Estou mergulhada em um estudo sobre identidade.
Curiosamente, quanto mais eu pesquiso, mais percebo que essas perguntas também atravessam a minha própria vida.
Esse processo virou o primeiro texto de uma nova série no blog.
Se o seu cargo desaparecesse amanhã…
quem você ainda seria?
A maternidade de alguém não transforma a minha liberdade em ofensa
Cara, eu queria muito falar uma coisa aqui sobre esse pessoal que tem filho e fica enchendo o saco de quem não tem. Recentemente eu fui pro shopping e torrei meu dinheiro porque eu estava triste. E assim, eu tinha dinheiro, eu tava no meu direito. Só que chegou uma mulher completamente amarga olhando roupa infantil e começou a me perguntar minha idade, perguntou se eu não tinha vergonha na cara. E eu fiquei sem entender absolutamente nada. Eu literalmente olhei pra ela tentando processar como alguém aborda outra pessoa dessa forma.
Aí ela virou e falou: “curte a vida enquanto você não tem filho”. E sinceramente? Eu não entendi a situação. Desde quando eu ter filho ou não ter filho virou problema de desconhecido? Sinto muito se você tá triste aí com a sua escolha. Sinto muito se você precisa gastar um salário mínimo sustentando uma criança e pensando qual conta vai pagar primeiro no final do mês, mas eu não tenho absolutamente nada a ver com isso.
E eu venho reparando que isso tá acontecendo MUITO na internet também. As pessoas veem alguém feliz, viajando, comprando coisa pra si mesma, vivendo a própria vida e imediatamente aparece alguém nos comentários falando “ah, mas espera ter filho”, “quero ver quando tiver criança”, “depois que vira mãe muda”. Tá, mas quem falou que todo mundo quer essa vida? Porque parece que algumas pessoas ficam irritadas quando veem alguém vivendo uma realidade diferente da delas.
E sinceramente, eu nunca pensei que alguém teria coragem de me abordar desse jeito pessoalmente, mas aparentemente tem gente que realmente se incomoda com felicidade alheia. Porque se eu SAÍ DE UM SHOPPING ELITE COM TRÊS SACOLAS EM CADA MÃO NO MEU SALTO ALTO COMPRANDO ROUPA QUE ME FAZ BEM O PROBLEMA É MEU. Eu trabalhei pra isso, eu quis isso, foi uma escolha minha. Assim como ter filho também é escolha.
Só que parece que algumas pessoas querem transformar maternidade em certificado de superioridade moral, sendo que não é. Você não vira uma entidade evoluída porque reproduziu. E outra coisa que ninguém gosta de admitir: nem toda pessoa que tem filho tá feliz. Porque se estivesse feliz de verdade não sentiria necessidade de descontar frustração em desconhecido dentro de shopping.
E isso vale pra qualquer escolha da vida. Se você realmente tá feliz com a vida que construiu, você não olha pra vida do outro com ressentimento. Você só vive a sua. Porque no final das contas o problema nunca foi minhas sacolas. O problema é que tem gente que olha pra liberdade dos outros e começa a questionar as próprias escolhas.
Às vezes até eu me intrigo o quanto ainda gosto de humanos. Tem dias que bem menos que de costume. Dia longo, cansativo após uma noite mal dormida. Me vejo lendo coisas incríveis que humanos que nunca verei o rosto pensam, sentem_ vivem. A capacidade humana de transitar expressões. De compôr pensamentos. De criar com a dor, ou através dela, ou para além dela.