Este texto conta um pouco sobre mim
Hoje eu pensei em entrar no CVV, eu me dei conta de que as coisas estão ficando um pouco mais difíceis e que está sendo duro lidar com a depressão dia após dia dentro de onde eu mais queria fugir: a minha própria casa. Já não sei mais quantas semanas se passaram, qual o mês da quarentena. Eu odeio meu cheiro e tento lidar com meu cabelo, tento não depreciar minha aparência mas toda vez que vou ao banheiro pela madrugada eu penso em não olhar no espelho, e toda vez que olho eu não encontro quem eu gostaria de ver, parece que sempre me faltou algo, parece que a imagem que construí ao longo dos anos é falsa, eu não me reconheço nas fotos que postei no Instagram, eu nem sei quem é aquela menina tentando agradar os padrões impostos pela sociedade. E que maldita convenção idiota que me pressiona a ser “feminina” é essa? Eu jamais fui tão oprimida, eu arrisco a dizer que nunca passei pela ditadura brasileira da década de 60, mas eu vivo uma todos os dias, comigo mesma e com o mundo.
Eu demorei 20 anos para entender que sou lésbica, em meio a transtornos depressivos, ansiedade, remédios e distúrbios, o tempo todo eu só queria me encaixar pra me sentir bem, me sentir alocada na sociedade, eu não queria ser julgada. Ano passado eu comecei a ficar com um menino e gostei da liberdade que tinha, de poder andar de mãos dadas e trocar carinho em público sem ter medo de sofrer algum tipo de homofobia, às vezes eu ficava assustada e com medo de alguém aparecer mas me dava conta de que éramos um casal hétero e dificilmente algo iria acontecer conosco porque estávamos ali juntos, e eu também percebi que eu queria tudo aquilo, queria aqueles toques, os beijos, a mão entrelaçada na outra, mas não com ele, com uma mulher, com quem eu sentisse desejo de verdade e não apenas uma vontade impulsiva de amar sem ser oprimida.
Há alguns anos atrás eu descobri que o meu pai já quis me abortar, quem me disse foi a minha mãe e eu lembro de parecer plena por fora, ao receber aquela notícia, mas por dentro acho que muita coisa em mim se desfez, mais do que já era desfeita, não sei como explicar mas eu senti algo se soltando, se destruindo, e nunca mais foi o mesmo, da mesma forma. Acho que aquilo vai me atormentar para sempre. Eu falei pro meu amigo que não faz sentido eu querer desejar a vida dele se a única coisa que ele quis foi sempre me querer longe, pois mesmo sem que eu morresse, eu nunca estive de fato na vida dele, eu sempre fui o desgosto, a filha que ele não quis, até mesmo de feia eu já fui chamada, ele já quis me atropelar, já me bateu e me xingou. Já me humilhou, e humilhou a minha mãe, diversas vezes, incontáveis, eu diria. E toda vez que eu lembro disso, de todas essas coisas, da vez que eu vi minha mãe servindo de cabo de guerra em 2018, de um lado meu “pai” e do outro a minha tia, eu vi o seu seio à mostra e toda a rua vendo, e ninguém fez nada, ninguém denunciou, todos viram mas ninguém enxergou a violência e até tiveram pessoas que apoiaram a atitude daquele monstro. Toda vez que eu lembro disso, eu balanço a minha cabeça como se fosse pra espantar esses pensamentos, para levarem longe daqui, porque me dá vontade de matar meu pai, e eu não sou essa pessoa.
Ele me desperta coisas que eu jamais sentiria por mais ninguém, mesmo que essa pessoa me fizesse muito mal, ele é a única que eu sinto tanto rancor, ódio e nojo. Eu não consigo viver no mesmo ambiente que ele sem estar em constante alerta, medo e pânico. Eu não consigo tocar nas coisas dele sem sentir asco, sem achar que estou tocando em merda, o que de certa forma é. Eu não consigo olhar nos olhos dele, porque eu enxergo tudo de ruim que há na minha vida, eu sinto meu ódio por ele refletido, o nojo, o rancor, o asco, o medo, o pânico. Eu não sei se um dia serei capaz de perdoá-lo por estas coisas todas, eu nem mesmo sei se deveria, porque a gente tem que perdoar esse tipo de gente? Eles não merecem perdão, merecem sofrer sozinhos para aprenderem, pois tiveram chances e chances de se redimirem e na primeira oportunidade trataram todos que lhes deram a mão como um lixo, só porque por um momento minúsculo estiveram acima, mas você nunca cresce na vida sozinho, ninguém tem o direito de fazer o que quer da vida de alguém, destruí-la e depois viver pleno como se fosse digno de merecer perdão. Pode parecer egoísta, e talvez até seja, mas é impressionante como eu não dou a mínima, não quando se trata dele.
Eu lembro da minha mãe me contanto e vivendo tudo isso comigo, ela não me preparou minimamente para que eu soubesse que ele me quis morta e apenas jogou como se fosse uma informação qualquer. Ela até hoje se abisma quando falo que acharia melhor que eu ou ele estivesse morto, porque eu desejaria viver? Porque eu desejaria a vida de quem nem me esperou nascer pra não me querer? Porque eu sou obrigada a amá-lo, sorrir ao vê-lo, desejar feliz dias dos pais se ele nem ao menos foi homem pra ser honesto comigo, porque eu deveria o querer por perto? Eu não tenho essa frieza, eu sou quente até demais, meu sangue ferve ao lado dele, e eu quero ir embora.
Às vezes não entendo a minha mãe porque ela sempre soube como ele era, ela teve mil chances de ir embora, ela sofreu desde o início bem antes de me ter, ela presenciou ele dando o dinheiro para que pudesse me abortar, mesmo ela me querendo, e mesmo assim ela ficou com esse homem, ela está com esse homem até hoje. Relacionamento tóxico faz parte da minha vida inteira, desde antes de nascer até agora, e mesmo com anos de vivência eu ainda me revolto em saber que ela tem para onde ir, ela tem a quem recorrer, ela sabe o caminho de ir embora, mas acho que se esqueceu em algum momento. E eu sinto pena dela estar sendo traída, humilhada, rejeitada e violentada todos os dias, e tendo que aguentar tudo isso, e eu sinto mais raiva ainda diante dessas coisas. Ela é uma pessoa incrível mas definitivamente não teve o que merecia, porque ninguém merece isso. Homens me dão raiva, eles e todos os seus privilégios ridículos.
Eu fiz um momento de silêncio agora, ao terminar o último parágrafo, foi como um descanso, eu jamais havia dito tantas coisas misturadas em um só texto, na verdade, fazia muito tempo que já não escrevia mais nada, a depressão e a ansiedade tomaram conta de mim e desde que entrei para a universidade toda a minha vida tem sido voltada para o fato de terminar tudo aquilo, arrumar um emprego e partir daqui para nunca mais voltar. Eu parei com os remédios porque o médico nunca me dizia um horário, no meio dessa pandemia, que fosse viável para mim para poder ir buscar a receita. Mas honestamente falando aquelas drogas já não estavam mais fazendo o mesmo efeito do início em que eu tive um pico de melhoria e depois estabilizei, na verdade, eu estagnei no mesmo lugar, eu não me atrasei nem me adiantei ao tratamento, mas agora com sei lá quantos dias em casa, eu já sinto que com ou sem remédio, de qualquer jeito, eu estaria fadada ao fracasso dessa última tentativa para não morrer.
Eu já voltei a pensar em suicídios, já voltei a roer todas as minhas unhas, já voltei a ignorar todas as atividades de higiene básica, o EAD nunca foi para mim e agora eu me sinto mais inútil ainda diante do meu curso, desinformada, sedentária. Eu só faço comer e dormir, e acho que eu já passei por isso antes, quando eu estava no meu pico depressivo antes de iniciar a terapia, posso dizer que talvez tenha voltado a estaca zero, mas dessa vez mesmo que eu queria sair eu não posso, não devo.
Por falar em EAD, em universidade e essas coisas, eu comecei o ano tão motivada, eu estava disposta a encarar todo o ano letivo com bastante sede de aprendizado e curiosidade, determinada a cumprir todas as minhas metas, a fazer tudo dentro do prazo e com muita qualidade. Eu lembro que lia os textos e estudava o dia todo, eu me dediquei imensamente o quanto pude até que toda essa maré de azar e coisas ruins abordou o mundo de uma vez só e me deu um empurrãozinho mais para perto da borda do precipício, de onde eu já tinha me afastado um pouco. Se você me perguntar se eu me considero vitoriosa pelas coisas que já passei, eu diria que por um momento eu me considerei, mas agora é tão difícil diferenciar o que é uma vitória ou apenas uma maneira de sobreviver que eu já nem sei mais como te responder essa pergunta caso você a fizesse. Quer a minha total sinceridade? Eu dispensaria todo esse sentimento forçado de vitória por uma vida em que eu não tivesse que morrer todos os dias para continuar vivendo.
Eu me desejo paciência, se ainda me resta, coragem, inteligência, estratégia... e todas essas coisas que você precisa quando se é pobre, tem uma relação horrível com seu pai, quando ele e sua mãe tem um relacionamento morto e enterrado de tão tóxico, quando você se olha no espelho e quer outro corte de cabelo, outras roupas, outro visual e outra você, quando você tem alguns transtornos do século, quando você está passando por uma das crises sanitárias mais graves e o presidente é um babaca e simplesmente caga pra isso, quando você só quer amar a sua mulher e é barrada pelo preconceito dos outros, quando você precisa muito, muito e muito sair de casa mas você é um ser do sexo feminino e os homens são transeuntes escrotos e criminosos. Enfim, todas essas coisas que você diz para quem existe em 2020.
Eu falei tudo e ainda parece que não falei nada, não sei como ainda estou aqui e não sei como vou estar daqui a um tempo. É bom escrever um pouco às vezes, não muda tudo, mas muda muito, alivia, dá para extravasar e pensar no que eu sinto. Reler tudo isso um dia vai ser duro, vai ser constrangedor e angustiante. Até dizer que vou reler parece um tanto quanto esquisito quando só essa semana eu já devo ter pensado em escrever uma carta de suicídio umas cinco vezes, essa por pouco não foi uma. Eu não queria morrer, sabe? Eu realmente aprecio a vida e as coisas que surgiram das criações humanas, apesar de falharmos gravemente como espécie, eu realmente amo meus amigos e a minha mãe, eu realmente estaria disposta a querer mudar tudo em mim para ser melhor, corrigir meus erros, viver e ser feliz, se é que dá para ser, estaria disposta a estar aqui e aproveitar o máximo, arrancar a essência de cada dia e carregar comigo, como dizia no Sociedade dos Poetas Mortos: carpe diem. Mas tem dias que eu olho pra tudo isso, para meus amigos e minha mãe, as coisas que passei, esses textos, minhas coisas, e eu simplesmente não quero continuar, porque dói, não é fácil viver tanto tempo sofrendo e ainda querer viver, tem dias que você acorda e só quer viver de um jeito normal, sem sofrer. Eu queria isso, tudo isso que eu citei acima, eu queria muito viver sem sentir dor, para mim isso é o mais importante de todas essas coisas que disse, não é o dinheiro que eu queria ter, o trabalho mais prestigiado, os bens materiais, não, tudo isso talvez importe em algum momento, mas eu sinto que agora o que eu quero é paz, é existir nessa vida e gostar disso, é acordar e não sentir vontade de ficar na cama o resto do dia, é viver, de fato, e não agir como um robô do sistema capitalista em busca de ser a melhor, a primeira, a mais rica, a mais famosa, eu só quero ser fiel a mim mesma e deixar de me perder tanto e poder um dia me encontrar tranquila, tanto que eu não ligaria para nenhuma circunstância vigente, somente o fato de existir e estar bem já me seria mais do que o suficiente para não ter que voltar a escrever textos assim em momentos de desespero pois eu estaria tranquila e bem, eu quero me sentir feliz, aliviada e plena de mim mesma como eu jamais estive, e é só isso que importa pra mim.













