Ela olhava através da cortina a rua cheia de pernas e braços apressados, alguns taxistas esperando chamadas que não vinham e poucos carentes ainda no sono de chão frio. Estava pelada e se sentia exposta mesmo sendo ela quem observava, de alguma maneira, estava entre aquelas pessoas na rua. O sol ainda não corrompido da manhã queimava no frio dos braços finos, contornando a pelugem sem cor. Sentia-se estéril como o branco que refletia do próprio corpo. Na cama atrás de si encontrava a constante presença do telefone, que se transbordou. Ergueu o aparelho.
Ele ainda restava em sua cama alguns pedaços de si, esses restos iam logrando o dia que vinha. A cada cinco minutos postergava o despertador, que postergava o tempo, que não postergava o sono. Todos esses momentos de semi consciência possibilitavam a escolha do acordar, ou nem tanto, mas o fato é que ele estava atrasado desde o primeiro alarme que fora programado desse jeito mesmo. De qualquer forma, em dado minuto resolveu-se levantar, o por quê da escolha desse certo horário não se sabe. Era o corpo que escolhia as horas nem tão longe do horário que se devia ter acordado para amenizar a culpa, escolhendo um número aleatório que se prolongava a cada semana, as desculpas eram boladas com um raciocínio sofisticado para camuflar a demorada preguiça. O telefone tocou.
Oi?, a voz questionava em tom gentil escondendo certo temor, Oi, a voz fingia contentamento enquanto se perguntava o que teria feito para ser temida, Como tá?, Nem sei, Como não sabe?, Nem sei, e ela nem sabia, e ela não encontrava nele algum interesse verdadeiro para tentar explicar, e ela já perguntara, e ele dizia que tinha sim, que gostava muito dela e queria saber, mas nunca perguntara sem ela antes dizer... Então tá, respondia ele sem entender, ela parecia entrar num monólogo, mas assim se lembrou que essa confusão já era de costume, e a deixou como era, Só queria saber como tava, ela lembrava de como nunca imaginou que fosse ser assim, que naqueles primeiros dias era ela que evitava o gurizão desajeitado, com barba-pentelho e roupas sujas, um pedinte pequeno demais para lhe apunhalar qualquer ferimento, e que por esse motivo mesmo deixou-se cativar, e que por esse motivo mesmo esqueceu que poderia se machucar, Tô bem... Alguns problemas de dinheiro só, ele agradecia a leveza do assunto e deixava que aquele timbre, aquele exato timbre e não outro, trouxesse alguma vontade no peito que não saberia explicar, Ah, eu também, mas como não preciso de muito.. ela lembrava que aquela voz que hoje não se esforça mais para simular algum interesse já pensou nela todos as manhãs, já falou bom-dia sem falta, já enxeu o saco, já se foi, não é mais, mudou de frequência, uma voz que mudou de olhar, essa voz sempre foi assim, meio seduzida por um novo rosto, meio cansada dos antigos, meio rebelde, procurando aventuras, meio inquieta, mas aquela inquietude era, para ela, infantil, mesquinha, não iria dar em nenhuma aventura nada, eram apenas atrações superficiais da era moderna, a qual ela não sentia se encaixar, Você tá ficando com outra pessoa? Preciso saber, e realmente achava que precisava saber, Você sabe que fico com pessoas, não quero falar sobre isso, espero que fique bem, procure fazer o que gosta, e ele voltava a ficar irritado, confuso com medo que do outro lado despencasse um choro culposo, Eu tô ficando melhor, só é difícil, você não precisa me tratar assim, eu me coloquei nessa posição meio humilhante por não ter o medo que as pessoas tem de parecer patética, carência não é crime e você não precisa me olhar de cima por eu mostrar ela, fica bem, desculpa pelo momento, você sabe como é, já esteve assim comigo também, só não falou, só não expressou, ela lembrou do simplismo dele, aquela parte que nunca realmente entendeu ela, que percorria caminhos tão curvos, e que ela também nunca entendeu dele, escolhendo a ponte sobre o rio sem tocar na água morna dos choros e da dor tão curiosa da vida