A metáfora da elaboração analítica em "Boneca Russa"
***ANÁLISE CONTÉM SPOILER***
A série Boneca Russa da Netflix nos mostra a história de Nádia Vulvokov, uma programadora de vídeo games freelancer, "meio judia" e fumante inveterada, que vive algo que costuma ser chamado de pistantrofobia, ou seja, uma forma de medo irracional de confiar no outro e, consequentemente, formar vínculos. Logo no primeiro episódio, Nádia morre no dia do seu aniversário de 36 anos e, misteriosamente, retorna ao mesmo dia para morrer, a princípio, indefinidamente. A partir daí, a cada nova morte, Nádia retorna ao banheiro da casa de sua amiga onde está acontecendo sua festa de aniversário e então tem uma nova oportunidade de refazer suas escolhas.
Em um dos seus "retornos" à vida, Nádia conhece Alan Zaveri, um jovem rapaz, aparentemente, neurótico obsessivo atravessando uma crise em seu relacionamento amoroso. A trama aproxima os personagens - Nádia e Alan - quando os dois são vítimas em um acidente envolvendo a queda de um elevador, porém, durante a queda, ao perceber uma certa tranquilidade em Alan, Nádia diz algo como "hey, nós vamos morrer", ao que o jovem responde algo como "não importa, eu estou sempre morrendo"; e Nádia finaliza o diálogo com um conformado "eu também".
A partir deste fatídico encontro, Nádia e Alan se unem para tentar resolver o enigma por trás da "imortalidade" deles. No primeiro momento, Alan, como um bom neurótico obsessivo, sugere que haja uma questão moral por trás do fenômeno, como se ambos estivessem aprisionados em uma espécie de purgatório para que refaçam seus atos e se tornem pessoas melhores. Nádia, como uma boa programadora de vídeo games, sugere que o fenômeno se trata de uma espécie de "bug na programação das suas vidas", ou seja, um erro do "programador do destino" que está acarretando na formação de várias linhas do tempo a cada vez que os dois retornam à vida. E assim tentam solucionar a questão, testando, em alguma medida, as duas hipóteses, partindo do princípio que ambos retornam sempre no mesmo dia, no banheiro - Alan no banheiro de sua casa e Nádia no banheiro da casa de sua amiga durante sua festa de aniversário.
Na medida em que retornam da morte e reiniciam o dia, Nádia e Alan são confrontados com questões mal elaboradas das suas próprias vidas. Nádia rememora sua infância traumática na companhia de uma mãe omissa e abusiva. A relação de Nádia com a mãe é tão adoecedora que me questionei se o fenômeno vivido pela protagonista não seria da ordem da psicose ao invés de uma metáfora da sua própria elaboração analítica; isto é, se fosse algo da ordem da psicose, Nádia poderia estar atravessando um surto psicótico, aprisionada em alucinações e percepções delirantes acerca da própria vida e da própria morte. Mas, ao terminar a primeira temporada da série, conclui que a questão de Nádia é mais da ordem da neurose fóbica, na forma da pistantrofobia, ou mesmo da neurose histérica, do que qualquer outra coisa. A relação de Nádia com a mãe teria produzido um adulto com dificuldade de confiar e formar vínculos de afeto, afinal, "se a sua mãe falhou tão absurdamente com você, quem seria capaz de acertar?". Neste caso, a vivência de Nádia, revivendo a cada morte, seria uma metáfora para a repetição e elaboração dos seus traumas de infância formados a partir da sua relação com a mãe. "Repetição" e "elaboração", sim, conceitos muito bem explicados no texto clássico de Freud "Recordar, Repetir e Elaborar" de 1914. Basicamente, Nádia entra em um ciclo de repetição dos comportamentos oriundos do próprio trauma - via sintoma - então, na série, só estaria apta a perlaborar seu trauma a partir do vínculo com Alan, impedindo o suicídio do rapaz, quando de sua primeira morte.
No caso de Alan, o sintoma obsessivo compromete seu relacionamento amoroso com sua namorada, a quem ele pretendia pedir em casamento. Alan precisa dar conta da escolha de sua amada pelo amante, um professor com uma vida sexual muito agitada. E, por fim, consegue sair do lugar da culpa, reconhecendo o amante de sua esposa como um "último recurso" e liberando a si mesmo do lugar de amante fracassado. Portanto, Alan faz sua elaboração analítica por meio de sua relação com Nádia e toda sua desordem e imperfeição, salvando-a de um atropelamento que ocasionaria sua primeira morte.
A série aproveita da teoria da relatividade de Einstein para jogar com a ideia de múltiplas linhas do tempo, o que faz desta primeira temporada uma experiência muito divertida e interessante. No entanto, para entender o fenômeno vivido por Nádia e Alan, é preciso buscar fontes como Nietzsche e o seu "eterno retorno" e conceitos como "repetição" e "elaboração" em Freud, reconhecendo, então, no seriado, a vida e a morte como parte de um jogo metafórico da elaboração catártica.
Livrar-se de um sintoma, ou seja, libertar-se de um comportamento sabotador, seja liberando sua própria "criança" para seguir em frente ou abrindo mão de um relacionamento destrutivo, muitas vezes equivale a morrer e nascer de novo. Agora, quantas vezes cada um de nós tem que morrer para obter uma cura, depende mesmo é de nós. Fato é que, como bem diz o slogan da série, "morrer é fácil, o difícil é viver".