Há dias em que o corpo continua em pé, mas a alma se senta no chão.
Dias em que o silêncio pesa mais do que qualquer barulho, e o fim da tarde traz um cansaço que não é físico, é existencial.
Existe uma sensação estranha que aparece quando tudo desacelera:
não querer falar, não querer ver, não querer fugir.
Apenas deitar, olhar para o teto e sentir o vazio se espalhar no peito.
Um aperto que sobe pela garganta, uma vontade de chorar sem motivo, ou talvez com motivos demais.
Eu passo muito tempo sozinha.
Às vezes isso é liberdade.
Às vezes é peso.
Minha vida é feita de escolhas, e eu nunca sei ao certo se estou escolhendo certo.
Tento pensar mais em mim, colocar limites, não deixar que me pisem, mas no fim do dia a dúvida sempre volta:
será que fui injusta?
Será que machuquei alguém?
Será que o problema sou eu?
Todos dizem que estou fazendo o certo.
Todos dizem que estou sendo enganada, que preciso colocar um ponto final.
Mas dentro de mim, a narrativa é outra:
é como se eu fosse uma pessoa ruim tentando se justificar.
Eu não quero ser má.
Nunca quis.
Sempre tentei ser honesta, leal, correta.
Mas a minha própria mente me acusa, me julga, me fere, e ainda exige que eu seja melhor amanhã.
É cansativo viver em guerra comigo mesma.
Existe uma parte de mim que só quer descansar.
Chegar em casa e simplesmente existir.
Mas minha mente não permite.
Ela manda fazer mais, pensar mais, rever tudo.
E quando o dia termina, sobra apenas o peso das escolhas
e a dúvida sobre a minha própria bondade.
Às vezes penso que me isolar faria bem aos outros.
Como se a minha ausência fosse um alívio.
Como se eu afastasse as pessoas não por defesa,
mas por merecimento.
Eu queria amar.
Queria sentir de novo aquela chama boba, o ciúme leve,
a vontade de conquistar alguém.
Mas hoje existe um vazio onde antes havia sentimento.
Quando alguém se aproxima, eu recuo.
Não por falta de desejo, mas por medo de machucar, de enjoar, de não sentir o suficiente.
Eu escolhi ficar sozinha.
Mas escolher não significa não doer.
Nesta noite, tudo pareceu pesado demais.
Houve pensamentos escuros, palavras duras, vontade de desaparecer, não de morrer de verdade, mas de matar aquilo que dói por dentro.
E mesmo assim, eu fiquei.
Eu escrevi.
Eu respirei.
Eu atravessei a noite.
Talvez eu não tenha todas as respostas.
Talvez amanhã ainda doa.
Mas hoje eu sobrevivi.
E se eu sobrevivi a essa noite,
eu posso sobreviver à próxima.