que saudade amor, estou sabendo que ai na espanha tudo é lindo
eu poderia começar dizendo que pensei bastante antes de escrever, mas seria só mais uma das minhas leves mentiras — daquelas que você não perceberia na hora, e que eu acabaria confessando minutos depois, porque eu sempre falo uma verdade logo após uma mentira. tudo o que escrevi aqui foi seguindo uma só linha de raciocínio, como uma via de mão única.
eu jurei que não fosse doer com você.
e olha, não tá doendo mesmo — não parece uma pancreatite aguda, mas incomoda. tipo um joelho ralado que arde quando encosta no lençol. não é grave, é só irritante o suficiente pra lembrar que alguma coisa aconteceu.
foram cinco encontros, todos bonitos como fins de domingo sem pressa.
tinha alguma coisa ali. você foi gentil, foi fofo, teve carinho, teve cuidado, teve doce na tpm — o que, sinceramente, foi mais eficaz que qualquer paracetamol. mas entre madrid e o meu sonho carioca, eu preferi tomar água de coco nas pedras do arpoador. não por te desprezar, e sim porque tem coisas em mim que nem o afeto mais promissor consegue negociar — e principalmente porque não suporto viagens sem um alto grau de planejamento.
eu não podia dormir contigo.
não porque não quisesse — mas porque já estava a mise en place o domingo em que você decidiria me esquecer. eu senti o gosto agridoce. e dezesseis temporadas de masterchef me fizeram muito boa em reconhecer variados tipos de sabores. eu também não queria te dar o prazer de levar contigo essa memória. meu supremo tribunal julgou e setenciou ser injusto pra mim.
obrigada pela honestidade da última mensagem,
mas preciso te dizer que você temperou mal com uma elegância egocêntrica a frase "espero que você esteja bem solteira quando eu voltar”. você quis liberdade em outro continente, mas também quis guardar uma versão minha no armário de volta. confortável e conveniente — mas só pra você. me conhecendo, talvez fizesse igual... ainda assim, desagradável.
por fim, o joelho ralado — a única parte que realmente me doeu:
você me descartou como romance à distância, o que é totalmente compreensível, concordo em número, gênero e grau. porém, a caixinha da amizade não me cabe? nem uma conversa, um meme, um “oi, olha esse céu bonito da dinamarca”? eu devia ter te contado, mas como uma mulher de exatas é descofortável quando sou provocada a lidar com problemas menos algébricos.
se voltar e caso queira me encontrar, venha com os malas vazias de intenções românticas — te recebo com amizade.
também foi honesto o meu desejo escrito "aproveita a viagem".