às vezes, só às vezes, a gente precisa aprender a reconhecer e assumir quem a gente é e abrir os olhos pra isso, sabe? eu tive pensando nisso nos últimos dias e depois de tanto matutar, pensar sobre como já me comportei nessa vida, as experiências que eu vivi, as coisas que já passei até aqui... sabe, por mais doloroso que seja, a gente tem que aprender a identificar o que a gente se tornou com o passar dos danos e também o que a gente nunca deixou de ser, apesar deles. e sim, a minha complicação, minha complexidade, o que me torna alguém difícil de se lidar é certamente o meu flerte exagerado pela solidão. estou sempre flertando com ela, mais do que com qualquer outra pessoa. acho esse um campo extremamente perigoso, essa disputa entre o que é solidão e o que é solitude. conforme a gente vai se desenvolvendo é natural que você aprenda a se virar numa coisa e outra.. digamos que existe esse truque escondido na vida de nós solitários natos — o momento mágico em que se descobre poder transformar a maior parte das solidões em solitude. é libertador, viciante. é uma zona muito específica e sua, onde todos os seus devaneios são autorizados, de certa forma. no silêncio ou na bagunça que você causa em você mesma. é gostoso e alivia a sensação de gostar de si mesma na sua própria companhia mesmo quando o mundo por trás da janela te cobra de todas as convenções que te fazem acreditar que precisa fazer parte do seu existir. ali é um lugar seguro, estar consigo mesma. é tão seguro que você perde a curiosidade do que existe lá fora ou mantém essa curiosidade em um segundo plano que é confortável de se idealizar quando sobra um tempo livre ali no seu cantinho. é por isso que é tão complicado o convívio com quem não partilha desse tipo de vida. a gente sempre acha e se convence de que a solitude pode ser remédio pra tudo. não que eu esteja aqui pregando uma verdade absoluta e nem afirmando que o meu jeito é o mais correto do mundo. até porque claramente não é. viver se conhecendo dentro de si, contornando sempre o que pode ser solidão e o que é solitude me fez aprender coisas que não me arrependo nunca, e sinto imenso orgulho mas a experiência, eu realmente não recomendaria a ninguém. o processo que existe nesse aprendizado é longo, árduo e muitas vezes também parece interminável porque a complexidade humana, sempre que pode nos faz questionar até os nossos melhores métodos de vida. e nos momentos em que falta aquela força cotidiana de fazer do limão uma caipirinha e se sentir em paz no seu eu, é bom lembrar que o "sentir-se só" é das sensações mais sufocantes e paralisantes que existe. você não vê, nem escuta absolutamente nada, a não ser o seu próprio silêncio — e num paradoxo engraçado, o mesmo silêncio que normalmente costuma te confortar tanto é o mesmo que nessas horas, tira completamente o seu sono, seu ânimo. às vezes eu fico pensando nessas crises e mais ainda no que eu aprendi a aprender com elas. curiosamente, são nessas reflexões que eu normalmente me convenço de que sim, sinto orgulho de mim, e de que não, a minha vida não esteve estagnada como me faço acreditar tantas vezes. eu estava me conhecendo todo esse tempo a duras penas. tão duras, tão doídas que eu quase não consigo pensar que o que pra mim é até suportável pode afogar qualquer pessoa que não tenha lido a vida como eu aprendi a ler. novamente, vou dizer: não acho que esse seja um motivo pra engrandecer nem pra ignorar todos os erros que cometo com esse meu jeito, mas acho que isso me lembra e me coloca a par do que eu sou capaz de aguentar e também de que, o mundo de fora pode realmente não falar de mim e que isso complica um pouco as coisas porque às vezes, só às vezes, o caminho que aprendi a percorrer parece ser o caminho mais longo de felicidade mas às vezes.. às vezes, quase sempre, estar fora do trilho me salva de tanta coisa, que eu poderia trazer comigo qualquer um que precisasse ser salvo. e nessas horas é que eu me esqueço de que nessa vida, ninguém se salva pelo mesmo bote.


















