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Eu sei que a vida não é um roteiro de filme, sei tão bem quanto entendo que não existem roteiros com finais felizes quando sequer temos o dia seguinte planejado. Mesmo assim, sinto dentro de mim algo estranho, um sentimento que me eleva, me fazendo lembrar dos momentos em que parei o tempo, sentindo sua respiração, quando, em uma cena completamente cotidiana, nós dançamos no meio da cozinha enquanto cozinhávamos.
Lembro da sensação de deitar no seu peito e ouvir o ritmo do seu coração, de olhar para seus olhos, para a sua expressão mudando lentamente enquanto lia ou via algo à frente.
Eu me transporto para um episódio que poderia ser o ápice de um casal de filmes, me pego lembrando das pequenas coisas, dos detalhes que poderiam transformar tudo em uma comédia romântica, como sua teimosia de tentar me dar espaço quando você estava doente, como você se esqueceu das opções lógicas e só se jogou no sofá.
Eu me lembro de tudo isso e mais, e sinto que a vida pode ser, sim, um filme, ou um roteiro perfeito, mas também me lembro que finais felizes não são para todos.
E agora me sinto uma tola por querer tudo isso de volta, mas não querendo aceitar a parte em que a ansiedade toma forma, quando o medo se torna real demais e o tempo não para, mas consome a gente.
eu queria que você fosse uma história boa de contar, mas você é mais uma daqueles que a gente chora ao terminar de ler. bianca dias; nevalisca.
encontros são impactos entre dois corpos, duas almas, duas vidas, duas histórias. e nesses impactos ambos podem sair seriamente machucados, porque o choque entre duas vivências acaba deixando diversos fragmentos fincados no âmago de cada corpo. sei que existem estilhaços que são removidos com o tempo e também sei que sempre há chance de ficar alguma parte para trás, a qual pode permanecer em evidência ou oculta aos olhos, no entanto, está lá. carrego mesmo sem querer inúmeros vestígios de cada pessoa que já “esbarrou” em minha vida e do mesmo modo existem milhares de partes minhas espalhadas por aí, até mesmo em quem há muitos anos me deixou e nem se recorda mais do meu nome. sou fragmentado e fragilizado pelo tempo e pelos processos que o tempo tem.
— deixaram
você se despede de vidas passadas para viver uma nova e aprender sobre evolução e humanidade. você se despede do colo da tua mãe para aprender a ler e escrever na escola e fazer amizades que morrem durante a vida ou crescem ao longo dela. você se despede de um coração virgem para a primeira queda amorosa que queima como ácido ou afunda a alma como gotas de água pingando na cabeça. você se despede da sobriedade para experimentar álcool, cigarros e outros vícios que só servem para calar a ansiedade. você se despede de paixões desgostosas para aprender a amar da forma correta e controlar a insegurança que vive entre as veias. você se despede do que antes era frio e agora é quente porque tudo começa com uma despedida.
Viciado em Areia de Ampulheta
Todo santo dia, durmo no exato momento [quando eu me pesadelo…] E quando o faço, tenho imaginado as batalhas que você trava nas madrugadas, jambrolhando meus cárceres notívagos – evitando que eu lute [aqui sozinho…] e ainda que eu não consiga mais sonhar, satisfeito claro pela ausência da tormenta: [me sinto tão triste…] já que de certo eu imploraria, chorando pelo jogar de migalhinhas de areia xoxas em meus olhos pelo Deus tirano… E Ele me olharia patético e diria “Não estava feliz por só dormir e acordar?” “Não era isso que você sempre quis?” E hoje eu entendo que eu certamente negaria gritando [porque, não poderia sonhar mais…] Todo santo dia, escuto gente perguntando se vale a pena mesmo dormir todo dia com a mesma Mulher. E eu sei que, nas conchinhas, vale cada ronco, cada pernada e contra-golpe, pois no dia do amanhã, ficarei feliz em acordar com a Mulher que eu mesmo escolhi: [com você…]
Quando eu me pesadelo aqui sozinho, me sinto tão triste… Porque, não poderia sonhar mais com você…
— Do Poeta Cicatriz
delusional
Não queria transformar isso em uma questão existencial, quando é muito mais um sentimento expatriado. Mas eu não sei outra forma de colocar isso senão como essa dificuldade extemporânea de encontrar o meu lugar. É um sentimento que apesar de repentino, me acompanha boa parte do tempo. Tento me conectar com as coisas que gosto, desenvolver minhas paixões, procurando um lugar que me pareça propício ou ideal para fixar meus pés, esparramar-me no prado, tocar o chão e fincar minhas raízes. Mas parece que meu alicerce é feito de barro molhado, que eu afundo e com pouco tempo, a lama começa a subir por minhas pernas. Eu não sei se a vida é feita dessas vielas estranhas, de veredas cruzadas e caminhos tortos. Por que o caminho que sigo nunca é reto, mas também não tem subidas ou degraus; não é uma escalada. É mais como um pântano úmido, que me mantém deslizando, até o ponto em que se forma essa crosta de lodo sob minha pele. Eu prometi mudar a narrativa da minha vida há um tempo atrás, e fiz todos os esforços nesse sentido, mas a ciclicidade que me permeia sempre me traz de volta para lugares comuns, lugares onde eu não sou quase nada. Ou pelo menos não sou nada mais do que aquilo que já fui. Me ver assim no meio de uma frase de um texto que já foi escrito, de uma página que já foi rasgada, de uma rota que já foi traçada, é como reviver um tempo ruim que se foi, como desaguar num rio que já secou. Sinto meu espírito se perder num limbo físico, palpável, onde a alma não é capaz de evoluir, não tem fluidez. Ela apenas absorve a nuvem fumegante de poluição do ar quente que eu respiro. O mesmo ar que me mantém vivo, mas que está infestado e intoxicado pela ação direta do homem sobre aquilo que não é domínio do espírito. A natureza e o homem já foram uma coisa só, e não dois opostos que não podem coexistir. Mas se eu conheço bem a minha natureza, como encontro lugar para o meu corpo nessa cama de gato criada pelo tempo? O tempo, que nós costumamos enxergar como linear, mas que nos mostra que os pontos de intersecção ligam tudo que existe agora, neste momento, para um outro lugar no tempo, uma realidade distante onde várias coisas coexistem, assim como esse sentimento de inabilidade sobre o meu próprio destino. Afinal, o que eu quero hoje, se o que eu quis ontem não é o mesmo que irei querer amanhã? Como desvendar o mistério do manto calmo da morte acerca das escolhas que ainda não fiz? Se eu não consigo interligar a minha mente e o meu eu àquilo que eu sou e o que eu quero, qual o sentido de estar aqui? No meu peito não cabe a sina que é existir, pertencer, estar. Esses lugares que percorro não são meus, não são de ninguém. Mas essa sensação, esse sintoma que é fazer parte de algo, fazer parte do todo... Isso existe mesmo ou não passa de algo delusional?
DOS LIVRAMENTOS DA VIDA
"Agora entendo porque estou sozinho. As pessoas não estão se livrando de mim, me jogando de escanteio, ou coisa do tipo.. mas estão me livrando delas mesmas, e de suas maldades."
Patrick Gomes da Silva