é, por aqui não há nada novo sob o sol. tenho andado inspirada além do costume. e aí cada vez mais, eu tenho me deparado comigo sentada numa mesa qualquer escrevendo em pedaços de papel que, no fim das contas, acabam se juntando a muitos outros. alguns amassados já, e que acreditei piamente ter forças para descartá-los. não descartei. eles continuam guardados aqui numa caixa que eu escondo na prateleira mais alta, bem lá no fundo, assim eu sei que ninguém vai mexer. o mais engraçado é que nesses relatos tem a história de muita gente. eu falo muito sobre as coisas que observo. me ponho a escrever sobre vidas que não são as minhas e tenho encontrar soluções pra problemas emocionais que não são meus. mas que poderiam ser. e que se fossem, eu já, teoricamente estaria preparada pra cada etapa. coitada de mim! vivo me enganando e parece que gosto de nunca me livrar dessa mania de querer fazer planos, mesmo sabendo que eles nunca sequer chegaram perto de acontecer. tudo na minha humilde vida sempre acaba se ajeitando em lugares impensáveis. lugares que mesmo que vasculhasse o mundo todo, jamais encontraria. e que se encontrasse, daria nada por eles. eu me enfiei inconscientemente em cada canto... cada lugar que jamais conheci e que jamais me imaginei. dizem que a gente paga a língua, não? e eu tô sempre pagando a minha. me acompanhando de companhias que nem nos meus sonhos poderia prever andar junto. e aí por fim, num momento distraído, tenho andado me deparando com essas pequenas surpresas de planos antigos que achei que já tinham sido descartados. mas eles voltam às vezes. alguns parecem ter regressado com uma vontade imensa de ficar desta vez. por aqui, nada novo sob o sol. mas é como se, paralelamente, tudo fosse diferente. os meus amores são todos outros e eu pareço de novo, uma menina insegura me apaixonando pela primeira vez. só que tem uma voz inédita berrando dentro de mim como uma experiência que ganhou vida. e aí volta e meia, ela me sopra algumas respostas quando eu tô muito perdida. se me ajuda ou atrapalha, isso é difícil saber, mas tenho tentado manter o equilíbrio. entre as minhas vontades insanas e o que ela diz. razoavelmente e pela primeira vez em tanto tempo, acho que algo tem finalmente funcionado. encontrei ainda esses dias um antigo amor daqueles que doíam. uma sensação estranha de descaso me fez perceber o quanto essa vida é sabida e se muda de um jeito independente, sem deixar recado. eu tenho aprendido que o que você jura amar hoje, pode ser algo que você detesta amanhã. mas esse não é o mais relevante dos contrários. complicado mesmo é entender como tanta importância vira um tanto faz. tanto valor se transformando em indiferença. assim, sem mais nem menos. só porque mudou e ponto final. é loucura também tentar entender como pode alguém passar por você por uma vida, sem nunca ter despertado um interesse fora do comum. e entender mais do que isso, como pode que um interesse assim tão repentino surja com uma força que você desconhece? mas por aqui, as coisas parecem ainda não ter mudado. nada novo sob o sol. dentro de mim é que a bagunça tem saído do controle e tá tudo meio deslocado. e ao mesmo, é como se tudo estivesse muito mais perto do lugar que tinha que estar. dá pra entender? sinto como se finalmente cada coisa estivesse pronta pra sair do seu lugar a qualquer momento. tipo borboletas saindo de seu casulo. o mundo aqui fora permanece sempre igual. mas as borboletas nunca saem de seus casulos como entraram.. e eu sinto que a cada dia minha vida de lagarta está com os dias contados. mas aqui fora da janela, tá tudo na mesma. até o sol parece queimar a pele com o mesmo calor. a luz parece ser a mesma e quando chove, os pingos acertam sempre o mesmo lugar por vez. parece dejavù. nada novo sob o sol.