Líderes e seus posicionamentos perante o racismo
O mundo nos últimos meses tem vivido um dos períodos mais turbulento já visto. Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia pelo covid-19, doença transmitida pelo novo corona vírus. Atualmente são mais de 408.025 mortos ao redor do mundo, incluindo a maior potência econômica: Estados Unidos, que hoje é o epicentro da doença (onde se concentra o maior número de casos).
Nas últimas semanas o país também foi protagonista de um acontecimento que é debatido ao longo de anos: a brutalidade policial com pessoas negras. George Floyd é o nome da vítima que acendeu uma serie de manifestações pelo país e que agora estão sendo realizados pelo mundo em plena pandemia.
Podemos destacar alguns estudos que refletem a violência policial: As chances de um homem negro ser atingido pela polícia segundo uma pesquisa de 2019, são de 96 em 100 mil – mais de 2,5 vezes o risco de um homem branco. De acordo com um levantamento colaborativo feito pelo jornal britânico The Guardian, foram 1.093 mortes de civis pelas mãos de policiais em 2019 nos Estados Unidos. O número leva em conta pessoas mortas após reagir violentamente às abordagens e também pessoas imobilizadas e desarmadas, assim como estava George Floyd. Mas, apenas o número de mortes pode não ser um retrato fiel da atuação de policiais no país, principalmente abrangendo um recorte racial. Dados de 2010 a 2016 obtidos pelo site Vice em conjunto a 50 departamentos de polícia dos Estados Unidos, para cada pessoa morta por um tiro dado por um policial, outras duas são atingidas e sobrevivem. Ou seja: mais de 3mil pessoas são baleadas todos os anos por armas de policiais.
Trazendo essa problemática para o Brasil, as estatísticas mais recentes sobre as mortes por policiais envolvem dados do Monitor da Violência mantido pelo portal G1 em parceria com o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento é baseado em informações coletadas junto a 25 estados e do Distrito Federal, nele é mostrado que no país teve o número de 5.804 pessoas mortas por policiais em 2019. Em comparativo aos números de 2018 (5.716 mortes) houve um crescimento de 1,5%. O Rio de Janeiro se destaca em números absolutos: 1.810 mortes aconteceram no estado. Os números incluem mortes causadas por policiais em serviço (95% dos casos) ou à paisana.
O caso mais recente que retrata esses números aconteceu no estado do Rio de Janeiro onde João Pedro, 14 anos, foi morto por um tiro de fuzil durante uma operação no Complexo do Salgueiro, que levantou uma grande comoção nas redes sociais de vários brasileiros, mas nada comparado ao caso de Floyd. Possivelmente porque na abordagem americana foi filmada o que causou mais choque e indignação com a brutalidade das imagens registradas.
O mundo estava preocupado com uma pandemia e em um segundo momento, o país onde se concentra o maior número de casos se vê numa situação onde é necessário ir às ruas deixando de lado as recomendações da OMS do distanciamento social. Porém este acontecimento não é o mais surpreendente dentro desses acontecimentos. O presidente Donald Trump fez a seguinte publicação em seu Twitter sobre as manifestações: "Esses bandidos estão desonrando a memória de George Floyd, e eu não deixarei isso acontecer. Acabei de falar com o governador Tim Walz e lhe disse que o Exército está com ele. Qualquer dificuldade e nós assumiremos o controle, mas, quando o saque começar, o tiroteio começará. Obrigado!” Horas depois a publicação foi intitulada pela rede social como um post onde “enaltece a violência”. De fato, é preocupante observar que um líder cogitou responder com violência policial para aqueles que pedem o fim do mesmo. A posição mais adequada seria mostrar algum suporte para a comunidade negra e exigir alguma providência no caso de George Floyd. O que parece neste momento é que Trump tem medo de perder eleitores, o controle da população e principalmente de perder o seu poder que conquistou em alguns meses, já que as eleições presidenciais está próximo para os americanos.
As manifestações atravessaram fronteiras e hoje: Inglaterra, França, Austrália, Japão, Coreia do Sul, Alemanha e até mesmo o Brasil (este último levantando outras pautas além do racismo), porém o que mais se contrasta são as posturas desses líderes enfrentando não somente uma doença ainda sem uma vacina pronta, mas também um pedido de sua população que deveria ser simples de entender: Black Lives Matter (Vidas negras importam).
No Brasil havia manifestações muito antes dos Estados Unidos, mas com movimentos contra o isolamento social, contrariando a OMS, onde o atual presidente Jair Bolsonaro mostra dar suporte à essas ações chegando a participar de várias delas. Entretanto sobre os protestos mais recentes onde é levantando bandeiras da democracia, justiça e mostrando apoio aos movimentos antirracistas iniciados nos Estados Unidos, o presidente do Brasil assim como Donald Trump, se referiu aos protestantes como “grupos terroristas”, apesar dos atos serem realizados pacificamente. Aqui temos um cenário onde o líder não se importa com a ameaça da covid-19 e também não parece ligar para o pedido de justiça para casos como de João Pedro.
Já em Londres o governo britânico pediu à população para não participar dos atos, já que é o segundo país mais atingido pela pandemia. "Compreendo que as pessoas estejam profundamente indignadas, mas nós ainda enfrentamos uma crise sanitária e o corona vírus permanece uma ameaça real", declarou o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock. "Portanto, por favor, para a segurança dos seus próximos, não participem a grandes aglomerações, inclusive protestos, de mais de seis pessoas", disse, em referência ao limite de agrupamentos fixado durante a quarentena no país. O governo francês alega que qualquer aglomeração de mais de 10 pessoas está vetada por conta da pandemia, porém essa recomendação não impediu de mais 20mil pessoas estivessem nas ruas no dia 2 de Junho.
Porém, no dia 8 do mesmo mês a Organização Mundial da Saúde veio a público e declarou apoio ao movimento antirracista e disse ser contra qualquer tipo de discriminação. A organização destacou que os protestos devem acontecer tomando cuidado com a transmissão da covid-19.
Levando em consideração todos os fatos expostos vemos que não é tão fácil impor que uma população proteste ou não, pois isso é uma autonomia do próprio povo, mas mostrar que se importa em cuidar de sua população e que entende o porquê das manifestações estão sendo feitas mostra empatia por parte das autoridades, e ressalto que responder esses movimentos com uma ação policial nessa situação não é a mais indicada e nem a mais justa. Por que criar conflito quando o objetivo é a ordem? Mas como ser totalmente passivo quando anos de manifestações desse modelo não mudou o quadro de violência policial? Temos que lembrar que estamos passando por um momento delicado, porém quantas vidas negras inocentes irão se perder até uma atitude ser feita? Quem irá lutar por essas pessoas? Quando o sistema vai olhar para essa minoria? Não existe remédio imediato para isso, mas não significa que nada possa ser feito e agora tudo o que essas pessoas pedem é justiça.
Como uma análise uso uma frase Maquiavel: “Todos os Estados bem governados e todos os príncipes inteligentes tiveram cuidado de não reduzir a nobreza ao desespero, nem o povo ao descontentamento”. No momento, vemos vários povos descontentes com a postura de seus governantes com temas que envolvem uma minoria que vem sofrendo descriminações por séculos e ao mesmo tempo temos grandes empresas com descrença ao futuro da economia por resultado de uma pandemia, pois aparentemente pouquíssimos países souberam se adequar durante a crise. E especialmente, não vemos príncipes inteligentes que saibam lidar com todas as responsabilidades que vem junto com o seu título.
Agora mais do que nunca, pessoas negras estão tendo visibilidade na mídia, e nas redes sociais diversos influenciadores estão cedendo seu espaço para levar informação para seus seguidores, como é o caso da cantora Selena Gomez que fez a seguinte publicação em seu Instagram: "Depois de pensar em como usar melhor minhas redes sociais, eu decidi que todos nós devemos ouvir mais as vozes de pessoas pretas. Nos próximos dias eu estarei destacando líderes influentes e dando a chance de eles assumirem minha conta do Instagram para que possam falar diretamente com todos nós. Temos a obrigação de fazer o melhor e começar ouvindo com a mente e o coração abertos". Ações como essas aumentam o alcance das vozes daqueles que foram silenciadas, e o crescimento do interesse por esse debate reflete em como iremos viver pós-pandemia e, mostra que independentemente de quando isso vai acontecer o mundo não tolera mais esse tipo de comportamento vindo de autoridades que deveriam zelar pela segurança. O governo deveria começar a temer seu povo, pois agora estão entendo o poder que eles possuem (Frase adaptada do escritor Alan Moore).
PS: feito de manhã









