O Quadrado Semiótico da luta política brasileira
Se Chantal Mouffé está certa de que o populismo é um agonismo político, isso significa então que estamos numa época em que o jogo se tornou a principal forma da comunicação política.
Ora o populismo como comunicação se traduz como a reprodução da fórmula distintiva povo/elite. Tal distinção é política pois toma o poder como seu principal meio de reprodução e o divide em duas partes simétricas: o poder do povo e o poder das elites. O exercício da política é precisamente tornar assimétrica a simetria da fórmula política.
Uma distinção é uma forma de observar certo meio, de modo que cada distinção refrata ou "deforma" o meio observado de uma perspectiva diferente. Toda distinção funciona como um filtro ou uma lente de observação que "refrata" o meio.
Mas toda distinção pode ser substituída por outra distinção "isomorfa" ou "equivalente". Trata-se de uma transposição da distinção que incide sobre um mesmo meio, no caso o poder.
Na situação do sistema político brasileiro, o bolsonarismo utiliza a distinção patriota/comunista. Quem não é patriota é comunista, e a distinção recobre todo o espectro político. Já o lulismo utiliza a distinção bem mais tradicional do povo pobre/elites ricas.
Essas duas distinções, do lulismo e do bolsonarismo, são incompatíveis como se jogassem jogos (agons) que não se comunicam? Nisso consistiria a famosa "cismogênese" do social, em que não há comunicação entre os participantes dos jogos. Mas na verdade não é o que ocorre, pois ambas disputam o mesmo recurso do poder.
Duas distinções não isomorfas podem ser colocadas numa matriz quadrada. A forma mais engenhosa de dispor dessa matriz é seguindo o diagrama semiótico do "quadrado de Greimas", proposto pelo semiólogo lituano para descrever as narrativas populares.
O jogo político do Agon assim se complementa com o jogo da Mimesis, isto é, da representação. Esses dois jogos em geral caminham juntos, pois todo Agon pode ser visto como um espetáculo e toda encenação mimética apresenta em seu drama um conflito entre antagonistas.
Assim, colocado no diagrama do quadrado semiótico de Greimas, com seus eixos de contradição ( "x" interno ao quadrado) e seus lados de associação (+) e contrariedade (-), temos uma ilustração bastante clara da luta política brasileira e seus visões distintas do recurso ao poder.
No diagrama as distinções bolsonarista e lulista são colocadas nos eixos cruzados, indicando uma contradição interna (entre patriota e comunista e entre povo pobre e elite rica). Esses 4 vértices indicam os principais "actantes" da narrativa política brasileira dividida entre bolsonaristas e lulistas (a famosa polarização).
Mas um jogo de Agon não é só construído pelos antagonismos inconciliáveis de suas contradições mas também pelos laços associativos ou contrários que se dão entre os "actantes" da narrativa. No diagrama são dois tipos de laços: os de associação (ou cumplicidade) e os de contrariedade (ou rivalidade). No caso brasileiro, há cumplicidade entre patriotas e as elites ricas, ou entre comunistas e o povo pobre. E há animosidade entre patriotas e povo pobre e entre elites ricas e comunistas.
Assim as principais lutas (contradições), tensões (contrariedades) e parcerias (associações) da arena política brasileira estão ilustradas no diagrama. Numa época em que a principal forma de comunicação são os jogos, os diagramas se tornam uma ferramenta poderosa para se esclarecer os principais lances dos jogos de poder.













