Na casa dos meus avós
Sempre me julguei ser uma pessoa forte, alguém que não saía do eixo com facilidade, sempre colocando seus sentimentos e emoções no lugar. Levando em conta como eu havia crescido, era curioso como havia me tornado assim.
Esse pensamento voltou a minha mente quando abri as portas dos fundos da casa da família, naquela cidade com mais cara de vilarejo do que a cidade de porte médio que de fato era.
A porta dava para uma sala de jantar apertada pela imensa quantidade de móveis, bibelôs e porta-retratos. As cortinas estavam entreabertas e os sonolentos raios da manhã entravam sorrateiramente, iluminando de forma preguiçosa o lugar. Tudo estava como antes, mas algo pesava ali. A quietude.
Caminhei sem pressa pelo lugar, deixando minha mente e meu corpo se acostumarem novamente com cada espacinho. Eu podia lembrar de quando minhas pernas ainda eram muito curtas e meu corpinho era tão leve que vovô podia me erguer só com um braço, pendurando-me ao lado de seu corpo e me carregando para lá e para cá.
Passei pelo corredor verde-escuro, os retratos pendurados na parede, filhos, netos, sobrinhos, bisnetos, pessoas do passado. Fotos de viagens, fotos de casamentos, fotos de formaturas e natais em família.
Entrei na cozinha e me sentei na velha cadeira que havia sido minha companheira por anos. O lugar onde eu podia observar e aprender. Se eu fechasse os olhos, conseguia ainda ver vovó indo de um lado para o outro, descascando suas batatas, picando seus legumes. Mesmo há anos ninguém cozinhando ali, ainda havia o cheiro de açafrão da paella que eu tanto adorava.
“Fiz seu prato favorito” ela falava sempre que eu ia visitá-la. Ela não sabia que qualquer coisa que ela cozinhava era meu prato favorito.
Estiquei o braço e liguei o radinho de pilha sobre a mesa. Ainda funcionava. Deixei sintonizado em uma rádio que tocava uma das músicas mais pedidas do momento, o volume tão baixo que parecia um sussurro.
Sempre que vovô via que eu havia ligado o rádio, ele me puxava pelas mãos e me levava em uma dança completamente destoante de qualquer coisa que estivesse tocando, me fazendo rir como só ele conseguia.
Entrei no corredor que dava para a sala de estar e para a escadinha que subia para os quartos. Abri as janelas da sala para que ventilasse, o ar parado deixava tudo mais pesado, voltando a realidade de que o tempo havia parado naquela casa. Tempo demais, que eu fingia que não havia passado para não me confrontar com as coisas que sentia.
Subi para o primeiro andar e entrei no quarto dos meus avós. A velha televisão de tubo ainda estava lá, uma relíquia de antes mesmo de eu nascer. O guarda-roupa de madeira com as portas sem conseguir fechar pela quantidade de coisas que guardava, na maioria das vezes, coisas dos netos e enfeites para as comemorações.
Deitei-me sobre a colcha de retalhos áspera de poeira e encarei o teto. A luminária em formato de flor. A janela de folhas avermelhadas. A saudade que segurava meu coração com força em sua mão e o apertava causando aquele incomodo que me seguia há muito tempo.
Tempo demais, falei em voz alta, esperando escutar a voz do vovô me perguntando se eu estava falando sozinha de novo ou com algum fantasma.
Se eu pudesse, eu iria querer falar com seu fantasma. Mas estava sozinha ali naquela casa que falava muito mais do que eu estava preparada para ouvir. Com as lembranças que pensei que não me machucariam tanto depois de tantos anos.
O que eu queria era sair dali, fechar todas as janelas e portas e deixar a casa congelada no tempo como havia ficado naqueles anos. Talvez eu pudesse voltar algum dia e sentir a mesma dor que sentia naquele momento, a dor de que as coisas não voltariam a ser como antes. Que pessoas morrem e que quem vive precisa aprender a lidar com aquilo, de uma forma ou de outra.
Mas aquilo não seria honrar a memória dos meus avós, da minha família. Eles sempre disseram que queriam que eu crescesse ali, que teria espaço para meus filhos, para quantos animais eu quisesse ter.
Respirei fundo. Era por isso que eu estava naquela casa, encarando o que poderia ser meu futuro, mesmo que tão preso ao passado.
Sentei-me sobre a cama, as pernas cruzadas como se eu ainda fosse a mesma criancinha de sempre. O mesmo peso da lembrança e do luto sobre meus ombros. A mesma dor misturado ao sabor agridoce das memórias.
Talvez eles tivessem razão.
Conto escrito para o desafio do SDP de abril de 2025.


















