazendo enquanto eu gritava para ele parar porque estava me desconcentrando.
Éramos dois contra um.
- Okay, qual o plano?
- No momento? Sobreviver.
- Jungkook, se você está pensando em me usar de isca, eu juro que te mato antes!
- Eu nunca faria isso...
- Você já fez muito isso! - limpei a gota de suor que escorria pela minha testa, enquanto me escondia atrás de uma rocha, nada do Jungkook ou do inimigo na minha volta - Eu sei que você está tentando me usar de isca, mas não desta vez, Jeon.
- Como pode ter tanta certeza?
- Porque eu estou te vendo, e o inimigo também!
- Hã? - no caso, esse foi o último som do Jungkook.
Foi tudo muito rápido. Eu havia escalado a pedra e estava me posicionando com a sniper acima dela, quando olhei pela mira vi Jungkook primeiro e logo atrás dele o inimigo. Por algum motivo o desconhecido não tinha uma arma, pois poderia ter atirado facilmente, mas ele estava apenas com uma faca, andando lentamente até meu parceiro que achou estar bem escondido atrás da árvore, só havia uma saída para mim.
1, 2, 3.
A minha única opção era atirar, completar a missão, e infelizmente o Jungkook estava no caminho. A bala fez uma trajetória rápida e precisa, cortando o pescoço do Jungkook e atingindo o peito do inimigo logo atrás.
Era o fim, sobrou apenas eu.
3,2,1.
Fim de jogo.
"YOU WIN"
- VOCÊ ME USOU DE ISCA! – um Jungkook bravo atingiu meus ouvidos em um volume altíssimo, me fazendo gargalhar.
- Você sempre faz isso! E eu não fiz de propósito, quando olhei ele já estava atrás de você.
- Eu não acredito que você teve coragem de fazer isso, eu não quero te ver nunca mais!
- Temos um jantar hoje à noite, mas depois discutimos isso, eu preciso urgentemente ir ao banheiro.
- Eu te odeio!
- Eu também te amo, meu amor. Te ligo mais tarde, vai tomar banho e se arrumar, okay?!
- Nunca mais te convido para uma partida. - sua voz era manhosa e ele estava magoado.
- Por favor, nós éramos do mesmo time, amor, e eu disse que poderíamos jogar Overwatch ao invés de Fortnite!
Sinopse: Filha de empresários ocupados demais a ponto de não se preocuparem com outra coisa além de negócios, Nayoung vive por seus estudos e trabalho, sem tempo para distrações, até Park Jimin aparecer na sua porta em um dia de chuva.
Durante todo o tempo que o Jimin ia e vinha dos lugares com suas coisas eu fiquei em silencio. Ele não tinha muita coisa pela casa, mas ele queria ter certeza de que nada seria esquecido, principalmente as coisas da Sunny. Insisti por incansáveis 5 segundos que não era um problema deixar ela no apartamento, mas Jimin estava determinado a levar tudo o que trouxe.
- Acredito que peguei tudo agora. – ele quebrou o silencio, mas recusei olha-lo.
- Tem certeza? – espiei ele de canto de olho.
- Não muita, mas se eu esquecer é algo da Sunny! – ele parecia perdido.
- Tudo bem, não me importo. – disse indiferente, ainda sentada no sofá.
- Bom, eu vou indo.
- Fique à vontade!
- Nayoung...
- Jimin. – ele soltou sua respiração de forma alta.
- Me desculpe, eu sei que sair sem avisar não é certo, mas eu queria exatamente evitar toda essa situação, e despedida.
- Não teria toda essa situação se você tivesse me contado! Eu fui verdadeira quanto você ir e vir quando bem entendesse, e eu esperava que você fosse verdadeiro também.
- Por favor, não é um problema tão grande assim, eu ia deixar um bilhete, uma mensagem...
- Okay. – me levantei e andei até a porta, o deixando confuso – Espero que você, Hoseok-ssi, a garota do acidente e Sunny tenham uma relação ótima daqui pra frente. – abri a porta, esperando que ele saísse rápido dali.
- Garota do acidente? Nayoung, por favor...
- Não é drama, eu estou sendo sincera, eu juro, eu só quero o melhor para todo mundo, agora se você puder sair.
Jimin juntou as caixas, colocou Sunny dentro de sua mochila e caminhou para fora do apartamento, foram intermináveis segundos até o elevador chegar e ele de verdade ir embora. Jogando meu corpo contra a porta fechada, escorreguei por ela até sentar no chão, toda aquela sensação de vazio me tomou, porque simplesmente, mais uma vez, alguém ia sumir da minha vida deixando apenas uma mensagem para me informar, e pela segunda vez, essa pessoa era o Jimin.
“Seongwu-ssi, o jantar vai acontecer hoje, espero que você esteja pronto as 20h!”
“Você fez as pazes com o Jimin? Isso é uma comemoração?”
“É exatamente o contrario.”
“Eu levo o soju.”
“Sabia que podia contar com você, eu me viro com a comida.”
- Você anda bebendo demais... – Seongwu disse preocupado, mas ele estava fazendo exatamente a mesma coisa.
- Eu sei, mas parece que nada na minha vida pode dar certo mais, então estou correndo atrás de soluções alternativas!
- Isso não é exatamente uma solução, seria mais fácil você ir atrás do Jimin e falar tudo.
- Isso não seria mais fácil! – me sentei no sofá – Isso seria completamente o meu fim, eu não tenho cara pra olhar pra ele depois do que aconteceu hoje.
- Mas você falou algo tão horrível assim? – Seongwu se sentou ao meu lado.
- Não exatamente, eu acabei soltando sobre a garota do acidente, e ele ficou extremamente confuso, mas foi na hora da raiva, eu não queria demonstrar que eu escutei algo!
- Raiva do que? Dele estar indo embora?
- Dele mais uma vez estar indo embora deixando apenas um bilhete! Da outra vez foi praticamente isso, ele sumiu depois de deixar um bilhete dentro do meu caderno agradecendo a ajuda que eu tinha dado a ele em uma matéria. O bilhete tinha um tom de despedida, e no momento que li achei estranho, mas depois ele nunca mais apareceu na escola, e agora ele ia fazer de novo. E meus pais fazem isso sempre, eles viajam e me mandam uma mensagem avisando apenas, mandam e-mails apenas cobrando coisas e enfim, isso me deixou muito irritada e magoada na hora que ele falou.
- Mas ele sabe de tudo isso? – balancei a cabeça negativamente – Então, você precisa contar! Eu sei que é chato eu ficar repetindo, eu ficar te forçando a isso, mas você tem que entender que talvez seja o melhor para você. Eu acredito que tem muita coisa trancada ai dentro, em relação a diversas coisas, eu sou a única pessoa que você realmente xinga, e bate, e solta a raiva quando precisa, não que você tenha que ser agressiva assim com todo mundo, okay? Mas você precisa pelo menos conversar!
- Eu entendo, de verdade, mas é difícil para mim. Eu queria poder continuar a minha vida do jeito que ela estava, é a única coisa que quero verdadeiramente agora... – a campainha do apartamento tocou e eu me levantei para atender a porta – Quero voltar a me preocupar apenas com meu trabalho e meu cansaço ao chegar em casa, em ter que responder todos os e-mails e entregar os projetos no prazo, viver apenas com você, sem Sunny, e nunca mais olhar na cara do Jimin! – o rosto de Seongwu ficou totalmente branco quando abri o mínimo da porta, e quando olhei para ela e a abri por inteiro do outro lado se encontrava um nada simpático ou feliz, Park Jimin.
Eu não sei quanto tempo durou todo aquele momento de tensão, só sei que Jimin entrou no apartamento, deu boa noite em um tom baixo e Seongwu apenas balançou a cabeça em resposta. Não olhei, mas escutei algumas portas dos armários da cozinha sendo abertas e fechadas com um pouco de força demais, quando Jimin voltou para a sala percebi que ele encarou a mesa de centro onde as garrafas de soju se encontravam, ele me olhou por alguns segundos, parecia preocupado por eu estar bebendo de novo, mas ao mesmo tempo estava triste e magoado.
- Eu sinto muito por atrapalhar, eu havia esquecido o resto da comida da Sunny, mas agora acabou. – ele se virou em direção a porta e eu segurei seu pulso por impulso.
- Jimin, por favor, você ouviu errado... – soltei seu pulso quando percebi.
- Você não tem que se desculpar por dizer o que pensa e o que tem vontade, Nayoung, e por favor, se cuide. – ele olhou novamente para a mesa de centro, se curvou dando boa noite novamente a Seongwu e se virou indo embora, descendo as escadas sem esperar o elevador.
- Talvez seja o momento de você correr atrás dele, igual as cenas de filme... – a voz de Seongwu estava baixa e distante, como se eu estivesse embaixo d’água.
Foi então que tudo aconteceu como as cenas de romance, mas com os papeis trocados, dessa vez eu era o cara que errou e Jimin a mocinha indefesa e magoada, extremamente magoada. Desci correndo as escadas, e quando estava para chegar no térreo escutei a porta da frente fechando, corri o mais rápido que consegui, e quando abri a porta estava chovendo para tornar tudo mais dramático. Olhei em volta e rapidamente o encontrei, ele estava andando bem devagar, seu guarda-chuva destacando o local exato onde estava. Corri até ele, segurei novamente seu pulso, e quando ele se virou eu o beijei.
Mentira, isso seria perfeito demais para a minha vida, nunca que aconteceria. Eu realmente corri atrás dele, na chuva, e quando o chamei minha voz pareceu um miado, de tanto medo que eu estava da sua reação, seu corpo reagiu no mesmo instante, virando rapidamente na minha direção, eu nunca o vi tão triste.
- A gente precisa conversar. – foram as únicas palavras que consegui soltar antes de perceber que ele caminhava na minha direção.
- Você vai ficar doente. – ele respondeu algo complemente diferente, indiferente, colocando o guarda-chuva em cima de nós.
- Eu sinto muito pelo o que você escutou, não era a minha intenção!
- Você não deveria beber tanto, você nunca fez isso. – ele continuava respondendo algo fora do assunto.
- Por favor, eu juro que não era verdade o que eu disse!
- Você deveria voltar, Seongwu-ssi deve estar preocupado.
- JIMIN! – falei mais alto, frustrada.
- Nayong. – ele ainda estava bravo, magoado.
- Por favor, me desculpa, me escuta, eu sinto muito mesmo. Eu estava triste, bêbada, irritada. Estou, na verdade.
- Entendo. – ele colocou sua mão na minha cintura e seu toque fez com que, automaticamente, eu me virasse em direção a porta do prédio – Está chovendo muito forte para dois ficarem no mesmo guarda-chuva.
- Vamos entrar...
- Não posso, tenho que voltar, Hoseok hyung está me esperando. – ele abriu a porta do prédio com a senha, e a segurou para que eu entrasse.
- Eu quero esclarecer tudo, você ia embora de novo deixando apenas um bilhete! – minhas palavras fizeram com que seus olhos se arregalassem momentaneamente, provavelmente fazendo com que ele se lembrasse do passado.
- Eu sinto muito. – ele engoliu qualquer outra coisa que ele ia dizer e largou a porta para que ela se fechasse, mas eu a segurei.
- Jimin...
- Nayong... – ele estava se afastando, voltando para o caminho que antes estava fazendo.
- Por favor...
- Ela gosta do Hoseok hyung, Nayong, nós nunca tivemos nada. – ele se virou, ficando de costas para mim, e indo embora, e eu não consegui dizer nem mais uma palavra, nada.
Sinopse: Filha de empresários ocupados demais a ponto de não se preocuparem com outra coisa além de negócios, Nayoung vive por seus estudos e trabalho, sem tempo para distrações, até Park Jimin aparecer na sua porta em um dia de chuva.
A/N: Desculpem a falta de atualização, as férias foram menos calmas que imaginei, e eu acabei não conseguindo escrever muito :((
Acordei no outro dia pensando que infelizmente era mais uma segunda feira, o abraço que Jimin ainda tinha envolta da minha cintura me fez lembrar de toda a noite passada, e por algum motivo lágrimas se formaram, e eu chorei. Limpei rapidamente meu rosto, não querendo que alguém visse ou que percebesse.
- Você deveria chorar mais, as pessoas dizem que faz bem! – Jimin praticamente miou suas palavras, ainda sobre os efeitos de acordar cedo.
- Você deveria voltar a dormir... – disse me virando em sua direção – Você nem deve estar sentindo seu braço mais...
- Eu estou o sentindo perfeitamente, e ele está ótimo! – ele sorriu, fazendo pequenos círculos nas minhas costas com seu dedo – Você precisa ir trabalhar hoje?
- Sim, é mais um dia comum na minha vida Park, não posso simplesmente deixar tudo de lado e ficar aqui o dia todo.
- Eu gostaria que você ficasse aqui o dia todo... – seus olhos agora perfeitamente abertos, procuravam nos meus a mesma resposta, mas o meu lado racional demais já estava acordado.
- A minha vida não é assim, e nunca vai ser, eu sinto muito! – sussurrei as últimas palavras e me virei para o outro lado, me levantando e indo em direção ao banheiro, onde me tranquei pelos seguintes 20 minutos.
Quando sai do banheiro Jimin não estava mais no meu quarto, e minha cama bagunçada não aparentava que duas pessoas haviam dormido nela, apesar da sensação de seu abraço ainda estar em volta da minha cintura. Minha vontade era de chorar o dia inteiro, abraçada no cobertor, mas infelizmente isso não seria possível. Me troquei rapidamente, decidida a sumir por mais um dia, a porta do quarto ao lado estava fechada, indicando caminho livre, mas no momento que abri a porta do hall Seongwu estava prestes a apertar a campainha.
- Por favor, não aperte! – meu olhos arregalados porém minha voz sussurrando o mais alto possível fez Seongwu se assustar.
- Aconteceu alguma coisa? Você chorou? – ele segurou meu rosto, respirei fundo para as lágrimas não voltarem.
- Vamos sair daqui primeiro, por favor...
- Vem, vamos andar e conversar um pouco... – ele disse segurando minhas mãos e me puxando em direção ao elevador.
Durante todo o trajeto até o rio Han, Seongwu ligou para todos os lugares onde eu tinha um compromisso hoje e nos próximos dias, mentindo levemente sobre eu estar tão mal que eu mesma não estava podendo fazer as ligações. Não que eu estivesse mal a ponto de não conseguir falar, mas também não era como se fosse fácil para mim ser tão verdadeira a ponto de dizer que não tenho condições de ir trabalhar nos próximos dias.
Não sei ao certo por quanto tempo estávamos andando na margem do rio, o Sol brilhava cada vez mais alto, indicando a hora do almoço, e ambos ainda não haviam dito uma palavra. Com certeza Seongwu não queria invadir qualquer que fosse meu momento pessoal de crise, e eu não sabia como inclui-lo nisso tudo mais um pouco. Cada vez que eu conto algo eu sinto como se eu estivesse sugando sua alma aos poucos.
- Seongwu-ssi...
- Nayong-ssi...
- Está quase na hora do almoço, você conhece algum lugar aqui perto?
- Tem um restaurante que conheço, é pequeno, e a dona do lugar é muito simpática, podemos ir? – ele disse esticando o braço na direção que eu deveria começar a andar.
O almoço foi mais silencioso ainda. A dona do restaurante realmente muito simpática passou diversas vezes na nossa mesa para conversar e perguntar se a comida estava boa, ela parece ter um grande afeto por Seongwu, que também a trata muito bem. O clima estava muito quente para continuarmos andando, então nos sentamos embaixo de uma árvore em um parque, onde algumas pessoas já se encontravam sentadas apesar de ser dia da semana.
- Você quer um sorvete? – balancei a cabeça negativamente – Um café? – neguei – Um doce qualquer? – não de novo – E conversar?
- Não sei se consigo falar...
- Pode começar me explicando porque estava chorando hoje quando fui te ver.
- Eu... Havia acabado de me desentender com o Jimin.
- Vocês brigaram?
- Não diretamente, eu apenas fui estupida com ele mais uma vez.
- E porque você continua fazendo isso?
- Porque ele é tão doce e gentil comigo, como se ele gostasse de mim, e isso me deixa mais apaixonada ainda, só que ao mesmo tempo eu fico brava. Brava por ele gostar de outra pessoa e ainda me tratar tão bem! – escutei Seongwu soltar uma risada baixa, mas resolvi ignorar – Eu sei que eu sou louca, mas... Eu simplesmente não aguento, e dai ver o jeito que ele me olhou hoje de manhã, pedindo pra ficar... A minha única reação foi simplesmente virar as costas e ir embora, depois sozinha eu comecei a pensar o quanto eu realmente estava sozinha, e então juntou com as coisas de ontem, e eu simplesmente comecei a chorar igual um bebê. – ao fim do meu pequeno monólogo faltava ar nos meus pulmões, porque aparentemente soltei tudo sem parar pra respirar.
- Primeiro, você sabe o quão idiota tudo isso soa, não é? – ele perguntou colocando um braço por cima dos meus ombros e eu apenas assenti – Segundo, você realmente não queria ficar?
- Eu não sei.
- Você sabe, você só não quer admitir por algum motivo que apenas você acha que é a verdade. Nayoung, se ele te trata tão bem, se ele pediu para que você ficasse com ele hoje de manhã, seja lá o que tenha acontecido antes disso que, por favor, não me conte para que eu me mantenha saudável mentalmente, ele realmente gosta de você. E não, não é melhor amigo, Nayoung, eu posso ser seu melhor amigo, a Jisoo pode ser sua melhor amiga, mas não o Jimin!
- E por qual motivo?
- Por esses que eu te falei e por simplesmente você não o querer assim! E talvez nem ele te queira assim. Talvez ele tenha gostado realmente da menina que você veio contando a situação aquele dia, que você ouviu a conversa, mas quem disse que ele não pode gostar de você agora? Vocês estão morando juntos faz apenas uns dias, e por mais que você tenha praticamente socado ele em todos os lugares do corpo, ele ainda levanta e vai atrás de você mais uma vez. Ele te faz comida, te protege do amigo esquisito aqui, e te olha com os olhos de uma pessoa apaixonada, como se você fosse o ser mais angelical que ele já viu, você tem mesmo certeza que ele já não gostava de você antes?
- Não, nunca conversamos sobre isso.
- Então! Quem disse que ele já não gostava de você? Que ele já não era apaixonado por você desde sempre? Ele pode ter se encantado pela outra moça, mas amar, a gente não ama tantas pessoas ao mesmo tempo, e quando a gente ama, também não esquece fácil. Ele pode ter ido por anos, ele pode ter mudado de escola, de ambiente, de cidade, mas quando ele precisou de alguém, precisou de ajuda, ele voltou para você! Nayoung, eu posso estar sendo um idiota apaixonado pior que você agora, eu posso simplesmente estar te falando tudo isso e ser tudo uma mentira que fez sentido dentro da minha cabeça, mas e se for verdade? Você não acha melhor voltar para casa e ver como ele está? Conversar! Você se define tão adulta, tão madura, mas você simplesmente não fez o mais fácil: esclarecer a situação.
Todas as palavras de Seongwu giravam dentro da minha cabeça, será que poderia ser isso? Eu realmente não o via a muito tempo, até o dia que ele ficou em casa, mas não o perguntei porque ele foi para lá, assim como ele também não me questionou o porquê de eu ainda deixar todos aqueles escritos na minha mesa, onde a maioria das mensagens eram dele.
Voltei o mais rápido que consegui para casa, deixando Seongwu em frente a lan house, e subindo as escadas correndo. A ideia foi bem ruim, pois cheguei na porta do apartamento completamente sem folego, e demorei alguns minutos para recuperar o ar, mas eu tinha que fazer isso agora, esclarecer tudo agora, antes que eu perdesse a coragem, antes que as palavras de Seongwu parassem de rodar na minha cabeça e começassem a soar como mentira.
Antes de abrir a porta escutei o barulho de caixa sendo arrastada pelo chão, Jimin ficando levemente irritado com a Sunny, e então o barulho de caixa novamente. Abri a porta lentamente, revelando uma mochila ao lado da porta, que reconheci como a de Jimin, mais a frente as coisas da Sunny pareciam levemente empilhadas, e ao lado dela Jimin estava ajoelhado, com uma caixa a sua frente e Sunny dentro.
- Nayoung! – Jimin me olhou assustado.
- Jimin...
- Você chegou cedo hoje, bem mais cedo. – ele disse nervoso, seus olhos estavam arregalados, e eu tenho certeza que o meu silêncio piorava tudo.
- Eu não fui exatamente trabalhar, o que está acontecendo por aqui? Por que a caixa? - soei mais brava do que confusa.
- Eu estou arrumando as coisas da Sunny, mas a mesma não está me permitindo pulando dentro da caixa e brigando com a minha mão todas as vezes que tento tira-la!
- E por que isso? – senti que foi a pergunta mais inútil que fiz nos últimos dias.
- Eu vou embora Nayoung, acho que deu meu tempo aqui, vou voltar a morar com o Hoseok hyung.