juro que queria que fosse fácil manter essa pose desinteressada. juro. nada, e devo repetir – nada, me faria mais realizada do que ser uma típica vilã, calculista, fria e com o ego sempre lá em cima. ou que pelo menos tivesse uma certa maestria para fingir. só que eu infelizmente, não sou uma dessas pessoas. tudo que faço é sempre sentido, lamentado. tudo que fui me tornando foi só um acúmulo de superações que pra falar a verdade, eu nem vi acontecerem. É bem como as pessoas dizem, você só vai quebrando a cara e deixando doer, até que um dia, você olha pra trás e não se reconhece. nem lembra mais em que parte da sua vida você deixou de ser você. não existem mais motivos certos pra sua mudança, você só sabe que foi um grande coletivo e que acumulados, eles te fizeram se fechar e fechar gradativamente. quando a nostalgia bate, você quer muito voltar pro que era, mas sinceramente não é possível. mesmo tentando muito, quando a carcaça se instala, é praticamente impossível se livrar dela. ela mora em você sempre pra te fazer se lembrar do quanto ter acreditado demais te fez se tornar o que você é hoje. claro que isso nem é de todo ruim, mas as vezes a gente sente falta do que já foi um dia. e pensa que se nada tivesse te obrigado a ser diferente, tudo pareceria mais fácil. grande parte dos seus problemas estariam resolvidos. e é aí que a gente se perde vez ou outra. em algum lugar dentro do que agora somos, aquela versão ainda existe, tanto que grita esporadicamente pra que a gente volte pra ela. o fato é que, a essa altura, um outro eu já mora há muito tempo. já se apossou de tudo que a gente construiu e aí se você para pra pensar e pesar e comparar... tem muito mais de você com essa nova versão do que com aquela que você sente tanta falta. é nessa hora que você entende que a vida te fez assim. a vida te cobrou esse preço pra conquistar o que você tem hoje, pra ter se livrado do que por muito tempo, colocava aquele seu outro eu pra baixo. não dá pra voltar. aí você continua remando.