After Hours: a narrativa do anti-herói
Das luzes mais intensas para a mais sombria escuridão, em After Hours, The weeknd entrega uma estrondosa narrativa guiada por melodias hipnotizantes
Quando The Weeknd anunciou seu quarto álbum de estúdio intitulado como After Hours, álbum sucessor do EP “My Dear Melancholy,” onde o artista explorou suas angústias mais profundas em baladas poderosas, foi difícil imaginar por qual nuance Abel Tesfaye (seu verdadeiro nome) iria trabalhar. O vídeo que apresenta essa nova fase tinha uma estética com o vermelho vibrante com muitas luzes e o personagem de The Weeknd correndo e sangrando por Las Vegas. A inspiração para essa estética veio de filmes dirigidos por Martin Scorsese onde um deles tem o mesmo nome do álbum (After Hours) e também a clara referência em sua vestimenta ao do personagem de Robert De Niro no longa Cassino.
The Weeknd se tornou um dos grandes nomes masculinos da indústria, justamente por ser um dos poucos artistas que se propõem a fazer o novo. Claro que sua voz característica (dita por muitos ser bem sexy) e suas letras explícitas são sua marca registrada, mas podemos lembrar que são poucos artistas que podem (e conseguem) abraçar e se mostrar como alguém que não é um grande romântico ou um completo babaca. Lembrando de seus grandes sucessos como “Starboy” e “Can’t Feel My Face” essas mudanças podem talvez parecer discretas, mas se colocamos “Blinding Lights” na mesa o jogo vira drasticamente.
After Hours se propõe ser um trabalho mais furioso entre por tudo que o artista já fez, abraçando mais melodias no dream pop sem esquecer seu potencial no R & B. Abel teve total participação desde a composição até produção junto com o produtor de grandes sucessos da indústria, Max Martin.
O álbum se inicia com “Alone Again'', uma canção que vai crescendo ao decorrer de sua duração pelo instrumental e acompanhados com os agudos e sussurros do artista, é uma música que ilustra bem os altos e baixos que o álbum irá seguir. Abel apresenta seu trabalho contando sobre a sua liberdade e o medo de acabar ficando sozinho no meio de sua caminhada, o que propõe que esse personagem apresentado seja um possível herói mal interpretado. A partir daí o álbum vai criando mais camadas, e fica claro que essa narrativa não é uma jornada de herói, mas possivelmente de um vilão, mas será que realmente precisamos de mais um vilão em 2020? Mesmo que tenha pensado que não, Abel te convence que a única resposta possível é sim.
A jornada desse personagem se mostra mais complexa em faixas como “Scared To Live” (que tem Elton John entre os compositores) com uma poderosa carga emocional em sua letra desenhando mais camadas sobre os sentimentos desse personagem de modo delicado e desesperante, indo até para a obscura, explícita “Escape From LA” que contém trechos como “It's slowly burning, it was never cheap If you seen what I seen, you wouldn't sleep” (está queimando lentamente, nunca foi barato/ E se você viesse o que eu vi, você não dormiria) onde mostra seus os tormentos que reflete a relação do artista com a fama em seus relacionamentos. O que gera empatia e até mesmo uma atração ao perigo cantado nesses momentos por ser simples e sincero.
As revoltas de um homem que ama quebrar corações, ostentar bens materiais e mulheres é presente na quinta música, “Snowchild”, com trechos como “Every month another accusation/ Only thing I'm phobic of is failing/ I was never blessed with any patience” (A cada mês, uma nova acusação/ A única coisa da qual tenho fobia é falhar/ Eu nunca fui abençoado com paciência) que nos lembra de vestígios da era “Starboy”, que não se destaca entre as demais, porém cumpre seu papel de construção de uma persona de moral duvidosa.
O maior sucesso nesse álbum não poderia ser outro, a música que carrega claras referências ao pop dos anos 80, “Blinding Lights”, é uma faixa nostálgica e eletrizante, sendo o tipo de canção que qualquer artista que busca referências aos sucessos dessa época adoraria ter em sua discografia. After Hours contém mais momentos brilhantes como a canção “In Yours Eyes” que tem uma musicalidade que remete a faixas de Michael Jackson, com um incrível solo de saxofone no final. E, também as letras intimistas em “Save Your Tears” e “Hardest To Love” com instrumentais mais adocicados. A maioria das canções possuem boas transições tornando o trabalho agradável e, como boa parte de sua discografia, uma interlude bem colocada e hipnotizante.
Abel conseguiu unir o que tinha melhor nos seus dois últimos trabalhos e construiu um álbum coeso e eletrizante. Seu personagem embarca em um ambiente sombrio onde todos seus sentidos estão à flor da pele. Ele não é o vilão e muito menos o mocinho, digamos que em After Hours, The Weeknd tem um papel anti-heroico em sua narrativa passando do amor, medo e insanidade.
Ele ousou na versatilidade de sua voz e no conceito visual e, parece mais determinado em suas composições que vão de doces baladas à um cativante pop onde as produções são só a cereja do bolo perante toda a matéria prima, onde ele soube transformar acontecimentos de sua própria vida em algo mais palpável no ato de After Hours. Porém, no quesito composição, ainda que seja mais explícita e mais arriscada, não é algo tão distante de seus álbuns antecessores: “Starboy” e “Beauty Behind the Madness''. Entretanto, esse álbum se destaca entre os demais por soar mais perigoso e sombrio.
De certo modo, ficamos atraídos nessa faceta de Abel que vai além de sua voz sexy e letras melodramáticas, mas justamente por ser intenso e envolvente a cada faixa. E apesar de tudo isso, o artista foi esnobado na edição de 2021 do Grammys. É difícil dizer o porquê dessa decisão da bancada, o que traz à tona as afirmações de racismo ou pelo evento buscar uma exclusividade de uma performance que Tesfaye não quis ceder.
Sem dúvidas foi uma das maiores eras realizadas na música em 2020 e mesmo que a mais importante premiação da indústria não tenha reconhecido, a falta que After Hours irá fazer é incontestável, mas isso não vai parar a corrida de Abel, pois ele virou um personagem no qual não pode ser evitado. Definitivamente não pedimos por mais um vilão em 2020, mas precisávamos do anti-heroísmo de The Weeknd.












