- Acho que não veremos estrelas esta noite - disse ela ao pequeno gato que ronronava ao seu lado, brincando distraidamente com seu rabo enquanto ela se debruçava com os braços apoiados pela janela olhando para o céu. Mas não estava realmente pensando nas estrelas. De fato, estava apenas tentando desviar sua mente do que realmente a torturava. -
Todos, em algum momento da vida, encontram alguém que meche com seus sentidos. Ou ao menos idealizam, através de livros e filmes, aquela pessoa que vai trazer borboletas em seu estômago ao se encontrarem. Que vai trazer todos aqueles sentimentos perfeitos à tona.
Ela encontrou. Mas mais que isso. Ela nunca achou que realmente existisse algo se quer parecido com o que estava prestes a experimentar.
Certa vez li que fogo se combate com fogo. Mas aquilo? Pura insanidade. Como jogar gasolina em um incêndio e esperar que não exploda.
É esse o tipo de fogo que estamos lidando ao dizer que um fogo a consumia por dentro. Não uma faísca qualquer. Mas uma combustão instantânea, um choque absoluto e incontrolável que se inicia apenas com uma singela troca de olhares cúmplices de alguma palavra não mencionada, apenas imaginada. E não era preciso dizer nada, um toque bastava para que tudo se iniciasse.
Ela se pega roendo as unhas, enquanto tenta se distrair, então passa a acariciar o gato. -
É claro que como tudo que é bom dura muito pouco, essa paixão teve que ser colocada de lado. Perdurando apenas nas memórias íntimas e profundas que ela podia ter. E seguir em frente, tomando um outro rumo, diferente daquele final feliz que os livros contam.
Não que ela não fosse ter um outro final feliz, ela não acreditava em uma só possibilidade, e já estava rumo a algo diferente, mas quando sua felicidade estava posta à mesa...
- Ela da um pequeno pulo de susto quando o gato pula em seu colo e depois na janela, tirando-a de seu devaneio momentâneo. -
Lá está aquele fogo novamente. Dessa vez com alguma coisa diferente. Mais intenso talvez. Mais presente. Alguma coisa chama atenção, atiça sua curiosidade. Ela esperou aquilo nos seus desejos mais íntimos e agora estava acontecendo. Mas ela simplesmente não sabia o que fazer. O fogo ardia ao lado da mesa, prometendo algo que ela queria descobrir, fazendo-a arder em seu interior, queimar e até sentir sua ardência, sua urgência. E ali está sua mesa, repleta com sua felicidade quente, pronta para ela, a esperando.
Seu coração batia rápido, descompassado. Sua respiração era profunda e quase inexistente. Aquilo a estava dominando.
- O gato miava na janela, chamando a atenção da dona, que quando finalmente voltou dos pensamentos notou que prendia a respiração. Retomou o fôlego e olhou para o gato que miou outra vez olhando para cima. Ela acompanhou seu olhar e pôde avistar uma estrela. Então deu um afago na cabeça de seu gato, apoiando a cabeça em sua mão, decidindo que talvez pudesse deixar de pensar só um pouquinho na incontrolável situação em que se encontrava. Ela pensou que queria ser estrela ou gato. Então seria só céu ou afago. Tão descomplicado.