E aí, ali sentada no banco do carro pensei no quanto eu estava distante da pessoa que eu idealizava ser um dia. Eu não tinha o carro que eu queria, não tinha o corpo que eu queria, não tinha o cabelo que eu queria, mas eu tinha você. E ainda que eu não tivesse todas as outras coisas, eu ainda tinha a única coisa que fazia algum sentido, você. E justamente por isso eu deixei todo o resto passar. E passei. Passei a sair cada vez menos, passei a conhecer cada vez menos pessoas, passei a trabalhar menos, passei a cuidar menos de mim mesma, só para ser sua. Passei a ouvir as suas músicas, passei a ver a vida com os seus olhos, passei a não existir sem você. E ainda que ter você representasse tudo, isso ainda não me preenchia. Você não me preenchia. Tudo exigia esforço demais. Sorrisos demais. Paciência demais. Insistência demais. Então, ali sentada, olhando carinhosamente a todas as luzes da cidade, depois de um dia longo e difícil de atravessar, eu me dei conta de que estava sozinha. E já estava a muito tempo. Eu estava sozinha quando fiquei doente, quando perdi o ônibus, quando precisei estender o horário no trabalho, quando meu carro enguiçou naquela rua escura. Pensei em todas as vezes que precisei da unica coisa que eu tinha, e mesmo assim ainda estava sozinha. Sinto muito por todas as coisas que deixamos de ser até aqui. Sinto muito por todas as coisas que deixei de ser por falta do que te dizer. As vezes eu penso que não sei mais fazer isso, que não sei mais dizer como eu me sinto. Agora é a sua vez de ficar sozinho, boa sorte pra você.