a única coisa que me interessa é ser eu. viver por mim. ser sozinha como eu sempre fui, serei e quero ser. já tentei morar em outra pessoa, é horrível. é como dividir um quarto com 8 pessoas desconhecidas que não falam o mesmo idioma. é como um pássaro dentro de uma gaiola sem chave. é como uma lagarta que nunca completou a metamorfose. é opostos que não se atraem. eu sempre desejei morar em outra pessoa, sempre tudo me fez acreditar que essa era a única possibilidade de ser feliz, de estar em paz. sempre me pareceu uma ideia bonita, e acho que em algum lugar dentro de mim, ainda parece. eu tentei muito morar em outra pessoa, e todas as zilhões de vezes que eu me senti sufocada, continuei, sem ar. achei ser errada por não estar feliz de morar em outra pessoa. todo mundo consegue, menos eu. sempre fui a estranha que fazia as coisas de forma diferente, não queria mais um motivo para me diferenciar. fingi que gostava. andei. corri. vi. olhei. toquei. senti. chorei. sofri. conheci pessoas que eu não teria conhecido se não tivesse feito todas essas coisas, pessoas que pareciam bem em ser exatamente quem são, sozinhas ou acompanhadas. pareciam se pertencer. ouvi. falei. fui ouvida. fui ignorada. ignorei. percebi que não consigo morar em ninguém. peguei as minhas coisas e fiquei parada na porta olhando, parecia que não existia mais nada lá fora. não sai mas também não entrei, e a dona da casa já estava irritada com a porta aberta por tanto tempo. porta aberta é convite para entrar, se não fecha, qualquer coisa vem. ninguém quer qualquer coisa. perguntou se eu entraria de uma vez, disse que não. me chutou para fora e fechou a porta. me arrependi e pedi para voltar. bati, puxei a maçaneta, mas já tinha trancado por dentro. insisti. depois de um tempo ela apareceu na janela, mas não abriu o vidro. eu ouvi a voz dela baixinha me pedindo para ir embora. aceitei que já tinha passado da hora de ir, e disse que em algum momento melhor, voltaria ali. naquele momento eu descobri que tinha uma estrada na frente da casa, morei naquele lugar por tantos anos e nunca tinha visto. era uma estrada meio estranha, de terra, difícil de andar, e não dava para ver direito o que tinha muito na frente. dei uns passos, lentos e que machucavam. de vez em quando eu me desesperava e corria, mas logo parava e andava mais devagar. fui percebendo que gosto de caminhar. na estrada tinha tantas coisas nos arredores, nas quais eu parei e fiquei um pouquinho aproveitando tudo que ela tinha para me oferecer. levei de cada uma dessas paradas alguma coisa comigo, ganhei até uma mochila para ficar mais fácil de carregar tudo que eu tinha guardado. eu ainda estou nessa estrada. percebi que sou assim, meio nômade. não nasci para ter um lar que não seja dentro de mim. minha casa é imaginária, minha casa é o mundo, minha casa sou eu.