Era assim que Alex estava acostumado a ser chamado: louco.
Primeiro ouviu do dedetizador, quando o chamou pela terceira vez no mesmo mês, acreditando que fossem ratos. Depois, do senhorio, que na quinta vez em que foi chamado de madrugada continuou sem entender o que acontecia. Ouviu, também, do pedreiro que contratou para tentar arrumar o que quer que estivesse errado - trocou canos, fiação, piso, trocou tudo! Mesmo assim os barulhos pioravam. Trocou tudo outra vez!
Mas ele sabia que não havia loucura, o que ele sentia era real. Há muito ele tentava descobrir de onde vinham os sons que nunca cessavam ou quem o atormentava.
É, não seria fácil dormir.
Alex levantou e começou a dar passos silenciosos em direção à cozinha. Talvez um copo d'água o ajudasse a ter sono. Era esse o pensamento de todos os dias, já que há meses ele não descansava.
Parou em frente à porta e olhou ao redor antes de abri-la.
O quarto estava vazio, como sempre. Os armários fechados, as janelas trancadas. Nada que chamasse a atenção, além de um porta-retratos virado de frente para a porta e que ele nem lembrava existir.
- Amanhã eu tiro isso daí. Guardo ou jogo fora...
Refletindo, tentou abrir a porta em silêncio, evitando que o ranger habitual pudesse despertar aquilo que tanto lhe tirava o sono.
Conseguiu, a porta estava aberta. A parte mais difícil parecia ter passado. Quem sabe naquela noite ele conseguisse dormir.
Retomou os passos silenciosos. No caminho para a cozinha ele reparou em toda a casa.
No corredor, apenas lembranças de viagens e o papel de parede que ela escolheu. Na biblioteca nada além de livros e antigas cartas de amor espalhadas sobre a mesa. O quarto de hóspedes ocupado pela cama, ainda coberta pela colcha que ela havia feito. Na sala nada de diferente, os móveis posicionados como sempre, a decoração feita por ela e os presentes de uma vida passada.
Esperançoso, entrou na cozinha e colocou um copo para encher com água enquanto olhava atento ao redor. Já passara da meia-noite e, apesar da falta de sono, aquilo que o perseguia ainda não havia aparecido.
O copo enchia e a quietude era tão grande que nada parecia poder dar errado.
A expectativa de que nada o atormentaria naquela noite e o cansaço fizeram com que Alex se perdesse em pensamentos sobre o passado, uma época feliz. Enquanto lembrava de tudo com um sorriso inocente no rosto, o copo cheio, estilhaçou-se contra o chão e ele voltou à realidade.
- Puta que pariu! Que merda que eu fiz!
Foi com o seu erro que tudo começou.
Da sala veio o barulho da porta de entrada, de pés humanos apressados pisando forte contra o chão e de patas de cachorros inexistentes acompanhando aquele ser.
Decidido a enfrentar quem fosse, Alex saiu da cozinha ao som de risos. Não havia nada ali. Nada além da decoração, dos presentes, dos passos pesados e da gargalhada que se distanciava em direção ao corredor.
Correu. Ele precisava alcançar aquilo.
No corredor o papel de parede parecia ecoar a risada sem fim, o mesmo caminhar tenso e o barulho de um mar distante.
Continuava correndo, desesperado.
De cima da cama acolchoada do quarto de hóspedes vinham as risadas de crianças que nunca existiram.
O que quer que fosse, aquele ser continuava a forte marcha, mas se perdia ao longe no corredor.
Alex corria, agora com lágrimas escorrendo em seu rosto.
Da biblioteca vinha aquela mesma voz que ria. Agora ela sussurrava palavras perdidas e desconectadas que falavam de futuro, de passado, de sonhos, de rancores, de amores e de ódios.
Desesperado, perdido, inconsolável, Alex não entendia. Tudo parecia estar certo naquela noite. Como um erro poderia ter causado tanto tormento?
Chegou, finalmente, ao quarto.
Por trás da porta semiaberta ele ouviu os passos parando, ainda que a risada frouxa, que tanto o angustiava, não cessasse. Era hora de confrontar aquilo. Ele precisava de paz.
Ao abrir a porta a gargalhada parou repentinamente e o silêncio tomou conta do ambiente.
Alex viu o que pairava a sua frente e congelou.
Com um vasto sorriso no rosto, ali estava ela, perdida ao seu lado num dos últimos momentos registrados naquele porta-retratos.
Ainda paralisado ele finalmente entendeu qual era o seu fantasma.
E a risada dela voltou a ecoar distante. Agora em sua mente.