Você sente as paredes da casa se fechando contra você. O ar lhe parece escasso, você luta contra os seus demônios, eles estão quase vencendo. A porta bate nas suas costas, você corre pra rua e corre, corre e corre. As vozes que habitam na sua mente não se calam nunca e você cai no chão e grita em desespero e implora por apenas um segundo e silêncio.
Você não se incomoda mais com o gosto amargo do seu whisky barato e quente, a fumaça do seu ultimo cigarro é quase imperceptível. A única coisa que você sente é esse vazio que te consome, é essa dor que não aparece em nenhum laudo médico, é esse desespero que lhe rouba a vida. Não adianta mais correr. Não adianta mais tentar negar. A dor é tão insuportável que nem todas as garrafas de whisky do depósito da esquina irão afogar, nem todos os cigarros do bar da esquina irão sufocar. As vozes que habitam em você gritam para você desistir. A sua vida já foi sentenciada.
Você esta de volta em casa. As janelas abertas sopram uma brisa tão fria quanto teu olhar. A mancha no teto branco sobre a sua cama é a única testemunha de todo esse sofrimento. Desespero. Meu Deus, eu não aguento mais. Me tirem daqui. A sua respiração ofegante, o gosto das suas lagrimas, seu grito angustiante. Taquicardia. Por favor, acabem logo com isso. A sua vontade de terminar com tudo isso é imensurável. Desculpa, eu não aguento mais.
O vermelho vívido se junta ao branco pálido do chão, junto ao pé da sua cama. Uma dor não supera a outra. Você já consegue respirar. Aos poucos o seu coração desacelera. O silêncio te incomoda, mas não lhe parece mais assustador. Você pode jurar que hoje será a ultima vez, que amanha as coisas vão estar melhores. Eu vou estar aqui amanhã?
Você esta na cozinha agora, a xícara de chá quente em suas mãos não faz nada para te aquecer por dento. Você não quer beber, mas se deixa levar. Se deixa esmorecer. Seja bem-vinda, insônia.
O sol já começa a nascer. Você já consegue ouvir os pássaros cantando do lado de fora, mas única coisa que você sente é o chão frio do banheiro onde você caiu e não teve forças para levantar. Seu despertador toca em algum lugar no seu quarto. As vozes que residem na sua cabeça já estão acordadas, não estão gritando, mas você consegue ouvir os sussurros. Você sabe que este ciclo vicioso jamais será quebrado. Eu só queria ser normal.