Nada aconteceu depois daquele dia mas bem que poderia.
Maxwell Santos
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Nada aconteceu depois daquele dia mas bem que poderia.
Maxwell Santos
A Elegância de Esvaziar a Boca de Histórias
Precisei abandonar a todos Fechei meus lábios a virtudes Promessas cheias de expectativas Expectorando arrogância
Eu não sei acolher máscaras Tudo escorre dos meus olhos: Os destituídos, os desamores, Os poderes, a exaustão, as luzes da cidade
Apodreci em minha casca Servi a intuição de um abandono Ao qual não lhe interessa E ainda não fora desvendado
Entretanto, ele pulsa aqui Nos escombros de bustos de mármore Soterrado na primeira infância do acto Concluo que não quis pertencer a nada
A sombra entre tumultos e solstícios A nudez que perdura e entranha Perpetuando um desejo que que equilibra-se Entre o tato e a fortuna da saliva
Tudo que me atesta passa por mim Como se fossem delimitações Marcas por línguas que circulam minha pele Com todo o desprezo que minha voz sumida causa
Elegantemente, escondo meu rosto Para que não me reconheças nos flashes Que se esbarram entre imagens e estímulos O meu intervalo é uma beleza em dois atos
Se preferires, uma faca de dois gumes Contando como se fosse minha Uma história que não me pertence mais E um sorriso azedo, disfarçado o desconforto
O Acolhido
Eu agradeci teu zelo Com uma oração num piscar de olhos Presa em meus cílios Uma lágrima borrou o horizonte E pela primeira vez em décadas, Me vi liberto e ileso De todo mal que domei nos meus dedos Varrendo meus poros como um lar Nada mais pesa em minha goela A minha condição é uma vela caindo Ao redor de uma tradição de barro escoltada Mas tudo bem, eu faço brilho no mistério da noite Aprendi a ser só, aprendi a acolher Aprendi a rir dos meus exageros Que arrotam vingança contra meu desleixo Ainda que fosse a fruta tradicional da colheita Eu conheci o peso das palavras Observando a calma e o desespero Eu elegi a delicadeza dos meus erros Para encontrar a beleza além do que se espera Todas as paixões e coisas ordinárias Todo o sentimento puro expressado Ainda aos vivos, a festa descarada e sem gênero Que dançam sem saber como e apesar disso, insistem Eu quero ser toda essa gente Que ri, chora e comemora Pertencendo ao momento Realizando um ritual silencioso pela vida Eu ainda quero o conforto dos braços, é verdade Mas eu sei que ainda não sou digno deles E ninguém ainda é digno do amor que eu tenho em mim Eu só peço maturidade para reconhecer o encanto dos encontros...
vox populi, Parte II
Imergir sob o tempo Circuncidar o instante Atar a lua em selvas de plástico Corromper abismos em edifícios Socorro! ele reflete o futuro Minha idade nua, exposta A noite outra vez encobre a miséria E somos todos iguais outra vez (?) Cultivo imagens perecíveis Em ode ao estado corrompido das coisas Vele no céu da minha vaidade Toda e qualquer despida por pretérito Negar estrelas e suas topografias Insultando vantagens ausentes Não há nada irreconhecível Somos os filhos perversos dos sinônimos Decifrar escombros de jardins Por toda a Pompeia que queima nos olhos Para fora, feito vitrine no inverno Saltando os olhos cores mortas e pasteurizadas Encobrir pétalas de barro Concebidas a instruir a intuição O espírito recontará toda a hostilidade Outra vez e assim por diante até recuperar-se Tato está rígido, não há como fluir Para fora dessa loja de penhores Onde se cortejam cidades Onde se vende sexo e o temem Desfila o choro em uma ladeira de desafinação Lamentando a causa, o efeito e paisagismo Doutores são com estátuas para quem decupamos Um conflito abstrato entre fé e razão
Ancestral II
Em silêncios fluviais era um alívio As margens afunilam-se criando encruzilhadas Estigmas em véus de cobre enferrujados Tez decidida ao apêndice da justa posição Abra os cílios aos dentes de alho Simpatia reluz em peito amolador Tato navalha, suspiro corte Gemidos intervalos caóticos Busco tal retrato do rei Exposto e glorificado A escolha de seus idiomas simbólicos Ainda que seja tarde, a morte não o pertence A nudez é travessia ingênua Auto são curas esperando enfermidades Tal endereço é a fome que te sondas Pode me prever outra colheita farta? A meia luz, o mundo novo Corre para declamar-se Para seus abandonos prévios Vês, minha jornada é tão potente como a tua O sonho ruiu outra vez Vestido de impulso Desencravou-se de absurdos E deu três vivas ao desconhecido Entretanto, seu algoz era o perfume Não a matéria, ainda era colônia Não colírio aos olhos escaldados de violências Corpo-anestesia que faz peso contra portões do purgatório Atente-se à força invisível Confabula, normaliza, solta Mentiras até submergir Satélites artificias para dentro do [estômago da descrença pública]
A Balada de um Romance Nocivo
Te vou sonhar antes de amar Escapou por entre os dentes Cores de histórias recentes Nos olhos que convidam ao impossível O último gole de um copo trincado Derramando o tempo pelas bordas São as provocações que meu corpo instruí Aos visitante essencialmente arrogantes Mordidas incompletas duelam pela velhice O excesso ainda seria insuficiente Eu preciso dos teu defeito sem cerimônia Meu fígado persegue a embriaguez do teu perfume O mesmo beijo avermelhado Com gosto de vinho parcelado As pupilas depõem contra o silêncio Provocando o encontro de dúvidas O resquício da tua seringa Se esquece no canto Os cânticos amolecem no bolor Banhando na luz de dia inteiros Eu atiro fogo em qualquer palavra E você entranhada em teu asco Por notas emocionais de repúdio Que mais protegem do que condenam Eu comi dos desertos do fanatismo Arranquei restos de peles Como se ensaiasse para discursos Como se brincasse de mal me quer As notas dos obituário me garantem Está morta... Sempre esteve morta Então, quem seria aquela mulher que dividi fugas? Como se não bastasse o mistério da minha pendência
Indigesto Ato
Anoiteço com objetos que transbordam Licores e outras poluções Sob este terreno recomposto Falta coragem para o intuito da intimação Reverbera tal experiência Impossibilitado pelo entretenimento Envenenado pelo entretenimento Tudo o que convém converge em apresentar-se Tentei galgar lugares A expectativa de um território A terra de abandonos e resgates Qualquer vigor de amante é abonado Da pele imerge o dia penoso Há gente que está em completa presença Digerindo espaços, submergindo em farmácias Rezando uma reza oca e cíclica aos pés da escada rolante Os braços segurando-o como ciranda Vamos todos estar a sós Decompor nossos desejos Em pastas que se cimentam ao corpo Opor-se ao imaginário É poético como inventar dragões Mas faltam ainda cheiros e decorações Ruminando na possibilidade da morte Ronda metais pesados Derrete a personagem lebre Escrever é o ato mais egoísta da humanidade Salvar a si mesmo, enquanto convence o outro Inauguração dos dedos tampando sujeitos A força invade todo o espaço Põe em risco a sublime leveza Que transita culpa no rio grafite corrido
Eu Casei Com Meu Novo Eu
Como um espírito Atravessando o momento Você me alcança em meu exílio Teu cheiro, teu toque, teu aconchego Me atingem o corpo, enfim Me tingem os sentidos Me encontro com os pedaços meus E faço as pazes com cada um deles Esta casa que meus olhos forram Este vazio que se alastra em meu hálito Os barulhos e essas vontades que crescem Encontrando o escape para uma nova vitória Ainda há tanto o que ser feito Mesmo que as palavras estejam gastas Mesmo que seja o efeito rebote da euforia Eu preciso insistir para ter certeza dos meus acertos Hoje, eu deixei os erros em casa Eu enterrei os pecados dos outros para fora de mim Junto aos corpos de quem nunca me amara Nessa noite, eu presto obediência ao meu querer Enquanto deslizo como serpente Por corpos e pernas, fadigado de encontros Escuto tão somente os ecos do meu peito E aceito o limite posto por minhas entranhas Um acontecido atravessando as geografias do tempo Prometendo somente o encanto de quem atrevesse A garimpar qualquer coisa na queda ao abismo Existo portanto, na possibilidade do que se julga impossível Como pode flertar com a morte Por tanto tempo e encontrar-se vivo? O Hermes que governa meu corpo e espírito Se faz premonitório ao queixar-se por mais...