Mark é o melhor amigo que vira seu amor em qualquer contexto que eu tente imaginar... Então, tentei escrever algo que tivesse uma vibe Ghibli, a protagonista é inspirada na Shizuku + uma vibe romântica e inocente, e também inspirada na música 200 dele, espero que goste!
"You are [...]"
Quando Mark escreveu a primeira linha em seu caderno de rabiscos, naquele final tarde, sentiu-se esmagado pelo peso do próprio processo criativo. Fazia dois meses, dois longos e tenebrosos meses desde que ele começou a trabalhar naqueles versos que não pareciam querer ver e luz do dia. Por insistência de um de seus amigos compositores, que aconselhou-o para que ele fosse pegar "novos ares", sentou-se numa mesa afastada em uma cafeteria perto do prédio da SM. Ent.
Aquele momento caiu como um bloco de concreto, esmagando-o e fazendo-o provar da própria pequeneza quando o assunto era sua arte; será mesmo que ele estava pronto para ser o artista que todos aguardavam que ele fosse? Droga! Seus pais, irmão e colegas de grupo sempre diziam que qualquer coisa que Mark fizesse era boa o bastante. Mas não imaginavam o quanto aquilo o colocava uma pressão absurda para ser sempre o melhor que pudesse - e mesmo assim não se sentir o suficiente às vezes. Irritado, Mark pegou suas anotações e rumou para o balcão, na intenção de pagar por seu café superfaturado - e ruim para caramba, diga-se de passagem.
No instante de indignação e distração, ele esbarrou em você, como se já não fosse o suficiente para aquele dia ruim.
[First you crashed into my life and you just broke...]
— Oh, me desculpa! Que merda! — Resmungou, ao ver que você havia tomado um banho de café. Rapidamente ele virou-se para pegar guardanapos e te ajudar a limpar a bagunça.
— Tá tudo bem, Mark, não tava quente... — Assegurou.
— Pode me trazer um guardanapo de pano, por favor? — Pediu ao atendente, então seus olhos voltaram-se para você, pela primeira vez, e demoraram-se.
Ele enrubesceu. Você trajava uma camiseta grande demais para seu tronco, de uma banda indie chamada 200, a qual ele desconhecia. Trazia uma câmera enganchada no pescoço e cadernos, como ele. Admirou-se da sua habilidade de carregar tudo e mais um café com uma única mão.
[My roof and my window, girl, you had me shook]
— Vo-Você me conhece? Quer... Quero dizer... — Ele riu ao fazer um muxoxo, a habilidade já rasa de concentrar-se em situações de stress foi para o espaço definitivamente.
— Sim e não. Trabalho na SM como diretora. Já te vi pelos corredores. — Você disse. Apesar de séria, tentou parecer amigável e despreocupada com o fato de que Mark arruinou sua camiseta favorita. Apontou para ele o crachá, que estava escondido por trás da câmera fotográfica, em seu pescoço.
— Cla-Claro. — Ele então distraiu-se com o atendente que foi solícito ao buscar algo com que pudesse ajudar a limpar o balcão e, bem... Você. — Se você quiser, te dou uma camiseta nova.
— Não precisa, não! Até porque acho difícil encontrar uma igual a essa.
A esse ponto do encontro desajeitado, Mark encontrava-se impossibilitado de fazer contato visual. Ele terminou de te ajudar a limpar, pagou pelo café dele e o seu também, e deixou uma gorjeta para o atendente, então, rumou de volta para o prédio da SM rezando para não te encontrar lá tão cedo. Certamente, você deveria odiá-lo agora.
[2 meses depois...]
Respirou fundo. Fundo, mais uma vez, antes de adentrar o set de filmagem. Com a prancheta embaixo do braço e um megafone em mãos, tomou seu lugar de direito: a cadeira da direção, torcendo que Mark não te reconhecesse. Acontece que, assim que ele pôs os olhos em você, fixou-os e arregalou-os, tendo certeza de que era a garota da cafeteria.
Você conseguiu concentrar-se só uns cinquenta por cento naquele dia, e tremia toda a vez que ele olhava na sua direção, com um semblante de quem parecia pronto para te dizer algo. Durante os intervalos, evitou-o. Ele não era bobo. Avoado talvez, mas não estúpido a ponto de não perceber. Estava nítido para ele, que você definitivamente o odiava por ter arruinado a camiseta de sua banda favorita.
[I'm living again in a drama in my head]
Para sua sorte, era o dia das cenas externas, o que te possibilitava a chance de se esconder dentro de algum trailer de equipamento ou atrás dos outros membros da equipe. Mas é lógico que isso não durou muito, ao passo em que alguém chamou Mark para te apresentar:
— Essa aqui é sua diretora, Mark! Tá gostando do trabalho dela?
Tentando parecer gentil, porém sucumbindo ao nervosismo, ofereceu à Mark um sorriso trêmulo:
— Na verdade a gente já se trombou por aí. — Disse e só depois percebeu a escolha errada de palavras.
Mark ergueu as sobrancelhas. Talvez conquistar seu perdão fosse uma tarefa bem mais difícil do que imaginava.
— É. Exatamente. — Riu, tentando parecer despreocupado, mas evitando contato visual. — O que você acha da gente tentar gravar essa última cena mais pra lá? — Sugeriu ele.
— Tá. — Você assentiu, lembrando-se do que teria de gritar no megafone mais tarde.
— Ei... Que tal... Que tal, depois discutir umas ideias naquele café? — Perguntou ele.
— Pode ser. — Disse, curta e sem esboçar contentamento.
Ele gelou.
Mais tarde, como o combinado, você, uma parte da sua equipe mais Mark, rumaram para a cafeteria discreta, escondida entre os becos da rua da SM. Ent. Ficaram lá por mais de duas horas, até o sol se pôr no horizonte, discutindo um toró de ideias sobre o videoclipe. Mark parecia dedicado em ouvir cada perspectiva e principalmente quando você falava, seus olhos arregalavam-se e ele concordava com cada ponto. Você parecia tão apaixonada pelo que fazia, explicando todos os pormenores que envolviam o seu trabalho. Surpreendeu-se por Mark ficar mesmo depois de todos já terem ido embora.
— Uau! A empolgação com que você fala faz meu projeto parecer super importante e tal... — Confessou ele, bebendo o café horrível em seguida, para lidar com a vulnerabilidade do que acabara de soltar.
Você imitou o gesto dele, na mesma intenção.
— Esse café é péssimo, by the way — Completou ele, e ambos riram. — Me passa seu número? Uh, quer dizer... Juro que não vou ser estranho ou algo assim, eu só... Queria ter mais amigos da área. — Disse, buscando o celular na bolsa. — E... Talvez eu queira trabalhar com você mais vezes...
Você sorriu, um sorriso genuíno, que te trouxe a sensação de dever cumprido. Seu trabalho atingiu alguém, como sempre sonhou, e foi mágico. Trocaram números.
[Meses depois...]
— Cara, tem que ouvir isso! — Você disse empolgada, virando em mãos um disco vinil da sua banda preferida.
Mark, que jazia sentado no chão do seu apartamento, a cabeça encostada no assento do sofá e entre as nuvens, como de praxe, sobressaltou-se. As noites entre vocês dois, e às vezes mais uns dois ou três amigos, já virara costume. Pediam comida, jogavam jogos de tabuleiro e conversa fora. Geralmente, Mark era o último a sair.
Foi assim que ele descobriu que você desistiu da área médica para trabalhar com arte, correndo o risco de decepcionar toda sua família. A admiração por você triplicou com o detalhe. Foi tão sincera ao se abrir para ele e confessar o medo que sentia dos esforços dos seus pais terem sido em vão. Ao mesmo passo em que você acabara descobrindo quais eram as comidas que irritavam o estômago de Mark e mais um milhão de outras bobagens que conversavam encarando o teto. Ele, muitas vezes se sentia como você, mas não tinha tanto espaço para confidenciar aquele tipo de assunto. Noites como aquela se tornaram um refúgio.
Você colocou o disco no toca-discos e voltou a sentar-se do lado do amigo. Mark achou adorável a forma como fechou os olhos para prestar mais atenção na música. Foi natural imaginá-la fazendo isso ao ouvir alguma música dele. Ele fez o mesmo. Recebeu uma descarga elétrica no corpo inteiro quando sua mão procurou pela dele. O coração quase saltou boca afora. Não afastou-se, no entanto. O som era demasiado indie para o gosto dele, mas estar num momento tão intimista com você fazia valer a pena.
— É o quê?! — Ele gargalhou, abrindo os olhos e deparando-se com seu sorriso. — Isso nem faz sentido, "eu sou 94 e você 106?"
— É que o nome da banda é 200, cabeção.
— Hm...
— Curte o som aí.
Mark voltou a fechar os olhos e fez como disse. Não apenas curtiu o som, mas a forma como sua respiração quente batia no rosto dele de vez em quando, e como suas mãos estavam entrelaçadas. Foi então que percebeu-se o quanto era um virjola... Só aquele ato isolado era capaz de fazer o peito dele solavancar. Definitivamente voltaria para casa e deitaria de bruços, balançando os pés ao lembrar da cena. Algo que deveria ser tão normal, um carinho entre amigos, o estremeceu de forma avassaladora, feito você tivesse empurrado os dois pés no peito dele.
— Eu sou 94 e você 106... — Repetiu ele, baixinho e rascante.
[Who told me love would come down like a million rocks]
Graças ao nome da sua banda preferida, Mark conseguiu terminar a letra daquela música que virou uma verdadeira perturbação para ele nos últimos seis meses. Finalmente! Finalmente "200" conseguiu ver a luz do dia. A questão que o perturbava agora era outra: por que ele a havia escrito pensando em você? O seu sorriso naquele noite o trouxe tantas estrelas, parecia tê-las engolido e agora explodiam em sua barriga como fogos de artifício.
— Quer carona? — Mark recebeu uma ligação sua no meio do dia, como você costumava fazer.
— Oi? Bom dia?! — Debochou ele. — Pode ser. Ei, cê já almoçou?
— Não. Tô pensando em pular o almoço porque preciso de foco nesse projeto novo que tá acabando comigo. Sério, meus fios de cabelos tão todinhos no ralo do chuveiro, Mark!
Nem bem desligou, meio incomodado com sua ideia, Mark passou na cafeteria no andar térreo da empresa e comprou um sanduíche.
Você estava delirando, só podia! E se desmaiasse? Adeus, saúde e projeto também...
Quando te viu no estacionamento, no local onde haviam combinado de se encontrar, ele pegou da sua mão e colocou o sanduíche dentro.
— Cê nunca mais faz isso... Vai comer, sim. Como vai pensar nesse projeto de barriga vazia? Sua mãe nunca te disse que saco vazio não para em pé, cabecinha?
— Precisa me ofender esse tanto? — Riu. Na verdade, estava surpresa com o cuidado dele. Ultimamente, a mera aproximação de Mark era suficiente para suas pernas bambearem. Nunca havia se sentido tão próxima do amigo como agora, especialmente após aquela noite.
— Precisa, não quero te ver fazendo isso de novo, viu? Nem que eu tenha que te arrastar ao fast-food mais próximo... Linda, eu sei que trabalho é difícil e você ama o que faz, eu já passei por isso, mas assim, tem que ter limite ou vai acabar adoecendo!
— Do que... Do que você me chamou?
— Não importa. Come, vai?! — Ele colocou o sanduíche na frente dos seus lábios.
Minutos mais tarde, vocês rumaram para o seu apartamento. Enquanto largava a bolsa e as chaves em um canto, Mark tomou a liberdade de colocar uma música na TV. Uma banda chamada Tribalistas começou a tocar, e você foi envolta pela melodia suave. De repente foi como se fizesse uma viagem, mesmo parada no centro do seu apartamento, para um lugar extraterrestre, sereno, em que não havia qualquer demanda ou data de entrega te assombrando.
— Vem. — Mark te despertou do devaneio.
— Vem o quê, Mark?
— Vem! Antes que eu perca a vontade.
Ele te estendeu a mão e te rodou. Vocês dançaram juntos. Brincaram de dançar com os passos mais desengonçados nunca antes vistos. Surpreendente para alguém como Mark, que era, na verdade, um dançarino profissional. Como ele sabia que era justamente o que você precisava? Caíram na gargalhada e depois disso ele te ajudou a preparar a mesa da cozinha para o trabalho. Ao passo em que você se afundava nas suas anotações e referências, ele também tirou o notebook e os fones da bolsa e começou a trabalhar do seu lado.
— Ei, quer ouvir essa música?
Suspirou, cansada. Nem havia percebido que o breu do céu cobria as janelas! Talvez precisasse da pausa que Mark sugeria, já que sua cabeça parecia rodar, perdida entre palavras e imagens. Quando viu o nome da música, "200", o sorriso foi natural. Puxou a cadeira para mais perto de Mark, que ficou atento a cada reação sua.
A letra soava um pouco pessoal demais. Te deixou desconcertada. Mesmo assim, o elogiou pelo trabalho brilhante.
— Topa ir num café agora, descansar um pouco? — Sugeriu ao largar os fones de ouvido.
— Topo com uma condição.
— Qual?
— Se for um encontro.
Você se endireitou na cadeira. Ouviu direito? Mark, Mark Lee, estava te chamando para um encontro?
— Como é, Mark?
— Não se faça de boba... O lerdo aqui sou eu... — Riu ele. — Meio óbvio que escrevi essa música pra você, linda. E eu só saio daqui com você, se aceitar ser minha.















