Amores, Obsessões e Vícios.
“entendendo que o tempo
sempre leva
as nossas coisas preferidas no mundo
e nos esquece aqui
olhando pra vida
sem elas”
― Aline Bei
Eu costumava olhar as águas de março na sua janela à noite, reparava os pingos escorrer pelos fios, fazendo com que elas refletissem brilhando, pequenas lágrimas de Deus nos fios, era tão bonito, o jeito que a luz batia amarelada, pequenas lágrimas douradas.
E em como todo clichê, houveram noites frias regadas à chuva, aconchego de lençóis, beijos e juras de amor, frases não ditas, confissões silenciosas, olhares ternos e cheios de lar.
Vez ou outra, apesar de não querer te amar mais, sou assaltada com esses pequenos momentos dissociativos que me fazem lembrar das pequenas coisas, das coisas que tu me dizia, de respirar o ar que saia do teu nariz, seria possível entender a centelha da vida? naqueles momentos eu entendia que o amar era não morrer, tuas palavras que eu tanto levava a ferro e fogo.
E tenho que ter cuidado onde toco, vai que passo o dedo na queimadura.
Você sempre foi muito bom em nomear meus sentimentos, muito melhor que eu, eu me sentia vista para além do óbvio, aquela magia que acontece quando uma fagulha, uma faísca que se desprendeu de um e vai até o outro
e a partir daí, partes minhas são criadas por você.
A partir dali não existe mais viver sem carregar uma pequena parte póstuma sua, porque é presenciar um milagre, por um segundo o mundo deixa de ser menos solitário e tudo fez sentido.
Às vezes você errava a forma como me via, me magoava cortava fundo e não ligava.
Acho que tínhamos essa coisa meio igual de ver a arte, de rir das insignificâncias, de ver centelhas, magias, fascínios nos pequenos detalhes.
Eu gostava dali, mas, como o clima, você também era tempestuosamente imprevisível, dias me amava, dias era indiferente.
Me rasgava o peito e costurava.
Quando eu mais precisava, você sumia, ou, outra vez que mais precisei você me deu amparo, era inconstante o que tu chamava de amor. E mesmo assim eu te amava, amava com vísceras, orgãos, corações, vunerabilidades, obsessões e vícios, amava incendiário todos os defeitos e qualidades.
Enquanto fosse eu e você, não haveria como não amar.
Eu me deixei ser conduzida de uma forma como nunca antes, “dois anos de uma vida eterna” eu pensava, “o que é esperar ter certeza? (mas as certezas na vida são poucas, a não ser o fim que nos assola, estamos à mercê de decisões) para aquele a qual amo de forma tão visceral, eu posso provar o meu amor na paciência e persistência,
me afirma que me quer junto até a posterioridade.
Queria ser melhor, queria conseguir pensar em noções menos clichês. As vezes eu me deixava enganar, e dizia pra mim mesmo, era como ele tivesse todas as respostas, eu estava ali vulnerável, quase nada armado restava a esse ponto
era quase como uma devoção espiritual que só o amor traz, a tal ponto que, não havia mais nenhum lugar para ir sem ser você.
“E tudo é um terror porque nada, nem ninguém, é como você.” você falou isso pra mim uma vez, adentrou em mim, eu era, dependente de um fantasma, que me diz coisas e se vai.
Me pergunto quantas mais vezes vou precisar ter esses momentos em que minha própria consciência me assalta a paz, e te traz de volta.
Quantas vezes eu não coube dentro do meu próprio peito, transbordando, lembrando, idealizando. O tempo perdido, não volta, o que está feito, está feito, expectativas que nunca chegam.
Dando toda essa juventude de graça. Cederia vanguarda para por um fim a essa “paz” armada?
Quando a catarse bateu à porta, não há o que esperar, não há o que chorar, a vida é agora, tempo perdido duvidando, buscando, das vezes que você afirmava que eu tinha um lar com você, complicando, amando, eram palavras vazias?
Para todos aqueles que procuram uma Casa dentro de casa
em especial aos que procuram
desesperadamente.
Aline Bei
Mas nada disso poderia ter terminado de outra maneira, se não, não seríamos eu e você.
estamos fadados a tragédia shakespeariana de um amor que não tem outro fim, se não, a morte?
Nada é natural tudo é construído. Tudo são partes de nossas escolhas e inclinações.
Já não estamos mais no passado e eu te amava pelas futuras crianças e futuras rugas, pelas tormentas e acalentos.
Eu não posso falar com você, nem é meu desejo, já que as coisas do coração são sagradas e devemos dizê-las para aqueles que irão ouvi-las e acolhe-las com ternura e carinho.
Mas falei com qualquer Deus que estivesse me escutando pra transformar essa vida menos tragédia e mais alívio.
“ser adulto as vezes não deixa a beleza das coisas entrar tão facilmente, a gente começa a desconfiar.”
Aline Bei
Alívio do buraco que em alguns dia tem sua forma.
Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
Clarice Lispector
É só o momento onde a fagulha voa, de um para outro, onde, o milagre do amor nasce, o golpe da paixão arrebata.
Quero o arrebatamento mútuo.