dois mil novecentos e vinte
Hoje eu lembrei que é o meu aniversário. Fui avisado assim, sem mais nem menos, e de repente tudo se encaixou melhor.
Lembro do motivo pelo qual nasci, e de como o mundo era diferente naquele tempo... ele era diferente naquele tempo, e embora ainda tenha os mesmos objetivos e os mesmos sonhos acredito que era mais otimista em atingi-los naquela época. Tudo bem que ano após ano realmente tem sido muito difícil se manter otimista e focado em novas conquistas já que as adversidades tem aumentado muito e aquela sensação de conforto vem tomando cada vez mais espaço nas decisões a serem tomadas.
O problema é que essa não é a sua única preocupação, na verdade é só mais uma que está fazendo a pilha de coisas que ele gostaria de resolver de verdade para conseguir dar um sossego na cabeça crescer. Sabe, já tem um tempo que ele não anda tão confiante assim, tem se questionado bastante se todos aqueles planos traçados antigamente possuíam algum sentido ou se tudo era apenas uma forma dele se sentir melhor consigo mesmo.
Tudo isso tem preocupado muito ele, mesmo! Eu imagino que esse seja o motivo pelo qual ele tenha acordado hoje de manhã com um pulo na cama e com o coração acelerado. Pegou o celular para ver se não estava atrasado para o trabalho. Não estava, muito pelo contrário, tinha conseguido acordar no horário correto pela primeira vez no ano, mesmo assim resolveu ficar lá deitado olhando pro teto branco quase sem piscar com uma cara meio assustada meio raivosa.
Fiquei sabendo depois que ele teve um pesadelo daqueles tão, mas tão, reais que parecem de verdade sabe? Claro que não tinha uma história lógica com começo, meio e fim, ao invés disso, ele só se lembra de uma cena clara como o dia. O pesadelo misturou personagens e cenários de duas épocas completamente diferentes convivendo no mesmo período, e essa confusão de memórias foi muito mais assustadora que o fato em sí. Ele se sentiu um foragido sendo capturado pela polícia depois de anos escapando com sucesso de tal confronto, a sensação era a de que ele estava perdendo completamente o controle, se limitando a esbravejar com as mãos e cuspir e grunhir com a boca, mas não necessariamente palavras ou frases que fizessem sentido. E o pior, era que ele tinha a razão na briga mas simplesmente não conseguiu articular nada depois de tanto tempo escapando dela.
Passou o dia todo tentando achar uma explicação para isso relembrando todos os motivos pelos quais uma coisa dessas poderia acontecer e acabou revivendo, sem querer, tudo que ele lembrava novamente. É claro que não encontrou resposta alguma, pelo contrário, ficou com mais dúvidas do que antes, porém serviu para ver um pouco daquela muralha cair. Acho até que é porque está ficando mais velho e talvez esteja lidando com a possibilidade de não alcançar mais esse objetivo, que parecia ser tão alcançável antes, mas que a cada dia que passa vai se tornando um sonho mais e mais distante de parar de fugir e confrontar a situação que já devia ter sido enterrada há tempos.
E é irônico, sabe, pensar que tudo isso aconteceu justamente hoje, no meu aniversário, porque parece que tenho um sexto sentido para esse assunto, já foi assim antes, lembra? e ainda parece ser. Por conta disso, de toda aquela pilha de objetivos frustados, sou um dos poucos que ainda parece fazer sentido manter ano após ano nem que seja para aparecer só para me dar um presente como esse e depois nunca mais voltar. Ainda fico feliz por isso, embora gostaria que o conteúdo do presente fosse um pouco diferente dessa vez. Quem sabe ano que vem não é?