Eu não escrevo no caderno ou no bloco de notas
Eu escrevo aqui pois parece que alguém vai responder
Eu escrevo no mundo virtual cheio de gente, como numa conversa diacrônica... mas no fundo eu sei que não é uma conversa, sou só eu falando
Eu escrevo aqui porque sou escravo da linguagem
Sou escravo de dizer, ouvir e ser ouvido
Mas a linguagem não pode alcançar aquilo que está além dela
Aquilo que tenta se expressar mas não encontra formas, apenas tentativas de que ecoe, em quem escuta, o mesmo que ecoa em quem diz. Se o eco é o mesmo não é possível descobrir. Mas não quer o eco sentir-se só, embora ele seja.
Há um lugar sem julgamentos? Ainda que seja sutil, ele existe? Parece que sim. Mas difícil é a viagem só de ida. Será ela possível?
Os sentidos embriagados não dizem muito mais ou muito menos que os sentidos sãos. Os sentidos são companheiros da ilusão. Eles se relacionam com "tudo", mas o eco permanece no desconhecido, ecoando.
O eco não se relaciona, a não ser consigo mesmo. Por isso ele sofre. Por isso ele diz, através da linguagem: "sofrimento", "tristeza", "raiva", "dor". Ele não tem nada a não ser a sua capacidade de enviar mensagens para o mundo da linguagem. Ele não recebe resposta alguma. Ele permanece ecoando consigo mesmo.
Que o eco faça silêncio. Que a linguagem, mesmo quando usando sons, possa manifestar o silêncio, a ausência do eco, o caminho livre entre o espaço e a linguagem.
Diante de todas as ilusões, para essa ainda não houve desilusão. Essa permanece como a folha sobre o lago, flutuando... Como num barco ela leva de uma margem à outra do rio, para que nunca seja esquecido que existem sempre dois lados.