Em meados de agosto, enquanto jogava-se pedras em Geni e fazia-se saudações ao sol e quando o mundo estava triste por saber que o homem raramente ajuda o homem e quando o minuano ainda andava a fazer seus escândalos pelas ruas em que passava e frequentemente era preciso se matar um pouco para se sentir mais vivo, apareceu em meu quintal um belo e meigo rapaz de umas asas pequeninas, uns pés bem grandes, a cinturinha fina e um coração enorme. Convidei-o para entrar em minha casa, sem saber exatamente quem eu estava a hospedar e depois de cerca de um mês de análises e exames e testes e estudos e experiências e observações, pude enfim determinar com total precisão a verdadeira natureza de tão singular hóspede: era um anjo.
Um anjo que, sem saber, eu já procurava há muito tempo e que, também sem eu saber, me procurava também. Mas o destino, o velho destino, com sua teimosia esquisita e seu rigor matemático insistiu que não, que oras bolas, que vamos sem pressa, que o mês é agosto, que o ano é 2013 e runf runf runf e ele quis dizer outras coisas, mas eu não deixei, porque dá licença, senhor destino, que essa história é minha e portanto faça-me o favor de não vir se achar o dono da cocada preta, pois quer seja uma mariposa multicolorida a bater suas asinhas no extremo oriente, quer seja um velhinho caquético a chacoalhar seu cajado em cima das nuvens, não importa quem ou o que determina as coisas, o que importa é quem as vive e como. E o que agora conto é o que eu vivi.
Então, era uma vez 2013. Um ano de 3 semestres, em que amei, arquivei, apanhei, ensaiei, suei, acordei, cantei, dancei, pulei, caguei, mijei, falei, comprei, fumei, transei, estudei, cozinhei, atuei, festei, twittei, chorei, beijei, abracei, improvisei, lembrei, sonhei, noivei, li, bebi, mordi, dormi corri, sorri, curti, cuspi, comi, cai, senti, vi, ouvi, escrevi, etc etc etc e, acreditem, vi um anjo aparecer em meu quintal.
Um ano começa onde o outro acaba. 2013 começou com Teatro. Dada a existência tal como se depreendem dos recentes trabalhos públicos de Poinçon e Wattmann, enquanto tocavam sinos na torre da igreja, com rosmaninho e alecrim pelo chão, com a segunda temporada de Alívio Imediato, a criação e apresentação de Ensaio para um Fracasso e El Gran Teatro del Mundo e com os exercícios e apresentações realizados em aulas, o Teatro continuou a trazer-me os seus alívios.
Em Maio vieram os bixos. Ganhei dois afiliados, fui atacado por cachorros enquanto os ajudava a conseguir moedinhas pelas ruas e, numa noite mítica de gritos, sussurros, batuques e cânticos escandalosos, discursando com eras na cabeça e vinho por todas as partes, apresentei-os a Deus.
Durante meses, o minúsculo ecrã rachado de um Nokia 110 foi minha janela para o mundo. De dentro dele saíram pseudoamores, falsas esperanças, placebo para a carência, indivíduos superficiais como espinhos, que só serviam para me iludir, me machucar, fantasmas de outras épocas que ressurgiam tocando Rachmaninoff em noites chuvosas, seres fantasiosos que nasciam e morriam na mesma noite e que às vezes só duravam o tempo de uma partida de xadrez. As velhas canções do mister Pi de Pijama voltaram a embalar minhas noites solitárias, a abafar meus choros, acalantar minhas angústias. Uma série de fotos de gatos, leões e um outro animal qualquer, capturadas por uma Câmera Quebrada cumpriram a missão de vez ou outra dizer ao mundo que vejam, eu ainda estou vivo, eu ainda enxergo e enxergo assim.
Depois de fazer uma prova e mil exames e enfrentar uma médica malvada, com a ajuda de minha família pelotense, finalmente consegui a independência financeira que sempre almejara. Para isso, tive que trocar o Núcleo de Teatro Universitário pelo Departamento de Registros Acadêmicos da UFPel. O novo cenário: um arquivo. A trilha sonora: o melhor do Classic Rock com DJ Pérola e Marcinho Falcatrua. A ação: arquivar, desarquivar, arquivar, desarquivar, arquivar ingressantes pelo SiSU, desarquivar abandonos, arquivar portadores de diploma, desarquivar cancelamentos, arquivar reingressos, desarquivar desligados pela resolução 14/2010, arquivar, desarquivar, arquivar, desarquivar. Pausa para o café.
E entre uma coisa e outra, o Teatro sempre andava comigo. Durante alguns meses, voltei a integrar o projeto que em 2011 me apresentou a tão magnífica arte: o Núcleo 2. Já no âmbito da graduação recebemos as ilustres visitas de Brecht, Goethe, Ibsen, Schiller, Meyerhold, Artaud, Dario Fo, Viola Spolin e muitos outros, que ora vinham ao som das canções de Chico Buarque, ora vinham se requebrando com Bom Xibom Xibom Bombom. Os complicados e às vezes tediosos personagens de Nelson Rodrigues estiveram presentes duas vezes: com Amanda Coutinho fui Olegário, o ciumento pseudoparalítico, e com Gabriel Nogueira fui Herculano, o puritano despuritanado.
Voltei a ser assaltado, pensei estar anêmico, deixei de usar somente All Stars, me enturmei um pouco com os colegas de pensionato, tentei voltar a escrever em meu diário, abandonei o Centro Acadêmico do Teatro, passei dias inteiros com uma única refeição, desabafei com sóumapalavra, escrevi historinhas sobre documentos desaparecidos no DRA, estive dentro de um caixão, em cima de um telhado e numa cadeira de rodas. Cantei que Soy Loco Por Ti América, passeei de máscara pelo Calçadão, faltei demais em uma disciplina e acabei sendo reprovado. Tive a cara coberta de gesso, o cabelo coberto de pasta d’água, o corpo coberto por jornais. Ganhei e perdi um filho que nasceu pobre, porém livre, e que se comunicava com choros, mordidinhas e miaus.
Através do GEPPAC – Grupo de Estudos e Pesquisas Sobre Processos Criativos em Artes Cênicas – dei continuidade a algumas atividades iniciadas no Núcleo de Teatro. Alívio Imediato teve sua terceira temporada, com direito a show musical, e dos poemas de Pablo Neruda surgiu Quantas Coisas Quisera Hoje Dizer. Pouco depois, as novas rotinas impostas pelo trabalho e pelo amor, obrigaram-me a abandonar o grupo.
Vi um esquizofrênico gigante sonâmbulo escrevendo em escandalosos cartazes surreais que estava muito bem acordado e que iria mudar o mundo por meio de desfiles carnavalescos, gritarias e muita balburdia e que, não, claro que não são só 20 centavos. Perguntei-lhe então o que mais era, mas ele voltou a dormir sem me dar a resposta.
Dei vida a um apocalíptico pássaro de papel com uma foto de jornal presa ao bico, que com sua indubitável sapiência de origami, anunciava a vindoura decadência de um falso messias, que perdeu seus principais discípulos, após ser provado que ele nunca fora filho de deus. Nome da obra: O Pássaro da Des(re)construção.
Com mais um de meus textinhos debochados, que mais tarde se transforou também em cena, brinquei de ativista LGBTTTTTTTTTTTT. Na vida real, porém, quase sempre a mais difícil, tive que ver as fantasias otimistas e espalhafatosas de minha arte sendo substituídas pelas frias falas pré-históricas de eu não quero um filho gay, de, por deus, o que as pessoas vão falar, de cria vergonha nessa cara, de não quero mais te ver, de vá fazer suas baixarias longe da minha casa, etc etc.
Identifiquei-me com diversos aspectos das confusas biografias de Paulo Coelho e Vincent Van Gogh e deliciei-me com as histórias de cronópios, famas e esperanças, de Julio Cortázar. Visitei o Memorial do Amor, descobri O Poder dos Quietos e decifrei O Curioso Caso do Cachorro Morto. Com Olhos de Cão Azul, Os Funerais da Mamãe Grande e O Enterro do Diabo, continuei a aumentar minha coleção de Gabriel García Márquez e durante alguns meses voltei a conviver com a sua fantástica estirpe condenada a Cem Anos de Solidão, aos quais, com imenso prazer, dei sim uma segunda oportunidade, contanto que hablasen en castellano.
Pus-me a brincar de poeta e aventurei-me no mundo dos concursos literários. Através do 13º Concurso de Poesias da Universidade Federal de Dom João del-Rei, “Das Razões que a Razão Desconhece” foi o meu primeiro poema a ser publicado em uma coletânea.
Nos últimos meses do ano, abandonei o meu eu alcoólatra. Um anjo que apareceu em meu quintal me ensinou que não era mais preciso continuar me matando para me sentir vivo e então as bebedeiras, que me acompanharam de janeiro a agosto, ficaram para trás. Emporcalhar os lençóis de vômito cor vinho ficou para trás, pegar carona de um desconhecido e tentar sair do carro pela janela ficou para trás, chamar um frequentador aleatório do bar do Zé de Humberto Gessinger ficou para trás. Ficou para trás declamar do nada a fórmula de Bháskara, ficou para trás passar o dia inteiro com dores de cabeça, sem lembrar do que aconteceu na noite anterior, ficou para trás voltar para casa de pés descalços, fantasiado de grego e tremendo de frio.
O coração deixou de ter vários quartos, para ter um só. Derrubaram-se paredes, arrancaram-se portas, demoliram-se vigas e colunas. Entre os átrios, abriu-se uma janela, um buraco, uma chaga, um foramen, onde muitas vezes me debrucei a chorar pelas dores do anjo que apareceu em meu quintal. Aquele, de asas pequeninas e um coração enorme, porém frágil. Coração com buraquinhos, do qual dispus-me a cuidar para todo o sempre com todo o amor que um anjo merece. Vi-o pela primeira vez em 14 de setembro e a certeza de ter encontrado meu complemento, o yang de meu yin, o yin de meu yang, foi tamanha que menos de dois meses depois, em 2 de novembro, já o pedi em casamento e, para meu júbilo, um convicto sim adentrou em meus ouvidos.
O mundo se tornou diferente. Alteraram-se as leis sobre tempo e espaço. O espaço sem ele é vazio. O tempo sem ele não passa. Mesclaram-se dois universos. De um lado, perfumes, Lady Gaga, roupas bem passadas. Do outro, livros, Teatro, camiseta dos Ramones. Eu matemática, ele Geografia. Ele Jota Quest, eu Engenheiros do Hawaii. Eu Paris, ele Nova York. Ele nozes, eu damasco. Eu destro, ele canhoto. Ele Coca-Cola, eu água. Eu alface, ele feijão. Ele estressado, eu calminho. Eu ele, ele eu.
Juntos, aprendemos um método extraordinário de medir a pressão, enchemos uma parede de novas vidas em giz azul, que só nós sabemos de onde surgem, criamos e experimentamos os mais exóticos sabores de beijos. Com ele, aprendi a descascar cebolas, a fazer ARTPOP com as mãos e a comer com hashis. Aprendi também que não se deve assar pizzas pré-prontas sem antes retirar a rodela de isopor que vem embaixo delas e que não é necessário esperar o óleo borbulhar para ter certeza de que ele está quente o suficiente.
Se fossem os anos entidades racionais que fizessem as coisas por vontade própria, teria eu que terminar esse texto agradecendo a 2013 por todas as coisas boas que me trouxe: um novo trabalho, novas experiências com o Teatro, novos amigos, novos conhecimentos, o meu anjinho. Mas como desconfio de que um ano é apenas uma fatia de tempo sem vida própria, deveria eu talvez agradecer àquele teimoso do destino mesmo? Ou talvez a alguma divindade? Alguma força mágica? A mim mesmo? A ninguém? Talvez deva eu agradecer à vida, à existência das coisas, à capacidade que as coisas tem de mudarem, à capacidade que as pessoas têm de fazer as coisas mudarem, à capacidade que as pessoas têm de querer que as coisas mudem. Que tais desejos de mudança permaneçam para 2014 e que não sejam apenas desejos. Que as coisas mudem de fato, sempre para melhor. E que permaneçam as coisas boas, aquelas sem as quais é impossível viver. Que permaneçam as dádivas de Dionísio, o amor à vida, à humanidade, os bons amigos, os bons momentos. Que aquele rapaz de asas pequeninas e nome de anjo que apareceu em meu quintal, em minha casa, em minha vida, continue a me trazer suas bênçãos, a alegrar meus dias com toda a sua glória angelical, com seus cuidados de anjinho da guarda, com seus cânticos pop eletrônicos de louvor, e que, nas 2014 palavras sobre 2014, ele esteja tão presente como esteve nas palavras desse virtuoso 2013; palavras que, assim como o ano, acabam mais ou menos por aqui.